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José: quando a providência trabalha em silêncio

Vem Andar Comigo, Semana 6 · Domingo: O mesmo acontecimento, duas intenções

Diego Gonçalves25 min de leitura5.067 palavras

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Neste texto

Tema: providência, sofrimento, integridade, perdão e reconciliação
Leituras principais: Gênesis 37:12–36; 39:1–23; 45:1–15; 50:15–21
Leituras complementares: Salmo 105:16–22; Romanos 8:18–39; Tiago 1:12–17
Verdade central: Deus permanece presente e pode conduzir até ações humanas más para fins de preservação e graça, sem desejar o pecado, sem chamar o mal de bem e sem tirar dos seus agentes a responsabilidade.

O mesmo acontecimento, duas intenções

Depois da morte de Jacó, os irmãos de José têm medo. Talvez, pensam eles, o perdão tenha sido apenas uma trégua enquanto o pai estava vivo. Agora o homem mais poderoso do Egito depois de Faraó poderia devolver cada noite de prisão, cada humilhação e cada lágrima: “Talvez José nos odeie, e nos retribua de todo o mal que lhe fizemos” (Gênesis 50:15, Bíblia Livre).

José chora. Então pergunta: “estou eu em lugar de Deus?” (Gênesis 50:19, Bíblia Livre).

Ele não nega o crime: “Vós pensastes mal sobre mim”. Também não concede ao mal a palavra final: “mas Deus o encaminhou para o bem, para fazer o que vemos hoje, para manter em vida muito povo” (Gênesis 50:20, Bíblia Livre).

Essa resposta amadureceu ao longo de muitos anos. José foi vendido aos dezessete anos (Gênesis 37:2) e só ficou diante de Faraó aos trinta (Gênesis 41:46). Nesse tempo todo, Deus não abriu o mar nem fez descer fogo do céu. Ele trabalhou em silêncio.

O texto

Leitura principal: Gênesis 37:12–36; 39:1–23; 45:1–15; 50:15–21

Leitura: Gênesis 37:18–28; 39:1–6, 19–23; 45:1–8; 50:15–21

E quando eles o viram de longe, antes que perto deles chegasse, tramaram contra ele para matar-lhe.

E disseram um ao outro: Eis que vem o sonhador;

Agora, pois, vinde, e o matemos e o lancemos em uma cisterna, e diremos: Alguma fera selvagem o devorou: e veremos que serão seus sonhos.

E quando Rúben ouviu isto, livrou-o de suas mãos e disse: Não o matemos.

E disse-lhes Rúben: Não derrameis sangue; lançai-o nesta cisterna que está no deserto, e não ponhais mão nele; para livrá-lo assim de suas mãos, para fazê-lo virar a seu pai.

E sucedeu que, quando chegou José a seus irmãos, eles fizeram desnudar a José sua roupa, a roupa de cores que tinha sobre si;

E tomaram-no, e lançaram-lhe na cisterna; mas a cisterna estava vazia, não havia nela água.

E sentaram-se a comer pão: e levantando os olhos olharam, e eis uma companhia de ismaelitas que vinha de Gileade, e seus camelos traziam aromas e bálsamo e mirra, e iam a levá-lo ao Egito.

Então Judá disse a seus irmãos: Que proveito há em que matemos a nosso irmão e encubramos sua morte?

Vinde, e o vendamos aos ismaelitas, e não seja nossa mão sobre ele; que nosso irmão é nossa carne. E seus irmãos concordaram com ele.

E quando passavam os midianitas mercadores, tiraram eles a José da cisterna, e trouxeram-lhe acima, e o venderam aos ismaelitas por vinte peças de prata. E levaram a José ao Egito.

(Gênesis 37:18-28, Bíblia Livre)

E levado José ao Egito, comprou-o Potifar, oficial de Faraó, capitão dos da guarda, homem egípcio, da mão dos ismaelitas que o haviam levado ali.

Mas o SENHOR foi com José, e foi homem próspero: e estava na casa de seu senhor o egípcio.

E viu seu senhor que o SENHOR era com ele, e que tudo o que ele fazia, o SENHOR o fazia prosperar em sua mão.

Assim achou José favor em seus olhos, e servia-lhe; e ele lhe fez mordomo de sua casa, e entregou em seu poder tudo o que tinha.

E aconteceu que, desde quando lhe deu o encargo de sua casa, e de tudo o que tinha, o SENHOR abençoou a casa do egípcio por causa de José; e a bênção do SENHOR foi sobre tudo o que tinha, tanto em casa como no campo.

E deixou tudo o que tinha em mão de José; nem com ele sabia de nada mais que do pão que comia. E era José de belo semblante e bela presença.

E sucedeu que quando ouviu seu senhor as palavras que sua mulher lhe falara, dizendo: Assim me tratou teu servo; acendeu-se seu furor.

E tomou seu senhor a José, e pôs-lhe na casa do cárcere, onde estavam os presos do rei, e esteve ali na casa do cárcere.

Mas o SENHOR foi com José, e estendeu a ele sua misericórdia, e deu-lhe favor aos olhos do chefe da casa do cárcere.

E o chefe da casa do cárcere entregou em mão de José todos os presos que havia naquela prisão; tudo o que faziam ali, ele o fazia.

Não via o chefe do cárcere coisa alguma que em sua mão estava; porque o SENHOR era com ele, e o que ele fazia, o SENHOR o fazia prosperar.

(Gênesis 39:1-6,19-23, Bíblia Livre)

Não podia já José se conter diante de todos os que estavam ao seu lado, e clamou: Fazei sair de minha presença a todos. E não ficou ninguém com ele, ao dar-se a conhecer José a seus irmãos.

Então se deu a chorar por voz em grito; e ouviram os egípcios, e ouviu também a casa de Faraó.

E disse José a seus irmãos: Eu sou José: vive ainda meu pai? E seus irmãos não puderam lhe responder, porque estavam perturbados diante dele.

Então disse José a seus irmãos: Achegai-vos agora a mim. E eles se achegaram. E ele disse: Eu sou José vosso irmão o que vendestes para o Egito.

Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos pese de haver me vendido aqui; que para preservação de vida me enviou Deus diante de vós:

Que já houve dois anos de fome em meio da terra, e ainda restam cinco anos em que nem haverá arada nem colheita.

E Deus me enviou adiante de vós, para que vós restásseis na terra, e para vos dar vida por meio de grande salvamento.

Assim, pois, não me enviastes vós aqui, mas sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e por senhor de toda sua casa, e por governador de toda a terra do Egito.

(Gênesis 45:1-8, Bíblia Livre)

E vendo os irmãos de José que seu pai era morto, disseram: Talvez José nos odeie, e nos retribua de todo o mal que lhe fizemos.

E enviaram a dizer a José: Teu pai mandou antes de sua morte, dizendo:

Assim direis a José: Rogo-te que perdoes agora a maldade de teus irmãos e seu pecado, porque mal te trataram: portanto agora te rogamos que perdoes a maldade dos servos do Deus de teu pai. E José chorou enquanto falavam.

E vieram também seus irmãos, e prostraram-se diante dele, e disseram: Eis-nos aqui por teus servos.

E respondeu-lhes José: Não temais: estou eu em lugar de Deus?

Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem, para fazer o que vemos hoje, para manter em vida muito povo.

Agora, pois, não tenhais medo; eu sustentarei a vós e a vossos filhos. Assim os consolou, e lhes falou ao coração.

(Gênesis 50:15-21, Bíblia Livre)

Para entender o texto

A história de José ocupa os últimos catorze capítulos de Gênesis. Ela começa com uma fórmula que o livro usa para abrir as suas grandes seções: “Estas foram as gerações de Jacó” (Gênesis 37:2, Bíblia Livre). A palavra gerações (em hebraico, toledot) não anuncia aqui uma lista de nomes. Adam Clarke, o comentarista metodista, explica que ela quer dizer “a história da vida e das ações de Jacó e dos seus filhos”. É a história de uma família, e é por meio dessa família ferida que Deus leva adiante a promessa feita a Abraão. A narrativa explica também como os filhos de Israel foram parar no Egito, e assim Gênesis termina preparando o Êxodo.

Há um detalhe que combina com o título desta semana. Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch, estudiosos luteranos alemães do século XIX, notaram que, no capítulo 37, o da venda de José, o nome de Deus não aparece nenhuma vez. Nos capítulos 38 e 39, o nome do SENHOR aparece várias vezes. Daí em diante, Deus é lembrado principalmente pela boca das personagens. Ao contrário de Abraão, Isaque e Jacó, José não recebe em toda a narrativa nenhuma palavra direta de Deus. Deus age por meio dos acontecimentos.

Três expressões ajudam a ler a história.

Em primeiro lugar, a túnica de José (ketonet passim). A Bíblia Livre traduz “uma roupa de diversas cores” (Gênesis 37:3, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch entendem a expressão como uma túnica longa, com mangas, que chegava aos punhos e aos tornozelos, “como a usavam os nobres e as filhas dos reis” (veja 2 Samuel 13:18). Em qualquer das leituras, a roupa era uma distinção visível, que mostrava a todos o lugar especial de José no coração do pai.

Em segundo lugar, a palavra paz (shalom). O texto diz que os irmãos odiavam José “e não lhe podiam falar pacificamente” (Gênesis 37:4, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch explicam que eles não conseguiam nem perguntar como José estava, nem dar a ele a saudação comum, “Paz seja contigo”. O ódio começa pela recusa do cumprimento mais simples. No fim da história, a palavra que faltava volta: depois do abraço, “seus irmãos falaram com ele” (Gênesis 45:15, Bíblia Livre).

Em terceiro lugar, o verbo de Gênesis 50:20. O mesmo verbo hebraico descreve o plano dos irmãos e o propósito de Deus. A tradução de Keil e Delitzsch deixa o paralelo bem claro: “Vós, na verdade, tínheis o mal em mente contra mim, mas Deus o tinha em mente para o bem”. Há dois planos sobre o mesmo acontecimento, e eles não têm a mesma natureza moral.

1. A promessa dentro de uma família ferida

A casa de Jacó pertence à história da aliança e, ainda assim, está marcada por favoritismo, competição e ressentimento. José recebe do pai uma distinção visível, e os seus sonhos aumentam a hostilidade: “E vendo seus irmãos que seu pai o amava mais que a todos os seus irmãos, odiavam-lhe” (Gênesis 37:4, Bíblia Livre). Os irmãos decidem calar o sonhador.

A Bíblia não transforma famílias escolhidas em famílias perfeitas. A graça não apaga automaticamente padrões destrutivos. O favoritismo de uma geração pode virar rivalidade na geração seguinte. Isaque amava Esaú, “mas Rebeca amava a Jacó” (Gênesis 25:28, Bíblia Livre), e agora Jacó prefere José. Feridas não tratadas procuram novos corpos nos quais continuar. Adam Clarke tirou daqui um alerta: “Como são ruinosas as divisões numa família! Uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir.” E pediu aos pais que a própria conduta não fosse “a primeira e mais poderosa causa dessas desavenças” (Comentário sobre a Bíblia, reflexões sobre Gênesis 37).

José é lançado numa cisterna e vendido. O texto mostra a frieza do plano. Os irmãos veem José de longe e, antes que ele chegue perto, “tramaram contra ele para matar-lhe” (Gênesis 37:18, Bíblia Livre). Joseph Benson, comentarista metodista, observa que eles não pensaram em matar o irmão “num acesso de raiva, ou por uma provocação repentina”, mas “com malícia premeditada, e a sangue-frio”. Depois de jogá-lo na cisterna vazia, “sentaram-se a comer pão” (Gênesis 37:25, Bíblia Livre).

O texto chama os irmãos à responsabilidade. Nenhuma declaração posterior sobre a providência transforma tráfico de pessoas, mentira ou crueldade em etapas moralmente boas.

Essa precisão é indispensável. Deus não precisa que chamemos o mal de bem para defender o seu governo. A soberania dele aparece justamente porque o mal continua sendo mal e, mesmo assim, não consegue frustrar a sua promessa.

2. “O Senhor era com José”

No Egito, José perde a família, a liberdade e a posição. Torna-se escravo na casa de Potifar. A narrativa repete que o Senhor estava com ele: “Mas o SENHOR foi com José, e foi homem próspero” (Gênesis 39:2, Bíblia Livre). A mesma frase volta quando ele já está na prisão: “Mas o SENHOR foi com José, e estendeu a ele sua misericórdia” (Gênesis 39:21, Bíblia Livre).

Benson comenta o versículo 2:

“Os que podem nos separar de todos os nossos amigos não podem nos privar da presença graciosa do nosso Deus. Quando José não tinha consigo nenhum dos seus parentes, tinha consigo o seu Deus, até na casa do egípcio.”

(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Gênesis 39:2)

A presença de Deus não significa ausência de sofrimento. José prospera nas suas responsabilidades, mas a sua fidelidade diante da tentativa de sedução termina numa falsa acusação e na prisão. O Salmo 105 lembra o preço: “Amarraram seus pés em correntes; ele foi preso com ferros” (Salmo 105:18, Bíblia Livre). Obedecer não deu a José proteção imediata contra a injustiça.

Isso confronta uma fé de troca, que raciocina assim: se eu fizer tudo certo, nada de ruim vai acontecer. A Escritura oferece algo mais profundo. Deus pode estar conosco no lugar que nunca teríamos escolhido, sustentando uma fidelidade cujo fruto ainda não vemos. Anos depois, José vai dar ao segundo filho um nome que guarda essa experiência: “Deus me fez frutífero na terra de minha aflição” (Gênesis 41:52, Bíblia Livre). Repare que a terra continua sendo de aflição, e é ali mesmo que ele dá fruto.

Também devemos ler a cena com atenção ao poder. José é escravo e está vulnerável diante da mulher do seu senhor. A recusa dele revela temor de Deus e cuidado com a integridade: “como, pois, faria eu este grande mal e pecaria contra Deus?” (Gênesis 39:9, Bíblia Livre). Porém, essa história não deve ser usada para sugerir que toda pessoa assediada consegue escapar, nem que as vítimas são culpadas quando a violência acontece.

3. A providência usa caminhos comuns

Na história de José, não há mar aberto nem fogo descendo do céu. Há administração, sonhos, memória, esquecimento, fome, viagens e decisões políticas. Deus trabalha por meio de uma sequência de acontecimentos que, vistos isoladamente, parecem desconexos. O copeiro, solto da prisão, esquece o rapaz que interpretou o seu sonho: “E o chefe dos copeiros não se lembrou de José, ao invés disso lhe esqueceu” (Gênesis 40:23, Bíblia Livre). Só “passados dois anos” (Gênesis 41:1) ele vai se lembrar.

Matthew Henry, pastor presbiteriano britânico do começo do século XVIII, olhou para o fim do capítulo 37 e viu cada personagem satisfeita com o que tinha conseguido:

“Vemos com espanto os caminhos da Providência. Os irmãos maldosos parecem ter alcançado os seus fins; os mercadores, que não se importam com o que negociam desde que lucrem, também alcançaram os seus; e Potifar, tendo conseguido um belo escravo jovem, alcançou o dele! Porém, por esses meios, os desígnios de Deus estão a caminho de se cumprir.”

(Matthew Henry, Comentário conciso sobre toda a Bíblia, Gênesis 37:31–36)

A providência é o cuidado contínuo pelo qual Deus sustenta a criação e conduz a história segundo os seus propósitos. Ela inclui ações extraordinárias, mas não depende delas. O copeiro se lembrar de José no momento da crise pode parecer um detalhe, mas esse detalhe se torna parte do caminho pelo qual um prisioneiro chega diante de Faraó. “O coração do homem planeja seu caminho, mas é o SENHOR que dirige seus passos” (Provérbios 16:9, Bíblia Livre).

Isso não nos autoriza a decifrar cada atraso como mensagem secreta. José só reconhece certos sentidos olhando para trás, e mesmo então não explica cada lágrima. John Wesley, no sermão Sobre a providência divina, admitia a dificuldade: “É difícil, de fato, compreender isso; mais ainda, é difícil crer, considerando a maldade complicada e a miséria complicada que vemos por todos os lados.” Ainda assim, dizia ele, precisamos crer, “embora seja certo que ninguém pode compreender” (§13). A fé confia no caráter de Deus sem transformar a vida numa caça ansiosa a sinais.

4. Deus não é o autor do pecado

Gênesis 50:20 coloca lado a lado duas intenções. Os irmãos pretendem o mal. Deus pretende a preservação de muitas vidas. O mesmo acontecimento histórico pode ser atravessado por agentes e propósitos moralmente diferentes.

Tiago afirma que Deus não tenta ninguém com o mal: “Ninguém, quando for tentado, diga: ‘Sou tentado por Deus’; porque Deus não é tentado pelo mal” (Tiago 1:13, Bíblia Livre). E mostra de onde vem a tentação: “cada um é tentado quando é atraído e seduzido pelo seu próprio mau desejo” (Tiago 1:14, Bíblia Livre). Wesley comenta esse versículo nas suas Notas explicativas: “Devemos, portanto, buscar a causa de todo pecado dentro de nós, e não fora.” Os irmãos não são instrumentos inocentes nem marionetes. Agem por inveja e respondem por isso. Deus não injeta maldade no coração deles, mas governa uma história que inclui decisões pecaminosas e conduz o seu propósito sem se tornar pecador.

Jacó Armínio, professor de teologia em Leiden, escreveu na Declaração de Sentimentos (1608):

“Coloco sob a providência divina tanto o livre-arbítrio quanto as próprias ações da criatura racional, de modo que nada pode ser feito sem a vontade de Deus, nem mesmo aquilo que é feito contra ela; apenas devemos observar uma distinção entre as boas ações e as más, dizendo que ‘Deus quer e realiza as boas ações’, mas que ‘ele apenas permite livremente as más’.”

(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, II)

E acrescentou que aceitava atribuir à providência todas as ações relacionadas ao mal, com uma só cautela: “não concluir dessa concessão que Deus é a causa do pecado”. A linha arminiana não diminui o governo de Deus. Ela afirma que nada escapa a esse governo e distingue o bem que Deus quer e faz do mal que ele permite, limita e vence.

Num debate em Leiden sobre a providência de Deus diante do mal, Armínio usou José como exemplo. Deus impediu que os irmãos matassem José e permitiu a venda, mas dirigiu aquele pecado para um fim que eles não queriam: os maus pensamentos dos irmãos “foram transformados por Deus em benefício, não só para José, mas também para toda a família de Jacó e para todo o reino do Egito” (Debates públicos, IX.17).

E a frase mais difícil do texto, “não me enviastes vós aqui, mas sim Deus” (Gênesis 45:8, Bíblia Livre)? No mesmo debate, Armínio explica que, depois de concluir a venda, os irmãos não se importaram com o lugar para onde José seria levado nem com o futuro dele, mas Deus fez com que ele fosse conduzido ao Egito e o elevou a um posto de destaque naquela terra (Debates públicos, IX.20). Os irmãos venderam José e lavaram as mãos. O rumo que a vida dele tomou dali em diante foi obra de Deus.

Por que Deus não arranca de uma vez o mal do mundo? Wesley respondeu que, para isso, Deus teria de destruir a liberdade que deu ao ser humano criado à sua imagem:

“Toda a multiforme sabedoria de Deus (assim como todo o seu poder e bondade) se manifesta em governar o homem como homem; não como um tronco ou uma pedra, mas como um espírito inteligente e livre, capaz de escolher o bem ou o mal. Nisto aparece a profundidade da sabedoria de Deus na sua adorável providência: em governar os homens de modo a não destruir o entendimento, a vontade ou a liberdade deles.”

(John Wesley, sermão Sobre a providência divina, §15)

Há mistério nessa confissão. A Bíblia não oferece um mecanismo filosófico completo para cada relação entre a ação divina e a liberdade humana. Ela nos dá limites seguros: Deus é santo, os seres humanos são responsáveis, o mal é real e a graça divina é capaz de vencer o mal.

Na tradição wesleyana, a soberania de Deus nunca precisa ser defendida à custa do seu caráter santo e amoroso. Ele age antes, sustenta, adverte e redime, e nunca é a fonte moral da crueldade que condena.

5. Perdão que não reescreve a violência

José se revela aos irmãos, chora, oferece sustento e recusa a vingança. A emoção é tão forte que ele não consegue mais se conter (Gênesis 45:1). Clarke observa que o verbo hebraico (hit’appek) é muito enfático: quer dizer “forçar-se, fazer algo contra a natureza, fazer violência a si mesmo”.

O perdão de José não começa chamando a venda de mal-entendido. Ele dá nome ao que aconteceu: “Eu sou José vosso irmão o que vendestes para o Egito” (Gênesis 45:4, Bíblia Livre). João Calvino, o reformador de Genebra, comenta essa frase:

“Ao contar que tinha sido vendido, ele não renova a memória da culpa deles com a intenção de repreendê-los, mas só porque é sempre proveitoso que o senso do pecado permaneça, desde que um terror desmedido não engula o infeliz depois que ele reconheceu a sua falta.”

(João Calvino, Comentário sobre Gênesis, 45:4)

Perdoar significa renunciar à vingança pessoal e entregar o juízo a Deus. Paulo escreve: “Não vos vingueis por vós mesmos, amados. Em vez disso, dai lugar à ira divina” (Romanos 12:19, Bíblia Livre). É isso que está na pergunta de José. Perdoar não significa apagar a memória, dispensar o arrependimento, remover toda consequência ou restaurar imediatamente a mesma proximidade. A reconciliação é um processo entre pessoas que exige verdade e, quando houve abuso, mudança e segurança.

A própria narrativa mostra tempo, testes e observação antes da revelação de José. Os irmãos chegam a confessar entre si: “Verdadeiramente pecamos contra nosso irmão” (Gênesis 42:21, Bíblia Livre). Judá, que tinha proposto vender José, oferece a si mesmo como escravo no lugar de Benjamim (Gênesis 44:33). Calvino observa que, enquanto o ofensor se faz de surdo, é preciso mais severidade, “mas o rigor deve ter os seus limites”, e, assim que o culpado se prostra, deve vir a moderação que levanta o abatido “pela esperança do perdão” (Comentário sobre Gênesis, 45:3). Não precisamos imitar cada ação de José como técnica, mas podemos perceber que a reconciliação não foi tratada como sentimentalismo instantâneo.

José tem poder para punir e escolhe sustentar: “eu sustentarei a vós e a vossos filhos. Assim os consolou, e lhes falou ao coração” (Gênesis 50:21, Bíblia Livre). A misericórdia dele quebra a repetição da violência familiar. A graça não altera o passado, mas impede que o passado determine sozinho o futuro.

6. Deus preserva uma promessa maior

A fome ameaça não apenas uma família, mas a linhagem dentro da qual Deus prometeu abençoar as nações: “em ti todas as famílias da terra serão benditas” (Gênesis 12:3, Bíblia Livre). José administra alimento e preserva vidas. A vocação pública dele se torna parte da fidelidade da aliança.

Há ressonâncias que preparam o coração para Cristo: o rejeitado se torna instrumento de vida para os que o rejeitaram; a humilhação é seguida de exaltação; o poder é usado para alimentar. O Novo Testamento não apresenta José formalmente como tipo em cada detalhe, por isso evitamos transformar semelhanças em correspondências rígidas. Clarke, ao listar os paralelos que outros viam entre José e Cristo, avisou: “não me comprometo com a propriedade de nenhum deles”. Keil e Delitzsch fazem uma distinção útil:

“Ele foi de fato um benfeitor, não só para os seus irmãos e para toda a casa de Israel, mas também para os egípcios; porém a salvação, isto é, a ajuda e a formação espiritual, ele não a trouxe nem aos gentios nem à casa de Israel. […] a salvação deve chegar às nações por meio de Judá.”

(Carl F. Keil e Franz Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, introdução a Gênesis 37)

Repare na surpresa: Judá, o irmão que propôs vender José, é o antepassado do Rei prometido (Gênesis 49:10; Mateus 1:2–3).

Jesus é maior. Ele não apenas distribui pão durante uma fome, mas entrega a própria vida pelos inimigos, ressuscita e forma uma família reconciliada. José alimentou os irmãos que o venderam. Cristo morreu por nós “quando éramos inimigos” (Romanos 5:10, Bíblia Livre).

Quando não enxergamos o desenho inteiro, a história de José não promete que toda perda terá nesta vida um desfecho visivelmente semelhante. Ela anuncia que nenhum mal tem soberania final. Agostinho escreveu que Deus, sendo sumamente bom, “jamais permitiria a existência de qualquer mal entre as suas obras, se não fosse tão onipotente e bom que pode tirar o bem até do mal” (Enchiridion, 11). Em Cristo, nem a tribulação, nem a perseguição, nem a morte podem nos separar do amor de Deus: “nem a morte, nem a vida […] nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38–39, Bíblia Livre).

Para conversar com Deus

  • Você confunde a presença de Deus com a ausência de sofrimento?
  • Em que situação você precisa dar nome ao mal sem se entregar à vingança?
  • Há um lugar silencioso no qual Deus chama você à integridade?
  • Você exige compreender toda a história antes de confiar?

Oração de resposta

Senhor da história, tu permaneces santo quando os seres humanos praticam o mal. Perdoa-nos pelas vezes em que ferimos, invejamos, manipulamos ou buscamos vingança. Sustenta quem foi traído, abusado ou esquecido. Dá-nos integridade no oculto, paciência quando não vemos o sentido e coragem para procurar verdade e segurança. Livra-nos de usar a tua providência para diminuir a dor de alguém. Em Cristo, vence o mal sem chamá-lo de bem e faz-nos cooperadores da graça que preserva vidas. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

Como Deus age quando pessoas planejam e praticam o mal?

Resposta para guardar

Deus é santo e jamais é a fonte moral do pecado. As pessoas e os poderes que praticam o mal continuam responsáveis. Porém, nenhuma ação pecaminosa escapa ao alcance da sua providência: Deus pode limitar, redirecionar e vencer os efeitos do mal, conduzindo a história para os seus propósitos de justiça e de graça. Por isso, não chamamos o mal de bem nem explicamos toda dor. Confiamos no caráter de Deus revelado em Jesus, resistimos ao pecado, buscamos proteção e cooperamos com a restauração.

Textos para conferir

Gênesis 39:2, 21–23; 45:4–8; 50:15–21; Salmo 105:16–22; Romanos 8:28–39; Tiago 1:13–17.

Oração

Deus fiel, quando os teus caminhos estiverem ocultos, conserva-nos perto do teu coração. Impede-nos de praticar o mal e usa-nos para preservar, proteger e reconciliar. Amém.

Hino para guardar no coração

Deus da minha vida

Autor: Charles Wesley

Título original: “God of My Life, Whose Gracious Power”

Fonte: Hymns and Sacred Poems (1740), “At the Approach of Temptation”, estrofes selecionadas 1–3 e 9

Versão: tradução devocional em português do Brasil, sem métrica para canto

Deus da minha vida, cujo poder gracioso
me conduziu através de tantos perigos,
desviou a hora fatal
ou levantou a minha cabeça quando eu afundava.

Em todos os meus caminhos reconheço a tua mão
e contemplo a tua providência que governa.
Ajuda-me a continuar a minha jornada
e dirige sempre os meus passos para ti.

Sobre ti lanço a minha alma desamparada,
esperando provar novamente a tua graça.
Trago à memória as maravilhas passadas,
as incontáveis maravilhas do teu amor.

Para onde eu poderia fugir
senão para junto do meu Salvador amoroso?
Deixa-me repousar seguro em teus braços,
protegido sob a sombra das tuas asas.

Melodia: UXBRIDGE, de Lowell Mason, 1830

Em inglês, o hino costuma ser cantado com esta melodia de Lowell Mason, uma das mais usadas para os textos de Wesley em métrica longa. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.

Para meditar

O hino reconhece a providência sem dizer que o poeta compreende cada caminho. A mão que governa também dirige para Deus, acolhe o desamparado e oferece repouso. A memória das graças passadas sustenta a confiança presente.

Pergunta: Que sinal da fidelidade de Deus no passado pode sustentar você sem obrigar você a explicar a sua dor atual?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Agostinho. Enchiridion, cap. 11. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, série 1, vol. 3.
  • Armínio, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608), II (“Da providência de Deus”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
  • Armínio, Jacó. Debates públicos, IX (“Sobre a justiça e a eficácia da providência de Deus a respeito do mal”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Gênesis 37:18–19 e 39:2.
  • Calvino, João. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis, 45:3 e 45:4.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Gênesis 37:2, 45:1 e reflexões finais sobre Gênesis 37 e 39.
  • Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Gênesis 37:31–36.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, Gênesis 37 (introdução e 37:3–4) e 50:20.
  • Wesley, John. Sermão 67, On Divine Providence, §13 e §15.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Tiago 1:14.

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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