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Santos porque ele é santo

Vem Andar Comigo, Semana 10 · Domingo: O SENHOR chamou Moisés da tenda

Diego Gonçalves25 min de leitura4.982 palavras

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Neste texto

Tema: sacrifício, expiação, purificação e amor santo
Leituras principais: Levítico 1:1–9; 5:7–13; 16:1–34; 19:1–18, 33–37
Leituras complementares: Salmo 51; Isaías 53:4–12; Romanos 3:21–26; 12:1–2; Hebreus 9:11–14; 10:1–25; 1 Pedro 1:13–21
Verdade central: O Deus santo confronta o pecado, provê expiação e purificação e chama o seu povo a uma santidade que toma forma no amor a Deus e ao próximo.

O SENHOR chamou Moisés da tenda

Êxodo termina com a glória do SENHOR enchendo o tabernáculo, a ponto de nem Moisés conseguir entrar (Êxodo 40:35). Levítico começa com Deus chamando Moisés de dentro da tenda e ensinando como Israel vai viver diante da sua presença: “E chamou o SENHOR a Moisés, e falou com ele desde o tabernáculo do testemunho” (Levítico 1:1, Bíblia Livre).

O livro que muitos consideram distante nasce de uma pergunta pastoral: como um povo pecador pode continuar perto do Deus santo sem ser consumido pelo pecado e sem tornar banal a comunhão com ele?

Muitos leitores param a leitura da Bíblia em Levítico. Porém, quem lê com paciência descobre que o livro trata das perguntas mais fundas da fé: o que fazer com a culpa, como ser limpo de novo, como viver perto de Deus e como amar o próximo no dia a dia.

O texto

Leitura principal: Levítico 1:1–9; 5:7–13; 16:1–34; 19:1–18, 33–37

Leitura: Levítico 1:1–9; 16:7–10, 15–22; 19:1–2, 9–18

E chamou o SENHOR a Moisés, e falou com ele desde o tabernáculo do testemunho, dizendo:

Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum dentre vós oferecer oferta ao SENHOR, de gado vacum ou ovelha fareis vossa oferta.

Se sua oferta for holocausto de vacas, macho sem mácula o oferecerá: de sua vontade o oferecerá à porta do tabernáculo do testemunho diante do SENHOR.

E porá sua mão sobre a cabeça do holocausto; e ele o aceitará para expiar-lhe.

Então degolará o bezerro na presença do SENHOR; e os sacerdotes, filhos de Arão, oferecerão o sangue, e o espargirão ao redor sobre o altar, o qual está à porta do tabernáculo do testemunho.

E tirará a pele do holocausto, e o dividirá em suas peças.

E os filhos de Arão sacerdote porão fogo sobre o altar, e porão a lenha sobre o fogo.

Logo os sacerdotes, filhos de Arão, acomodarão as peças, a cabeça e o redenho, sobre a lenha que está sobre o fogo, que haverá em cima do altar:

E lavará com água seus intestinos e suas pernas: e o sacerdote fará arder tudo sobre o altar: holocausto é, oferta acesa de cheiro suave ao SENHOR.

(Levítico 1:1-9, Bíblia Livre)

Depois tomará os dois machos de bode, e os apresentará diante do SENHOR à porta do tabernáculo do testemunho.

E lançará sortes Arão sobre os dois machos de bode; uma sorte pelo SENHOR, e a outra sorte por Azazel.

E fará achegar Arão o bode macho sobre o qual cair a sorte pelo SENHOR, e o oferecerá em expiação.

Mas o bode macho, sobre o qual cair a sorte por Azazel, o apresentará vivo diante do SENHOR, para fazer a reconciliação sobre ele, para enviá-lo a Azazel ao deserto.

Depois degolará em expiação o bode macho, que era do povo, e meterá o sangue dele do véu dentro; e fará de seu sangue como fez do sangue do bezerro, e espargirá sobre o propiciatório e diante do propiciatório:

E limpará o santuário, das imundícias dos filhos de Israel, e de suas rebeliões, e de todos os seus pecados: da mesma maneira fará também ao tabernáculo do testemunho, o qual reside entre eles em meio de suas imundícias.

E nenhum homem estará no tabernáculo do testemunho quando ele entrar a fazer a reconciliação no santuário, até que ele saia, e haja feito a reconciliação por si, e por sua casa, e por toda a congregação de Israel.

E sairá ao altar que está diante do SENHOR, e o expiará; e tomará do sangue do bezerro, e do sangue do bode macho, e porá sobre as pontas do altar ao redor.

E espargirá sobre ele do sangue com seu dedo sete vezes, e o limpará, e o santificará das imundícias dos filhos de Israel.

E quando houver acabado de expiar o santuário, e o tabernáculo do testemunho, e o altar, fará chegar o bode macho vivo:

E porá Arão ambas as mãos suas sobre a cabeça do bode macho vivo, e confessará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas suas rebeliões, e todos os seus pecados, pondo-os assim sobre a cabeça do bode macho, e o enviará ao deserto por meio de um homem destinado para isto.

E aquele bode macho levará sobre si todas as iniquidades deles a terra inabitada: e deixará ir o bode macho pelo deserto.

(Levítico 16:7-10,15-22, Bíblia Livre)

E falou o SENHOR a Moisés, dizendo:

Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Santos sereis, porque santo sou eu o SENHOR vosso Deus.

Quando ceifardes na colheita de vossa terra, não acabarás de ceifar o canto de tua plantação, nem espigarás tua terra ceifada.

E não coletarás os restos de tua vinha, nem recolherás as uvas caídas de tua vinha; para o pobre e para o estrangeiro os deixarás: Eu sou o SENHOR vosso Deus.

Não furtareis, e não enganareis, nem mentireis ninguém a seu próximo.

E não jurareis em meu nome com mentira, nem profanarás o nome de teu Deus: Eu sou o SENHOR.

Não oprimirás a teu próximo, nem lhe roubarás. Não se deterá o trabalho do assalariado em tua casa até a manhã.

Não amaldiçoes ao surdo, e diante do cego não ponhas tropeço, mas terás temor de teu Deus: Eu sou o SENHOR.

Não farás injustiça no juízo: não favorecerás deslealmente ao pobre, nem honrarás a face do poderoso: com justiça julgarás a teu próximo.

Não andarás propagando boatos em teus povos. Não te porás contra o sangue de teu próximo: Eu sou o SENHOR.

Não aborrecerás a teu irmão em teu coração: francamente repreenderás a teu próximo, e não consentirás sobre ele pecado.

Não te vingarás, nem guardarás rancor aos filhos de teu povo: mas amarás a teu próximo como a ti mesmo: Eu sou o SENHOR.

(Levítico 19:1-2,9-18, Bíblia Livre)

Para entender o texto

Levítico continua a história de Êxodo. O tabernáculo acabou de ser erguido (Êxodo 40:17), e o povo ainda está acampado no Sinai. Wesley diz que o livro “contém os acontecimentos de cerca de um mês”.

O nome hebraico do livro é a sua primeira palavra, Vaiyikra, que quer dizer “E ele chamou”, como lembra Adam Clarke. O livro inteiro responde a esse chamado: Deus fala primeiro e abre o caminho. O nome Levítico veio da tradução grega, porque o livro trata do serviço dos sacerdotes da tribo de Levi.

Três palavras hebraicas ajudam a ler o livro.

Em primeiro lugar, oferta (qorban), da mesma raiz do verbo “aproximar-se” (qarab). Clarke explica que a palavra indica “uma oferta ou presente pelo qual uma pessoa tinha acesso a Deus”. Em Levítico, porém, é Deus quem diz o que trazer e quem abre a porta.

Em segundo lugar, expiar (kipper). O verbo aparece dezenas de vezes no livro (Levítico 1:4; 5:10, 13; 16:30; 17:11). Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, explicam que expiar quer dizer “cobrir um homem não santo diante do Deus santo, ou cobrir o pecador da ira de Deus”. O próprio Levítico liga a expiação ao sangue: “Porque a vida da carne no sangue está: e eu vos a dei para expiar vossas pessoas sobre o altar” (Levítico 17:11, Bíblia Livre).

Em terceiro lugar, santo (qadosh). A palavra traz a ideia de separação: o que é santo pertence a Deus e foi separado para ele. Comentando Levítico 19:2, Wesley diz que os santos são aqueles “separados de todas as contaminações acima mencionadas, e inteiramente consagrados a Deus e obedientes a todas as suas leis”. A santidade de Israel nasce da santidade de Deus: “Santos sereis, porque santo sou eu o SENHOR vosso Deus” (Levítico 19:2, Bíblia Livre).

1. Deus provê a aproximação

Levítico 1 começa com uma oferta que sobe inteira em fumaça, chamada holocausto ou oferta queimada (em hebraico, olah, “o que sobe”). O adorador traz um animal sem defeito, põe a mão sobre a cabeça dele e participa do processo, e os sacerdotes cuidam do sangue e do altar.

O gesto da mão identifica o ofertante com a sua oferta e apresenta essa oferta em favor dele: “E porá sua mão sobre a cabeça do holocausto; e ele o aceitará para expiar-lhe” (Levítico 1:4, Bíblia Livre). O texto fala de aceitação e expiação, mas não explica cada detalhe com uma única teoria. Devemos evitar dizer mais do que a passagem afirma.

Porém, a direção do gesto é clara, e a tradição cristã leu esse gesto à luz da cruz. Wesley comenta assim a mão posta sobre a cabeça do animal:

“Com isso ele significava que o entregava de boa vontade ao Senhor; que se julgava digno daquela morte que o animal sofria em seu lugar; que punha sobre ele os seus pecados, com os olhos naquele sobre quem Deus faria cair a iniquidade de todos nós (Isaías 53:6); e que, juntamente com ele, oferecia livremente a si mesmo a Deus.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Levítico 1:4)

A oferta tem custo real, mas não compra a atenção de um Deus relutante. Foi o próprio Deus quem abriu esse caminho. Além disso, o capítulo permite gado, ovelhas, cabras ou aves, conforme as posses de cada um. Wesley observa que as rolinhas “foram designadas para os pobres, que não podiam trazer coisa melhor”. Em outras ofertas, quem não podia trazer animal recebia uma provisão ainda mais acessível: um pouco de farinha (Levítico 5:11). João Calvino, o reformador de Genebra, tirou disso uma conclusão: aos pobres se mandava oferecer “duas rolinhas ou um pouco de farinha, que tornariam Deus propício a eles tanto quanto a vítima exigida do rico”. A graça não fecha a porta ao pobre.

O culto, portanto, não celebra a capacidade financeira. Ele ensina que aproximar-se do Santo envolve a vida inteira e depende do meio que ele mesmo provê.

2. Muitas ofertas, uma comunhão ordenada

Os primeiros capítulos de Levítico descrevem ofertas queimadas, de cereal, de comunhão, de purificação e de reparação. Elas expressam consagração, gratidão, mesa compartilhada, purificação de impureza e responsabilidade por dano. Algumas situações exigem restituição.

Wesley resume essa variedade: “Há aqui prescritos diversos tipos de sacrifícios: alguns como reconhecimento a Deus por misericórdias desejadas ou recebidas; outros como satisfação a Deus pelos pecados dos homens; outros eram meros exercícios de devoção.”

Essa diversidade impede uma explicação rasa. Nem todo sacrifício responde ao mesmo problema, e nem todo sangue tem exatamente a mesma função em cada rito. O pecado traz culpa, mas também contamina as relações e o santuário; a comunhão requer perdão, limpeza e reparação.

Hebreus diz: “Segundo a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não há perdão de pecados” (Hebreus 9:22, Bíblia Livre). A palavra “quase” importa. Wesley lembra que algumas coisas “eram purificadas com água ou com fogo”. E Levítico 5 permite farinha como oferta de purificação para quem não podia oferecer aves: “E fará o sacerdote expiação por ele de seu pecado que cometeu em alguma destas coisas, e será perdoado” (Levítico 5:13, Bíblia Livre). O perdão nunca dependeu do poder de compra do adorador.

O centro é a provisão misericordiosa de Deus. O sistema forma Israel na seriedade do pecado e na possibilidade de restauração. Ele também é provisório: precisa ser repetido e aponta para uma solução maior. Hebreus observa que “nesses sacrifícios a cada ano se faz uma nova lembrança dos pecados, porque é impossível que o sangue de touros e de bodes tire pecados” (Hebreus 10:3–4, Bíblia Livre).

3. O sangue representa a vida oferecida

Levítico liga sangue e vida. O sangue não é um objeto mágico, mas o sinal de uma vida entregue a Deus e aplicada segundo a ordem dele para expiação e purificação.

O pecado produz morte e rompe a comunhão. Por isso, não deve ser tratado como defeito superficial. Ao mesmo tempo, o sistema de sacrifícios anuncia que Deus não abandona o seu povo ao rompimento. Ele recebe a vida oferecida e restaura o caminho da aliança.

Não precisamos imaginar um Pai cruel que precisa ser convencido a amar. A provisão começa no próprio Deus: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito” (João 3:16, Bíblia Livre). No evangelho, Pai, Filho e Espírito agem em unidade para salvar. O Filho se entrega voluntariamente; o Pai oferece o Filho em amor; o Espírito aplica e testemunha essa obra.

Porém, o amor de Deus não passa por cima da sua justiça. O Deus santo não chama o mal de bem. Por isso a cruz é expiação substitutiva: Cristo tomou o nosso lugar e levou o castigo que o nosso pecado merecia. “Porém ele foi ferido por nossas transgressões, e esmagado por nossas perversidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Isaías 53:5, Bíblia Livre). Wesley comenta que esses castigos “foram postos sobre ele pela justiça de Deus, com o seu próprio consentimento”. O Filho não foi arrastado para o altar. Ele se ofereceu.

Paulo diz que Deus propôs Jesus “por sacrifício de reconciliação, pela fé em seu sangue, para demonstrar a sua justiça” (Romanos 3:25, Bíblia Livre). A teologia chama isso de satisfação: na cruz, a justiça de Deus foi satisfeita, e por isso ele pode perdoar o culpado sem deixar de ser justo (Romanos 3:26). Wesley, que lia ali a palavra “propiciação”, comenta: “Para aplacar um Deus ofendido. Mas, se, como alguns ensinam, Deus nunca foi ofendido, não havia necessidade desta propiciação. E, se é assim, Cristo morreu em vão.”

Jacó Armínio, professor em Leiden, numa oração acadêmica de 1603 imagina a Justiça e a Misericórdia de Deus em disputa, até que a Sabedoria encontra a saída:

“Se o castigo devido ao pecado parecia desejável para a Justiça e odioso para a Misericórdia, ele poderia ser transformado num sacrifício expiatório, cuja oferta, por causa do sofrimento voluntário da morte (que é o castigo determinado para o pecado), aplacaria a Justiça e abriria para a Misericórdia o caminho que ela desejava.”

(Jacó Armínio, Oração sobre o sacerdócio de Cristo, 1603)

Na cruz, a justiça e a misericórdia de Deus não brigam. Elas se encontram.

E por quem Cristo morreu? Por todos. Isaías diz que “o SENHOR fez vir sobre ele a perversidade de todos nós” (Isaías 53:6, Bíblia Livre). Hebreus diz que Jesus veio “a fim de que, pela graça de Deus, experimentasse a morte por todos” (Hebreus 2:9, Bíblia Livre). João diz que ele é o sacrifício pelos nossos pecados, “e não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo” (1 João 2:2, Bíblia Livre). Wesley, no sermão A justificação pela fé, usa as palavras da liturgia anglicana da Ceia:

“E, por aquela única oferta de si mesmo, feita uma vez, ele redimiu a mim e a toda a humanidade, tendo feito assim ‘um sacrifício e uma satisfação completos, perfeitos e suficientes pelos pecados do mundo inteiro’.”

(John Wesley, sermão A justificação pela fé, I.7)

O preço pago por todos, porém, não quer dizer que todos serão salvos sem fé. Armínio distinguiu dois sentidos da frase “Cristo morreu por todos”:

“Ela pode querer dizer que ‘o preço da morte de Cristo foi dado por todos e por cada um’, ou que ‘a redenção obtida por meio desse preço é aplicada e comunicada a todos e a cada um’. […] Desta segunda opinião eu discordo inteiramente, porque Deus resolveu, por um decreto definitivo, que somente os crentes se tornem participantes desta redenção.”

(Jacó Armínio, Artigos a examinar, XII)

A expiação é suficiente para todos e eficaz para os que creem. A fé não acrescenta nada ao preço que Cristo pagou: ela é a mão vazia que recebe o presente, e até essa mão é aberta pela graça. Quem fica de fora não fica por falta de sacrifício, mas porque recusa o sacrifício que foi oferecido também por ele.

A cruz assume e supera a linguagem dos sacrifícios. Nela há oferta, aliança, purificação, perdão, vitória sobre os poderes, representação e reconciliação. Nenhuma imagem isolada esgota o mistério do amor santo que enfrenta o pecado.

4. O Dia da Expiação

Levítico 16 descreve um rito anual para o sacerdote, o povo e o santuário. O sumo sacerdote entra no Santo dos Santos com sangue, incenso e temor. Dois bodes participam de movimentos complementares: um é sacrificado; sobre o outro são confessadas as iniquidades, e ele leva essas iniquidades para fora do acampamento: “E aquele bode macho levará sobre si todas as iniquidades deles a terra inabitada” (Levítico 16:22, Bíblia Livre).

O rito mostra que o pecado não é apenas um problema interno do indivíduo. Ele polui a vida comum e ameaça a habitação de Deus entre o povo. A expiação purifica o santuário, remove as transgressões e restaura a comunhão da aliança. Wesley explica por que até o lugar onde o povo não entrava precisava ser purificado:

“Pois, embora o povo não entrasse naquele lugar, os seus pecados entravam lá e impediriam os efeitos da mediação do sumo sacerdote em favor deles, se Deus não se reconciliasse com eles.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Levítico 16:16)

O texto diz que o segundo bode era sorteado “por Azazel” (Levítico 16:8). Os comentaristas leem essa palavra de três maneiras. Adam Clarke e Joseph Benson, ambos metodistas, entendem que ela descreve o próprio animal, “o bode despedido ou enviado embora”; Benson achava esse “o sentido mais literal e óbvio”, e daí vem a expressão “bode emissário”. Calvino via ali o nome de um lugar no deserto: a palavra “designa o lugar para onde o bode emissário era levado”. Keil e Delitzsch pensam num ser pessoal, o chefe dos espíritos maus, mas eles mesmos insistem: “Não há a menor ideia de apresentar um sacrifício a Azazel.” O texto não resolve a questão, e não precisamos decidir além dele: as iniquidades confessadas são levadas para longe, e toda a expiação acontece diante do SENHOR.

O bode enviado ao deserto oferece uma imagem poderosa de remoção. A culpa confessada não precisa ser carregada para sempre como identidade. Contudo, esse rito também se repetia a cada ano. O próprio calendário testemunhava que a obra ainda não estava concluída.

Hebreus apresenta Jesus como sacerdote e oferta superiores. Ele não entra com sangue alheio, mas oferece a si mesmo de uma vez por todas: “ele entrou de uma vez por todas no Santuário, e obteve uma redenção eterna, não pelo sangue de bodes e bezerros, mas sim, pelo seu próprio sangue” (Hebreus 9:12, Bíblia Livre). A obra dele purifica a consciência para servirmos ao Deus vivo e abre um caminho permanente de aproximação.

À luz de Hebreus, a leitura cristã tradicional viu nos dois bodes duas faces da mesma obra de Cristo. Essa ligação não está escrita em Levítico, mas nasce da leitura que a Igreja fez depois da cruz. Wesley escreve que os dois bodes figuravam Cristo: “este, em sua morte e paixão por nós; aquele, em sua ressurreição para nossa libertação”.

5. “Sejam santos” chega ao campo e ao mercado

Levítico 19 começa com o chamado à santidade porque o Senhor é santo. Logo aparecem instruções sobre pais, sábado, idolatria, ofertas e colheita. As bordas do campo devem ficar para o pobre e o estrangeiro: “para o pobre e para o estrangeiro os deixarás: Eu sou o SENHOR vosso Deus” (Levítico 19:10, Bíblia Livre). Wesley explica o refrão “Eu sou o SENHOR” com palavras postas na boca do próprio Deus: “Que vos dei todas estas coisas com reserva do meu direito sobre elas, e com o encargo de dar parte delas aos pobres.” O trabalhador deve receber sem atraso (Levítico 19:13). Furto, mentira, opressão e exploração do vulnerável são proibidos.

A santidade também toca palavras e afetos: não espalhar calúnia, não cultivar ódio, repreender com responsabilidade, não buscar vingança e amar o próximo como a si mesmo: “Não te vingarás, nem guardarás rancor aos filhos de teu povo: mas amarás a teu próximo como a ti mesmo: Eu sou o SENHOR” (Levítico 19:18, Bíblia Livre). Medidas e pesos devem ser honestos. O estrangeiro deve ser amado, e não oprimido: “ama-o como a ti mesmo; porque peregrinos fostes na terra do Egito” (Levítico 19:34, Bíblia Livre).

Assim, “ser separado” não quer dizer fugir das necessidades humanas, mas pertencer ao Deus cujo caráter reorganiza culto, economia, sexualidade, fala, trabalho e convivência. Matthew Henry, pastor presbiteriano e autor de um comentário da Bíblia inteira, resumiu o capítulo numa frase: “As obras de piedade devem sempre vir acompanhadas de obras de caridade, conforme a nossa capacidade.” A santidade pessoal que ignora a injustiça social é incompleta; o ativismo social que despreza a pureza de coração também não alcança o chamado bíblico.

O amor ao próximo não é uma invenção posterior que substitui Levítico, mas está no centro do próprio capítulo, e Jesus vai confirmar esse mandamento como resumo da lei, junto com o amor a Deus (Marcos 12:31).

6. Santificados pelo amor de Cristo

Cristo oferece o sacrifício perfeito e irrepetível: “Pela sua vontade somos santificados por meio da oferta sacrificial do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez por todas” (Hebreus 10:10, Bíblia Livre). Não repetimos a expiação dele nem acrescentamos mérito a ela. Pela fé, recebemos perdão, consciência purificada e acesso ao Pai.

Essa graça não termina numa absolvição sem transformação. Romanos chama as pessoas alcançadas pela misericórdia a apresentar o corpo “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12:1, Bíblia Livre). Nós não morremos para pagar pelos pecados. Nós vivemos em consagração porque Cristo já se entregou por nós. Armínio dizia: “Somos, de fato, por favor dele, ‘um sacerdócio santo’, para oferecer sacrifícios espirituais; mas esses sacrifícios se tornam ‘aceitáveis a Deus somente por Jesus Cristo’.”

Na tradição wesleyana, inteira santificação quer dizer a obra pela qual Deus purifica o coração do domínio do pecado e o enche de amor. Ela é dom recebido pela fé e vida cultivada nos meios de graça: “E o próprio Deus da paz vos santifique em tudo […] Fiel é aquele que vos chama, e ele também o fará” (1 Tessalonicenses 5:23–24, Bíblia Livre). Ela não quer dizer incapacidade de ser tentado, conhecimento perfeito, ausência de limitações ou fim do amadurecimento, mas intenção unificada: amar a Deus com todo o ser e o próximo de modo concreto. Wesley foi claro sobre isso:

“A perfeição cristã, portanto, não implica (como alguns homens parecem ter imaginado) isenção de ignorância ou de erro, de fraquezas ou de tentações.”

(John Wesley, sermão Perfeição cristã, I.9)

O amor santo continua aprendendo, reparando erros e crescendo. Ele não se anuncia superior aos outros, mas se ajoelha diante da cruz. A chama vem do alto e precisa alcançar mãos, palavras, pensamentos, agenda e dinheiro. Comentando o fogo que não podia se apagar no altar (Levítico 6:13), Wesley escreveu: “Assim devemos conservar o fogo do santo amor sempre ardendo em nossos corações.” O Deus que expia também santifica.

Para conversar com Deus

  • Você trata o pecado como culpa abstrata ou reconhece o dano que ele causa às pessoas e às comunidades?
  • Existe algo que você precisa confessar, abandonar e reparar?
  • A sua ideia de santidade alcança o trabalho, o dinheiro, a fala e o cuidado com o vulnerável?
  • Você espera a transformação que vem da graça ou se conformou com a repetição do mesmo domínio do pecado?

Oração de resposta

Deus santo e misericordioso, tu mesmo proveste o caminho da nossa aproximação. Obrigado porque, em Cristo, levaste sobre ti o pecado do mundo. Confessamos pecados que trazem culpa, contaminam relações e ferem o próximo. Purifica-nos pela obra perfeita de Cristo, liberta a nossa consciência e ensina-nos a reparar o que danificamos. Acende em nós o fogo do amor santo. Que o nosso corpo, as nossas palavras, as nossas escolhas e os nossos recursos sejam oferecidos a ti em serviço alegre, até que amemos de coração puro. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

O que os sacrifícios de Levítico ensinam, e como eles se cumprem em Cristo?

Resposta para guardar

Os sacrifícios de Levítico ensinavam que o Deus santo leva o pecado a sério e, pela sua graça, provê expiação, purificação, reparação e comunhão para o seu povo. As diversas ofertas cumpriam funções distintas e precisavam ser repetidas. Jesus Cristo, verdadeiro sacerdote e oferta perfeita, entregou-se de uma vez por todas e morreu por todos, levando em nosso lugar o castigo do pecado e satisfazendo a justiça de Deus. Por meio dele, a nossa consciência é purificada, somos reconciliados com Deus pela fé e, pelo Espírito, somos consagrados a uma vida de amor santo a Deus e ao próximo.

Textos para conferir

Levítico 1:1–9; 5:7–13; 16:1–34; 17:11; 19:1–18, 33–37; Isaías 53:5–6; Romanos 3:21–26; 12:1–2; Hebreus 2:9; 9:11–14; 10:1–25; 1 João 2:2.

Oração

Cordeiro e sumo sacerdote, purifica-nos pela tua entrega e faz da nossa vida uma resposta de amor santo. Amém.

Hino para guardar no coração

Acende em mim o fogo do santo amor

Autor: Charles Wesley

Título original: “O Thou Who Camest from Above”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures (1762), sobre Levítico 6:13

Versão: tradução devocional em português do Brasil, sem métrica para canto

Ó tu que vieste do alto
para comunicar o puro fogo celestial,
acende uma chama de amor santo
sobre o altar humilde do meu coração.
Que ali ela arda para a tua glória
com chama que não se extingue,
e, reverente, retorne à sua fonte
em oração humilde e louvor fervoroso.

Jesus, confirma o desejo do meu coração
de trabalhar, falar e pensar para ti.
Que eu continue guardando o fogo santo
e despertando em mim o dom que concedeste.
Pronto para toda a tua perfeita vontade,
que eu repita os meus atos de fé e amor,
até que a morte sele as tuas misericórdias sem fim
e complete o sacrifício da minha vida.

Melodia: HEREFORD, de Samuel Sebastian Wesley, 1872

O hino é cantado em inglês com esta melodia, composta por Samuel Sebastian Wesley, neto de Charles Wesley. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.

Para meditar

Charles Wesley transforma o fogo contínuo do altar em oração por um amor santo contínuo. A chama não nasce do temperamento nem de uma disciplina que depende só de nós: ela vem do alto. Ainda assim, deve ser guardada no trabalho, na fala, no pensamento, na oração e no louvor. O “sacrifício” do último verso não expia pecado nem completa a obra de Cristo, mas descreve a resposta de consagração, por toda a vida, à misericórdia já recebida.

Pergunta: Em que área o amor santo precisa deixar de ser intenção e se tornar um ato repetido de fé e serviço?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Armínio, Jacó. Oração IV: O sacerdócio de Cristo (1603). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
  • Armínio, Jacó. Artigos a examinar e ponderar com diligência, XII (“Cristo morreu por todos”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Levítico 16:8.
  • Calvino, João. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony, Levítico 5:7–13 e 16:10.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, prefácio a Levítico, Levítico 1:2 e 16:10.
  • Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Levítico 19.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, Levítico 1 e 16.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, introdução a Levítico; Levítico 1:2, 1:4, 1:14, 6:5, 6:13, 16:8, 16:16, 19:2 e 19:10; Isaías 53:5.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Romanos 3:25 e Hebreus 9:22.
  • Wesley, John. Sermão 5, A justificação pela fé, I.7.
  • Wesley, John. Sermão 40, Perfeição cristã, I.9.

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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