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Abraão: chamado para abençoar
Vem Andar Comigo, Semana 5 · Domingo: Uma promessa maior que uma família
Neste texto
- Uma promessa maior que uma família
- O texto
- Para entender o texto
- 1. O Deus que chama primeiro
- 2. O nome recebido e a bênção repartida
- 3. Uma fé que pode perguntar
- 4. A aliança sustentada pela fidelidade de Deus
- 5. Esperar sem fabricar a promessa
- 6. Uma família marcada pela promessa
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Vem, bênção universal
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: promessa, aliança, fé e vocação para as nações
Leituras principais: Gênesis 12:1–9; 15:1–18; 17:1–8
Leituras complementares: Romanos 4:1–25; Gálatas 3:6–14, 26–29; Hebreus 11:8–16
Verdade central: Deus toma a iniciativa, chama Abraão a confiar na sua promessa e forma por meio dele um povo destinado a levar bênção a todas as famílias da terra.
Uma promessa maior que uma família
Depois do dilúvio, a violência reaparece. Em Babel, seres humanos procuram construir para si uma cidade e um nome (Gênesis 11:4). A dispersão das nações parece aprofundar a distância que começou no jardim.
O capítulo 11 termina com uma genealogia e uma frase seca sobre a mulher de Abrão: “Mas Sarai era estéril, e não tinha filho” (Gênesis 11:30, Bíblia Livre). A história da bênção começa num lugar onde não se vê futuro nenhum.
Então Deus fala a um homem chamado Abrão.
Não porque Abrão já tivesse mostrado ser um herói sem falhas. Não porque a família dele fosse capaz, por natureza, de curar o mundo. Deus chama, promete e envia. A história da redenção avança pela iniciativa da graça.
O texto
Leitura principal: Gênesis 12:1–9; 15:1–18; 17:1–8
Leitura: Gênesis 12:1–9; 15:1–6, 17–18; 17:1–8
O SENHOR disse a Abrão: “Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para terra que eu te mostrarei.
E farei de ti uma grande nação, e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção.
E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti todas as famílias da terra serão benditas.”
Assim se foi Abrão, como o SENHOR lhe dissera; e Ló foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos de idade quando saiu de Harã.
E Abrão tomou a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os seus pertences que haviam ganhado, e as pessoas que eles haviam adquirido em Harã, e saíram para ir à terra de Canaã; e à terra de Canaã chegaram.
E passou Abrão por aquela terra até o lugar de Siquém, até o carvalho de Moré; e os cananeus estavam então na terra.
E o SENHOR apareceu a Abrão, e lhe disse: À tua descendência darei esta terra. E ele edificou ali um altar ao SENHOR, que lhe havia aparecido.
E passou-se dali a um monte ao oriente de Betel, e estendeu sua tenda, tendo a Betel ao ocidente e Ai ao oriente: e edificou ali altar ao SENHOR e invocou o nome do SENHOR.
E moveu Abrão dali, caminhando e indo até o Sul.
(Gênesis 12:1-9, Bíblia Livre)
Depois destas coisas a palavra do SENHOR veio a Abrão em visão, dizendo: Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo; a tua recompensa será muito grande.
Abrão respondeu: Senhor DEUS, que me darás, sendo que não tenho filho, e o herdeiro da minha casa é Eliézer de Damasco?
Disse mais Abrão: Eis que não me deste descendência, e eis que meu herdeiro é um nascido em minha casa.
E logo a palavra do SENHOR veio a ele dizendo: Não esse não herdará de ti, mas sim o que sairá de tuas entranhas será o que de ti herdará.
E tirou-lhe fora, e disse: Olha agora aos céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E lhe disse: Assim será tua descendência.
E creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça.
E sucedeu que, depois de posto o sol, e já estando escuro, apareceu um fogo fumegando, e uma tocha de fogo que passou por entre os animais divididos.
Naquele dia fez o SENHOR um pacto com Abrão dizendo: À tua descendência darei esta terra desde o rio do Egito até o rio grande, o rio Eufrates;
(Gênesis 15:1-6,17-18, Bíblia Livre)
Quando Abrão tinha a idade de noventa e nove anos, o SENHOR lhe apareceu, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda diante de mim, e sê íntegro.
E constituirei meu pacto entre mim e ti, e te multiplicarei em grandíssima maneira.
Então Abrão prostrou-se com o rosto ao chão, e Deus falou com ele, dizendo:
Quanto a mim, este é o meu pacto contigo: Serás pai de multidão de nações:
E não se chamará mais teu nome Abrão, mas sim que será teu nome Abraão, porque te pus por pai de multidão de nações.
E te multiplicarei muito em grande maneira, e te porei em nações, e reis sairão de ti.
E estabelecerei meu pacto entre mim e ti, e tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para ser para ti por Deus, e à tua descendência depois de ti.
E darei a ti, e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em herança perpétua; e serei o Deus deles.
(Gênesis 17:1-8, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Abrão vinha de Ur dos caldeus, uma cidade antiga no sul da Mesopotâmia. A família de Terá, o pai dele, tinha saído de Ur rumo a Canaã e parado em Harã, no norte (Gênesis 11:31). Ur e Harã eram conhecidas pelo culto ao deus-lua, e a casa de Abrão não ficava fora desse mundo. Josué lembra isso ao povo séculos depois: “Vossos pais habitaram antigamente da outra parte do rio, a saber, Terá, pai de Abraão e de Naor; e serviam a deuses estranhos” (Josué 24:2, Bíblia Livre).
Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã (Gênesis 12:4) e noventa e nove quando Deus apareceu a ele em Gênesis 17. E a terra prometida não estava vazia: “os cananeus estavam então na terra” (Gênesis 12:6, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch, dois estudiosos luteranos alemães do século XIX, observam que, por isso, Abrão “só podia andar nela pela fé, como em terra estrangeira”.
Quatro palavras ajudam a ler esses capítulos.
Em primeiro lugar, bênção (em hebraico, berakah). Em Gênesis 12:2–3, a palavra e o verbo “abençoar” aparecem cinco vezes. Keil e Delitzsch resumem: Abrão “não só receberia bênção, mas seria uma bênção; não só seria abençoado por Deus, mas se tornaria uma bênção, ou o canal da bênção, para os outros”.
Em segundo lugar, o verbo crer (he’emin), da raiz aman, a mesma de “amém”. A raiz fala de firmeza: crer é apoiar-se em alguém que não falha. Keil e Delitzsch explicam que, em Gênesis 15:6, a fé “não é só assensus, mas também fiducia, confiança incondicional no Senhor e na sua palavra, mesmo onde o curso natural dos acontecimentos não oferece nenhuma base para esperança ou expectativa”. Assensus quer dizer concordar que uma coisa é verdadeira; fiducia quer dizer entregar-se a ela.
Em terceiro lugar, o verbo contar (chashab), em “contou-lhe por justiça”. É a linguagem de quem registra alguma coisa na conta de alguém. O Salmo 32 usa a ideia ao contrário: “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não considera a maldade” (Salmo 32:2, Bíblia Livre). Paulo junta os dois textos em Romanos 4: Deus deixa de contar o pecado e conta a justiça a favor de quem crê.
Em quarto lugar, aliança (berit). Em hebraico, “fazer uma aliança” se diz literalmente “cortar uma aliança”, por causa dos animais partidos no rito. Jeremias descreve esse costume quando fala dos que firmaram um pacto “dividindo em duas partes o bezerro e passando entre seus pedaços” (Jeremias 34:18, Bíblia Livre). Clarke explica o sentido do gesto: passar entre as partes divididas da vítima parece ter significado que cada um concordava, se quebrasse o compromisso, em se submeter ao castigo de ser cortado ao meio. Em Gênesis 15, como vamos ver, só um passa entre os pedaços.
1. O Deus que chama primeiro
“Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para terra que eu te mostrarei” (Gênesis 12:1, Bíblia Livre). A palavra alcança Abrão dentro dos laços que davam a ele proteção, herança e identidade. Deus chama Abrão para uma terra que ainda vai mostrar.
A fé começa aqui como resposta. Abrão não inventa um projeto religioso para depois pedir a bênção de Deus sobre ele. Deus se dirige a Abrão, abre um futuro e convida Abrão a caminhar.
Repare de onde ele foi tirado. Josué não esconde que a família de Abrão servia a outros deuses, e põe a iniciativa inteira do lado de Deus: “E eu tomei a vosso pai Abraão da outra parte do rio” (Josué 24:3, Bíblia Livre). Abrão não encontrou Deus no fim de uma busca; Deus encontrou Abrão no meio da idolatria.
Jacó Armínio, professor de teologia em Leiden no começo do século XVII, perguntou o que move Deus a chamar pecadores e respondeu:
“A causa antecedente, a única que move, é a graça, a misericórdia e o amor de Deus pela humanidade, pelo qual ele se inclina a socorrer a miséria dos pecadores e a dar a eles a bem-aventurança.”
(Jacó Armínio, Debates privados, XLII.3)
A graça vem antes: ninguém dá o primeiro passo em direção a Deus sem que Deus já tenha vindo ao seu encontro.
Isso não transforma toda mudança arriscada em chamado divino. Desejos pessoais podem usar linguagem espiritual para fugir da responsabilidade. O discernimento cristão ouve a Escritura, busca sabedoria na comunidade e examina se o caminho expressa amor e obediência. No caso de Abrão, porém, a palavra é clara: ele deve partir apoiado na promessa daquele que chama.
Hebreus recorda que ele obedeceu sem saber o destino completo: “Pela fé, Abraão, quando foi chamado para ir ao lugar que havia de receber por herança, obedeceu, e saiu sem que soubesse aonde ia” (Hebreus 11:8, Bíblia Livre). A fé conhece o caráter de Deus antes de conhecer todos os detalhes do caminho.
2. O nome recebido e a bênção repartida
Em Babel, as pessoas dizem: “façamo-nos um nome” (Gênesis 11:4, Bíblia Livre). A Abrão, Deus promete: “engrandecerei o teu nome” (Gênesis 12:2, Bíblia Livre). Uma reputação construída para vencer o medo da dispersão contrasta com um nome recebido para servir ao propósito de Deus. Wesley lembra que Abrão, ao deixar a sua terra, perdeu ali o seu nome, e põe na boca de Deus esta resposta: “Não te preocupes com isso (diz Deus), mas confia em mim, e eu te darei um nome maior do que jamais poderias ter tido ali.”
A bênção prometida inclui terra, descendência e proteção. O alvo dela, porém, vai além de Abrão: “em ti todas as famílias da terra serão benditas” (Gênesis 12:3, Bíblia Livre). Ele é abençoado para se tornar bênção.
Essa frase impede que a eleição seja confundida com favoritismo fechado. Deus escolhe uma família dentro da humanidade para servir à humanidade. Israel vai receber a aliança, a lei, o culto e a promessa; por meio dessa história virá o Messias. Paulo diz que a Escritura antecipou o evangelho ao anunciar a Abraão a bênção das nações: “E a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, prenunciou o Evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão abençoadas em ti” (Gálatas 3:8, Bíblia Livre).
Martinho Lutero, ao comentar esse versículo de Gálatas, explicou o que quer dizer abençoar as nações:
“Abençoar quer dizer simplesmente espalhar o conhecimento da salvação de Cristo. Esse é o ofício da Igreja do Novo Testamento, que distribui a bênção prometida pregando o evangelho, administrando os sacramentos, consolando os de coração quebrantado, em suma, repartindo os benefícios de Cristo.”
(Martinho Lutero, Comentário sobre Gálatas, 3:9)
A Igreja não substitui Israel, como se Deus tivesse descartado o seu primeiro propósito. Paulo faz a pergunta e responde sem rodeio: “por acaso Deus rejeitou seu povo? De maneira nenhuma!” (Romanos 11:1, Bíblia Livre). E acrescenta: “os dons gratuitos e o chamado da parte de Deus não podem ser cancelados” (Romanos 11:29, Bíblia Livre). Em Cristo, pessoas de todas as nações são acolhidas na bênção prometida e chamadas a testemunhar essa bênção. A eleição continua tendo forma missionária: receber para repartir, pertencer para servir.
3. Uma fé que pode perguntar
O tempo passa, e a promessa parece impossível para corpos que envelhecem. Abrão continua sem o filho esperado. Deus vem a ele e diz: “Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo; a tua recompensa será muito grande” (Gênesis 15:1, Bíblia Livre). Abrão responde com a sua perplexidade: “Senhor DEUS, que me darás, sendo que não tenho filho, e o herdeiro da minha casa é Eliézer de Damasco?” (Gênesis 15:2, Bíblia Livre).
A fé bíblica não é incapacidade de perguntar. Abrão fala de dentro da relação. A incredulidade se fecha contra Deus; a fé ferida leva a Deus a distância entre a promessa e a experiência. Matthew Henry, pastor inglês do começo do século XVIII, escreveu sobre essa cena: “Embora nunca devamos nos queixar de Deus, temos licença para nos queixar a ele e expor todas as nossas aflições.”
O Senhor leva Abrão para fora e aponta para as estrelas: “Olha agora aos céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E lhe disse: Assim será tua descendência” (Gênesis 15:5, Bíblia Livre). A promessa é repetida. E vem a frase que Paulo vai citar em Romanos e em Gálatas: “E creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça” (Gênesis 15:6, Bíblia Livre).
A fé de Abrão não é obra meritória que compra aceitação, mas confiança no Deus da promessa. Repare que o texto não diz que Abrão fez alguma coisa: ele creu, isto é, apoiou-se em Deus. Romanos 4 usa essa passagem para ensinar que a justificação é dom, e não salário: “ao que não tem obra, mas crê naquele que torna justo o ímpio, sua fé lhe é reputada como justiça” (Romanos 4:5, Bíblia Livre). Justificação quer dizer o ato pelo qual Deus perdoa o pecador e passa a tratar como justo quem confia em Cristo. Deus acolhe o ímpio que confia naquele que ressuscitou Jesus.
John Wesley pregou sobre esse texto de Romanos no sermão A justificação pela fé:
“No momento em que Deus dá a fé (pois ‘é dom de Deus’) ao ‘ímpio’ que ‘não trabalha’, essa ‘fé lhe é imputada como justiça’. Não que Deus (como já se observou) pense que ele é o que não é. Mas, assim como ‘fez Cristo pecado por nós’, isto é, tratou Cristo como pecador, aplicando a ele a punição dos nossos pecados, assim também nos considera justos desde o momento em que cremos nele.”
(John Wesley, sermão A justificação pela fé, IV.5)
No mesmo sermão, Wesley diz que quem vem a Deus pela fé chega como pecador, “sem trazer a Deus nada além da sua impiedade, sem alegar nada de seu, a não ser pecado e miséria”. A fé é como a mão vazia do mendigo: ela não paga o presente, só recebe. Armínio falou com a mesma precisão. Para ele, a fé é “a causa instrumental, ou o ato, pelo qual nos apropriamos de Cristo, que Deus nos apresenta como propiciação e como justiça”, e aquilo que constitui a justificação é o gracioso ato de Deus de levar em conta, “pelo qual ele nos imputa a justiça de Cristo” (Debates privados, XLVIII.7–8). Imputar quer dizer pôr na conta: Deus conta a nosso favor a justiça de Cristo, e não uma justiça nossa.
Nesse ponto, a Reforma fala a mesma língua. João Calvino, o reformador de Genebra, escreveu que Abrão foi justificado “porque abraçou Deus como seu Pai”, e que a fé justifica “não por seu próprio mérito, mas porque recebemos a graça que nos é oferecida nas promessas” (Comentário sobre Gênesis, 15:6).
A promessa feita a Abrão alcança também a nós, que cremos naquele que ressuscitou Jesus dos mortos (Romanos 4:23–24). Gálatas acrescenta que essa fé se abre para uma nova família, na qual os gentios recebem em Cristo a bênção de Abraão (Gálatas 3:14).
4. A aliança sustentada pela fidelidade de Deus
Abrão pergunta: “Senhor DEUS, com que saberei que a vou herdar?” (Gênesis 15:8, Bíblia Livre). Deus manda preparar animais partidos, segundo uma cerimônia de aliança do mundo antigo. Quando escurece, sinais da presença de Deus passam entre os pedaços: “apareceu um fogo fumegando, e uma tocha de fogo que passou por entre os animais divididos” (Gênesis 15:17, Bíblia Livre). Abrão não percorre o caminho.
Keil e Delitzsch explicam por que só Deus passa:
“Pela natureza dessa aliança, seguiu-se que só Deus passou entre os pedaços, numa representação simbólica de si mesmo, e não também Abrão. Pois, embora uma aliança sempre estabeleça uma relação recíproca entre dois indivíduos, na aliança que Deus firmou com um homem, o homem não estava em pé de igualdade com Deus; Deus estabeleceu a relação de comunhão pela sua promessa e pela sua graciosa condescendência para com o homem, que no começo era apenas alguém que recebia.”
(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Gênesis 15:17)
A cena comunica a solenidade da promessa e a iniciativa de Deus. Ele liga o seu nome à palavra dada. No hebraico, o verbo de Gênesis 15:18 está no passado: Deus diz, literalmente, “dei esta terra”. Wesley comenta: “isto é, dei a promessa, o título está selado e entregue, e não pode ser anulado”.
Não devemos transformar cada detalhe em descrição completa da cruz nem afirmar mais do que o texto permite. Dentro da história bíblica, porém, sabemos que a fidelidade da aliança vai alcançar a sua expressão decisiva em Jesus, por meio de quem as promessas encontram o seu “sim” (2 Coríntios 1:20).
Essa fidelidade não torna irrelevante a obediência de Abrão. O Deus que promete também chama a caminhar na sua presença: “anda diante de mim, e sê íntegro” (Gênesis 17:1, Bíblia Livre). A graça não elimina a resposta, mas cria e sustenta a possibilidade da resposta. Adam Clarke lembra que a aliança continua aberta e que “cada alma humana precisa ratificar a aliança por si mesma; e ninguém faz isso a não ser aquele que, consciente da sua culpa, aceita o sacrifício que Deus providenciou para ele”. Repare que a resposta pedida é o gesto de quem recebe: aceitar o sacrifício que o próprio Deus providenciou.
5. Esperar sem fabricar a promessa
Abraão e Sara esperam muitos anos. Durante esse tempo, a fé não se move numa linha de triunfo constante. Há medo no Egito, silêncio prolongado, tentativas humanas de garantir a descendência e sofrimento envolvendo Agar.
As falhas não devem ser suavizadas. No Egito, o homem da fé pede à mulher: “dize que és minha irmã, para que eu vá bem por tua causa” (Gênesis 12:13, Bíblia Livre). Wesley comenta com tristeza: “A graça em que Abrão mais se destacava era a fé, e no entanto assim caiu por incredulidade e desconfiança da Providência divina, mesmo depois de Deus lhe ter aparecido duas vezes.” Anos depois, Sarai propõe a Abrão que tenha um filho com a serva egípcia, e ele aceita (Gênesis 16:1–2). O plano termina em desprezo, ciúme e fuga.
Sara é parte indispensável da promessa, e Agar não é instrumento descartável. Deus vê a mulher afligida no deserto, e ela dá ao Senhor um nome: “Tu és o Deus da vista; porque disse: Não vi também aqui ao que me vê?” (Gênesis 16:13, Bíblia Livre). A história da graça não elogia os pecados de quem participa dela. Ela mostra um Deus fiel que trabalha com pessoas reais e chama essas pessoas à responsabilidade.
Esperar não quer dizer ficar parado, mas obedecer ao que já foi revelado sem tentar produzir por manipulação aquilo que só Deus pode cumprir. Paulo diz que Abraão “teve plena certeza de que aquele que havia prometido também era poderoso para cumprir” (Romanos 4:21, Bíblia Livre). Às vezes, a nossa pressa fere pessoas enquanto tenta defender uma promessa de Deus.
6. Uma família marcada pela promessa
Em Gênesis 17, Deus aparece a Abrão com um nome: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso” (Gênesis 17:1, Bíblia Livre), em hebraico El Shaddai. Os comentaristas não concordam sobre a origem da palavra Shaddai. Keil e Delitzsch ligam o nome a um verbo que quer dizer “ser forte” e veem nele o Deus da aliança que tem poder para cumprir as promessas “mesmo quando a ordem da natureza não oferecia nenhuma perspectiva de cumprimento”. Adam Clarke prefere outra raiz, ligada a “derramar”, e lê o nome assim: “Eu sou aquele Deus que derrama bênçãos e que dá com riqueza, com abundância, continuamente.” Wesley registra ainda outras explicações. A raiz continua discutida; o sentido do capítulo, porém, é claro: o Deus da aliança não depende do que a natureza ainda consegue produzir.
Por isso Deus muda Abrão para Abraão e Sarai para Sara. Abrão quer dizer “pai elevado”; Abraão soa como “pai de uma multidão”: “porque te pus por pai de multidão de nações” (Gênesis 17:5, Bíblia Livre). O futuro não vai ficar preso ao que corpos envelhecidos conseguem produzir. Deus reafirma que Sara vai dar à luz e estabelece a circuncisão como sinal da aliança para os homens da casa.
O sinal não é a promessa em si nem substitui a fé. Lutero chama a atenção para a ordem dos capítulos: só depois de Abraão ter sido considerado justo por causa da sua fé é que as Escrituras mencionam a circuncisão pela primeira vez. Paulo tira daí a sua conclusão: Abraão “recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé quando ainda era incircunciso, para que fosse pai de todos os que creem” (Romanos 4:11, Bíblia Livre).
Mais tarde, os profetas vão falar da necessidade de um coração circuncidado: “Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios de vosso coração” (Jeremias 4:4, Bíblia Livre). Paulo vai insistir que, em Cristo, o pertencimento ao povo de Deus não depende de marcas étnicas impostas aos gentios, mas da fé que atua pelo amor: “em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé, que opera por meio do amor” (Gálatas 5:6, Bíblia Livre).
A família prometida é maior que sangue, fronteira ou mérito. Em Jesus, descendente de Abraão, a bênção alcança as nações. Pessoas antes distantes recebem o Espírito e aprendem a chamar Deus de Pai: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Aba, Pai!’” (Gálatas 4:6, Bíblia Livre). Armínio ligou esse clamor à justificação:
“O selo externo da justificação é o batismo; o selo interno é o Espírito Santo, que testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus e clama em nosso coração: Aba, Pai!”
(Jacó Armínio, Debates privados, XLVIII.11)
Somos incluídos nessa história para que a graça não pare em nós.
Para conversar com Deus
- Que segurança você tem dificuldade de submeter ao chamado de Deus?
- A sua espera tem produzido confiança ou tentativas de controlar pessoas e resultados?
- De que maneira a bênção que você recebeu pode alcançar alguém de fora do seu círculo?
- Você trata a fé como mérito pessoal ou como a mão vazia que recebe a promessa?
Oração de resposta
Deus da promessa, tu nos chamas antes que possamos apresentar qualquer mérito. Perdoa-nos quando confundimos a tua bênção com privilégio, fabricamos resultados pela ansiedade ou ferimos pessoas em nome dos nossos planos. Dá-nos a fé que escuta, pergunta, espera e obedece. Em Cristo, inclui-nos na bênção de Abraão e faz da nossa vida um caminho de graça para famílias, povos e pessoas que ainda consideramos distantes. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Por que Deus chamou Abraão, e como participamos dessa promessa?
Resposta para guardar
Deus chamou Abraão por graça, prometeu formar por meio dele um povo e declarou que todas as famílias da terra seriam abençoadas. Abraão recebeu a promessa pela fé, e a sua confiança foi contada a ele como justiça. A promessa alcança o seu cumprimento em Jesus Cristo, descendente de Abraão, que justifica os que creem e reúne uma família de todas as nações. Somos abençoados nele para amar, servir e testemunhar entre os povos.
Textos para conferir
Gênesis 12:1–3; 15:1–6; 17:1–8; Romanos 4:1–25; Gálatas 3:6–14, 26–29.
Oração
Deus fiel, firma-nos na tua promessa e livra-nos da confiança nos nossos méritos. Faz-nos obedientes ao teu chamado e generosos com a bênção que recebemos em Cristo. Amém.
Hino para guardar no coração
Vem, bênção universal
Autor: Charles Wesley
Título editorial: “Sobre Gênesis 12:3”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 50
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Vem, bênção universal,
descendente de Abraão longamente esperado.
Espalha paz perfeita e alegria sem fim
entre as nações que resgataste.
Remove de cada coração
o orgulho cruel e as paixões violentas.
Abençoa-nos com a tua plena salvação;
abençoa-nos com o teu amor celestial.
Feliz é a pessoa perdoada;
permite que todo pecador experimente isso.
Que encontre em ti o céu já presente
e deseje ainda a plenitude da tua graça.
Que todos sejam criados de novo,
recuperem aqui a tua imagem
e, enfim, sejam conduzidos ao paraíso
para viver na tua presença gloriosa.
O Hymnary liga este texto a uma só melodia, LUX EOI, de Arthur Sullivan, a mesma de “Alleluia! Alleluia! Hearts to Heaven and Voices Raise”. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.
Para meditar
Charles Wesley lê a promessa a Abraão a partir de Cristo e do alcance universal da graça. A bênção não termina no perdão individual: ela renova o coração, derrota o orgulho e a violência e forma um povo voltado para todas as nações.
Pergunta: Quem precisa encontrar algum sinal da bênção de Cristo por meio da sua vida nesta semana?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, escute: Uma voz que desloca as nossas seguranças
- Terça-feira, compreenda: Fé contada como justiça
- Quarta-feira, espere: Quando a promessa demora
- Quinta-feira, abençoe: Um rio, e não um reservatório fechado
- Sexta-feira, caminhe: Eleição como vocação
- Sábado, recorde: O Deus que permanece fiel
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Abraão, a promessa e a justiça pela fé em Gênesis 12 e 15
- Gênesis 12, Gênesis 15 e Gênesis 17 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Teologia Sistemática, Capítulo 34: A justificação pela fé
- Gênesis 17: A aliança, o sinal e o riso de Abraão
- Quem foi Abraão? O chamado no escuro e a fé que justifica
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Debates privados, XLII (“Sobre a vocação”) e XLVIII (“Sobre a justificação”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
- Calvino, João. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis, 15:6.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Gênesis 15:10, 15:19 e 17:1; Hebreus 11:9.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Gênesis 15:2–6.
- Keil, Carl Friedrich, e Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament, Gênesis 12:1–3, 12:6, 15:6, 15:17 e 17:1.
- Lutero, Martinho. Commentary on the Epistle to the Galatians, trad. Theodore Graebner, Gálatas 3:8 e 3:9.
- Wesley, John. Sermão 5, Justification by Faith, IV.5 e IV.8.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Gênesis 12:2, 12:13, 15:18 e 17:1.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
- Devocional
- Vem Andar Comigo
- Gênesis