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A voz que nos procura quando nos escondemos
Vem Andar Comigo, Semana 3 · Domingo: “Onde você está?”
Neste texto
- “Onde você está?”
- O texto
- Para entender o texto
- 1. A tentação começa distorcendo o caráter de Deus
- 2. Pecado é mais que quebrar uma regra
- 3. Vergonha, medo e acusação
- 4. O juízo revela a gravidade do mal
- 5. A promessa surge dentro do juízo
- 6. Graça que veste, expulsa e conserva a promessa
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Ele vive e reivindica para nós o jardim restaurado
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: queda, pecado, graça preveniente e promessa de redenção
Leituras principais: Gênesis 3:1–24
Leituras complementares: Salmo 51; Romanos 5:12–21; 8:18–25; 1 João 1:5–2:2; Apocalipse 22:1–5
Verdade central: O pecado rompe a nossa comunhão com Deus, desordena os nossos amores e fere todas as relações. Ainda assim, Deus procura o pecador, confronta a mentira e anuncia a vitória que vai realizar em Cristo.
“Onde você está?”
Depois de comerem do fruto, o homem e a mulher percebem que estão nus, costuram folhas e se escondem. Então vem a primeira pergunta de Deus ao ser humano caído: “E o SENHOR Deus chamou ao homem, e lhe disse: Onde estás?” (Gênesis 3:9, Bíblia Livre).
Deus não faz essa pergunta porque perdeu o homem de vista. “Onde você está?” é a voz do Deus que traz o fugitivo de volta à verdade.
John Wesley, o pregador anglicano que liderou o avivamento metodista no século XVIII, comentou essa pergunta assim:
“Essa pergunta a Adão pode ser vista como uma busca cheia de graça, para que ele fosse restaurado. Se Deus não o tivesse chamado para trazê-lo de volta, a condição dele seria tão desesperada quanto a dos anjos caídos.”
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Gênesis 3:9)
Repare em quem toma a iniciativa. O homem e a mulher não procuram Deus: eles fogem dele. Martinho Lutero, ao comentar essa cena, escreveu que “é da própria natureza do pecado que o pecador não consiga voltar para Deus”. Se a história dependesse dos fugitivos, ela terminaria escondida entre as árvores. Ela continua porque Deus vem, chama e pergunta.
O pecado nos faz esconder e, ao mesmo tempo, a graça nos procura.
O texto
Leitura principal: Gênesis 3:1–24
Leitura: Gênesis 3:1–12; 3:14–15, 21–24
Porém a serpente era astuta, mais que todos os animais do campo que o SENHOR Deus havia feito. E ela disse à mulher: Deus vos disse: Não comais de toda árvore do jardim?
E a mulher respondeu à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer;
mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.
Então a serpente disse à mulher: Não morrereis;
Mas Deus sabe que no dia que comerdes dele, vossos olhos serão abertos, e sereis como deuses, sabendo o bem e o mal.
E a mulher viu que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para se obter conhecimento. E ela tomou de seu fruto, e comeu; e deu também ao seu marido com ela, e ele comeu.
E foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus. Então coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim à brisa do dia; e o homem e sua mulher esconderam-se da presença do SENHOR Deus entre as árvores do jardim.
E o SENHOR Deus chamou ao homem, e lhe disse: “Onde estás?
E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e me escondi”.
E disse-lhe: “Quem te ensinou que estavas nu? Comeste da árvore de que te mandei que não comesses?”
E o homem respondeu: “A mulher que me deste por companheira me deu da árvore, e eu comi”.
(Gênesis 3:1-12, Bíblia Livre)
E o SENHOR Deus disse à serpente: “Porque fizeste isto, maldita serás entre todos os animais selvagens e entre todos os animais do campo; sobre teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.
E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre tua descendência e a descendência dela; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.
E o SENHOR Deus fez ao homem e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.
E disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de Nós sabendo o bem e o mal; agora, pois, para que não estenda sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva para sempre:
E tirou-o o SENHOR do jardim de Éden, para que lavrasse a terra de que foi tomado.
Lançou, pois, fora ao homem, e pôs ao oriente do jardim de Éden querubins, e uma espada acesa que se revolvia a todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida.
(Gênesis 3:14-15,21-24, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Gênesis 3 vem logo depois do quadro de plenitude de Gênesis 2. Adam Clarke, o comentarista metodista, chamou este capítulo de “uma das narrativas mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais importantes de todo o livro de Deus”.
Wesley lê o capítulo à luz de Romanos 5:12 e divide a história em sete momentos, da tentação até a expulsão do jardim. No fim do esquema, acrescenta que, “se não fossem os sinais cheios de graça da redenção, eles e toda a sua descendência teriam sido deixados no desespero”.
A serpente aparece como uma das criaturas “que o SENHOR Deus havia feito” (Gênesis 3:1, Bíblia Livre), e não como um deus rival. A Bíblia vai revelar aos poucos quem falava por meio dela: “a serpente antiga, chamada o diabo e Satanás, que engana a todo o mundo” (Apocalipse 12:9, Bíblia Livre). Carl Keil e Franz Delitzsch, dois estudiosos luteranos alemães do século XIX, escrevem que a serpente foi “apenas o instrumento daquele espírito mau” que a Escritura vai chamar de Satanás, o adversário, e de Diabo, o caluniador.
Três palavras ajudam a ler o capítulo.
Em primeiro lugar, astuta (em hebraico, ʿarum). A palavra pode descrever tanto o prudente quanto o esperto. Em Gênesis 3, segundo Keil e Delitzsch, ela “não está usada no bom sentido de prudente, mas no mau sentido de ardiloso”. Paulo lembra a cena quando escreve que “a serpente enganou a Eva com sua astúcia” (2 Coríntios 11:3, Bíblia Livre).
Em segundo lugar, o conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17; 3:5). Wesley explica o nome da árvore: ela “se destinava a ensinar o conhecimento prático do bem e do mal, isto é, do dever e da desobediência, e acabaria dando o conhecimento por experiência do bem e do mal, isto é, da felicidade e da miséria”. A serpente promete uma sabedoria de deuses. O que o casal recebe é a experiência amarga do mal.
Em terceiro lugar, descendência (zeraʿ, literalmente “semente”). A palavra pode indicar muitos descendentes ou um só. Keil e Delitzsch lembram que “a ideia de descendência é, em si mesma, indefinida, pois a posteridade de um homem pode ser uma tribo inteira ou um só filho”. Esse detalhe vai ser importante quando chegarmos à promessa de Gênesis 3:15.
1. A tentação começa distorcendo o caráter de Deus
A serpente não começa oferecendo o fruto, mas lançando suspeita sobre a palavra e a bondade do Criador: “Deus vos disse: Não comais de toda árvore do jardim?” (Gênesis 3:1, Bíblia Livre). Deus tinha dito o contrário: “De toda árvore do jardim comerás; Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás dela” (Gênesis 2:16–17, Bíblia Livre). A generosidade do jardim é empurrada para fora do campo de visão, enquanto um único limite é apresentado como prova de privação.
Lutero viu nisso o centro do ataque: “a serpente atacou a própria boa vontade de Deus e procurou provar, por essa mesma proibição […], que a vontade de Deus para com o homem não era boa”. Wesley resume o método do tentador em três passos: “ele questiona se aquilo era pecado ou não”, depois “nega que houvesse algum perigo” e, por fim, “sugere que haveria muita vantagem”. E conclui: “esses são os seus temas de sempre”.
Essa dinâmica continua conhecida. A tentação faz a obediência parecer perda e a autonomia parecer vida. Ela pergunta se Deus é mesmo bom, se a palavra dele merece confiança e se não estaríamos melhor como senhores de nós mesmos.
O texto não diz que toda pergunta é rebeldia. A fé bíblica sabe lamentar e perguntar. O problema é permitir que a voz enganadora redefina Deus sem levar em conta tudo o que ele já deu e revelou.
O homem também come. O texto diz que a mulher deu “também ao seu marido com ela, e ele comeu” (Gênesis 3:6, Bíblia Livre). Os intérpretes discutem desde quando ele estava ali. Wesley e Joseph Benson, outro comentarista metodista, acham que “é provável que ele não estivesse com ela quando ela foi tentada”; Calvino considera que “pode ser que ele tenha se juntado a ela logo depois”. Em qualquer caso, a mulher não carrega sozinha a responsabilidade: os dois desobedecem. Mais tarde, cada um vai tentar empurrar a culpa para outro. A queda não é uma história sobre a inferioridade feminina, mas sobre a rebelião humana.
2. Pecado é mais que quebrar uma regra
O mandamento foi quebrado, mas Gênesis mostra algo ainda mais profundo: criaturas tentam ocupar o lugar do Criador. Em vez de receber do Deus bom a definição do bem, querem possuir essa definição por conta própria. Era essa a promessa da serpente: “sereis como deuses, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:5, Bíblia Livre).
Pecado inclui atos, palavras e omissões concretas. Também é uma inclinação interior, um amor curvado sobre si mesmo, uma desconfiança que contamina as escolhas. Por isso, educação, força de vontade e boas condições sociais, embora importantes, não conseguem curar sozinhas o coração.
Na linguagem wesleyana, o pecado original não quer dizer que todos sejam tão maus quanto poderiam ser, nem que a imagem de Deus tenha desaparecido, mas que a humanidade está profundamente corrompida e é incapaz de voltar a Deus pelos próprios recursos. Mesmo depois da queda, a Escritura continua dizendo que “à imagem de Deus o ser humano foi feito” (Gênesis 9:6, Bíblia Livre). Os teólogos chamam isso de depravação total. A palavra “total” não quer dizer que cada pessoa pratique todo o mal possível, mas que o pecado alcançou a pessoa inteira: o entendimento, os afetos e a vontade. Jacó Armínio, professor de teologia em Leiden no começo do século XVII, que muitos imaginam como defensor de um livre-arbítrio intacto, escreveu o contrário:
“No seu estado caído e pecador, o homem não é capaz, de si mesmo e por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom; é necessário que ele seja regenerado e renovado no entendimento, nos afetos ou na vontade, e em todas as suas forças, por Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo.”
(Jacó Armínio, Declaração de sentimentos, III)
Numa das suas disputas em Leiden, ele foi ainda mais longe: no estado de pecado, o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem “não está só ferido, mutilado, enfermo, torcido e enfraquecido, mas também aprisionado, destruído e perdido” (Disputas públicas, XI.7). A nossa vontade, conclui Armínio, “não é livre para o bem, a não ser que seja libertada pelo Filho, por meio do seu Espírito” (XI.11). Wesley tratava essa doutrina como a linha que separa a fé cristã do paganismo. Depois de perguntar se o ser humano está inteiramente caído e se a sua alma está totalmente corrompida, ele responde: “Admita isso, e você é, nesse ponto, cristão. Negue, e você ainda é pagão” (sermão 44, O pecado original, III.2).
Precisamos, então, de uma graça que chegue antes, desperte, convença e torne possível a resposta. A tradição chama essa obra de graça preveniente, isto é, a graça que vem antes de qualquer movimento nosso em direção a Deus. Ela não é uma sobra de bondade natural, mas obra sobrenatural de Deus, dada por causa de Cristo. Ela alcança todas as pessoas, porque Cristo é “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9, Bíblia Livre). Ela ilumina, convence e liberta a vontade presa, para que a pessoa possa crer. E ela pode ser resistida, como Estêvão disse aos líderes de Jerusalém: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51, Bíblia Livre). Wesley ensinava que até aquilo que chamamos de consciência natural já é graça:
“Não há ninguém num estado de pura natureza; não há ninguém, a não ser que tenha apagado o Espírito, que esteja inteiramente vazio da graça de Deus. Ninguém vive inteiramente sem o que se costuma chamar de consciência natural. Mas isso não é natural: o nome mais próprio é graça preveniente.”
(John Wesley, sermão 85, Sobre operar a nossa própria salvação, III.4)
Armínio fecha a sua disputa sobre o livre-arbítrio com palavras de Agostinho: a graça que vem depois ajuda o bom propósito do homem, “mas esse bom propósito não existiria sem a graça que vem antes, a graça preveniente”. É por isso que Deus desce ao jardim. Se a volta dependesse do homem, ninguém voltaria, porque “ninguém há que busque a Deus” (Romanos 3:11, Bíblia Livre). A obra começa em Deus.
3. Vergonha, medo e acusação
Os olhos do casal se abrem, mas o resultado não é uma liberdade luminosa: “E foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus. Então coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” (Gênesis 3:7, Bíblia Livre). Eles sentem vergonha, escondem-se e têm medo: “Ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e me escondi” (Gênesis 3:10, Bíblia Livre). A relação com o próprio corpo, com o próximo e com Deus fica ferida.
Deus conhece a resposta antes de perguntar. Mesmo assim, ele pergunta. Wesley explica o motivo: “Embora Deus conheça todos os nossos pecados, ele quer conhecê-los por nós mesmos e requer de nós uma confissão sincera, não para ser informado, mas para que sejamos humilhados.” Calvino viu nessa conversa um sinal de misericórdia:
“Por que, então, ele os chama a ser examinados, senão porque cuida da salvação deles? […] Quando Deus insiste em arrancar de nós uma confissão, ele age mais como médico do que como juiz.”
(João Calvino, Comentário sobre Gênesis, 3:14)
Quando Deus pergunta, o homem acusa a mulher e insinua culpa contra o próprio Deus: “A mulher que me deste por companheira me deu da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12, Bíblia Livre). A mulher aponta para a serpente: “A serpente me enganou, e comi” (Gênesis 3:13, Bíblia Livre). Há fatores externos reais na tentação, mas nenhum deles elimina a responsabilidade pessoal.
A confissão cristã recusa dois extremos. Não dizemos que somos inocentes quando pecamos. Também não dizemos que somos apenas o nosso pior ato. Diante da luz, damos ao mal o nome certo porque confiamos no caráter daquele que nos chama.
A vergonha diz: se eu for visto, serei destruído. A graça diz: saia do esconderijo; o Deus que revela a sua culpa também abriu um caminho de perdão e cura.
4. O juízo revela a gravidade do mal
As palavras de Deus em Gênesis 3 descrevem uma criação que agora vai experimentar dor, conflito, trabalho penoso e morte. O domínio opressor entre pessoas não aparece como ideal divino a ser celebrado, mas como parte da desordem da queda. O chão vai produzir espinhos, e a vida vai voltar ao pó: “maldita será a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida; Espinhos e cardos te produzirá” (Gênesis 3:17–18, Bíblia Livre). E ainda: “porque pó és, e ao pó voltarás” (Gênesis 3:19, Bíblia Livre).
O juízo de Deus não é uma explosão arbitrária, porque o pecado é oposição ao Deus da vida e, por isso, produz morte. Paulo diz que “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23, Bíblia Livre). Se Deus tratasse a violência, a mentira e a exploração como detalhes sem importância, ele não seria santo nem amoroso.
Ainda assim, devemos falar com humildade sobre o sofrimento. Nem toda dor individual pode ser atribuída a um pecado específico da pessoa que sofre. Jesus rejeitou essa simplificação diante do cego de nascença: “Nem este pecou, nem seus pais; mas sim para que as obras de Deus nele se manifestem” (João 9:3, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch reconhecem que “a nossa visão da ligação de causa entre o pecado e o mal, mesmo na vida humana, é muito imperfeita”. Vivemos numa criação ferida, praticamos pecados, sofremos pecados de outros e enfrentamos fragilidades que não sabemos explicar.
O juízo final pertence a Deus. A nossa tarefa é nos arrepender, buscar justiça, cuidar de quem sofre e esperar a restauração prometida.
5. A promessa surge dentro do juízo
Ao falar com a serpente, Deus anuncia inimizade e fala de uma descendência que vai ferir a cabeça dela, embora seja ferida no processo: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre tua descendência e a descendência dela; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15, Bíblia Livre). Repare na ordem do texto. Keil e Delitzsch observam que “só depois de apresentada a perspectiva da vitória foi pronunciada a sentença de castigo sobre o homem e sobre a mulher”. Antes de ouvir sobre dores e espinhos, o casal ouve que o mal não vai vencer.
Gênesis 3:15 é uma palavra breve, e não uma exposição completa da obra de Cristo. Lida dentro de toda a história bíblica, porém, ela se torna o primeiro clarão de uma promessa que vai alcançar a sua plenitude em Jesus. Calvino entendia a “descendência” primeiro como a humanidade inteira em luta com o diabo, mas reconhecia que, como nem todos os filhos de Adão vencem o diabo, “temos de chegar necessariamente a uma cabeça, para encontrar a quem pertence a vitória”. Keil e Delitzsch seguem um caminho parecido:
“Essa descendência espiritual culminou em Cristo […]. Nesse sentido, Cristo é a descendência da mulher que pisa Satanás debaixo dos pés, não como indivíduo, mas como cabeça […] de todos os que são reunidos de todas as nações, unidos a ele pela fé e formados num só corpo, do qual ele é a cabeça.”
(Carl F. Keil e Franz Delitzsch, Comentário bíblico do Antigo Testamento, Gênesis 3:15)
Wesley é mais direto e vê no versículo que “aqui é feita uma promessa graciosa de Cristo como libertador do homem caído do poder de Satanás”.
O descendente da mulher vai enfrentar o tentador. Na cruz, Cristo sofre. Na sua morte e ressurreição, o poder do pecado, da morte e do diabo é vencido. Ele participou da nossa carne e do nosso sangue “a fim de pela morte aniquilar ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2:14, Bíblia Livre). A vitória já foi inaugurada de forma decisiva e vai ser plenamente manifestada quando Deus fizer novas todas as coisas.
Essa esperança não transforma a tentação de agora em ilusão. O inimigo continua ativo, e os nossos desejos precisam ser disciplinados pela graça. Mas a batalha não acontece num universo sem promessa. Cristo é mais forte.
6. Graça que veste, expulsa e conserva a promessa
Deus faz roupas para o casal: “E o SENHOR Deus fez ao homem e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” (Gênesis 3:21, Bíblia Livre). O texto não afirma explicitamente que esse gesto foi o primeiro sacrifício expiatório, e transformar essa possibilidade em certeza ultrapassaria o que está escrito. Wesley e Benson leem a cena como figura do sacrifício de Cristo, mas com a palavra certa: “provavelmente”. Wesley escreve que os animais, “provavelmente, como se supõe, foram mortos em sacrifício, para prefigurar o grande sacrifício que, no fim dos tempos, seria oferecido uma vez por todas”. Benson acrescenta:
“Com esse ato de bondade, Deus provavelmente quis mostrar o seu cuidado até pelo homem caído, animar a sua esperança de misericórdia por meio de um Mediador e, assim, convidá-lo ao arrependimento.”
(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Gênesis 3:21)
Podemos, portanto, reconhecer pelo menos isto: mesmo sob juízo, Deus cobre a vergonha das suas criaturas.
A expulsão do jardim também impede que eles vivam para sempre na condição caída. O caminho para a árvore da vida fica guardado: Deus “pôs ao oriente do jardim de Éden querubins, e uma espada acesa que se revolvia a todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3:24, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch dizem que a expulsão foi “um castigo aplicado para o bem do homem, que, expondo-o à morte temporal, queria preservá-lo da morte eterna”. A Bíblia vai terminar mostrando essa árvore de novo, agora na cidade de Deus: “estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto a cada mês; e as folhas das árvores são para a saúde das nações” (Apocalipse 22:2, Bíblia Livre).
Do jardim perdido à nova criação, a salvação é obra da graça, do começo ao fim. Deus não abandona o mundo nem espera que pecadores encontrem sozinhos o caminho de volta. Ele chama Abraão, forma um povo, envia os profetas, entrega o Filho e derrama o Espírito. Jesus resumiu a sua missão com palavras que ecoam o jardim: “o Filho do homem veio para buscar, e para salvar o que tinha se perdido” (Lucas 19:10, Bíblia Livre).
Hoje a pergunta continua: “Onde você está?” Ela não pede um endereço, mas chama você a deixar as folhas com que escondemos a verdade e a voltar o rosto para Deus.
Para conversar com Deus
- Que mentira sobre o caráter de Deus torna a tentação atraente para você?
- Em que situação você tem empurrado a responsabilidade para outra pessoa?
- Que diferença existe entre a culpa que leva à confissão e a vergonha que leva ao esconderijo?
- Que área da sua vida precisa ser trazida à luz nesta semana?
Oração de resposta
Deus santo e misericordioso, pecamos contra ti em pensamentos, palavras, ações e omissões. Distorcemos a tua bondade, ferimos o próximo e tentamos governar a vida sem a tua palavra. Procura-nos nos nossos esconderijos. Dá-nos arrependimento verdadeiro, fé em Jesus Cristo e poder para caminhar em novidade de vida. Pelo Espírito, restaura em nós o amor santo e conserva-nos na esperança da vitória de Cristo. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
O que o pecado fez conosco, e como Deus responde?
Resposta para guardar
Ao desconfiar de Deus e desobedecer à sua palavra, a humanidade caiu em pecado. Por isso, os nossos amores estão desordenados, a nossa comunhão com Deus foi rompida e todas as relações sofrem corrupção, culpa e morte. Não podemos curar a nós mesmos. Deus, porém, não abandonou as suas criaturas: a sua graça nos procura, desperta, convence, liberta a nossa vontade e nos torna capazes de responder. Em Jesus Cristo, o descendente prometido, Deus perdoa, vence o poder do mal e começa a nossa restauração pelo Espírito.
Textos para conferir
Gênesis 3; Salmo 51:1–12; Romanos 3:9–26; 5:12–21; Efésios 2:1–10; 1 João 1:5–2:2.
Oração
Senhor, traz-nos à luz sem nos deixar no desespero. Concede-nos arrependimento, confiança no perdão de Cristo e obediência sustentada pelo teu Espírito. Amém.
Hino para guardar no coração
Ele vive e reivindica para nós o jardim restaurado
Autor: Charles Wesley
Título editorial: “Sobre Gênesis 3:17–19”
Primeira linha em inglês: “Most righteous God, my doom I bear”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 27
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Deus justo, reconheço o peso
da culpa, da dor e do cuidado;
escravizado a desejos inferiores,
trabalho por um pão marcado de amargura
e vejo minha alma estéril
coberta de espinhos e abrolhos.
Recebo em mim a sentença da morte
e ao pó já começo a retornar.
Expulso do paraíso,
caminho para a miséria
se tu, Jesus, não me redimires;
sem ti, minha alma perece.
Mas Jesus carregou nossa sentença.
Em nossa aflição, ele sofreu,
feito homem de dores;
tomou sobre si nosso peso
e suportou por nós
o juízo que nos condenava.
Vejo-o suar gotas de sangue;
vejo-o cair sob nosso fardo;
os espinhos rasgam sua fronte.
Ele inclina a cabeça ferida e morre.
Ele vive! Sobe acima dos céus
e reivindica para nós o jardim restaurado.
Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.
Para meditar
O hino percorre a sentença de Gênesis e lê essa sentença à luz da cruz e da ressurreição. A linguagem dele é poesia sobre Cristo, e não uma afirmação de que os primeiros ouvintes já entendiam, em cada detalhe do capítulo, toda a doutrina da expiação.
Pergunta: Que “espinho” da sua vida você precisa levar hoje à presença do Cristo crucificado e ressuscitado?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, contemple: A bondade que a tentação apaga da memória
- Terça-feira, compreenda: Graça antes da resposta
- Quarta-feira, examine: Folhas, árvores e desculpas
- Quinta-feira, pratique: Dar nome ao pecado sem perder o nome de filho
- Sexta-feira, resista: Uma saída preparada pela graça
- Sábado, reúna o caminho: Da árvore guardada à árvore que cura
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Adão e Eva e a queda: O que deu errado em Gênesis 3
- Gênesis 3 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Teologia Sistemática, Capítulo 24: O pecado original e a depravação total
- A graça preveniente em Armínio: Um estudo completo
- Quem esmaga a serpente? Gênesis 3:15 segundo as tradições
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Declaração de sentimentos (1608), III (“Do livre-arbítrio do homem”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Armínio, Jacó. Disputas públicas, XI (“Do livre-arbítrio do homem e das suas forças”), §§ 7, 11 e 14, com a citação de Agostinho, Contra duas epístolas dos pelagianos, II.9. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Gênesis 3:6 e 3:21.
- Calvino, João. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis, 3:6, 3:14 e 3:15.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Gênesis 3:1.
- Keil, Carl F.; Delitzsch, Franz. Biblical Commentary on the Old Testament, Gênesis 3 (introdução), 3:1, 3:15, 3:16, 3:17–19 e 3:22.
- Lutero, Martinho. Luther on the Creation: A Critical and Devotional Commentary on Genesis, trad. John Nicholas Lenker, 1904, Gênesis 3:1 e 3:9.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Gênesis 3 (introdução), 3:1–5, 3:5, 3:6, 3:9, 3:11, 3:15 e 3:21.
- Wesley, John. Sermão 44, O pecado original (Original Sin, 1759), III.2.
- Wesley, John. Sermão 85, Sobre operar a nossa própria salvação (On Working out our own Salvation, 1785), II.1 e III.4.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
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