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Daniel: um reino que não será destruído

Vem Andar Comigo, Semana 23 · Domingo: Quando a fidelidade precisa aprender uma nova língua

Diego Gonçalves25 min de leitura5.078 palavras

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Neste texto

Tema: exílio, identidade, santidade pública, coragem, oração e esperança
Leituras principais: Daniel 1; 3; 6; 7
Leituras complementares: Daniel 2:1–49; Salmo 2; Jeremias 29:1–14; Mateus 4:8–11; 6:9–13; 26:57–68; Marcos 10:35–45; Atos 4:13–31; Romanos 13:1–7; Apocalipse 5:6–14; 13:1–18
Verdade central: Deus governa acima dos impérios e preserva testemunhas fiéis no exílio. O seu reino, recebido pelo Filho do Homem, não depende de violência, propaganda ou grandeza política. Ele forma pessoas que servem com excelência, recusam a idolatria, perseveram na oração e esperam a vitória final de Cristo.

Quando a fidelidade precisa aprender uma nova língua

Daniel chega à Babilônia na primeira fase das deportações de Judá, antes da destruição final de Jerusalém. Ele e outros jovens são arrancados de casa, selecionados para o serviço real e educados na língua e na literatura dos caldeus. O império deseja aproveitar os talentos deles e reorganizar a identidade deles.

O livro não descreve um jovem que foge de todo contato com a cultura. Daniel aprende, trabalha e serve dentro de uma administração pagã. Também não descreve uma assimilação completa. Há um ponto em que ele decide não se contaminar. A santidade dele combina presença, discernimento, respeito e limites.

Jeremias escreveu aos exilados: “buscai a paz da cidade para onde eu vos levei, e orai por ela ao SENHOR” (Jeremias 29:7, Bíblia Livre). Daniel e os seus amigos buscam o bem da Babilônia sem entregar a ela o coração.

O texto

Leitura principal: Daniel 1; 3; 6; 7

Leitura: Daniel 1:3–8, 17; 3:16–18, 24–28; 6:3–10; 7:9–14, 27

E o rei disse a Aspenaz, chefe de seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, da família real, e dos príncipes,

Rapazes em quem não houvesse defeito físico algum, de boa aparência, entendidos em toda sabedoria, sábios em conhecimento, de boa inteligência, e que tivessem habilidade em prestar assistência no palácio do rei; e que os ensinassem as letras e a língua dos caldeus.

E o rei lhes determinou uma porção diária de alimento, da comida do rei, e do vinho que bebia; e que assim fossem tratados por três anos, para que ao fim eles estivessem diante do rei.

E foram entre eles, dos filhos de Judá, Daniel, Ananias, Misael e Azarias,

Aos quais o chefe dos eunucos pôs outros nomes: a Daniel, Beltessazar; a Ananias, Sadraque; a Misael, Mesaque; e a Azarias, Abednego.

E Daniel propôs em seu coração de não se contaminar com a porção diária de alimento da comida do rei, nem no vinho que ele bebia; então pediu ao chefe dos eunucos para não se contaminar.

Quanto a estes quatro rapazes, Deus lhes deu conhecimento e inteligência em todas as letras e sabedoria; Daniel, porém, teve entendimento em toda visão e sonhos.

(Daniel 1:3-8,17, Bíblia Livre)

Sadraque, Mesaque, e Abednego responderam ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de responder sobre este negócio.

Eis que nosso Deus a quem servimos pode nos livrar da fornalha de fogo ardente; e ele nos livrará de tua mão, ó rei.

E se não, sabe tu, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua que ergueste.

Então o rei Nabucodonosor se espantou, e se levantou depressa, então perguntou aos seus conselheiros: Não lançamos três homens atados dentro do fogo? Eles responderam ao rei: É verdade, ó rei.

Ele disse mais: Eis que vejo quatro homens soltos andando no meio do fogo, e não há neles dano algum; e a aparência do quarto é semelhante a um filho de deuses.

Então Nabucodonosor se aproximou da porta da fornalha de fogo ardente, e falou: Sadraque, Mesaque, e Abednego, servos do Deus altíssimo, saí e vinde! Então Sadraque, Mesaque, e Abednego saíram do meio do fogo.

E juntaram-se os sátrapas, os prefeitos, os governadores, e os conselheiros do rei, para olharem estes homens, como o fogo não havia causado efeito algum em seus corpos, nem o cabelo de suas cabeças fora queimado, nem suas capas se mudaram, nem cheiro de fogo passara por eles.

Nabucodonosor falou: Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque, e Abednego, que enviou seu anjo, e livrou seus servos, que confiaram nele; pois violaram o mandamento do rei, e entregaram seus corpos para que não servissem nem adorassem algum outro deus, a não ser o seu Deus.

(Daniel 3:16-18,24-28, Bíblia Livre)

Então o mesmo Daniel era superior a estes governadores e supervisores, porque nele havia um espírito extraordinário; por isso o rei pensava em constituí-lo sobre todo o reino.

Então os supervisores e governadores procuravam achar alguma acusação contra Daniel a respeito do reino; mas não conseguiram achar acusação ou falta alguma, porque ele era fiel, e nenhum erro nem falta foi achada nele.

Então esses homens disseram: Não acharemos acusação alguma contra este Daniel, a não ser se a acharmos contra ele na lei de seu Deus.

Então esses supervisores e governadores foram juntos ao rei, e lhe disseram assim: Ó rei Dario, vive para sempre!

Todos os supervisores do reino, os prefeitos, governadores, conselheiros e capitães, concordaram em sugerir a promulgação de um decreto real, e estabelecer um estatuto forte, que qualquer um que, no intervalo de trinta dias, fizer alguma petição a qualquer deus ou humano, a não ser a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões.

Agora, ó rei, confirma o decreto, e assina a escritura, para que não se mude, conforme à lei dos medos e dos persas, que não se pode revogar.

Por esta causa o rei Dario assinou o decreto por escrito.

E Daniel, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa, e com as janelas de seu quarto abertas, voltadas para Jerusalém, punha-se de joelhos três vezes ao dia, e orava, e confessava diante de seu Deus, assim como costumava fazer antes.

(Daniel 6:3-10, Bíblia Livre)

Eu estive olhando até que foram postos tronos, e um Ancião de dias se sentou; sua veste era branca como a neve, e o cabelo de sua cabeça como lã limpa; seu trono era chamas de fogo, e suas rodas fogo ardente.

Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares lhe serviam, e milhões de milhões estavam de pé diante dele: o julgamento começou, e os livros foram abertos.

Então eu estive olhando por causa da voz das palavras arrogantes que o chifre falava; estive olhando, até que mataram o animal, e seu corpo foi destruído, e entregue para ser queimado no fogo.

E quanto aos outros animais, seu domínio foi tirado; porém lhes fora dada prolongação de vida até um certo tempo.

Eu estava vendo em minhas visões de noite, e eis que estava vindo nas nuvens do céu como um filho do homem; e ele chegou até o Ancião de dias, e o fizeram chegar diante dele.

E foi lhe dado domínio, honra, e reino, de modo que todos os povos, nações e línguas lhe serviram; seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e seu reino não será destruído.

E o reino, o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu, será dado ao povo dos santos do Altíssimo; seu reino será um reino eterno, e todos os domínios lhe servirão e obedecerão.

(Daniel 7:9-14,27, Bíblia Livre)

Para entender o texto

Daniel foi levado ainda jovem, por volta de 605 a.C., quando Nabucodonosor tomou Jerusalém pela primeira vez, no tempo do rei Jeoaquim. Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, conta que ele e os três companheiros, “sendo jovens promissores, foram escolhidos para servir na corte do rei”, e que Daniel logo se destacou ali “tanto pela sua sabedoria e inteligência sólida quanto pela sua piedade profunda e constante”.

O livro tem uma particularidade: é escrito em duas línguas. O hebraico vai de Daniel 1:1 a 2:4a e volta nos capítulos 8 a 12. No meio, de Daniel 2:4b a 7:28, o texto está em aramaico, a língua internacional do império. Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, veem um sentido nessa divisão: a parte que trata do poder do mundo está em aramaico, “a língua do poder do mundo”; a que trata do reino de Deus, “assim como o primeiro capítulo”, está em hebraico, “a língua do povo de Deus”.

Três palavras aramaicas ajudam a ler os capítulos desta semana.

Em primeiro lugar, o verbo servir (em aramaico, pelah). Keil e Delitzsch observam que, no aramaico da Bíblia, ele é usado “somente para o serviço e a homenagem devidos a Deus”. É o verbo que Nabucodonosor exige para os seus deuses e que os três jovens recusam: “não serviremos a teus deuses” (Daniel 3:18, Bíblia Livre). E é o mesmo verbo de Daniel 7:14, onde a Bíblia Livre traduz “lhe serviram”; o aramaico indica o que vem com o reino recebido: todos os povos vão servir ao Filho do Homem. O culto que o império reclama pertence ao Rei que Deus constituiu.

Em segundo lugar, a expressão como um filho de homem (kebar enash: ke, “como”, e bar enash, “filho de homem”). Keil e Delitzsch explicam: “Quem vem não é nomeado, mas apenas descrito pela sua aparência, como um filho de homem, isto é, semelhante a um homem”, e não a um animal.

Em terceiro lugar, a expressão santos do Altíssimo (qaddishe elyonin, Daniel 7:18, 22, 27). Joseph Benson, comentarista metodista e amigo de John Wesley, nota que a palavra aramaica traduzida por “Altíssimo” é um plural, e que “literalmente quer dizer os altos”. Os santos são o povo que pertence ao Deus altíssimo.

1. O império tenta nomear aquilo que não criou

Daniel, Hananias, Misael e Azarias recebem nomes babilônicos (Daniel 1:7). Os novos nomes ligam a vida deles à religião da corte, mas o narrador continua lembrando quem eles são diante do Deus de Israel.

Clarke explica que essa troca de nomes “era um sinal de domínio e de autoridade”, porque os senhores costumavam dar nomes novos aos seus escravos. Daniel quer dizer, segundo ele, “Deus é o meu juiz”. Benson observa que “todos os nomes deles tinham alguma ligação com o nome de Jeová, o Deus que adoravam”, e que os nomes novos lembravam os deuses dos caldeus. A língua seguia o mesmo plano. João Calvino, o reformador de Genebra, viu no ensino da língua caldeia o desejo do rei de “separá-los aos poucos da própria nação” e de levá-los a “esquecer o seu nascimento judeu”.

Um nome imposto pode exercer poder social sem conseguir determinar a identidade mais profunda. Exílio, migração, racismo, deficiência, desemprego e fracasso público podem produzir rótulos que parecem definitivos. A aliança de Deus diz que a nossa vida não pertence à voz que nos reduz: “Não temas, porque eu te resgatei; chamei a ti por teu nome; tu és meu” (Isaías 43:1, Bíblia Livre).

Isso não quer dizer que identidade cristã seja isolamento ou desprezo pela cultura. Daniel aprende uma nova língua e domina conhecimentos estrangeiros, e o texto diz que foi Deus quem deu aos quatro esse conhecimento (Daniel 1:17). Nem tudo o que a Babilônia ensina é recebido como verdade última, mas nem tudo precisa ser rejeitado por causa da sua origem.

O discernimento pergunta: o que posso aprender, o que devo transformar e o que não posso praticar sem negar o Senhor? Essa pergunta é mais exigente do que chamar tudo de puro ou tudo de contaminado.

2. Daniel resiste sem procurar humilhar

Daniel decide não se contaminar com a porção do rei e pede uma alternativa ao chefe dos oficiais (Daniel 1:8). O texto não explica completamente o motivo. Pode envolver alimento proibido pela Lei, associação com a mesa real, dependência do rei ou uma combinação desses fatores.

Os comentaristas mostram como essa pergunta fica aberta. Keil e Delitzsch pensam no culto: nos banquetes, os pagãos ofereciam aos seus deuses uma parte da comida e da bebida, “e assim consagravam as refeições com um rito religioso”. Clarke lista três razões prováveis: animais impuros, carne não sangrada e carne oferecida aos ídolos. Calvino vai por outro caminho. Para ele, “era lícito a ele e aos companheiros comer qualquer tipo de comida, mas ele percebeu a intenção do rei”: Daniel queria viver na Caldeia “de modo a considerar-se um exilado e um cativo”. Por isso não devemos afirmar com certeza o que Daniel não explica.

O modo da resistência é importante. Ele não faz uma cena para provar coragem. Pede permissão, ouve o temor do oficial e propõe uma experiência limitada de dez dias (Daniel 1:12). A convicção permanece firme, e a forma procura preservar a vida e a dignidade de quem está do outro lado. O oficial responde no mesmo tom. Keil e Delitzsch notam que ele não rejeitou o pedido de imediato, mas, “respeitando a convicção religiosa de onde ele nascia”, apenas apontou o perigo que corria se desobedecesse ao rei.

Deus concede favor, conhecimento e sabedoria. Isso não transforma a dieta em fórmula para a inteligência nem promete que toda fidelidade vai receber promoção. Em outros capítulos, a mesma fidelidade leva à fornalha e à cova.

A santidade pública sabe negociar aquilo que é negociável e recusar aquilo que pertence somente a Deus. Ela não usa a agressividade como prova de ortodoxia. A coragem cristã pode falar com mansidão e ainda aceitar o custo de um não.

3. “Mesmo que não” é fé sem tentativa de controle

Nabucodonosor exige que as autoridades se curvem diante da sua imagem. Hananias, Misael e Azarias, chamados na corte de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, recusam a adoração.

Eles afirmam que Deus pode livrá-los, mas acrescentam que, mesmo que não os livre da fornalha, não vão servir aos deuses do rei: “Eis que nosso Deus a quem servimos pode nos livrar da fornalha de fogo ardente; e ele nos livrará de tua mão, ó rei. E se não, sabe tu, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua que ergueste” (Daniel 3:17–18, Bíblia Livre). A fé deles não depende de obter o resultado desejado. Deus continua digno quando a obediência não evita o sofrimento.

Keil e Delitzsch mostram que a pequena expressão aramaica do versículo 18, hen la, quer dizer exatamente “e se não”. E descrevem a resposta dos três:

“Não há nela audácia, nem uma expectativa supersticiosa de algum milagre, nem fanatismo […], mas apenas a confiança da fé e uma humilde submissão à vontade de Deus.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Daniel 3:17)

O quarto personagem visto no fogo é descrito pelo rei pagão com palavras do seu próprio mundo religioso: “a aparência do quarto é semelhante a um filho de deuses” (Daniel 3:25, Bíblia Livre). Os comentaristas leem essa figura de dois modos. Clarke entende que a expressão aramaica “quer dizer um filho dos deuses, isto é, uma pessoa divina ou um anjo”. Keil e Delitzsch lembram que, em Daniel 3:28, “a mesma personagem é chamada anjo de Deus”. Benson, por outro lado, considera “extremamente provável” que fosse o Filho de Deus, “que muitas vezes apareceu na nossa natureza, em forma humana, antes de assumir essa natureza para a nossa salvação”. John Wesley, nas suas notas sobre o Antigo Testamento (que resumem o comentário de Matthew Henry), segue essa leitura: “Jesus Cristo, o Anjo da aliança, às vezes apareceu antes da sua encarnação.” Cristãos podem perceber nessa presença uma antecipação do cuidado de Cristo, mas o texto não exige identificar a figura como uma aparição inequívoca do Filho antes da encarnação. O que o texto afirma com clareza é que Deus estava com eles no fogo, como tinha prometido (Isaías 43:2).

Deus os livra, e a narrativa celebra a fidelidade deles. Ainda assim, muitos testemunhos bíblicos morreram sem uma libertação semelhante. Hebreus 11 lembra os que escaparam do fogo e também os que morreram pela espada (Hebreus 11:34, 37). O reino não promete que o fogo jamais vai tocar os santos, mas promete que nenhum império terá autoridade final sobre a vida deles.

4. Daniel abre a janela e continua orando

Em Daniel 6, os adversários não encontram corrupção administrativa para usar contra o profeta (Daniel 6:4). Clarke resume a armadilha: “ele era fiel ao seu rei: isso era uma virtude. Mas ele também era fiel ao seu Deus”. Os adversários elaboram, então, um decreto que transforma a devoção ao rei em instrumento político. Daniel sabe que a ordem foi assinada e mantém a sua prática de oração.

O texto diz que, de janelas abertas e voltado para Jerusalém, ele se ajoelhava “três vezes ao dia, e orava, e confessava diante de seu Deus, assim como costumava fazer antes” (Daniel 6:10, Bíblia Livre).

E as janelas abertas? Aqui os comentaristas divergem. Benson acha que Daniel quis tornar o seu testemunho “tão público quanto possível”. Keil e Delitzsch e Calvino leem a cena como continuação de um hábito, sem encenação:

“Não houve ostentação nem hipocrisia farisaica, nem desprezo e tentação de Deus […]; a conduta dele foi o resultado natural do seu temor de Deus e da sua religião.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Daniel 6:10)

Calvino observa que Daniel não chamou os caldeus “ao som de trombeta” toda vez que queria orar, mas também não fingiu esquecer a piedade quando viu a sua fé posta à prova. Não precisamos decidir com certeza o que se passava no coração de Daniel. O texto afirma o principal: ele não mudou o que já fazia. Ele não inaugura uma exibição pública para provocar a prisão. Ora como costumava fazer, voltado para Jerusalém, três vezes ao dia, dando graças e pedindo ajuda. A fidelidade extraordinária foi sustentada por um hábito comum.

A oração não tira Daniel da responsabilidade pública. Ele era reconhecido pela sua integridade no trabalho. Também não garante imunidade. Ele é lançado na cova e precisa ser resgatado por Deus. Depois, diante do rei, ele diz que não cometeu delito algum (Daniel 6:22). A Escritura junta as duas lealdades na mesma frase: “temei a Deus, honrai ao rei” (1 Pedro 2:17, Bíblia Livre).

Há momentos em que os cristãos podem recorrer a direitos, tribunais e proteção; Paulo apelou a César (Atos 25:11). Daniel nos ensina que nenhuma ordem humana pode ocupar o lugar de Deus. Os apóstolos disseram o mesmo diante do conselho: “Maior obrigação é obedecer a Deus do que às pessoas” (Atos 5:29, Bíblia Livre). A desobediência civil cristã deve ser rara, clara, não violenta e disposta a prestar contas, e nunca uma desculpa para interesse partidário ou desprezo pela lei.

5. Vistos de perto, os impérios podem parecer feras

Em Daniel 2, os reinos aparecem como metais numa estátua impressionante. Em Daniel 7, poderes semelhantes assumem formas de animais monstruosos que saem do mar agitado. O quarto deles “tinha grandes dentes de ferro; devorava e quebrava em pedaços” (Daniel 7:7, Bíblia Livre). O brilho imperial encobre dentes, garras e violência.

Keil e Delitzsch mostram que as duas visões, a estátua e as feras, diferem só na forma: “na realidade essas representações correspondem uma à outra, traço por traço”. Keil e Delitzsch tiram daí um pensamento: o reino do mundo só será elevado à dignidade humana “quando a sua natureza de fera for tirada”.

O livro não ensina que toda autoridade civil seja idêntica a uma fera. Governos podem preservar a ordem e praticar uma justiça relativa, e cristãos podem servir a eles com integridade, como Daniel serviu. Paulo diz que “não há autoridade que não seja da parte de Deus” (Romanos 13:1, Bíblia Livre), e Wesley explica a frase com cuidado: as autoridades “vêm todas de Deus, que constituiu todas em geral e permite cada uma em particular pela sua providência”. Contudo, todo poder que exige adoração, devora os vulneráveis ou se declara absoluto revela a sua tendência de fera. O chifre pequeno da visão fala “palavras contra o Altíssimo” e pensa “em mudar os tempos e a lei” (Daniel 7:25, Bíblia Livre).

Ao longo da história, os intérpretes deram muitos nomes a esse chifre e tentaram calcular os seus “tempos”. Clarke chegou a fazer a sua conta de anos, mas logo acrescentou: “não ponho peso nessas datas nem tiro conclusões delas”. É uma boa lição de sobriedade. Daniel não nos entrega um calendário. Ele mostra que até a pior fúria tem prazo, e que esse prazo pertence a Deus. Keil e Delitzsch entendem o “tempo, e tempos, e metade de um tempo” (Daniel 7:25, Bíblia Livre) como “um período medido por Deus em todo o seu curso”.

Por isso, a soberania de Deus não produz fatalismo político. Daniel lamenta, intercede e serve. Profetas anunciam juízo contra reis. Saber que Deus estabelece e remove governantes não transforma cada decisão de um governo em vontade moral de Deus nem absolve tiranos.

O cristão não precisa tratar o resultado de uma eleição como salvação nem como fim do reino. Pode votar, trabalhar, protestar, servir e buscar justiça com seriedade, sem oferecer a um governante a esperança que pertence a Cristo. Jesus deu aos discípulos outra medida de poder: “Mas entre vós não será assim” (Marcos 10:43, Bíblia Livre).

6. O Filho do Homem recebe um reino humano e santo

Daniel vê o Ancião de Dias no tribunal e alguém semelhante a um filho de homem vindo com as nuvens (Daniel 7:13). Ele recebe domínio, glória e um reino que reúne povos, nações e línguas: “seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e seu reino não será destruído” (Daniel 7:14, Bíblia Livre).

Quem é essa figura? Keil e Delitzsch observam que vir com as nuvens é próprio de Deus, porque só dele se diz que faz das nuvens o seu carro (Salmo 104:3). Ao mesmo tempo, ele tem forma humana. Por isso concluem que “o Messias aparece aqui tanto como um ser divino quanto como um ser humano”.

Mais adiante, os santos do Altíssimo recebem esse reino (Daniel 7:18, 27). Alguns concluíram que o filho de homem seria apenas uma figura do povo. Keil e Delitzsch respondem que o Filho do Homem é uma pessoa, o Messias, e que o reino do povo o inclui como Rei:

“A entrega do reino ao povo de Deus não exclui, segundo o modo profético de ver, o Messias como seu rei, mas, ao contrário, o inclui, porque Daniel, como os outros profetas, não conhece um reino sem cabeça, um reino messiânico sem o Rei Messias.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Daniel 7:13)

O Filho do Homem aparece, então, como o representante real do povo, e os santos recebem o reino com ele. Os dois não se confundem: ele reina, e eles participam do seu reinado.

Jesus escolhe “Filho do Homem” como o nome com que fala de si mesmo e aplica a visão à própria autoridade. Diante do sumo sacerdote, que pergunta se ele é o Cristo, responde: “vereis o Filho do homem, sentado à direita do Poderoso, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mateus 26:64, Bíblia Livre). Benson explica que, com essa expressão, Jesus “se reconheceu o verdadeiro Messias aqui descrito” e deu uma resposta direta à pergunta. Wesley repara no contraste da cena: Jesus fala de si nos termos de Daniel, e, no entanto, “nosso Senhor parecia muito diferente daquela figura naquele momento!”. O reino chega no Rei crucificado, ressuscitado e exaltado.

Calvino entende que a chegada do Filho do Homem até o Ancião de Dias “deve ser explicada pela ascensão de Cristo, pois então ele começou o seu reinado”. Depois da ressurreição, o próprio Jesus disse: “Todo o poder me é dado no céu e na terra” (Mateus 28:18, Bíblia Livre). Wesley comenta a frase: “Também como homem. Como Deus, ele tinha todo o poder desde a eternidade.” O reino de Daniel 7 é entregue a alguém com rosto humano.

Essa chegada redefine o poder. Jesus não vence tornando-se uma fera maior. Ele não veio “para ser servido, mas para servir, e dar sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45, Bíblia Livre), e por isso ressuscita e recebe toda autoridade. O seu reino já opera onde pessoas obedecem à sua palavra e vivem pelo Espírito. Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, ensinou que “os meios pelos quais Cristo administra o seu reino […] são a palavra e o Espírito Santo, que nunca devem ser separados um do outro”. E esse reino será manifestado plenamente quando todo poder rebelde for julgado. Keil e Delitzsch descrevem esse caminho:

“Aqui vemos claramente o reino dos céus sobre a terra trazendo a forma da cruz, condição da qual será elevado pelo juízo ao estado de glória. O reino do Messias, portanto, já começou.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Daniel 7, apêndice)

Os santos recebem o reino como dom, e não como conquista militar. Keil e Delitzsch insistem nisso: eles recebem o reino, e não o fundam nem o estabelecem pela própria força, “mas o recebem por meio do Filho do Homem, a quem Deus o deu”. Enquanto esperam, testemunham de modo humano num mundo que animaliza: dizem a verdade, protegem o vulnerável, recusam ídolos, amam os inimigos e permanecem fiéis. A esperança da volta de Cristo não diminui essa responsabilidade, mas dá a ela coragem e medida (Hebreus 12:28).

Para conversar com Deus

  • Que rótulo humano tem falado mais alto do que a identidade que você recebeu de Deus?
  • Em qual situação você precisa distinguir uma adaptação sábia de um compromisso com a idolatria?
  • A sua fé permanece quando a resposta de Deus pode ser “mesmo que não”?
  • Alguma causa política tem recebido de você o medo, a devoção ou a esperança que pertencem ao reino de Cristo?

Oração de resposta

Deus do céu, os reinos humanos passam, mas o teu domínio permanece. Guarda a nossa identidade no exílio e dá-nos sabedoria para aprender sem nos entregar aos ídolos. Ensina-nos a resistir com mansidão, trabalhar com integridade e orar com constância. Quando vier o fogo, permanece conosco; quando o livramento não vier na forma que desejamos, sustenta-nos até a ressurreição. Submete os nossos afetos ao Filho do Homem e faz de nós testemunhas do seu reino humano, santo e eterno. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

O que quer dizer confessar que Jesus recebeu um reino eterno?

Resposta para guardar

Quer dizer que Jesus, o Filho do Homem crucificado e ressuscitado, recebeu do Pai toda autoridade e vai reunir um povo de todas as nações. O seu reino já está presente pela Palavra e pelo Espírito, mas ainda será revelado em plenitude. Por isso, não adoramos poderes humanos: servimos com integridade, recusamos a idolatria e esperamos que Cristo julgue o mal e renove todas as coisas.

Textos para conferir

Daniel 2:31–45; 3:13–28; 6:1–28; 7:9–27; Marcos 10:35–45; 14:61–62; Apocalipse 5:6–14.

Oração

Filho do Homem, reina no meu coração e conserva-me fiel ao teu reino inabalável. Amém.

Hino para guardar no coração

Um reino que não é deste mundo

Autor: Charles Wesley

Título original: “That Kingdom of the Saints Below”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 2 (1762), Hino 1306, sobre Daniel 7:18

Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto

Esse reino dos santos aqui,
dado a todos os que creem,
não é deste mundo, sabemos,
mas vem do céu com Cristo.
Não esperamos grandeza terrena,
riqueza exterior ou poder,
mas confiamos reinar quando pompa,
posição e orgulho não existirem mais.

Esse reino do Senhor Altíssimo
o seu povo receberá;
e, muito antes de alcançarmos o céu,
viveremos triunfantes com Cristo.
Reinarei na terra, possuindo
glória dentro do coração,
para sempre bendito
com tudo o que tens e tudo o que és.

Para meditar

Charles Wesley rejeita a associação entre reino e grandeza política. O reinado começa como comunhão com Cristo e glória no coração: liberdade do domínio do pecado e participação no santo amor. Isso não privatiza o evangelho. Um coração governado por Jesus aprende a servir publicamente sem desejar dominar.

Pergunta: Você deseja o reino de Cristo ou a possibilidade de usar o nome de Cristo para possuir grandeza, riqueza e poder?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Armínio, Jacó. Debates privados, XXXVII (“Sobre o ofício régio de Cristo”), 9. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Daniel 1:6–7, 3:24–25, 6:10, 7:13 e 7:15–18.
  • Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Daniel, Daniel 1:4, 1:8, 6:10 e 7:13.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Daniel 1 (introdução), 1:7, 1:8, 3:25, 6:4 e 7:25.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, Daniel 1, 3, 6 e 7.
  • Wesley, John. Explanatory Notes upon the Old Testament, Daniel 3:25.
  • Wesley, John. Explanatory Notes upon the New Testament, Mateus 26:64, Mateus 28:18 e Romanos 13:1.

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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