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Um novo coração para uma nova aliança

Vem Andar Comigo, Semana 22 · Domingo: A promessa nasce no meio da ruptura

Diego Gonçalves23 min de leitura4.557 palavras

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Neste texto

Tema: aliança, perdão, novo nascimento, Espírito, obediência e santificação
Leituras principais: Jeremias 31:31–34; Ezequiel 36:22–28
Leituras complementares: Deuteronômio 6:4–9; 30:1–14; Salmo 51:1–17; Jeremias 32:36–41; Lucas 22:14–23; João 3:1–17; Romanos 8:1–17; 11:13–36; 2 Coríntios 3:1–18; Hebreus 8:6–13; 10:11–25
Verdade central: Deus promete perdoar, escrever a sua lei no coração, dar um espírito novo e habitar no seu povo pelo Espírito Santo. Em Cristo, a nova aliança cria comunhão e obediência de dentro para fora; a graça que justifica também regenera e santifica, e nos chama a uma resposta contínua de fé e amor.

A promessa nasce no meio da ruptura

Jeremias fala a pessoas que quebraram a aliança e enfrentam o exílio. Ezequiel se dirige a exilados que carregam vergonha, a perda da terra e a profanação do nome de Deus entre as nações. A promessa do coração novo não surge porque o povo finalmente se tornou capaz de salvar a si mesmo. Ela surge da fidelidade de Deus no meio do fracasso.

Ezequiel diz isso sem rodeios: “Eu não faço isso por vós, ó casa de Israel, mas sim por causa de meu santo nome, o qual vós profanastes entre as nações para onde fostes” (Ezequiel 36:22, Bíblia Livre). Joseph Benson, comentarista metodista e amigo de John Wesley, tira daí uma lição para todo crente: “Não podemos santificar o nome de Deus se ele não santificar o nosso coração, nem viver para a sua glória senão pela sua graça.”

Deus não descarta a sua história com Israel. Ele promete fazer uma nova aliança com Israel e Judá, restaurar o seu povo, santificar o seu nome e transformar pessoas que não conseguiam sustentar a fidelidade prometida. A esperança cristã começa recebendo essa história, e não se apropriando dela como se ela tivesse sido dirigida, desde o começo, a indivíduos sem povo, sem terra e sem memória.

O texto

Leitura: Jeremias 31:31–34; Ezequiel 36:22–28

Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que farei um novo pacto com a casa de Jacó e a casa de Judá;

Não como o pacto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito; pois invalidaram meu pacto, ainda que eu tenha me casado com eles, diz o SENHOR.

Mas este é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: Darei minha lei em seu interior, e a escreverei em seus corações; e eu serei o Deus deles, e eles serão meu povo.

E não ensinará mais ninguém a seu próximo, nem ninguém a seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR; pois todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior, diz o SENHOR; porque perdoarei a maldade deles, e nunca mais me lembrarei de seus pecados.

(Jeremias 31:31-34, Bíblia Livre)

Portanto dize à casa de Israel: Assim diz o Senhor DEUS: Eu não faço isso por vós, ó casa de Israel, mas sim por causa de meu santo nome, o qual vós profanastes entre as nações para onde fostes.

Pois santificarei meu grande nome, que foi profanado entre as nações, o qual vós profanastes no meio delas; e as nações saberão que eu sou o SENHOR, diz o Senhor DEUS, quando eu for santificado em vós, diante de olhos delas.

Porque eu vos tomarei das nações, e vos ajuntarei de todas as terras, e vos trarei para vossa própria terra.

Então aspergirei água pura sobre vós, e sereis purificados; eu vos purificarei de todas vossas imundícies, e de todos os vossos ídolos.

E vos darei um novo coração, e porei um novo espírito dentro de vós; e tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.

E porei meu Espírito dentro de vós, e farei com que andeis em meus estatutos, guardeis meus juízos, e os pratiqueis.

E habitareis na terra que dei a vossos pais; e vós sereis meu povo, e eu serei vosso Deus.

(Ezequiel 36:22-28, Bíblia Livre)

Para entender o texto

Jeremias profetizou em Jerusalém nos últimos anos do reino de Judá e viu a cidade cair diante da Babilônia, em 586 a.C. Keil e Delitzsch, comentaristas luteranos alemães do século XIX, mostram que as promessas de restauração dos capítulos 30 a 33 chegam aqui ao seu ponto mais alto: “A restauração de Israel chega ao seu acabamento no estabelecimento de uma nova aliança, segundo a qual a lei de Deus é escrita no coração do povo.”

Ezequiel era sacerdote e foi levado para a Babilônia com os primeiros exilados. Ele recebeu a palavra do Senhor “estando eu em meio dos exilados, junto ao rio Quebar” (Ezequiel 1:1, Bíblia Livre).

A carta aos Hebreus cita Jeremias 31:31–34 por inteiro (Hebreus 8:8–12) e recebe a promessa como cumprida em Cristo.

Três palavras ajudam a ler os dois textos.

Em primeiro lugar, aliança (em hebraico, berit). A Bíblia Livre, que usamos neste livro, traduz essa palavra por “pacto”: “farei um novo pacto com a casa de Jacó e a casa de Judá” (Jeremias 31:31, Bíblia Livre). Pacto e aliança são a mesma palavra, e neste livro dizemos “aliança”. Onde o hebraico diz “casa de Israel”, a Bíblia Livre põe “casa de Jacó”, o outro nome do patriarca e do povo. No grego do Novo Testamento, a palavra é diatheke, que algumas versões traduzem por “testamento”. Por isso, na ceia, Jesus diz na Bíblia Livre: “Este copo é o Novo Testamento em meu sangue” (Lucas 22:20, Bíblia Livre). O nome da segunda parte da nossa Bíblia vem dessa promessa. Keil e Delitzsch explicam: “Toda aliança que Deus conclui com os homens consiste, da parte de Deus, na garantia dos seus favores e na concessão real deles; e esses favores obrigam os homens a guardar os mandamentos postos sobre eles.” Os favores vêm antes, e os mandamentos respondem a eles.

Em segundo lugar, coração (leb). Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, comentando Ezequiel 36:26, lembra que “o coração geralmente é entendido como todas as afeições e paixões”, e o espírito novo do mesmo versículo renova também o entendimento e a vontade. A promessa alcança a pessoa inteira.

Em terceiro lugar, conhecer (yada). Em hebraico, conhecer alguém vai além de ter informação sobre ele. Keil e Delitzsch explicam Jeremias 31:34: “O conhecimento de Javé de que o profeta fala não é o conhecimento teórico que se transmite e se adquire por meio da instrução religiosa, mas antes o conhecimento da graça divina, baseado na experiência interior do coração.” Conhecer o Senhor é viver em relação com ele.

1. A antiga aliança não era o problema

Jeremias compara a nova aliança com aquela que Deus fez quando tomou Israel pela mão e o tirou do Egito: “Não como o pacto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito; pois invalidaram meu pacto, ainda que eu tenha me casado com eles, diz o SENHOR” (Jeremias 31:32, Bíblia Livre). A imagem é de libertação e cuidado, e até de casamento, e não de um sistema frio inventado para escravizar.

A Torá já ordenava amar a Deus de todo o coração, guardar a palavra no íntimo, circuncidar o coração e cuidar do pobre, do estrangeiro, da viúva e do órfão. O próprio Moisés anunciou que Deus faria no coração aquilo que a lei pedia: “E circuncidará o SENHOR teu Deus teu coração, e o coração de tua descendência, para que ames ao SENHOR teu Deus com todo teu coração e com toda tua alma” (Deuteronômio 30:6, Bíblia Livre). Os Salmos celebram a lei como dom. Os profetas chamam o povo de volta à graça daquele que o redimiu antes de dar a ele mandamentos.

O problema está na infidelidade humana. Hebreus repara nisso ao citar Jeremias: “Porque, enquanto Deus repreendia os do povo, disse-lhes: Eis que vêm dias, diz o Senhor” (Hebreus 8:8, Bíblia Livre). Israel quebrou a aliança, e a história cristã mostra que as pessoas das nações têm a mesma inclinação. Não há espaço para superioridade contra os judeus. Todos dependemos da misericórdia.

A nova aliança não transforma um Deus severo do Antigo Testamento num Deus amoroso do Novo. O mesmo Senhor santo e compassivo perdoa, julga, restaura e deseja um povo capaz de amá-lo. John Wesley, comentando Hebreus 8:8, diz que a nova aliança “é nova em muitos aspectos, embora não quanto à sua substância”. João Calvino, o reformador de Genebra, disse o mesmo ao comentar Jeremias:

“Quanto à nova aliança, ela não recebe esse nome por ser contrária à primeira aliança; pois Deus nunca é inconsistente consigo mesmo, nem diferente de si mesmo.”

(João Calvino, Comentário sobre Jeremias, 31:31–32)

2. Perdoarei e não me lembrarei

No centro da promessa está o perdão: “porque perdoarei a maldade deles, e nunca mais me lembrarei de seus pecados” (Jeremias 31:34, Bíblia Livre). Isso não quer dizer amnésia divina. Deus não perde conhecimento. Não lembrar é linguagem da aliança e do tribunal: ele não vai manter a culpa na conta do povo nem usar essa culpa para romper a comunhão restaurada. Benson explica, em poucas palavras, que Deus não vai mais se lembrar dos pecados “a saber, de modo a puni-los”.

Calvino acrescenta que essa promessa acompanha o crente pela vida inteira: “esse perdão é prometido a eles não só por um dia, mas até o fim da vida, de modo que têm uma reconciliação diária com Deus”.

Na antiga aliança, os sacrifícios e as declarações de perdão eram dons reais para a vida de Israel. A carta aos Hebreus ensina, porém, que eles não podiam aperfeiçoar definitivamente a consciência nem realizar a redenção de uma vez por todas. Eles apontavam para a obra completa de Cristo: “Pois com uma só oferta ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14, Bíblia Livre).

Na ceia, Jesus oferece o cálice como a nova aliança no seu sangue, “que é derramado por vós” (Lucas 22:20, Bíblia Livre). O perdão prometido tem um custo: o Filho se entrega por nós. A mesa não é prêmio para pessoas impecáveis, mas meio de graça para o povo que se arrepende, crê e recebe de novo os benefícios de Cristo.

Quando Deus não se lembra do nosso pecado contra nós, isso não apaga as consequências humanas nem torna desnecessária a reparação. Mas nos liberta da condenação e abre espaço para uma vida verdadeira, sem esconder o passado e sem viver acorrentados a ele: “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1, Bíblia Livre).

3. A lei é escrita no coração

Deus não promete abolir a sua vontade, mas colocar essa vontade dentro do povo e escrevê-la no seu coração: “Darei minha lei em seu interior, e a escreverei em seus corações; e eu serei o Deus deles, e eles serão meu povo” (Jeremias 31:33, Bíblia Livre). A nova aliança não é ausência de mandamentos, mas comunhão, na qual a vontade de Deus deixa de ser só uma palavra diante de nós e passa a formar desejos, consciência e ação.

Keil e Delitzsch explicam a diferença entre as duas alianças. Na antiga, a lei foi posta diante do povo para que ele a recebesse; na nova, ela é “posta dentro, implantada no coração e na alma pelo Espírito de Deus, e se torna o princípio animador da vida”. Paulo usa a mesma imagem quando diz que os cristãos de Corinto são uma carta “escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivente; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração” (2 Coríntios 3:3, Bíblia Livre).

Agostinho, bispo de Hipona no começo do século V, escreveu um livro inteiro sobre a frase de Paulo “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6, Bíblia Livre), e nele comenta Jeremias 31:

“Não há dúvida de que, sem a graça que ajuda, a lei é ‘a letra que mata’; mas, quando está presente o Espírito que dá vida, a lei faz amar como escrito por dentro aquilo que antes fazia temer como escrito por fora.”

(Agostinho, O espírito e a letra, 32)

Na Bíblia, o coração é o centro da pessoa: pensamento, vontade e afeto. A escrita interior não quer dizer seguir qualquer impulso espontâneo. Os desejos continuam precisando ser examinados pelas Escrituras, pela sabedoria da comunidade e pelo caráter de Cristo.

Também não quer dizer que um convertido se torne instantaneamente infalível. A graça realmente transforma, mas aprendemos obediência, desaprendemos hábitos e crescemos no amor. Uma lei interior sem fruto exterior seria autoengano. O Espírito forma pessoas que praticam justiça, misericórdia e fidelidade. Paulo resume: “O amor não faz mal ao próximo. Assim, o cumprimento da Lei é o amor” (Romanos 13:10, Bíblia Livre).

Charles Wesley vai chamar essa lei de “perfeita lei do amor”. A santidade não é conformidade mecânica nem liberdade para fazer o que se deseja, mas o amor de Deus e do próximo que se torna a disposição que governa o coração.

4. Um coração novo e o Espírito dentro de nós

Ezequiel promete água pura, coração novo, espírito novo e o Espírito de Deus habitando no povo: “E vos darei um novo coração, e porei um novo espírito dentro de vós; e tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” (Ezequiel 36:26, Bíblia Livre). O coração de pedra (resistente, insensível e incapaz de responder) dá lugar a um coração de carne, vivo e receptivo.

Essa purificação não nasce do mérito de Israel. Deus age por causa do seu santo nome e deixa claro que o povo deveria se envergonhar dos seus caminhos: “Não faço isto por vós, diz o Senhor DEUS, notório vos seja; envergonhai-vos e humilhai-vos de vossos caminhos, ó casa de Israel” (Ezequiel 36:32, Bíblia Livre). A graça é gratuita, mas não chama o pecado de bem. Benson explica que o Espírito faz o povo andar nos estatutos de Deus “com doçura e com poder, mas sem coação”. A obra é toda de Deus, e Deus não trata a pessoa como uma pedra que se arrasta.

Jesus fala de nascer da água e do Espírito: “Em verdade, em verdade te digo, que aquele que não nascer de água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (João 3:5, Bíblia Livre). Paulo descreve os que pertencem a Cristo como habitados pelo Espírito, adotados na família de Deus e capacitados a fazer morrer as obras do corpo: “O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16, Bíblia Livre). A nova aliança não oferece só informação nova, mas vida nova.

Justificação e regeneração podem ser distinguidas, mas não separadas. Deus perdoa e acolhe; ao mesmo tempo, o Espírito comunica vida nova. John Wesley, o pai do metodismo, abriu o sermão O novo nascimento com essa distinção:

“Se há doutrinas, em todo o âmbito do cristianismo, que possam ser chamadas propriamente de fundamentais, são sem dúvida estas duas: a doutrina da justificação e a do novo nascimento. A primeira se refere àquela grande obra que Deus faz por nós, perdoando os nossos pecados; a segunda, à grande obra que Deus faz em nós, renovando a nossa natureza caída. Na ordem do tempo, nenhuma delas vem antes da outra.”

(John Wesley, sermão O novo nascimento, 1)

Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, já tinha ligado as duas obras à promessa de Jeremias: na justificação e na santificação “está compreendida toda a promessa da nova aliança, na qual Deus promete que perdoará os pecados e escreverá as suas leis no coração dos que creem”.

A santificação é a obra contínua (e, na sua profundidade, purificadora) pela qual o amor santo governa cada vez mais a pessoa inteira.

5. Conhecerão o Senhor

Jeremias promete que todos, do menor ao maior, vão conhecer o Senhor: “pois todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior, diz o SENHOR” (Jeremias 31:34, Bíblia Livre). Conhecer, aqui, é relação de aliança, e não mera informação religiosa. Nenhum grupo privilegiado vai monopolizar o acesso a Deus. Wesley repara na ordem das palavras: “Nessa ordem o conhecimento salvador de Deus sempre procedeu e sempre procederá: não primeiro aos maiores e depois aos menores.”

Repare também no motivo que o versículo dá: todos conhecerão o Senhor “porque perdoarei a maldade deles” (Jeremias 31:34, Bíblia Livre). Wesley tira daí o método de Deus: “Primeiro o pecador é perdoado; depois conhece a Deus como gracioso e misericordioso; depois as leis de Deus são escritas no seu coração.”

Isso não elimina o ensino, o pastoreio ou a comunidade. O próprio Novo Testamento reconhece pastores e mestres (Efésios 4:11–12). Keil e Delitzsch dizem que esse conhecimento, “por ser uma experiência interior da graça, não exclui a instrução religiosa”. Benson vai na mesma direção:

“Isto não deve ser interpretado como se, debaixo do evangelho, não houvesse mais necessidade do ensino ministerial, pois o próprio Cristo enviou os seus apóstolos para pregar; nem como se não houvesse mais necessidade de os irmãos em Cristo ensinarem uns aos outros, pois o contrário é ordenado (Colossenses 3:16).”

(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Jeremias 31:34)

A promessa desfaz a dependência de uma elite que afirma conhecer Deus no lugar do povo, mas não transforma cada impressão individual em autoridade absoluta.

O Espírito nos une a um corpo no qual crianças e idosos, pobres e ricos, recém-chegados e maduros podem conhecer verdadeiramente o Senhor. Os líderes servem a esse conhecimento por meio da Palavra, dos sacramentos, da oração e do exemplo. Eles não controlam a consciência nem ocupam o lugar de Cristo.

O conhecimento de Deus produz semelhança com o seu caráter. Quem afirma conhecê-lo enquanto pratica opressão deliberada contradiz a aliança que confessa. Jeremias já tinha falado assim ao lembrar o rei Josias, que fez justiça aos pobres: “Ele julgou a causa do aflito e do necessitado, e então esteve bem. Por acaso conhecer a mim não é isto? diz o SENHOR” (Jeremias 22:16, Bíblia Livre).

6. Já recebemos a promessa e ainda esperamos a sua plenitude

Jesus inaugura a nova aliança, derrama o Espírito e reúne um povo de judeus e gentios. Os que pertencem às nações são enxertados pela fé na história da promessa. Paulo adverte esses ramos a não se tornarem arrogantes contra a raiz: “não te orgulhes de ser melhor que os ramos. Mesmo se te orgulhares, não és tu que sustentas a raiz, mas sim, a raiz a ti” (Romanos 11:18, Bíblia Livre). Clarke escreve aos gentios que leem esse versículo: “por meio daquele mesmo povo que você pode ser tentado a desprezar, todas as bênçãos e excelências de que você desfruta foram comunicadas a você”.

Paulo também mantém a esperança no propósito misericordioso de Deus para Israel, e faz isso citando justamente a nova aliança: “E este será o meu pacto com eles, quando eu tirar os seus pecados” (Romanos 11:27, Bíblia Livre).

Vivemos, contudo, antes da consumação. Ainda ensinamos, ainda lutamos contra o pecado, ainda vemos dureza e ainda aguardamos o conhecimento do Senhor enchendo a terra (Isaías 11:9). A nova aliança já é realidade em Cristo, mas a sua manifestação universal será completa no reino consumado. Wesley, comentando Romanos 8:24, diz: “A nossa salvação agora está só em esperança. Ainda não temos essa salvação plena.”

Essa tensão protege de duas ilusões. A primeira é o desespero: nada mudou, então a graça seria só linguagem. O Espírito realmente dá vida, testemunha a nossa adoção e produz fruto. A segunda é a presunção: já não preciso vigiar, aprender ou responder. A graça pode ser resistida, e o discípulo é chamado a permanecer em Cristo. Paulo diz isso aos mesmos gentios enxertados: “a bondade de Deus sobre ti, se continuares na bondade; de outra maneira, também tu serás cortado fora” (Romanos 11:22, Bíblia Livre).

Na tradição wesleyana e no movimento de santidade (Holiness), a inteira santificação não é condição para Deus justificar o pecador, mas promessa e chamado para quem já foi reconciliado: entregar-se por inteiro ao amor que purifica o coração. Wesley descreve essa esperança no sermão O caminho bíblico da salvação:

“É assim que esperamos a inteira santificação: a salvação plena de todos os nossos pecados […]. Mas o que é a perfeição? A palavra tem vários sentidos; aqui quer dizer amor perfeito. É o amor que exclui o pecado, o amor que enche o coração e ocupa toda a capacidade da alma.”

(John Wesley, sermão O caminho bíblico da salvação, I.9)

Para Wesley, esse dom também se recebe pela fé, e não pelo esforço: “exatamente como somos justificados pela fé, assim somos santificados pela fé”. E ele tinha o cuidado de dizer o que a perfeição cristã não é: “A perfeição cristã, portanto, não implica […] isenção nem da ignorância, nem do erro, nem das fraquezas, nem das tentações.” No mesmo sermão, A perfeição cristã, ele acrescenta: “Não há perfeição de graus, como se diz; nenhuma que não admita um crescimento contínuo.”

Armínio não tratou do assunto como Wesley. Ele chamou a santificação de “um ato gracioso de Deus, pelo qual ele purifica o homem que é pecador e, no entanto, crente […] e o enche do Espírito de conhecimento, justiça e santidade”, mas deixou aberta a pergunta sobre quando ela se completa: “Permitimos que esta questão seja objeto de discussão: a morte do corpo traz a perfeição e o acabamento da santificação?”

Mesmo um coração inteiro continua dependendo da graça, crescendo em maturidade, e pode se afastar se abandonar a fé.

Para conversar com Deus

  • Você trata a obediência como tentativa de comprar aceitação ou como fruto da comunhão com Deus?
  • Que pecado perdoado ainda funciona como identidade e condenação na sua memória?
  • Em que área a sua vontade exterior e os seus desejos interiores continuam divididos?
  • Como você pode receber a ação do Espírito por meio da Palavra, da ceia, da oração e da comunhão cristã?

Oração de resposta

Deus da aliança, a tua fidelidade é maior que a nossa ruptura. Obrigado porque, em Jesus, perdoas a nossa iniquidade e nos recebes à tua mesa. Escreve a tua vontade no nosso coração, remove a dureza e dá-nos a vida do Espírito. Guarda-nos da arrogância contra Israel, da confiança no mérito e da liberdade sem obediência. Faz-nos conhecer-te, do menor ao maior, e forma em nós o amor perfeito que cumpre a tua vontade. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

O que Deus nos concede na nova aliança?

Resposta para guardar

Na nova aliança, cumprida por Jesus, Deus perdoa os nossos pecados, nos recebe como seu povo, escreve a sua vontade no nosso coração e nos dá o Espírito Santo. O Espírito produz o novo nascimento, testemunha a nossa adoção e nos santifica para uma obediência de amor. Recebemos esses dons pela fé, participamos deles nos meios de graça e somos chamados a permanecer em Cristo.

Textos para conferir

Jeremias 31:31–34; Ezequiel 36:22–28; Lucas 22:19–20; João 3:1–17; Romanos 8:1–17; Hebreus 8:6–13; 10:11–25.

Oração

Espírito Santo, dá-me um coração vivo e escreve nele a perfeita lei do amor. Amém.

Hino para guardar no coração

Escreve tua lei em meu coração

Autor: Charles Wesley

Título original: “That Blessed Law of Thine”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 2 (1762), Hino 1232, sobre Jeremias 31:33

Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto

Essa tua lei bendita,
Jesus, concede a mim;
a lei do teu Espírito de vida divina,
escreve-a em meu coração.
Implanta-a profundamente em mim,
para que jamais seja removida:
a lei da liberdade do pecado,
a perfeita lei do amor.

Seja tua natureza minha lei,
tua santidade sem mancha;
e atrai, com doçura, a cada instante,
minha alma feliz para ti.
Permanece, Alma de minha alma,
tu que cumpriste a vontade por todos;
cumpre novamente em mim, Senhor,
a vontade de teu Pai celestial.

Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.

Para meditar

Charles Wesley não opõe lei e graça. Ele pede a Jesus que, pelo Espírito, grave a lei no coração. Essa lei é liberdade do domínio do pecado e amor perfeito. O verso “Seja tua natureza minha lei” não quer dizer que nos tornamos divinos, mas pede participação moral no caráter de Cristo: santidade, amor e obediência. Aquele que cumpriu a vontade do Pai por todos realiza essa vontade em nós, sem dispensar a nossa resposta.

Pergunta: Você deseja só saber a vontade de Deus ou também permitir que o Espírito transforme aquilo que você ama e procura?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Agostinho. A Treatise on the Spirit and the Letter (De spiritu et littera), 32, trad. Peter Holmes e Robert Ernest Wallis. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, série 1, vol. 5.
  • Armínio, Jacó. Disputas privadas, XLVIII (“Sobre a justificação”), I, e XLIX (“Sobre a santificação do homem”), IV e corolário. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Jeremias 31:34, Ezequiel 36:25 e 36:27 e Hebreus 8:12.
  • Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Jeremiah and the Lamentations, 31:31–32.
  • Calvino, João. Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Hebrews, 8:10.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Ezequiel 36:26 e Romanos 11:18.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, Jeremias 31:31–34.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Lucas 22:20, Romanos 8:24 e Hebreus 8:8, 8:11 e 8:12.
  • Wesley, John. Sermão 40, A perfeição cristã, I.9; Sermão 43, O caminho bíblico da salvação, I.9 e III.3; Sermão 45, O novo nascimento, 1.

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