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Quando Deus parece demorar

Vem Andar Comigo, Semana 25 · Domingo: A página entre Malaquias e Mateus contém séculos

Diego Gonçalves25 min de leitura4.909 palavras

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Neste texto

Tema: espera, providência, fidelidade, esperança messiânica e adoção
Leituras principais: Daniel 9:20–27; Malaquias 3:1–4; 4:1–6; Gálatas 4:1–7
Leituras complementares: Salmo 13; 27:7–14; 130; Isaías 40:1–11; Habacuque 2:1–4; Lucas 1:5–25, 67–79; 2:22–38; Marcos 1:1–15; Romanos 5:1–5; 8:18–27; Tiago 5:7–11; 2 Pedro 3:8–13
Verdade central: A demora entre a promessa e o cumprimento não quer dizer abandono. Enquanto impérios mudam e gerações passam, Deus preserva o seu povo, sustenta a esperança e prepara a vinda do Messias. Na plenitude do tempo, o Pai envia o Filho e o Espírito para nos redimir e adotar. Por isso, esperamos como filhos ativos, usando os meios de graça e praticando a fidelidade no presente.

A página entre Malaquias e Mateus contém séculos

Quando viramos a última página do Antigo Testamento para chegar ao primeiro Evangelho, encontramos um mundo transformado. A Pérsia deu lugar à Grécia; o império de Alexandre foi dividido; a Judeia enfrentou perseguição, revolta e o governo dos hasmoneus; Roma entrou em Jerusalém. A língua grega se espalhou, novas instituições amadureceram, e diferentes movimentos judaicos debateram como permanecer fiéis.

Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, lembram o fato que marca esse intervalo: depois de Malaquias, “nenhum outro profeta se levantou em Israel” até que o tempo se cumprisse e o Elias anunciado por ele aparecesse em João Batista.

O intervalo não é apenas um cenário para o cristianismo, mas história real do povo judeu, com perdas, coragem, ambiguidades e esperança. Para os cristãos, ele mostra também que a providência de Deus pode conduzir a sua promessa por caminhos que uma geração não consegue enxergar por inteiro.

O texto

Leitura: Daniel 9:20–27; Malaquias 3:1–4; 4:1–6; Gálatas 4:1–7

Enquanto eu ainda estava falando e orando, e confessando meu pecado e o pecado de meu povo Israel, e apresentando minha súplica diante do SENHOR meu Deus, pelo monte santo de meu Deus;

Estava eu falando em oração, e aquele varão Gabriel, ao qual eu tinha visto em visão antes, veio voando apressadamente, e me tocou cerca da hora do sacrifício da tarde.

E me explicou, e falou comigo, dizendo: Daniel, agora saí para te fazer entender o sentido.

No princípio de tuas súplicas a palavra saiu, e eu vim para te declarar, pois tu és muito querido. Considera, pois a palavra, e entende a visão.

Setenta semanas estão determinadas sobre teu povo e sobre tua santa cidade, para acabar a transgressão, para encerrar o pecado, para expiar a maldade, e para trazer a justiça eterna; para selar a visão e a profecia, e para ungir o Santo dos santos

Sabe pois e entende: desde a saída da palavra para restaurar e edificar a Jerusalém até o Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; voltará a ser construída com praças e muro, porém em tempos angustiosos.

E depois das sessenta e duas semanas o Messias será exterminado, e nada terá para si; e o povo do príncipe que virá destruirá a cidade e o santuário; o fim dela será com inundação, e até o fim da guerra estão determinadas assolações.

E firmará um pacto com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de alimentos; depois sobre a asa das abominações será o assolador, e isto até que seja derramado o fim determinado sobre o assolador.

(Daniel 9:20-27, Bíblia Livre)

Eis que eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho adiante de mim; e de repente virá a seu templo o Senhor a quem vós buscais, o mensageiro do pacto a quem vós desejais. Eis que ele vem, diz o SENHOR dos exércitos.

Mas quem poderá suportar o dia de sua vinda? Quem conseguirá ficar de pé quando ele aparecer? Porque ele será como fogo do ourives, e como o sabão de lavandeiros.

E ele se sentará como refinador e purificador da prata; pois ele limpará os filhos de Levi, e os refinará como o ouro e como a prata; então trarão ao SENHOR oferta com justiça.

E a oferta de Judá e de Jerusalém será suave ao SENHOR, como nos dias antigos, e como nos anos passados.

(Malaquias 3:1-4, Bíblia Livre)

Porque eis que aquele dia vem ardendo como forno; todos os soberbos e todos os que praticam perversidade serão como a palha; e o dia que está por vir os queimará, diz o SENHOR dos exércitos, de maneira que não lhes deixará nem raiz nem ramo.

Mas para vós, que temeis o meu nome, o Sol da justiça nascerá, trazendo cura em suas asas; e saireis, e saltareis de alegria como bezerros do curral.

E pisareis os perversos, porque serão cinza debaixo das plantas dos vossos pés, no dia que eu preparo, diz o SENHOR dos exércitos.

Lembrai-vos da lei de meu servo Moisés, que lhe mandei em Horebe estatutos e regras para todo Israel.

Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o grande e temível dia do SENHOR.

Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais; para que eu não venha e fira a terra com maldição.

(Malaquias 4:1-6, Bíblia Livre)

Digo, porém, que, enquanto o herdeiro é criança, em nada é diferente do servo, ainda que seja senhor de tudo.

Mas está sob tutores e administradores, até o tempo determinado pelo pai.

Assim também nós, quando éramos crianças, estávamos escravizados debaixo dos princípios elementares do mundo.

Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei,

para redimir os que estavam sob a Lei, a fim de que nós recebêssemos a adoção como filhos.

E, como sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai!”

Portanto, tu já não és mais servo, mas sim filho; e se és filho, também és herdeiro por meio de Deus.

(Gálatas 4:1-7, Bíblia Livre)

Para entender o texto

As três leituras desta semana estão distantes umas das outras no tempo, mas fazem a mesma pergunta: como viver enquanto a promessa ainda não se cumpriu?

Em Daniel 9, um exilado lê as Escrituras. No primeiro ano de Dario, o medo, Daniel entendeu “pelos livros” que a assolação de Jerusalém duraria setenta anos, como o Senhor tinha dito ao profeta Jeremias (Daniel 9:2). Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, resume o capítulo: Daniel percebeu que os setenta anos de cativeiro “estavam chegando ao fim” e derramou a alma “em oração fervorosa a Deus”. Gabriel chega “cerca da hora do sacrifício da tarde” (Daniel 9:21, Bíblia Livre).

Malaquias é o último livro profético do Antigo Testamento. O povo já tinha voltado do exílio, e o templo estava de pé. John Wesley, nas suas notas sobre o Antigo Testamento (que resumem o comentário de Matthew Henry), explica que o templo de Malaquias 3:1 é “o segundo templo de Jerusalém, construído pouco antes por Zorobabel e Josué”. O fervor da volta, porém, tinha esfriado, e alguns diziam: “É inútil servir a Deus” (Malaquias 3:14, Bíblia Livre). Clarke observa que o profeta, “com a solenidade própria do último dos profetas, fecha o cânon sagrado mandando guardar fielmente a lei até que aparecesse o precursor já prometido, no espírito de Elias”.

Em Gálatas, Paulo escreve a igrejas tentadas a voltar ao regime da lei, como se o evangelho não bastasse. Ele compara o povo de Deus a um herdeiro ainda criança: dono de tudo, mas debaixo de tutores e administradores “até o tempo determinado pelo pai” (Gálatas 4:2, Bíblia Livre). Joseph Benson, comentarista metodista e amigo de Wesley, explica por que Deus não deu o evangelho desde o começo: ele agiu com o seu povo “como um pai prudente trata o filho enquanto é menor de idade”.

Três palavras ajudam a ler esses textos.

Em primeiro lugar, semana (em hebraico, shavua). Keil e Delitzsch explicam que a palavra quer dizer “propriamente, o tempo dividido em sete” e costuma indicar o período de sete dias, a semana. Por isso as setenta semanas de Daniel 9:24 podem ser lidas de mais de um modo, como veremos no primeiro ponto.

Em segundo lugar, mensageiro (malak). Em Malaquias 3:1, “o meu mensageiro” se diz em hebraico malaki, e Clarke nota que é “o próprio nome do profeta”. Keil e Delitzsch explicam que esse primeiro mensageiro não é um anjo, “mas um mensageiro terreno do Senhor”. Ele é diferente do mensageiro do pacto, que o mesmo versículo identifica com o Senhor que vem ao seu templo.

Em terceiro lugar, adoção (huiothesia) e Aba. Adoção quer dizer receber como filho quem não era filho por nascimento. Clarke diz que essa adoção não vem pela lei, “porque só o evangelho nos põe entre os filhos e nos dá um lugar na família celestial”. Aba é a palavra aramaica para “pai”, e Paulo junta a ela a palavra grega. Wesley vê um sentido nessa dupla: as duas palavras estão juntas “para expressar o clamor comum de judeus e gentios”.

1. “Até quando?” também é uma oração de fé

Daniel lê Jeremias, reconhece que o exílio tem um tempo prometido e responde com jejum, confissão e súplica: “Então dirigi meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e rogos, em jejum, saco, e cinza” (Daniel 9:3, Bíblia Livre). A pergunta dele sobre o futuro não nasce de curiosidade vazia, mas da dor de um povo que deseja restauração.

Repare que a promessa não deixou Daniel de braços cruzados. Matthew Henry, pastor presbiteriano inglês, tirou daí uma lição:

“As promessas de Deus servem para encorajar as nossas orações, e não para torná-las desnecessárias; e, quando vemos que o cumprimento delas se aproxima, devemos apresentá-las a Deus com mais fervor ainda.”

(Matthew Henry, Comentário conciso sobre a Bíblia inteira, Daniel 9:1–3)

A resposta chega enquanto ele ainda ora: “No princípio de tuas súplicas a palavra saiu” (Daniel 9:23, Bíblia Livre). Joseph Benson repara que ela veio “antes que ele se levantasse dos joelhos, enquanto ainda havia mais coisas que ele pretendia dizer”.

A resposta das setenta semanas em Daniel 9 é uma das passagens mais debatidas da Bíblia. Intérpretes judeus e cristãos, e diferentes escolas cristãs, organizam os períodos e os acontecimentos de modos diversos. João Calvino, o reformador de Genebra, confessou que esta passagem foi “tão dividida e quase despedaçada pelas várias opiniões dos intérpretes, que poderia ser considerada quase inútil por causa da sua obscuridade”.

A leitura cristã mais antiga vê nesses versículos a vinda do Messias. As notas de Wesley chamam o capítulo de “a profecia mais clara sobre o Messias em todo o Antigo Testamento”, e explicam que “trazer a justiça eterna” (Daniel 9:24, Bíblia Livre) quer dizer “trazer a justificação pela livre graça de Deus em Cristo e a santificação pelo seu Espírito”. Clarke e Benson chegaram a calcular os anos; é uma leitura entre outras, e a nossa fé não precisa se apoiar nesses cálculos. O versículo 26 diz que “o Messias será exterminado” (Daniel 9:26, Bíblia Livre). Muitos cristãos veem aqui a morte de Cristo. Keil e Delitzsch lembram que o verbo hebraico, que quer dizer “ser cortado”, indica em geral uma morte violenta, “embora nem sempre”, e que, só por essa palavra, “não se pode provar rigorosamente” que o versículo anuncie a morte do ungido.

Keil e Delitzsch preferem outro caminho. Para eles, as setenta semanas não são semanas de anos, “mas apenas períodos definidos simbolicamente, de duração medida”. Assim, os dias e as horas ficam reservados a Deus, e o que sobra para nós é um consolo:

“É dada a forte consolação de saber que os destinos do seu povo estão nas mãos dele, e que nenhum poder inimigo vai dominar sobre eles uma hora a mais do que Deus, o Senhor, achar conveniente conceder tempo e espaço.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Daniel 9:24–27)

O texto anuncia que pecado, expiação, cidade, santuário, governantes e desolação estão sob o juízo e o propósito de Deus. Ele não oferece licença para transformar cálculos frágeis em certeza absoluta sobre datas.

Daniel ensina algo antes de qualquer cronologia: quem espera pode confessar, interceder e buscar entendimento. O lamento não é incredulidade automática. A pergunta “até quando?” dirige a dor ao Deus da aliança: “Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim? Para sempre? Até quando tu esconderás de mim o teu rosto?” (Salmo 13:1, Bíblia Livre).

Quando Deus parece demorar, não precisamos fabricar serenidade. Podemos dar nome à ausência que sentimos, recordar as promessas e permanecer diante dele com perguntas que ainda não têm resposta. Ao comentar a oração de Zacarias, pai de João Batista, Clarke escreveu: “Se orações fervorosas e fiéis não são respondidas de imediato, não devem ser consideradas perdidas; todas elas são ouvidas pelo Senhor, registradas no céu, e serão respondidas do modo mais eficaz e no melhor tempo.”

2. A providência atua entre impérios sem santificar impérios

Alexandre derrotou o poder persa no quarto século antes de Cristo e espalhou a cultura helenística e o grego comum por grande parte do Mediterrâneo oriental. Depois da sua morte, os sucessores disputaram o território. A Judeia ficou entre dinastias rivais. Daniel já tinha confessado que é Deus quem “muda os tempos e as estações; ele tira os reis, e confirma os reis” (Daniel 2:21, Bíblia Livre).

No segundo século antes de Cristo, Antíoco IV tentou impor práticas que atingiam profundamente a fidelidade judaica e profanou o templo. Agostinho, bispo de Hipona, no norte da África, conta que Antíoco obrigou os judeus “por muitos e gravíssimos males a adorar ídolos” e encheu o próprio templo “das superstições sacrílegas dos gentios”. A revolta iniciada pela família de Matatias (os macabeus) levou à purificação e à nova dedicação do templo, lembrada na festa de Hanukkah, e ao período de governo dos hasmoneus.

Em 63 a.C., Pompeu entrou em Jerusalém e incorporou a região à esfera de Roma. Agostinho não chamou esse dia de glorioso: Pompeu abriu o templo “não com a devoção de um suplicante, mas com a autoridade de um conquistador”. A chamada paz romana, a administração imperial e as estradas facilitaram deslocamentos posteriores, mas foram construídas e mantidas para o poder de Roma, muitas vezes pela violência. Não devemos chamar a opressão de boa apenas porque Deus conseguiu agir dentro dela.

Providência quer dizer que o mal não consegue frustrar o propósito final de Deus. Ela não quer dizer que cada conquista, massacre ou decisão política seja moralmente aprovada ou secretamente boa. O Senhor pode abrir caminhos no meio da história quebrada sem se tornar autor da crueldade. Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, fez essa distinção com cuidado:

“Deus tanto quer como realiza as boas ações, mas apenas permite livremente as que são más. […] Não se deve concluir dessa concessão que Deus é a causa do pecado.”

(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, II)

John Wesley, no sermão Da providência divina, lembra que a sabedoria de Deus aparece justamente no modo como ele governa o ser humano “como ser humano; não como um tronco ou uma pedra, mas como um espírito inteligente e livre, capaz de escolher o bem ou o mal”.

3. A Palavra atravessa línguas e fronteiras

Comunidades judaicas viviam muito além da Judeia. Em Alexandria, a tradução das Escrituras hebraicas para o grego começou alguns séculos antes de Cristo e se desenvolveu ao longo do tempo. Essa coleção, conhecida como Septuaginta, tornou a Palavra acessível a muitos judeus de língua grega e influenciou fortemente o vocabulário do Novo Testamento. Agostinho via nessa tradução uma providência de Deus “em benefício das nações que um dia haveriam de crer, como agora as vemos crer”.

O grego comum era muito usado, mas não era literalmente compreendido por todas as pessoas do império. O aramaico continuava vivo, o hebraico permanecia importante, e muitas línguas locais eram faladas. Pentecostes vai celebrar o evangelho atravessando essa diversidade sem apagar as diferenças. Os peregrinos em Jerusalém perguntam: “E como nós ouvimos cada um deles em nossa própria língua, na qual nascemos?” (Atos 2:8, Bíblia Livre). Calvino comenta que, “seja qual for a língua que falam, invocam um só Pai, que está no céu, com uma só boca e um só espírito”.

O período também produziu orações, sabedoria, relatos de martírio e textos apocalípticos. Os Manuscritos do Mar Morto, ligados a comunidades judaicas do período, testemunham a cópia cuidadosa das Escrituras e um intenso debate sobre pureza, aliança e esperança.

Deus prepara a vinda do Filho por meio da história particular de Israel e, depois, envia testemunhas a todas as línguas. A tradução não é detalhe secundário da missão, mas um serviço de hospitalidade à Palavra.

4. O judaísmo do tempo de Jesus era diverso

Quando os Evangelhos começam, encontramos sinagogas, fariseus, saduceus, escribas, sacerdotes, conselhos e expectativas messiânicas diversas. Nenhum desses elementos apareceu de uma vez, e a origem exata de algumas instituições ainda é debatida.

As sinagogas se tornaram centros locais de oração, leitura e vida comunitária. Os fariseus valorizavam a Torá, as tradições de interpretação, a pureza e a ressurreição. Os saduceus estavam ligados especialmente à elite sacerdotal e divergiam sobre a ressurreição e outras crenças. Esses resumos não transformam todos os membros de um grupo em pessoas idênticas.

É injusto dizer que os fariseus começaram bem e simplesmente terminaram como legalistas. Jesus critica com severidade a hipocrisia e as tradições que anulam mandamentos, mas compartilha com os fariseus algumas convicções e conversa com eles em desacordos internos ao judaísmo. Paulo continua se identificando como judeu e reconhece a sua formação farisaica. Diante do conselho, ele declarou: “Homens irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; pela esperança e ressurreição dos mortos eu estou sendo julgado” (Atos 23:6, Bíblia Livre).

Jesus não chega a um povo espiritualmente vazio nem funda a sua missão sobre o desprezo pelos judeus. Ele nasce judeu, sob a lei, frequenta sinagogas, celebra festas e cumpre as promessas feitas a Israel. Paulo diz que aos israelitas “pertencem a adoção como filhos, a glória, os pactos, a Lei, o culto, e as promessas” (Romanos 9:4, Bíblia Livre). Calvino, ao comentar Gálatas 4, lembra que os fiéis do Antigo Testamento não viviam como escravos sem esperança:

“A obrigação de guardar a lei não impedia Moisés e Daniel, todos os reis, sacerdotes e profetas piedosos e toda a companhia dos crentes de serem livres em espírito. Eles levavam sobre os ombros o jugo da lei, mas adoravam a Deus com espírito livre.”

(João Calvino, Comentário sobre Gálatas, 4:1–2)

Por isso, segundo ele, a diferença entre nós e os antigos pais está “nos acidentes, e não na substância”. A Igreja honra o Messias quando recusa caricaturas e antissemitismo. Paulo advertiu os cristãos que vinham dos gentios: “não te orgulhes de ser melhor que os ramos. Mesmo se te orgulhares, não és tu que sustentas a raiz, mas sim, a raiz a ti” (Romanos 11:18, Bíblia Livre).

5. O mensageiro prepara a chegada do Senhor

Malaquias anuncia um mensageiro que prepara o caminho, o Senhor que vem ao templo e uma obra semelhante ao fogo do refinador: “Eis que eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho adiante de mim; e de repente virá a seu templo o Senhor a quem vós buscais, o mensageiro do pacto a quem vós desejais” (Malaquias 3:1, Bíblia Livre). O livro termina com a promessa da vinda de Elias antes do grande dia do Senhor (Malaquias 4:5).

Os Evangelhos apresentam João Batista com linguagem e missão proféticas. João chama Israel ao arrependimento, prepara o caminho e aponta para aquele que batiza com o Espírito. Jesus reconhece em João o cumprimento da função prometida: “este é o Elias que havia de vir” (Mateus 11:14, Bíblia Livre). Ele não diz que João fosse literalmente Elias reencarnado. Benson explica que o texto de Malaquias não diz nem dá a entender que Elias, o tesbita, viria em pessoa, “mas apenas que viria alguém no espírito e no poder de Elias”.

O Senhor vem, mas a sua chegada surpreende. O templo recebe uma criança; o rei cresce numa família comum; o Messias entra em Jerusalém humilde; o juízo contra o pecado passa pela própria cruz. Keil e Delitzsch resumem o cumprimento: depois de João, “o Senhor veio ao seu templo, isto é, o Filho de Deus encarnado à sua própria possessão, para fazer de todos os que o receberam filhos de Deus”. A providência não preparou apenas estradas e uma língua. Ela preparou o testemunho de Israel para que a vinda de Jesus pudesse ser reconhecida como o cumprimento das promessas.

O fogo do refinador impede uma esperança superficial. “Mas quem poderá suportar o dia de sua vinda? […] Porque ele será como fogo do ourives, e como o sabão de lavandeiros” (Malaquias 3:2, Bíblia Livre). Calvino viu dois lados nessa imagem:

“O poder do fogo, nós sabemos, é duplo: ele queima e purifica. Queima o que está corrompido, mas purifica o ouro e a prata da sua escória.”

(João Calvino, Comentário sobre Malaquias, 3:2)

Esperar o Messias é também permitir que ele purifique o culto, as relações e os desejos. O Cristo que consola também confronta; o Cristo que perdoa também santifica. E o crente não precisa ter medo desse fogo. Matthew Henry escreveu que o Salvador refina o seu ouro e “cuidará para que a prova não seja mais intensa nem mais longa do que é necessário para o seu bem”.

6. Na plenitude do tempo, o Filho nos torna filhos

Paulo não explica cada razão pela qual aquele momento histórico era a plenitude do tempo. Ele afirma o acontecimento decisivo: “Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para redimir os que estavam sob a Lei, a fim de que nós recebêssemos a adoção como filhos” (Gálatas 4:4–5, Bíblia Livre).

Calvino também recusa a curiosidade sobre o calendário de Deus:

“Em que tempo era conveniente que o Filho de Deus fosse revelado ao mundo, só a Deus cabia julgar e determinar. Essa consideração deve conter toda curiosidade.”

(João Calvino, Comentário sobre Gálatas, 4:4)

A plenitude não é uma teoria de que todas as condições políticas e culturais ficaram perfeitas. Jesus nasce sob ocupação, a sua família foge da violência, e ele morre por execução romana. O tempo está pleno porque o Pai realiza a sua promessa, e não porque a história humana alcançou harmonia.

O Pai também envia ao coração o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai!” (Gálatas 4:6, Bíblia Livre). Wesley explica que o Espírito capacita os crentes “a invocar a Deus tanto com a confiança quanto com as disposições de filhos obedientes”. A espera cristã acontece dentro dessa relação. Não somos escravos tentando adivinhar quando o senhor vai voltar, mas filhos e herdeiros que conhecem o caráter do Pai: “Portanto, tu já não és mais servo, mas sim filho; e se és filho, também és herdeiro por meio de Deus” (Gálatas 4:7, Bíblia Livre).

Isso não oferece uma fórmula para prazos pessoais. Um emprego, uma cura, um casamento ou a restauração de uma relação não tem promessa bíblica de acontecer no momento que depois vamos chamar de perfeito. Podemos pedir, agir e esperar sem atribuir a Deus promessas que ele não fez.

A esperança paciente usa os meios de graça: Escritura, oração, ceia, comunhão, jejum e obras de misericórdia. Ela recusa atalhos para controlar o tempo, mas também recusa a passividade. Wesley ensinava que nenhum desses meios tem poder ou mérito em si mesmo:

“Não há nenhum mérito em eu usar este meio […]. Mas, porque Deus manda, eu faço; porque ele me orienta a esperar deste modo, aqui espero a sua livre misericórdia, da qual vem a minha salvação.”

(John Wesley, sermão Os meios de graça, III)

Enquanto aguarda a manifestação do reino, o filho serve na casa do Pai.

Para conversar com Deus

  • Que pergunta “até quando?” você precisa transformar em oração honesta?
  • Você tem chamado de providencial alguma injustiça que deveria lamentar e enfrentar?
  • Alguma caricatura do judaísmo tem distorcido a sua leitura de Jesus e dos Evangelhos?
  • Que promessa verdadeira pode sustentar a sua espera sem inventar um prazo que Deus não revelou?

Oração de resposta

Deus do tempo e da promessa, recebe as nossas perguntas e não permitas que a demora que sentimos nos afaste da tua presença. Obrigado porque preservaste Israel, enviaste o mensageiro e, na plenitude do tempo, deste o teu Filho. Guarda-nos de santificar impérios, de desprezar o povo judeu e de controlar o futuro com cálculos e atalhos. Pelo Espírito de adoção, ensina-nos a clamar “Aba, Pai”, a usar os meios de graça e a servir com esperança até a vinda de Cristo. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

Como devemos esperar quando Deus parece demorar?

Resposta para guardar

Esperamos como filhos, e não como abandonados. Recordamos que o Pai cumpriu a sua promessa enviando o Filho na plenitude do tempo e nos deu o Espírito de adoção. Por isso, lamentamos com honestidade, recusamos datas inventadas e permanecemos nos meios de graça, na comunhão e nas obras de misericórdia. A esperança cristã confia no caráter de Deus e pratica a fidelidade enquanto aguarda.

Textos para conferir

Daniel 9:20–27; Malaquias 3:1–4; 4:1–6; Marcos 1:1–15; Gálatas 4:1–7; Romanos 8:18–27; Tiago 5:7–11.

Oração

Aba, Pai, sustenta-me na espera e faz-me fiel ao amor que já revelaste no teu Filho. Amém.

Hino para guardar no coração

O Senhor que buscamos veio

Autor: Charles Wesley

Título original: “Jehovah to His Temple Came”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 2 (1762), Hino 1459, sobre Malaquias 3:1

Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto

O Senhor veio ao seu templo
quando, em nossa carne, a santa criança
apareceu, e Jesus era o seu nome,
e Deus e a humanidade foram reconciliados.

Jesus virá novamente à sua casa,
virá a toda pessoa que o busca;
e, quando recebermos o seu Espírito,
nosso coração será a sua morada eterna.

Para meditar

Charles Wesley reúne duas vindas: a encarnação e a visita de Cristo ao coração pelo Espírito. A reconciliação acontece por iniciativa divina; a espera se torna desejo de habitação. Não pedimos apenas que Jesus mude as circunstâncias. Pedimos que ele faça do coração a sua casa e purifique nele tudo o que resiste ao amor.

Pergunta: Enquanto espera uma resposta de Deus, você também deseja receber a presença e a transformação que ele já oferece?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Agostinho. The City of God, XVIII.42 e XVIII.45, trad. Marcus Dods. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, série 1, vol. 2.
  • Armínio, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608), II (“Da providência de Deus”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Daniel 9:20–21; Malaquias 4:5; Gálatas 4:1–3.
  • Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Daniel, Daniel 9:24.
  • Calvino, João. Commentaries on the Twelve Minor Prophets, Malaquias 3:2.
  • Calvino, João. Commentaries on the Epistle of Paul to the Galatians, Gálatas 4:1–2 e 4:4.
  • Calvino, João. Commentary upon the Acts of the Apostles, Atos 1:8 e 2:3–4.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Daniel 9 (resumo do capítulo); Malaquias 3:1 e 4 (resumo do capítulo); Lucas 1:13; Gálatas 4:5.
  • Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Daniel 9:1–3 e Malaquias 3:1–6.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, Daniel 9:24–27; Malaquias 3:1 e 4:5–6.
  • Wesley, John. Explanatory Notes upon the Old Testament, Daniel 9 e Malaquias 3:1.
  • Wesley, John. Explanatory Notes upon the New Testament, Gálatas 4:6.
  • Wesley, John. Sermão 16, Os meios de graça, III; Sermão 67, Da providência divina, 15.

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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