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O rei que Israel quis e o Rei de que precisava
Vem Andar Comigo, Semana 13 · Domingo: Um rei “como todas as nações”
Neste texto
- Um rei “como todas as nações”
- O texto
- Para entender o texto
- 1. Uma preocupação legítima pode carregar um desejo idólatra
- 2. O problema não era simplesmente existir um rei
- 3. O rei que toma
- 4. Saul foi mais que uma aparência, e menos que o Salvador esperado
- 5. Não coloquem a sua confiança em príncipes
- 6. O Rei que dá a própria vida
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Alegrem-se: o Senhor é Rei
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: reinado de Deus, poder humano, liderança e esperança messiânica
Leituras principais: 1 Samuel 8:1–22; 10:17–27; 12:12–25
Leituras complementares: Deuteronômio 17:14–20; 1 Samuel 2:1–10; Salmo 146; Marcos 10:35–45; João 18:33–38; Apocalipse 5:6–14
Verdade central: Deus é o verdadeiro Rei. As autoridades humanas são dons limitados e responsáveis diante dele, mas se tornam ídolos quando esperamos delas a segurança, a identidade e a salvação que pertencem somente ao Senhor.
Um rei “como todas as nações”
Samuel envelheceu. Os filhos dele aceitam suborno e pervertem a justiça. Os anciãos de Israel enxergam um problema verdadeiro e apresentam uma solução que parece razoável: um rei que governe o povo e saia à frente dele nas batalhas.
Deus, porém, revela o coração do pedido. O povo não deseja apenas uma administração justa. Ele quer uma segurança visível como a das outras nações e, com isso, rejeita o governo do Senhor. Deus diz a Samuel: “não rejeitaram a ti, mas sim a mim me rejeitaram, para que eu não reine sobre eles” (1 Samuel 8:7, Bíblia Livre).
A história desta semana acontece em três lugares. Em Ramá, os anciãos pedem o rei. Em Mispá, Saul é escolhido diante do Senhor e aclamado pelo povo. Em Gilgal, Samuel entrega o governo, presta contas e chama Israel ao arrependimento. Nos três lugares, a pergunta de fundo é a mesma: quem reina sobre Israel?
Essa pergunta não ficou no passado. O coração humano continua procurando salvadores que possa ver, medir e controlar. A Escritura não despreza a autoridade humana, mas também não deixa que ela ocupe o trono que pertence a Deus.
O texto
Leitura principal: 1 Samuel 8:1–22; 10:17–27; 12:12–25
Leitura: 1 Samuel 8:1–9, 19–22; 10:17–25; 12:19–25
E aconteceu que havendo Samuel envelhecido, pôs seus filhos por juízes sobre Israel.
E o nome de seu filho primogênito foi Joel, e o nome do segundo, Abias: foram juízes em Berseba.
Mas não andaram os filhos pelos caminhos de seu pai, antes se inclinaram atrás da ganância, recebendo suborno e pervertendo o direito.
Então todos os anciãos de Israel se juntaram, e vieram a Samuel em Ramá,
E disseram-lhe: Eis que tu envelheceste, e teus filhos não vão por teus caminhos: portanto, constitui-nos agora um rei que nos julgue, como todas as nações.
E descontentou a Samuel esta palavra que disseram: Dá-nos rei que nos julgue. E Samuel orou ao SENHOR.
E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo o que te disserem: porque não rejeitaram a ti, mas sim a mim me rejeitaram, para que eu não reine sobre eles.
Conforme todas as obras que fizeram desde o dia que os tirei do Egito até hoje, que me deixaram e serviram a deuses alheios, assim fazem também contigo.
Agora, pois, ouve sua voz: mas protesta contra eles declarando-lhes o direito do rei que há de reinar sobre eles.
Porém o povo não quis ouvir a voz de Samuel; antes disseram: Não, mas sim que haverá rei sobre nós:
E nós seremos também como todas as nações, e nosso rei nos governará, e sairá diante de nós, e fará nossas guerras.
E ouviu Samuel todas as palavras do povo, e referiu-as aos ouvidos do SENHOR.
E o SENHOR disse a Samuel: Ouve sua voz, e põe rei sobre eles. Então disse Samuel aos homens de Israel: Ide-vos cada um à sua cidade.
(1 Samuel 8:1-9,19-22, Bíblia Livre)
E Samuel convocou o povo ao SENHOR em Mispá;
E disse aos filhos de Israel: Assim disse o SENHOR o Deus de Israel: Eu tirei a Israel do Egito, e vos livrei da mão dos egípcios, e da mão de todos os reinos que vos afligiram:
Mas vós rejeitastes hoje a vosso Deus, que vos guarda de todas as vossas aflições e angústias, e dissestes: Não, mas sim põe rei sobre nós. Agora pois, ponde-vos diante do SENHOR por vossas tribos e por vossos milhares.
E fazendo achegar Samuel todas as tribos de Israel, foi tomada a tribo de Benjamim.
E fez chegar a tribo de Benjamim por suas linhagens, e foi tomada a família de Matri; e dela foi tomado Saul filho de Quis. E lhe buscaram, mas não foi achado.
Perguntaram pois outra vez ao SENHOR, se havia ainda de vir ali aquele homem. E respondeu o SENHOR: Eis que ele está escondido entre a bagagem.
Então correram, e tomaram-no dali, e posto em meio do povo, desde o ombro acima era mais alto que todo o povo.
E Samuel disse a todo o povo: Vistes ao que o SENHOR escolheu, que não há semelhante a ele em todo o povo? Então o povo clamou com alegria, dizendo: Viva o rei!
Então Samuel recitou ao povo o direito do reino, e escreveu-o em um livro, o qual guardou diante do SENHOR.
(1 Samuel 10:17-25, Bíblia Livre)
Então disse todo o povo a Samuel: Roga por teus servos ao SENHOR teu Deus, que não morramos: porque a todos os nossos pecados acrescentamos este mal de pedir rei para nós.
E Samuel respondeu ao povo: Não temais: vós cometestes todo este mal; mas com tudo isso não vos desvieis de seguir ao SENHOR, mas sim servi ao SENHOR com todo o vosso coração:
Não vos desvieis a fim de seguir as vaidades que não aproveitam nem livram, porque são vaidades.
Pois o SENHOR não desamparará a seu povo por seu grande nome: porque o SENHOR quis fazer-vos povo seu.
Assim que, longe seja de mim que peque eu contra o SENHOR cessando de rogar por vós; antes eu vos ensinarei pelo caminho bom e direito.
Somente temei ao SENHOR, e servi-o de verdade com todo vosso coração, porque considerai quão grandes coisas fez convosco.
Mas se perseverardes em fazer mal, vós e vosso rei perecereis.
(1 Samuel 12:19-25, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Os capítulos 8 a 12 de 1 Samuel contam a passagem do tempo dos juízes para o tempo dos reis. Samuel ainda julga Israel a partir de Ramá, mas já está velho. Adam Clarke, o comentarista metodista, calcula que ele teria uns sessenta anos. Os filhos dele, Joel e Abias, servem como juízes em Berseba, na fronteira sul, longe da casa do pai. O texto resume a conduta deles em três verbos: eles “se inclinaram atrás da ganância, recebendo suborno e pervertendo o direito” (1 Samuel 8:3, Bíblia Livre). Ao mesmo tempo, Naás, rei dos amonitas, ameaçava as tribos do outro lado do Jordão (1 Samuel 11:1). Samuel lembra depois que o pedido veio quando o povo viu “que Naás rei dos filhos de Amom vinha contra vós” (1 Samuel 12:12, Bíblia Livre).
Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, observam que os israelitas atribuíam a causa da opressão e da aflição aos defeitos da própria constituição política. Em vez de procurar a causa no próprio pecado e na falta de fidelidade ao Senhor, eles a procuraram na forma de governo.
Três palavras ajudam a ler esses capítulos.
Em primeiro lugar, direito (em hebraico, mishpat). Samuel avisa o povo sobre “o direito do rei” (1 Samuel 8:9, Bíblia Livre). Clarke explica que a palavra quer dizer, aqui, “simplesmente o que o rei exigiria e poderia exigir, segundo o modo como os reis em geral governavam, todos eles, naquele tempo, absolutos e despóticos”. Porém, a mesma palavra volta em 1 Samuel 10:25, quando Samuel escreve “o direito do reino”. Clarke nota que “é a mesma palavra de 1 Samuel 8:9”, e Wesley explica que o livro trazia “as leis e regras pelas quais o governo real devia ser conduzido, de acordo com as mencionadas em Deuteronômio 17:16 e seguintes”. Há, portanto, dois direitos: o que os reis das nações tomam para si e o que Samuel escreve e guarda diante do Senhor.
Em segundo lugar, líder (nagid). Quando unge Saul em particular, Samuel não chama Saul de rei. Ele pergunta: “Não foi o SENHOR que te ungiu para que sejas líder sobre sua propriedade?” (1 Samuel 10:1, Bíblia Livre). Clarke observa que, nessa unção, Saul ainda não é reconhecido como rei, “mas simplesmente como nagid, um capitão, alguém que vai à frente e conduz o povo”. E a propriedade continua sendo do Senhor.
Em terceiro lugar, vaidades (tohu). No fim do discurso, Samuel adverte: “Não vos desvieis a fim de seguir as vaidades que não aproveitam nem livram, porque são vaidades” (1 Samuel 12:21, Bíblia Livre). Clarke mostra que a palavra é “a mesma expressão encontrada em Gênesis 1:2”, onde a terra estava “desordenada e vazia” (Gênesis 1:2, Bíblia Livre). Os ídolos, diz ele, “são confusão e coisas de nada”, como a terra antes da palavra criadora. Quem troca o Senhor por um salvador visível volta, sem perceber, para o caos.
1. Uma preocupação legítima pode carregar um desejo idólatra
Os filhos de Samuel eram corruptos. Israel enfrentava ameaças militares e uma transição de liderança. Pedir mudança não era, por si, rebelião. A autoridade religiosa não deve usar a reação de Deus a esse pedido para fugir da denúncia contra o nepotismo e a injustiça.
Keil e Delitzsch fazem a distinção com precisão:
“Vistos de fora, os anciãos de Israel tinham pleno direito de apresentar o pedido; o erro estava no coração deles.”
(Keil e Delitzsch, Comentário bíblico do Antigo Testamento, 1 Samuel 8:6)
Wesley notou a distância entre a queixa e o pedido: “Os seus desejos ultrapassam as suas razões, que não iam além da remoção dos filhos de Samuel de seus cargos e da obtenção de alguma outra ajuda justa e prudente para a velhice de Samuel.”
O problema aparece na expressão “como todas as nações” e no propósito de ter alguém que lute as guerras do povo: “E nós seremos também como todas as nações, e nosso rei nos governará, e sairá diante de nós, e fará nossas guerras” (1 Samuel 8:20, Bíblia Livre). Israel tinha sido chamado a uma vocação distinta e já conhecia o Senhor como guerreiro e Rei. Wesley comenta que “era a felicidade deles serem diferentes de todas as outras nações”. Agora o povo procura uma estrutura que pareça controlar o futuro.
As motivações humanas costumam ser misturadas. Podemos buscar uma solução necessária e, ao mesmo tempo, esperar dela o que nenhuma instituição pode dar. Uma carreira pode prover o sustento e virar fonte de identidade absoluta. Um governo pode administrar a justiça e ser tratado como redentor.
O discernimento cristão não pergunta apenas se uma medida funciona. Ele pergunta que amor, que medo e que esperança movem essa medida, que preço ela exige e que tipo de pessoa e de comunidade ela forma.
2. O problema não era simplesmente existir um rei
Deuteronômio 17 já tinha estabelecido limites para um futuro rei: “Sem dúvida porás por rei sobre ti ao que o SENHOR teu Deus escolher” (Deuteronômio 17:15, Bíblia Livre). Ele não deveria multiplicar cavalos, mulheres ou riqueza, nem elevar o coração acima dos irmãos. Deveria copiar a lei e ler nela “todos os dias de sua vida” (Deuteronômio 17:19, Bíblia Livre), para permanecer debaixo da palavra de Deus. João Calvino, o reformador de Genebra, resume o sentido dessa lei:
“Em suma, o poder dos reis é posto aqui abaixo do poder de Deus, e os próprios reis são consagrados à obediência a ele, para que o povo nunca se desviasse para a impiedade, qualquer que fosse a mudança de governo.”
(João Calvino, Comentário sobre os quatro últimos livros de Moisés, Deuteronômio 17:14)
Ana também cantou que o Senhor “dará força a seu Rei, E exaltará o poder de seu ungido” (1 Samuel 2:10, Bíblia Livre). Joseph Benson, comentarista metodista, observa: “Aqui ela prediz que eles teriam um rei.” A esperança de um rei fazia parte da história antes do pedido dos anciãos. Mais tarde, Deus firmaria aliança com Davi e prometeria um reino duradouro: “teu trono será estável eternamente” (2 Samuel 7:16, Bíblia Livre).
Assim, 1 Samuel 8 não ensina que toda liderança centralizada seja, por si, rejeição de Deus. O capítulo expõe o desejo de um rei segundo o modelo das nações, procurado como substituto da confiança no Senhor.
Mesmo quando concede um rei, Deus não abdica. Ele orienta Samuel, escolhe, unge, adverte e julga. A monarquia continua debaixo do reinado divino. Clarke tira essa conclusão do capítulo: “Deus nunca abriu mão do governo supremo; ele continuava sendo Rei em Israel, e o chamado rei era apenas o vice-regente, ou representante, do Senhor.” Wesley vê a mesma coisa nas palavras da unção, que chamam Israel de propriedade do Senhor: “Com isso ele adverte Saul de que este povo não era tanto dele quanto de Deus.” Os reis não são deuses, mas servos responsáveis.
3. O rei que toma
Samuel descreve o direito do rei com uma repetição severa: ele tomará. “Tomará vossos filhos, e os porá em seus carros” (1 Samuel 8:11, Bíblia Livre). Os filhos serão recrutados; as filhas, postas a serviço; os campos e as vinhas, apropriados; a produção, tributada; os trabalhadores e os animais, requisitados. No fim, “sereis seus servos” (1 Samuel 8:17, Bíblia Livre). Wesley comenta o verbo em poucas palavras: “Injustamente e com violência.”
O texto não afirma que toda tributação ou serviço público seja roubo. Ele adverte sobre a concentração de poder que transforma pessoas e bens em instrumentos da grandeza do governante. O rei que deveria guardar a justiça pode reproduzir a lógica do faraó, que também tomava filhos, trabalho e colheitas.
Adam Clarke leu o trecho como a descrição do rei absoluto das nações, e não como o padrão aprovado por Deus. Contra quem usava o capítulo para defender o poder sem limite dos reis, ele escreveu:
“É inteiramente inútil […] afirmar que isto mostra o que um rei, como rei, pode reclamar e exigir em qualquer lugar em virtude do seu ofício […]. O modo do rei da escolha de Deus está descrito com clareza em Deuteronômio 17:15–20.”
(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, 1 Samuel 8:9)
A autoridade precisa de limite, de lei e de prestação de contas porque os seres humanos são pecadores. Isso vale para o Estado, a empresa, a família e a Igreja. A linguagem espiritual não torna nenhum poder incontestável. Agostinho já perguntava: “Tirada a justiça, que são os reinos senão grandes roubos?” E o próprio Samuel, ao deixar o governo, se pôs diante do povo para prestar contas: “testemunhai contra mim diante do SENHOR e diante de seu ungido, se tomei o boi de alguém, ou se tomei o asno de alguém” (1 Samuel 12:3, Bíblia Livre). O juiz que não tomou nada contrasta com o rei que tomará tudo.
Jacó Armínio, ao tratar da autoridade civil, lembra que ela foi instituída por Deus e limitada por leis. Por isso, concluiu ele, não é lícito ao governante “levantar-se contra Deus, promulgar leis contrárias às leis divinas e obrigar o povo confiado ao seu cuidado a praticar atos proibidos por Deus, ou impedir que pratique os atos que ele ordenou”. Armínio também pediu prudência: é preciso distinguir as ações que devem ser praticadas dos fardos que devem ser suportados, e ter certeza de que a ordem contraria de fato o mandamento de Deus.
Quando líderes “tomam” o corpo, o dinheiro, o silêncio e a lealdade das pessoas sem limite, eles não devem ser protegidos por uma doutrina deformada de submissão. Buscar ajuda, denunciar crime e estabelecer limites pode ser expressão de verdade e de justiça diante de Deus. “Maior obrigação é obedecer a Deus do que às pessoas” (Atos 5:29, Bíblia Livre).
4. Saul foi mais que uma aparência, e menos que o Salvador esperado
Saul é alto e impressionante: “do ombro acima sobrepujava a qualquer um do povo” (1 Samuel 9:2, Bíblia Livre). Ele corresponde ao tipo de rei que chama a atenção do público. Mas a história dele não começa como caricatura. Deus o escolhe, dá a ele o Espírito, muda o coração dele para a tarefa e usa a liderança dele para libertar Israel. Depois da vitória sobre os amonitas, ele dá a glória a Deus: “hoje operou o SENHOR salvação em Israel” (1 Samuel 11:13, Bíblia Livre).
Que mudança foi essa? O texto diz que “mudou-lhe Deus seu coração” (1 Samuel 10:9, Bíblia Livre). Joseph Benson explica a natureza desse dom:
“Saul mal tinha se afastado de Samuel quando sentiu outro espírito entrar nele, um espírito de santidade, sabedoria e coragem, para o habilitar ao governo do povo de Deus, o qual Deus depois tirou dele por causa dos seus pecados, 1 Samuel 16:14.”
(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, 1 Samuel 10:9–10)
Keil e Delitzsch têm o cuidado de dizer que essa transformação “não deve ser vista como regeneração no sentido cristão, mas como uma mudança semelhante à regeneração”, pela qual Saul foi erguido para a esfera mais alta da sua nova vocação real. O Espírito veio sobre Saul para o ofício de rei.
Isso torna a queda dele mais séria. Dons e chamado não garantem fidelidade automática. Saul passa a temer as pessoas, a controlar os resultados e a obedecer pela metade. Ele mesmo confessa: “Eu pequei; porque violei o dito do SENHOR e tuas palavras, porque temi ao povo, consenti à voz deles” (1 Samuel 15:24, Bíblia Livre). O poder revela e amplia as fissuras que não são entregues a Deus.
Também seria errado concluir que aparência ou carisma sejam sempre sinais de mau caráter. O problema é tratar essas coisas como prova suficiente de capacidade moral. “O homem olha o que está diante de seus olhos, mas o SENHOR olha o coração” (1 Samuel 16:7, Bíblia Livre). A liderança bíblica deve ser examinada pela fidelidade, pela justiça, pela humildade e pela disposição para servir.
Saul não falha porque Deus deixou de dar a ele a possibilidade de obedecer. Ele resiste à palavra recebida: “Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou para que não sejas rei” (1 Samuel 15:23, Bíblia Livre). Repare no que Saul perde: o reino e o Espírito que o capacitava para governar. “E o espírito do SENHOR se afastou de Saul” (1 Samuel 16:14, Bíblia Livre). O texto fala do ofício real e da força para exercer esse ofício, e não dá um veredito sobre o destino eterno de Saul. A tragédia dele adverte líderes cheios de dons: a graça recebida para uma função precisa ser acompanhada por uma submissão contínua ao Senhor. “Aquele que pensa estar de pé, olhe para que não caia” (1 Coríntios 10:12, Bíblia Livre).
5. Não coloquem a sua confiança em príncipes
O Salmo 146 manda: “Não ponhas tua confiança em príncipes; em filhos de homens, em quem não há salvação” (Salmo 146:3, Bíblia Livre). Calvino comenta:
“Embora os príncipes estejam munidos de poder, dinheiro, tropas e outros recursos, Davi nos lembra que é errado pôr a nossa confiança no homem frágil e mortal, e inútil procurar segurança onde ela não pode ser encontrada.”
(João Calvino, Comentário sobre os Salmos, 146:3)
Clarke resume o equilíbrio do capítulo 12 de 1 Samuel: “Não é pecado ter um rei; um bom rei é uma das maiores bênçãos da providência de Deus; mas é pecado pôr um homem no lugar de Deus.”
Isso não exige abandono da vida pública. A Bíblia orienta a oração pelos governantes, a defesa do oprimido, a busca da justiça e a responsabilidade das autoridades. O mesmo Senhor em quem esperamos “faz juízo aos oprimidos” e “dá pão aos famintos” (Salmo 146:7, Bíblia Livre). Armínio chegou a afirmar que “um cristão pode, com boa consciência, aceitar o ofício e cumprir os deveres da magistratura”, e que ninguém é mais adequado do que ele para exercer esse ofício.
Os cristãos podem votar, servir no governo, debater políticas e discordar com consciência. Não podem entregar a um partido a lealdade que pertence a Cristo, ajustar a verdade para proteger aliados nem tratar adversários como pessoas fora do alcance da dignidade e da graça.
Nenhuma eleição é uma escolha entre Deus e o mal em sentido absoluto. Nenhuma nação atual é o Reino de Deus. Nenhum líder humano recebe imunidade profética por usar símbolos cristãos.
A Igreja dá um testemunho melhor quando conserva a liberdade de elogiar o que é justo, denunciar o que é mau e servir as pessoas que não têm poder. A esperança política mais profunda dela não é apatia, mas fidelidade ao Rei que julga todas as autoridades: “O SENHOR reinará eternamente” (Salmo 146:10, Bíblia Livre).
6. O Rei que dá a própria vida
Jesus é o Filho de Davi e o Rei prometido. Diante de Pilatos, Jesus afirma ter um Reino que não tira dos sistemas deste mundo a sua origem nem os seus métodos: “Meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, meus trabalhadores lutariam, para que eu não fosse entregue aos Judeus” (João 18:36, Bíblia Livre). Os servos dele não estabelecem esse Reino pela violência. Clarke comenta que, se o Reino fosse de natureza secular, os servos de Jesus “teriam oposto força à força, como fazem os reinos deste mundo nas suas guerras”.
Quando os discípulos disputam grandeza, Jesus contrasta os governantes que dominam com o Filho do Homem que serve: “Mas entre vós não será assim; antes qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso servidor” (Marcos 10:43, Bíblia Livre). E acrescenta: “Porque também não veio o Filho do homem para ser servido, mas para servir, e dar sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45, Bíblia Livre). Jesus não renuncia à autoridade, mas revela a forma santa dela. Wesley explica o alcance da palavra “muitos”: “Sim, por tantas almas quantas precisavam de tal resgate.” Paulo diz o mesmo de outro modo: “ele morreu por todos” (2 Coríntios 5:15, Bíblia Livre).
Na cruz, o título de rei parece uma ironia do império. Na ressurreição, Deus vindica o Rei crucificado. O Apocalipse apresenta Jesus como o Leão que vence na figura do Cordeiro morto. João ouve falar do “Leão da tribo de Judá” e, quando olha, vê “um Cordeiro que estava como se tivesse sido morto” (Apocalipse 5:5–6, Bíblia Livre). O comentarista inglês Matthew Henry resume a cena: “Ele é chamado Leão, mas aparece como um Cordeiro morto.” O poder dele não é fraqueza, mas amor capaz de derrotar o pecado, a morte e o império sem imitar nenhum deles.
Seguir esse Rei transforma toda liderança. Os pais não são donos dos filhos; os pastores não são donos das igrejas; os governantes não são donos dos povos. Armínio escreveu que o príncipe “é menor do que o próprio Estado”, e Calvino, comentando as palavras de Jesus aos discípulos, observou que “nem mesmo os reis governam com justiça ou legitimidade se não servem”. A autoridade é uma responsabilidade temporária para proteger, ordenar e servir. O Rei de que precisamos não toma a nossa vida para se engrandecer. Ele entrega a própria vida para fazer de nós um povo santo.
Para conversar com Deus
- Que problema legítimo tem levado você a esperar salvação de uma solução humana?
- Em que líder ou instituição você evita reconhecer falhas por medo de perder a segurança?
- Se você tem autoridade, o seu modo de agir protege as pessoas ou transforma as pessoas em recursos?
- O que mudaria se a sua esperança pública estivesse de fato submetida ao reinado de Jesus?
Oração de resposta
Rei eterno, confessamos a nossa fome por salvadores visíveis. Perdoa-nos quando entregamos a líderes, partidos, dinheiro ou prestígio a confiança que pertence a ti. Dá sabedoria às autoridades, coragem aos que denunciam a injustiça e proteção aos que sofrem abuso. Purifica o modo como exercemos o poder. Debaixo do governo de Jesus, o Rei que serviu e entregou a vida, faz-nos buscar justiça sem idolatria, verdade sem crueldade e serviço sem ambição. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Por que Israel pecou ao pedir um rei, se Deus permitiu e prometeu a monarquia?
Resposta para guardar
Israel não pecou simplesmente por desejar uma forma humana de governo, pois a lei já previa um rei submetido a Deus. O povo pecou ao exigir um rei segundo o modelo das nações e ao transferir para ele a confiança devida ao Senhor. Deus continua Rei sobre toda autoridade e, em Jesus Cristo, dá o Rei prometido, que governa com justiça, serve o seu povo e entrega a própria vida.
Textos para conferir
Deuteronômio 17:14–20; 1 Samuel 2:1–10; 8:1–22; 10:17–27; 12:12–25; Marcos 10:35–45; João 18:33–38; Apocalipse 5:6–14.
Oração
Rei Jesus, governa os nossos amores e ensina-nos a exercer toda autoridade segundo a tua justiça, a tua humildade e o teu serviço. Amém.
Hino para guardar no coração
Alegrem-se: o Senhor é Rei
Autor: Charles Wesley
Título original: “Rejoice, the Lord Is King”
Fonte: Hymns for Our Lord’s Resurrection (1746), Hino 8
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Alegrem-se: o Senhor é Rei!
Adorem o seu Senhor e Rei.
Mortais, agradeçam e cantem,
e triunfem para sempre.
Elevem o coração, levantem a voz;
alegrem-se, outra vez digo: alegrem-se.
Jesus, o Salvador, reina,
o Deus da verdade e do amor.
Depois de purificar as nossas manchas,
tomou o seu assento nas alturas.
Elevem o coração, levantem a voz;
alegrem-se, outra vez digo: alegrem-se.
O seu Reino não pode fracassar;
ele governa a terra e o céu.
As chaves da morte e do inferno
foram entregues a Jesus.
Elevem o coração, levantem a voz;
alegrem-se, outra vez digo: alegrem-se.
Ele se assenta à direita de Deus
até que os seus inimigos se submetam,
se curvem à sua ordem
e caiam diante dos seus pés.
Elevem o coração, levantem a voz;
alegrem-se, outra vez digo: alegrem-se.
Ele vencerá todos os seus inimigos,
destruirá em nós todo pecado
e encherá cada coração
de alegria pura e celestial.
Elevem o coração, levantem a voz;
alegrem-se, outra vez digo: alegrem-se.
Alegrem-se na esperança gloriosa:
Jesus, o Juiz, virá
e receberá os seus servos
no seu lar eterno.
Logo ouviremos a voz do arcanjo;
a trombeta de Deus soará. Alegrem-se!
O hino é cantado em inglês com esta melodia, a mais usada para ele nos hinários, composta por John Darwall para o Salmo 148. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.
Para meditar
Charles Wesley reuniu este hino entre os seus cânticos para a ressurreição. O reinado de Jesus não nasce de um desejo religioso projetado sobre o futuro, mas da vitória dele sobre a morte. O Rei que purifica também destrói o pecado em nós. A autoridade dele produz esperança, obediência e alegria, e não culto a governantes terrenos.
Pergunta: Que medo político ou pessoal perde o domínio sobre você quando você recorda que o Reino de Cristo não pode fracassar?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, examine o medo: A solução visível que promete controlar o amanhã
- Terça-feira, limite o poder: Nenhuma autoridade está acima da palavra
- Quarta-feira, discernir além da aparência: Dons não substituem caráter
- Quinta-feira, ore por governantes: Intercessão sem idolatria
- Sexta-feira, lidere servindo: Grandeza ajoelhada
- Sábado, alegre-se no verdadeiro rei: O Cordeiro está no trono
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: 1 Samuel 8: Israel pede um rei e rejeita o reino de Deus
- 1 Samuel 8, 1 Samuel 10 e 1 Samuel 12 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Autoridade na Bíblia: Obediência, limites e serviço
- Reino de Deus e Igreja: como os dois se relacionam
Obras citadas
- Agostinho. The City of God, IV.4, trad. Marcus Dods. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, série 1, vol. 2.
- Armínio, Jacó. Debates públicos, XXV (“Sobre a magistratura”), 10, 11 e 13. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, 1 Samuel 2:10 e 10:9–10.
- Calvino, João. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony, Deuteronômio 17:14.
- Calvino, João. Commentary on the Book of Psalms, Salmo 146:3.
- Calvino, João. Commentary on a Harmony of the Evangelists, Mateus 20:25.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, 1 Samuel 8:1, 8:9, 8:22, 10:1, 10:25, 12:19 e 12:21; João 18:36.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Apocalipse 5:1–7.
- Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1 Samuel 8 e 10:6.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Deuteronômio 17:20; 1 Samuel 8:5, 8:11, 8:20, 10:1 e 10:25.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Marcos 10:45.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
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