
DevocionaisVem Andar Comigo50 de 175
A lei depois da libertação
Vem Andar Comigo, Semana 8 · Domingo: Eu sou o SENHOR que tirou você do Egito
Neste texto
- Eu sou o SENHOR que tirou você do Egito
- O texto
- Para entender o texto
- 1. A graça vem antes do mandamento
- 2. Um reino de sacerdotes e uma nação santa
- 3. Amar a Deus sem rivais
- 4. Amar o próximo em relações concretas
- 5. Descanso recebido e compartilhado
- 6. A lei cumprida no amor
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Por teu Espírito, obedeceremos
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: aliança, mandamentos, descanso e amor obediente
Leituras principais: Êxodo 19:1–6; 20:1–17
Leituras complementares: Deuteronômio 5:6–21; Mateus 5:17–48; 22:34–40; Romanos 8:1–4; 13:8–10; Hebreus 4:1–11
Verdade central: Deus não entrega a sua lei para transformar escravos em filhos, mas liberta um povo e ensina esse povo a viver em aliança, amando a Deus e ao próximo.
Eu sou o SENHOR que tirou você do Egito
Antes de dizer “não tenha”, “não faça” e “lembre-se”, Deus recorda o que já fez. O povo não está diante do Sinai para negociar a sua libertação. Israel foi carregado para fora do Egito e conduzido até Deus.
“Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos” (Êxodo 20:2, Bíblia Livre).
Israel passou gerações no Egito aprendendo que uma pessoa vale o que produz. O Sinai começa a desfazer essa lição. Antes de pedir qualquer coisa, Deus diz quem ele é e o que já fez.
A ordem é decisiva: graça, aliança e obediência. Quando essa ordem é invertida, a lei vira uma escada para alcançar um Deus distante. Quando ela é preservada, os mandamentos aparecem como o caminho de um povo resgatado.
O texto
Leitura principal: Êxodo 19:1–6; 20:1–17
Leitura: Êxodo 19:3–6; 20:1–11; 20:12–17
E Moisés subiu a Deus; e o SENHOR o chamou desde o monte, dizendo: Assim dirás à casa de Jacó, e anunciarás aos filhos de Israel:
Vós vistes o que fiz aos egípcios, e como vos tomei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim.
Agora pois, se deres ouvido à minha voz, e guardardes meu pacto, vós sereis meu especial tesouro sobre todos os povos; porque minha é toda a terra.
E vós sereis meu reino de sacerdotes, e gente santa. Estas são as palavras que dirás aos filhos de Israel.
(Êxodo 19:3-6, Bíblia Livre)
E falou Deus todas estas palavras, dizendo:
Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos.
Não terás deuses alheios diante de mim.
Não te farás imagem, nem nenhuma semelhança de coisa que esteja acima no céu, nem abaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra:
Não te inclinarás a elas, nem as honrarás; porque eu sou o SENHOR teu Deus, forte, zeloso, que visito a maldade dos pais sobre os filhos, sobre os terceiros e sobre os quartos, aos que me aborrecem,
E que faço misericórdia em milhares aos que me amam, e guardam meus mandamentos.
Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque não dará por inocente o SENHOR ao que tomar seu nome em vão.
Tu te lembrarás do dia do repouso, para santificá-lo:
Seis dias trabalharás, e farás toda tua obra;
Mas o sétimo dia será repouso para o SENHOR teu Deus: não faças nele obra alguma, tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua criada, nem teu animal, nem teu estrangeiro que está dentro de tuas portas:
Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e todas as coisas que neles há, e repousou no sétimo dia: portanto o SENHOR abençoou o dia do repouso e o santificou.
(Êxodo 20:1-11, Bíblia Livre)
Honra a teu pai e a tua mãe, para que teus dias se alarguem na terra que o SENHOR teu Deus te dá.
Não cometerás homicídio.
Não cometerás adultério.
Não furtarás.
Não falarás contra teu próximo falso testemunho.
Não cobiçarás a casa de teu próximo, não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem seu servo, nem sua criada, nem seu boi, nem seu asno, nem coisa alguma de teu próximo.
(Êxodo 20:12-17, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Êxodo 19 começa com uma data: “Ao mês terceiro da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, naquele dia vieram ao deserto de Sinai” (Êxodo 19:1, Bíblia Livre). Uma tradição antiga, registrada por Joseph Benson, comentarista metodista contemporâneo de Wesley, calcula que a lei foi dada “exatamente cinquenta dias depois da saída do Egito” e liga essa data à festa de Pentecostes, quando o Espírito foi derramado sobre os apóstolos. O texto não dá o dia exato.
O povo acampa “diante do monte” (Êxodo 19:2, Bíblia Livre), que a Bíblia chama tanto de Sinai quanto de Horebe. Antes dos mandamentos vem a proposta da aliança (Êxodo 19:3–6), e Êxodo 20 abre com um prólogo que recorda a libertação.
John Wesley lembra que a lei não começou no Sinai: ela estava escrita no coração humano desde a criação, e o pecado “quase a apagou do seu coração”. Depois, Deus “escolheu do meio da humanidade um povo peculiar, a quem deu um conhecimento mais perfeito da sua lei; e os pontos principais dela, porque eles eram lentos para entender, escreveu em duas tábuas de pedra” (Sermão 34, A origem, a natureza, as propriedades e o uso da lei, I.4–5).
Três palavras ajudam a ler o texto.
Em primeiro lugar, lei (em hebraico, torá). Deuteronômio chama os mandamentos de “as Dez Palavras” (Deuteronômio 4:13), e o conjunto é chamado de torá. Adam Clarke, o comentarista metodista, explica que a lei recebeu esse nome “porque contém o grande sistema de instrução espiritual, direção e orientação”. Torá quer dizer, antes de tudo, ensino.
Em segundo lugar, tesouro especial (segulá). Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, explicam que a palavra “não quer dizer propriedade em geral, mas propriedade valiosa, aquilo que se guarda à parte”.
Em terceiro lugar, santo (qadosh). Santo é o que pertence a Deus e é separado para ele, marcado pela pureza dele. Os comentaristas discutem a origem exata da palavra: alguns destacam a separação, e Keil e Delitzsch destacam a pureza, porque Deus “é chamado o Santo porque é inteiramente puro, a luz clara e sem mancha”.
1. A graça vem antes do mandamento
O prólogo dos Dez Mandamentos começa com a identidade e a ação do Libertador. O Senhor é o Deus que rompeu a servidão de Israel. A palavra dele não cai sobre pessoas sem história, mas se dirige a uma comunidade alcançada por promessa, Páscoa e travessia.
A mesma ordem já aparece no capítulo anterior, antes das tábuas: “Vós vistes o que fiz aos egípcios, e como vos tomei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim” (Êxodo 19:4, Bíblia Livre). Só depois vem o “se deres ouvido à minha voz” do versículo seguinte. Keil e Delitzsch resumem:
“A promessa vem antes da exigência, porque a graça de Deus sempre se antecipa às necessidades do homem e não exige antes de ter dado.”
(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Êxodo 19:3)
Isso não torna a obediência opcional, mas faz dela uma resposta. Israel não obedece para criar a aliança, mas porque Deus tomou esse povo para si. A graça que perdoa e liberta também ensina uma nova maneira de viver.
Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, chamou o prefácio “Eu sou o SENHOR teu Deus” de “o fundamento comum de toda religião e, por isso, também o fundamento da fé” (Debates privados, LXVIII.3). Dessa frase não se tira só “Portanto, amarás”, mas também “Portanto, crê em mim”. Antes de obedecer, Israel é chamado a confiar.
O mesmo padrão aparece no evangelho. Somos reconciliados com Deus pela graça, mediante a fé, e não como pagamento por bom comportamento: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8, Bíblia Livre). Essa fé, porém, não fica sozinha. Paulo continua dizendo que fomos “criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10, Bíblia Livre). O Espírito produz amor e conforma a vida à vontade de Deus.
John Wesley explicou essa ordem no sermão A lei estabelecida pela fé. As boas obras continuam “tão necessárias como sempre”, mas “não são anteriores à nossa aceitação, e sim consequência dela” (Sermão 35, II.4).
Legalismo é a tentativa de comprar a aceitação com desempenho. Antinomismo (do grego anti, “contra”, e nomos, “lei”) recebe o anúncio do perdão e rejeita o governo daquele que perdoa. A aliança recusa os dois: a obediência não é o preço da graça, mas fruto necessário de uma relação restaurada. Wesley observou que um erro costuma alimentar o outro: “de modo geral, são os fariseus que fazem os antinomianos” (Sermão 35, II.5).
2. Um reino de sacerdotes e uma nação santa
Em Êxodo 19, Deus lembra que carregou Israel como em asas de águia e trouxe esse povo para perto de si. Joseph Benson comenta que eles “foram trazidos não só a um estado de liberdade, mas à aliança e à comunhão com Deus”. A libertação não termina no deserto, mas na presença de Deus.
Em seguida, Deus chama o povo a guardar a aliança e dá a ele nomes novos: “vós sereis meu especial tesouro sobre todos os povos; porque minha é toda a terra. E vós sereis meu reino de sacerdotes, e gente santa” (Êxodo 19:5–6, Bíblia Livre).
Eleição não é licença para superioridade. Repare na razão que o próprio texto dá: “minha é toda a terra”. Keil e Delitzsch observam que essa razão “exclui desde o começo o exclusivismo que veria no SENHOR apenas um deus nacional”. Israel é separado para pertencer a Deus e para representar Deus entre as nações. A proximidade traz vocação e responsabilidade. Os mesmos comentaristas explicam o título de sacerdotes:
“Como o sacerdote é mediador entre Deus e o homem, assim Israel foi chamado para ser o portador do conhecimento e da salvação de Deus para as nações da terra.”
(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Êxodo 19:6)
Santidade também não quer dizer desprezo pelos demais povos. Santo é o que pertence a Deus, separado para ele e marcado pela pureza dele. Ser nação santa é ter uma identidade governada pelo caráter do Deus que liberta. Um povo resgatado da exploração não deve reconstruir o Egito nas suas casas, nos seus mercados ou nas suas instituições.
A Igreja recebe linguagem semelhante no Novo Testamento: “Mas vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2:9, Bíblia Livre). Isso não apaga Israel nem permite que cristãos reivindiquem com arrogância os privilégios dele. O texto convida uma comunidade de muitas nações a testemunhar, por palavra e vida, o governo santo e misericordioso de Deus.
3. Amar a Deus sem rivais
Os primeiros mandamentos protegem a relação com o Senhor: nenhum outro deus, nenhuma imagem usada como objeto de culto, nenhum uso vazio do nome divino. “Não terás deuses alheios diante de mim” (Êxodo 20:3, Bíblia Livre). O Deus que não pode ser reduzido a uma figura também não deve ser invocado para dar cobertura à mentira, à violência ou ao interesse próprio.
A idolatria não se limita a ajoelhar-se diante de uma estátua. Ela surge quando algo criado recebe a confiança, o temor ou a lealdade que pertencem ao Criador. Dinheiro, poder, aprovação, ideologia e até ministério podem ocupar o centro do coração. Martinho Lutero, no Catecismo Maior, explicou o primeiro mandamento com uma definição que ficou famosa:
“Deus quer dizer aquilo de que devemos esperar todo bem e em que devemos buscar refúgio em toda aflição. Ter um Deus, portanto, não é outra coisa senão confiar e crer nele de todo o coração. […] Aquilo em que você põe o coração e a confiança, digo eu, é propriamente o seu deus.”
(Martinho Lutero, Catecismo Maior, Primeiro Mandamento)
Joseph Benson diz o mesmo com outras palavras: “Tudo o que é amado, temido, buscado como prazer ou como apoio mais do que Deus, disso fazemos um deus.”
Isso não significa que toda arte religiosa seja automaticamente proibida. O próprio tabernáculo terá imagens ordenadas por Deus, como os dois querubins de ouro sobre o propiciatório (Êxodo 25:18). João Calvino, o reformador de Genebra, chamou de “fantasia tola” a ideia de que Moisés condena aqui “todas as esculturas e pinturas”, pois o mandamento tem outro alvo: “livrar a glória de Deus de todas as imaginações que tendem a corrompê-la” (Comentário sobre Êxodo, 20:4). O mandamento rejeita fabricar um deus controlável e prestar culto à criatura. Deus decide como será conhecido.
Jesus resume a lei no amor total a Deus e no amor ao próximo: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento” (Mateus 22:37, Bíblia Livre). Esse amor não é sentimento sem forma. Ele aprende fidelidade, reverência e verdade. A pergunta não é apenas “o que eu evito?”, mas “a quem pertence o meu coração?”.
4. Amar o próximo em relações concretas
Os mandamentos seguintes protegem a vida em comunidade: a honra entre as gerações, a vida humana, a fidelidade conjugal, os bens, a reputação e a verdade. A divisão entre mandamentos “verticais” e “horizontais” pode ajudar, mas não é absoluta. Ferir o próximo desonra a Deus; adorar a Deus transforma a maneira como tratamos o próximo. Benson põe as duas coisas lado a lado: “a justiça para com os homens é um ramo essencial da verdadeira religião: piedade e honestidade devem andar juntas”.
Honrar pai e mãe não significa chamar abuso de cuidado nem permanecer numa situação de violência. Pode exigir verdade, limites e ajuda segura. A autoridade familiar também está debaixo do juízo de Deus. Calvino, que insiste na honra devida aos pais, reconhece que seria “uma profanação vil abusar do nome de pai para encobrir pecados” (Comentário sobre Êxodo, 20:12).
O mandamento contra o assassinato protege a vida, e Jesus leva esse mandamento ao coração ao confrontar a ira, o desprezo e a reconciliação recusada: “qualquer um que se irar contra seu irmão será réu do julgamento” (Mateus 5:22, Bíblia Livre). O mandamento também tem um lado positivo:
“Deus não só nos proíbe de ser assassinos, mas também ordena que cada um procure fielmente defender a vida do próximo e mostrar na prática que ela é preciosa para ele.”
(João Calvino, Comentário sobre Êxodo, 20:13)
A fidelidade conjugal envolve corpo, promessa e dignidade. O mandamento contra o furto protege bens e trabalho, ao mesmo tempo que toda a lei condena a exploração e exige generosidade. O falso testemunho começa no tribunal, mas alcança boatos, manipulação e palavras que destroem reputações.
Esses mandamentos não permitem reduzir a justiça a uma moralidade privada. A própria lei de Israel protege pobres, estrangeiros, trabalhadores e endividados: “Em seu dia lhe darás seu salário, e não se porá o sol sem o dar a ele” (Deuteronômio 24:15, Bíblia Livre). Amar o próximo exige tanto integridade pessoal quanto relações sociais que não devorem o fraco.
5. Descanso recebido e compartilhado
O quarto mandamento manda cessar. Em Êxodo, o sábado se volta para a criação (Êxodo 20:11). Em Deuteronômio, ele recorda a libertação da escravidão: “E lembra-te que foste servo em terra do Egito” (Deuteronômio 5:15, Bíblia Livre). Filhos, servos, estrangeiros e animais também descansam. O chefe da casa não celebra um repouso sustentado pela exaustão dos outros. Adam Clarke liga as duas coisas:
“Para dar uma proporção justa de descanso ao homem e ao animal. No Egito eles não tinham descanso; os seus cruéis feitores os faziam trabalhar sem interrupção. Agora Deus tinha dado descanso e, como tinha usado de misericórdia com eles, ensina-os a usar de misericórdia com os seus servos.”
(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Deuteronômio 5:15)
Para Israel, o sábado é sinal da aliança mosaica: “é sinal entre mim e vós por vossas gerações, para que saibais que eu sou o SENHOR que vos santifico” (Êxodo 31:13, Bíblia Livre). Os cristãos divergem sobre a relação exata entre o sábado e o domingo. O Novo Testamento registra a reunião da Igreja “no primeiro dia da semana” (Atos 20:7, Bíblia Livre), celebra a ressurreição e adverte contra julgar pessoas por dias (Colossenses 2:16). Também preserva a sabedoria do culto, do descanso, da misericórdia e da confiança na provisão de Deus.
A tradição mostra essa diversidade. Armínio ensinava que, no mandamento, “isto é moral e perpétuo: que o sétimo dia, isto é, um dentre os sete, seja dedicado ao culto divino” (Debates privados, LXXVII.10). O dia concreto, porém, pôde passar para o Dia do Senhor, “porque a nova criação foi então completada em Cristo, nossa cabeça, pela sua ressurreição dentre os mortos” (LXXVII.11). Lutero põe a ênfase em outro lugar: “em si mesmo, nenhum dia é melhor do que outro”, mas, como nem todos podem se reunir diariamente, “é preciso separar pelo menos um dia na semana”. E esse dia existe também “para o povo simples, os servos e as servas […] para que por um dia possam se recolher, descansar e se refazer” (Catecismo Maior, Terceiro Mandamento). Agostinho, muito antes deles, via no sábado o único dos dez mandamentos dado como figura: “somente a parte que se refere ao sábado ficou escondida num preceito que servia de figura” (Do espírito e da letra, 27).
Paulo deixa espaço para essas diferenças entre irmãos (Romanos 14:5). Não precisamos resolver toda a discussão para receber o que essas tradições afirmam juntas: separar tempo para o culto, o descanso e a misericórdia é um dom de Deus, e não um peso.
Jesus não trata o sábado como inimigo. Ele confronta as interpretações que transformavam o dom em fardo: “O sábado foi feito por causa do ser humano, não o ser humano por causa do sábado” (Marcos 2:27, Bíblia Livre). E declara que “é lícito fazer o bem nos sábados” (Mateus 12:12, Bíblia Livre). Nele também encontramos o descanso mais profundo: deixamos de tentar justificar a nós mesmos e entramos, pela fé, na obra de Deus (Hebreus 4:10).
Uma prática cristã de descanso não cabe numa fórmula igual para todas as profissões e famílias. Ela precisa, porém, perguntar se a nossa agenda confessa que Deus sustenta o mundo ou se vivemos como se tudo dependesse de nós. Precisa ainda perguntar quem trabalha sem repouso para que mantenhamos o nosso conforto.
6. A lei cumprida no amor
O décimo mandamento alcança o desejo. Não basta evitar tomar por fora o que pertence ao outro; a lei expõe o coração que cobiça. Diante dela, não podemos sustentar a fantasia de uma inocência baseada só na aparência.
Lutero observou que esse mandamento não foi dado “para os que o mundo considera desonestos, mas justamente para os mais piedosos, que querem ser chamados de pessoas honestas e retas”, porque Deus “quer, acima de tudo, o coração puro” (Catecismo Maior, Nono e Décimo Mandamentos). Calvino tira daí a mesma conclusão de Paulo: ao condenar a cobiça, Deus mostrou que “não impôs obediência só às nossas mãos e aos nossos pés, mas também pôs freio na nossa mente, para que ela não deseje fazer o que é ilícito” (Comentário sobre Êxodo, 20:17).
Paulo afirma que “a Lei é santa, e o mandamento é santo, justo, e bom” (Romanos 7:12, Bíblia Livre), mas o pecado se aproveita do mandamento (Romanos 7:7–11). A lei revela e orienta, mas não consegue, por si mesma, criar o coração que exige. Paulo diz que ela “estava enferma pela carne” (Romanos 8:3, Bíblia Livre), e Wesley comenta nas suas notas sobre o Novo Testamento: “Se pudesse, Deus não precisaria ter enviado o seu próprio Filho.” Precisamos de perdão e de vida nova.
Jesus não veio descartar a vontade santa de Deus: “Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas sim para cumprir” (Mateus 5:17, Bíblia Livre). Ele cumpre a lei, carrega a condenação dela contra o pecado e revela a intenção dela numa vida de amor perfeito. Unidos a Cristo, recebemos o Espírito, que escreve a vontade de Deus no coração e torna possível uma obediência antes inimaginável. Era essa a promessa dos profetas: “Darei minha lei em seu interior, e a escreverei em seus corações” (Jeremias 31:33, Bíblia Livre). Agostinho viu nisso a diferença entre o Sinai e o Pentecostes: “Lá, o dedo de Deus agiu sobre tábuas de pedra; aqui, sobre o coração dos homens” (Do espírito e da letra, 29).
Na tradição wesleyana, santificação não quer dizer trocar a graça por esforço próprio, mas deixar a graça aprofundar o seu governo. O amor de Deus “está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:5, Bíblia Livre). Esse amor expulsa ídolos, disciplina desejos e procura o bem do próximo. Wesley admite que o crente terminou com a lei moral “como meio de obter a nossa justificação” (Sermão 34, IV.4), mas não com a lei como caminho de vida, e escreve:
“Por isso não posso dispensar a lei um só momento, assim como não posso dispensar Cristo, pois agora preciso dela tanto para me manter em Cristo quanto precisei dela para me levar a ele. […] Na verdade, um está sempre me enviando ao outro: a lei a Cristo, e Cristo à lei.”
(John Wesley, Sermão 34, A origem, a natureza, as propriedades e o uso da lei, IV.7)
Obedecemos porque somos amados e, obedecendo, aprendemos a amar com inteireza. No segundo sermão sobre a lei estabelecida pela fé, Wesley resume: “O amor é o fim de todos os mandamentos de Deus” (Sermão 36, II.1).
Para conversar com Deus
- Em que área você tenta merecer o que Deus oferece pela graça?
- Que pessoa ou coisa recebe de você uma lealdade que pertence ao Senhor?
- O seu descanso depende do trabalho excessivo de outra pessoa?
- Que mandamento revela em você não apenas uma ação, mas um desejo que precisa ser curado?
Oração de resposta
SENHOR que nos libertas, grava na nossa memória a tua graça antes de confrontar a nossa desobediência. Perdoa-nos por transformar a tua lei em instrumento de orgulho ou por usar a tua graça como desculpa para não mudar. Purifica os nossos amores, santifica as nossas palavras, ensina-nos a descansar e faz-nos proteger a vida, a fidelidade, os bens e a reputação do próximo. Pelo Espírito de Cristo, escreve a tua vontade no nosso coração, até que a obediência floresça em amor. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Por que Deus deu a sua lei a um povo que ele já tinha libertado?
Resposta para guardar
Deus deu a sua lei a Israel depois de libertar esse povo, para formar um povo de aliança que o amasse acima de tudo e amasse o próximo em relações concretas. A lei revela a vontade santa de Deus, denuncia o pecado e orienta a vida, mas não compra a salvação nem transforma sozinha o coração. Jesus cumpre a lei e, pela graça do Espírito, forma no seu povo a obediência que nasce da fé e se completa no amor.
Textos para conferir
Êxodo 19:3–6; 20:1–17; Mateus 5:17–20; 22:34–40; Romanos 3:19–31; 8:1–4; 13:8–10.
Oração
Deus libertador, ensina-nos a tua boa vontade e concede-nos, pelo teu Espírito, desejar e praticar aquilo que te agrada. Amém.
Hino para guardar no coração
Por teu Espírito, obedeceremos
Autor: Charles Wesley
Título editorial: “Sobre Êxodo 20:1”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 160
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Deus nos daria, para mostrar a sua grandeza,
leis impossíveis de praticar,
mandamentos que jamais poderíamos cumprir
mesmo com toda a ajuda da sua graça?
Não, Senhor justíssimo e cheio de graça:
conhecemos a tua vontade santificadora
e, pelo poder do teu Espírito, confiamos
que cumpriremos todos os teus mandamentos.
Para meditar
Charles Wesley não diminui a incapacidade do pecador separado da graça. Ele rejeita a ideia de que o propósito final de Deus seja ordenar uma santidade que a graça dele jamais possa produzir. A confiança do hino não está na força humana, mas no poder santificador do Espírito. “Cumprir” deve ser entendido à luz do amor: não como impecabilidade autônoma ou infalibilidade, mas como um coração inteiramente voltado para Deus e para o próximo, que continua crescendo na graça.
Pergunta: Onde você precisa deixar de dizer “é impossível mudar” e começar a responder à graça que já está chamando você?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, recorde: Antes de qualquer ordem, uma libertação
- Terça-feira, derrube os ídolos: Quando uma coisa boa exige o coração inteiro
- Quarta-feira, honre o nome: Não use Deus para sustentar a mentira
- Quinta-feira, descanse: Cessar também é um ato de fé
- Sexta-feira, proteja o próximo: A lei toma partido da vida e da verdade
- Sábado, deseje o bem: A fronteira que atravessa o coração
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Os Dez Mandamentos em Êxodo 20: Lei, graça e obediência
- Êxodo 19 e Êxodo 20 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Êxodo 20: Os Dez Mandamentos são regras ou amor de Deus?
- Dia de culto cristão: Sábado ou domingo? Bíblia e história
- Amor ao próximo: quando o mandamento sai do discurso
Obras citadas
- Agostinho. On the Spirit and the Letter (Do espírito e da letra), caps. 27 e 29. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, série 1, vol. 5, trad. Peter Holmes e Robert Ernest Wallis.
- Armínio, Jacó. Debates privados, LXVIII (“Sobre os preceitos do culto divino em geral”) e LXXVII (“Sobre o quarto mandamento do Decálogo”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Êxodo 19:1, 19:4, 20:3, 20:7 e 20:12.
- Calvino, João. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony, sobre Êxodo 20:4, 20:12, 20:13 e 20:17.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Êxodo 20:1 e Deuteronômio 5:15.
- Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament, Êxodo 19:3, 19:5 e 19:6.
- Lutero, Martinho. Catecismo Maior, trad. inglesa de F. Bente e W. H. T. Dau, 1921: Primeiro, Terceiro, Nono e Décimo Mandamentos.
- Wesley, John. Sermão 34, The Original, Nature, Property, and Use of the Law; Sermões 35 e 36, The Law Established through Faith, I e II.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Romanos 8:3.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
- Devocional
- Vem Andar Comigo
- Êxodo