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A imagem que nenhuma ferida apaga

Vem Andar Comigo, Semana 2 · Domingo: Quando Deus coloca o seu nome sobre o ser humano

Diego Gonçalves23 min de leitura4.629 palavras

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Neste texto

Tema: dignidade humana, vocação, trabalho e comunhão
Leituras principais: Gênesis 1:26–31; 2:7–25
Leituras complementares: Salmo 8; Mateus 22:34–40; Colossenses 3:9–17; Tiago 3:7–10
Verdade central: Deus criou cada ser humano à sua imagem, com igual dignidade e com a vocação de amar, cultivar e representar o seu bom governo no mundo.

Quando Deus coloca o seu nome sobre o ser humano

Há pessoas que aprenderam a medir o próprio valor pela utilidade. Enquanto produzem, sentem que merecem espaço; quando adoecem, envelhecem ou falham, imaginam que se tornaram um peso. Outras medem a dignidade pelo reconhecimento, pela aparência ou pelo poder de decidir sem depender de ninguém.

Gênesis oferece outro fundamento. Antes de qualquer ser humano trabalhar, construir, conquistar ou provar alguma coisa, Deus declara: “Façamos ao ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança” (Gênesis 1:26, Bíblia Livre).

A nossa dignidade não começa no que fazemos para Deus. Ela começa no que Deus decidiu fazer de nós.

O texto

Leitura principal: Gênesis 1:26–31; 2:7–25

Leitura: Gênesis 1:26–31; 2:7–8, 15–25

E disse Deus: Façamos ao ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e domine os peixes do mar, e as aves dos céus, e os animais, e toda a terra, e todo animal que anda arrastando sobre a terra.

E criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.

E Deus os abençoou; e disse-lhes Deus: Frutificai e multiplicai, e enchei a terra, e subjugai-a, e dominai os peixes do mar, as aves dos céus, e todos os animais que se movem sobre a terra.

E disse Deus: Eis que vos dei toda erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda árvore em que há fruto de árvore que dá semente, vos será para comer.

E a todo animal da terra, e a todas as aves dos céus, e a tudo o que se move sobre a terra, em que há vida, toda erva verde lhes será para comer: e foi assim.

E viu Deus tudo o que havia feito, e eis que era bom em grande maneira. E foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

(Gênesis 1:26-31, Bíblia Livre)

Formou, pois, o SENHOR Deus ao homem do pó da terra, e assoprou em seu nariz sopro de vida; e foi o homem em alma vivente.

E havia o SENHOR Deus plantado um jardim em Éden ao oriente, e pôs ali ao homem que havia formado.

Então o SENHOR Deus tomou o homem, e o pôs no jardim de Éden, para que o lavrasse e o guardasse.

E mandou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás;

Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás dela; porque no dia que dela comeres, morrerás.

E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; farei para ele ajuda idônea para ele.

Formou, pois, o SENHOR Deus da terra todo animal do campo, e toda ave dos céus, e trouxe-os a Adão, para que visse como lhes havia de chamar; e tudo o que Adão chamou aos animais viventes, esse é seu nome.

E pôs Adão nomes a todo animal e ave dos céus e a todo animal do campo: mas para Adão não achou ajuda que estivesse idônea para ele.

E o SENHOR Deus fez cair sonho sobre Adão, e ele adormeceu: então tomou uma de suas costelas, e fechou a carne em seu lugar;

E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, fez uma mulher, e trouxe-a ao homem.

E disse Adão: Esta é agora osso de meus ossos, e carne de minha carne: esta será chamada Mulher, porque do homem foi tomada.

Portanto, deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se achegará à sua mulher, e serão uma só carne.

E estavam ambos nus, Adão e sua mulher, e não se envergonhavam.

(Gênesis 2:7-8,15-25, Bíblia Livre)

Para entender o texto

Gênesis 1 e Gênesis 2 contam a criação do ser humano de dois ângulos. O capítulo 1 mostra o quadro inteiro: o ser humano aparece no sexto dia, no ponto mais alto da obra, depois que Deus preparou a casa onde ele ia morar. O capítulo 2 olha mais de perto: o pó da terra, o sopro de Deus, o jardim, o trabalho, os animais que recebem nome e o encontro do homem com a mulher. As duas páginas não competem entre si. A primeira diz quem o ser humano é diante de Deus, e a segunda mostra onde e como ele foi chamado a viver.

Repare também no nome de Deus. Em Gênesis 1, o texto diz apenas “Deus” (em hebraico, Elohim). Em Gênesis 2, aparece “o SENHOR Deus”, o nome pessoal com que Deus se revelaria a Israel, unido ao nome de Criador. O Criador poderoso do capítulo 1 é o mesmo Deus próximo que, no capítulo 2, forma o homem do pó e fala com ele.

Três palavras ajudam a ler esses capítulos.

Em primeiro lugar, imagem e semelhança (em hebraico, tselem e demut). Em outros lugares do Antigo Testamento, tselem é a palavra usada para imagens esculpidas e estátuas, como as “imagens de fundição” dos cananeus (Números 33:52) e, no aramaico de Daniel, a “estátua de ouro” que Nabucodonosor ergueu no campo de Dura (Daniel 3:1). Uma imagem torna visível alguém que não está ali. João Calvino, o reformador de Genebra, não via distância entre as duas palavras: “antes de definir a imagem de Deus, eu negaria que ela seja diferente da sua semelhança”. Elas se reforçam, e o sentido, segundo Calvino, é que o ser humano foi criado “para ser semelhante a Deus, ou para representar a imagem de Deus” (Comentário sobre Gênesis, 1:26).

Em segundo lugar, ser humano e terra (adam e adamah). Em hebraico, o nome do primeiro homem soa como a palavra “terra”: Adão é o ser tirado do chão. “Formou, pois, o SENHOR Deus ao homem do pó da terra, e assoprou em seu nariz sopro de vida; e foi o homem em alma vivente” (Gênesis 2:7, Bíblia Livre). Somos pó com o sopro de Deus. Calvino viu nesse detalhe um remédio contra a vaidade. Moisés acabou de dizer que o ser humano foi feito à imagem de Deus, e logo em seguida, “para que os homens não usem isso como ocasião de orgulho, a sua primeira origem é posta logo diante deles” (Comentário sobre Gênesis, 2:7). A dignidade é presente, e o pó nos lembra de onde viemos.

Em terceiro lugar, lavrar e guardar (abad e shamar), os dois verbos de Gênesis 2:15. Abad quer dizer trabalhar a terra, mas também servir, e é a palavra usada para o serviço prestado a Deus no culto. Shamar quer dizer guardar, vigiar e proteger, e é a palavra usada para guardar os mandamentos. Desde o começo, trabalho e cuidado andam juntos, e os dois acontecem diante de Deus.

1. Imagem recebida, não troféu conquistado

No mundo antigo, reis podiam erguer imagens para representar o seu governo. Em Gênesis, essa linguagem se amplia de maneira surpreendente: homem e mulher são criados à imagem de Deus. A honra não fica reservada ao palácio, à força física, à riqueza ou a uma classe religiosa. O Criador confia a criaturas humanas a responsabilidade de ser os seus representantes no mundo.

Calvino repara que, até aqui, Deus apenas dava ordens, e que, ao chegar ao ser humano, ele como que entra em deliberação: “Façamos”. Para o reformador, Deus “quis prestar esse tributo à excelência do homem, entrando, de certo modo, em conselho sobre a sua criação. Esta é a mais alta honra com que ele nos dignificou” (Comentário sobre Gênesis, 1:26).

A Bíblia não oferece uma definição isolada da imagem, como se ela fosse apenas inteligência, consciência moral ou capacidade de falar. Essas faculdades pertencem à vida humana, mas a imagem é apresentada dentro de uma relação e de uma vocação. Recebemos a vida de Deus, somos chamados a responder a ele, a viver em comunhão e a cuidar da criação sob a sua autoridade. Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, descreveu com cuidado os dons com que Deus formou o ser humano, mas terminou falando do propósito:

“Assim foi criado o homem, para que conhecesse, amasse e adorasse o seu Criador e vivesse com ele para sempre num estado de felicidade.”

(Jacó Armínio, Debates privados, XXVI.10)

Fomos feitos para Deus antes de sermos feitos para qualquer tarefa.

Por isso, ninguém tem mais imagem de Deus por ter mais estudo, autonomia ou produtividade. Uma criança por nascer, uma pessoa com deficiência profunda, alguém inconsciente, um idoso dependente e a pessoa que a sociedade tornou invisível conservam uma dignidade que não pode ser negociada.

Essa dignidade continua depois da queda. Depois do dilúvio, Deus protege a vida humana “porque à imagem de Deus o ser humano foi feito” (Gênesis 9:6, Bíblia Livre). Tiago lembra que amaldiçoar pessoas contradiz o louvor a Deus, pois os seres humanos “são feitos à semelhança de Deus” (Tiago 3:9, Bíblia Livre). John Wesley, comentando esse versículo, explica o que o pecado tirou e o que ficou: “Na verdade, perdemos agora essa semelhança; contudo, resta dela uma nobreza indelével, que devemos reverenciar tanto em nós mesmos como nos outros” (Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Tiago 3:9). Perdemos a justiça e a santidade com que fomos criados, mas continuamos a ser as criaturas que Deus marcou com a sua imagem.

O pecado desfigura a nossa maneira de refletir o Criador, mas não dá a ninguém licença para tratar outra pessoa como coisa.

2. Homem e mulher: a mesma dignidade diante de Deus

Gênesis 1 não deixa dúvida: “E criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gênesis 1:27, Bíblia Livre). Os dois recebem a bênção e a vocação. Nenhum dos dois aparece como versão incompleta do outro.

Gênesis 2 contempla a criação mais de perto. O homem feito do pó não encontra entre os animais uma companhia correspondente. Deus diz: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele ajuda idônea para ele” (Gênesis 2:18, Bíblia Livre). A palavra “ajuda” (em hebraico, ezer) não indica inferioridade. Nas Escrituras, o próprio Deus recebe esse nome: “Meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra” (Salmo 121:2, Bíblia Livre). E a expressão “idônea para ele” (kenegdo) quer dizer, ao pé da letra, “como diante dele”: alguém que corresponde, face a face. Adam Clarke, o grande comentarista metodista, concluiu daí que “a mulher seria uma semelhança perfeita do homem, sem inferioridade nem superioridade, mas em tudo semelhante e igual a ele” (Comentário sobre a Bíblia, Gênesis 2:18).

O primeiro reconhecimento humano registrado na Bíblia é uma celebração de parentesco: “Esta é agora osso de meus ossos, e carne de minha carne” (Gênesis 2:23, Bíblia Livre). A diferença sexual não autoriza desprezo, domínio violento ou apagamento. Ela aparece no contexto da bondade, da mutualidade e da aliança. Paulo escreve aos coríntios: “nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor” (1 Coríntios 11:11, Bíblia Livre). E aos gálatas: “não há macho nem fêmea. Pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28, Bíblia Livre).

John Wesley levou essa verdade para a vida da igreja. Num sermão sobre a visita aos doentes, ele chamou as mulheres para esse serviço e protestou contra o costume de criar meninas como se fossem apenas “brinquedos agradáveis”. Depois escreveu:

“Vocês, assim como os homens, são criaturas racionais. Vocês, como eles, foram feitas à imagem de Deus; são igualmente candidatas à imortalidade.”

(John Wesley, sermão 98, Sobre visitar os enfermos, III.7)

O texto também honra o casamento como união de fidelidade em que os dois “serão uma só carne” (Gênesis 2:24, Bíblia Livre), e Jesus volta a essas palavras quando ensina sobre o casamento (Mateus 19:4–6). Ao mesmo tempo, a imagem de Deus não depende do estado civil. Jesus, plenamente humano e “imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15, Bíblia Livre), viveu solteiro. Pessoas solteiras, viúvas e celibatárias não têm uma humanidade menor. A família de Deus acolhe todos os que estão em Cristo e chama cada pessoa à comunhão santa.

3. O trabalho antes dos espinhos

O trabalho aparece antes da queda. “Então o SENHOR Deus tomou o homem, e o pôs no jardim de Éden, para que o lavrasse e o guardasse” (Gênesis 2:15, Bíblia Livre). Isso quer dizer que trabalhar não é, em si, castigo. Criar, organizar, ensinar, plantar, limpar, cuidar, administrar e servir podem fazer parte da vocação recebida do Criador.

Matthew Henry, pastor inglês do começo do século XVIII, escreveu um comentário bíblico lido por gerações (John Wesley aproveitou largamente esse comentário nas suas notas sobre o Antigo Testamento, de 1765). Sobre esse versículo, ele escreveu palavras que servem para qualquer segunda-feira:

“Mesmo no próprio paraíso o homem tinha de trabalhar. Nenhum de nós foi enviado ao mundo para ficar à toa. […] Os filhos e herdeiros do céu, enquanto estão neste mundo, têm o que fazer nesta terra, e isso deve receber a sua parte do tempo e dos pensamentos deles; e, se o fazem com os olhos em Deus, servem a ele nisso tão verdadeiramente como quando estão de joelhos.”

(Matthew Henry, Comentário conciso, Gênesis 2:15)

O pecado vai tornar o trabalho penoso, explorador e frustrante. Depois da queda, a terra produz “espinhos e cardos”, e o pão vem “no suor do teu rosto” (Gênesis 3:18–19, Bíblia Livre). Ainda assim, a vocação original não desaparece. O cristão não trabalha apenas por salário ou prestígio. Ele trabalha diante de Deus e em favor do próximo: “Tudo quanto fizerdes, fazei de coração, como para o Senhor, e não para as pessoas” (Colossenses 3:23, Bíblia Livre).

Isso também impede que o emprego se transforme em identidade absoluta. Nem todo trabalho é emprego remunerado. Cuidar de uma criança, acompanhar um enfermo, preparar a casa, procurar honestamente uma ocupação e servir em silêncio à comunidade têm um valor que o mercado pode não reconhecer.

Deus descansou no sétimo dia e nos ensina que a criação não depende de produtividade sem fim. O mandamento do descanso alcançava até quem estava na posição mais baixa da casa: “para que descanse teu servo e tua serva como tu” (Deuteronômio 5:14, Bíblia Livre). Calvino explica o propósito desse dia: “Deus não mandou os homens simplesmente folgar a cada sétimo dia, como se tivesse prazer na preguiça deles, mas para que, livres de todos os outros afazeres, aplicassem a mente com mais prontidão ao Criador do mundo” (Comentário sobre Gênesis, 2:3).

Trabalhar é vocação; descansar é confissão. Quando paramos diante de Deus, reconhecemos que somos criaturas amadas, e não máquinas religiosas.

4. Domínio como cuidado responsável

A ordem de exercer domínio já foi usada para justificar a exploração da terra, dos animais e de outros povos. Esse uso contradiz o caráter do Rei que os portadores da sua imagem devem representar.

O domínio humano é delegado. Adam Clarke observou que “o domínio não era a imagem”: Deus “criou o homem capaz de governar o mundo” e só então confiou a ele esse encargo. A terra continua pertencendo ao Senhor: “a terra minha é; que vós peregrinos e estrangeiros sois para comigo” (Levítico 25:23, Bíblia Livre). Somos administradores que vão prestar contas, e “exige-se dos guardiões que cada um seja fiel” (1 Coríntios 4:2, Bíblia Livre).

Calvino tirou de Gênesis 2:15 uma regra para todos nós: “que cada um se considere administrador de Deus em todas as coisas que tem. Então não vai se portar de maneira dissoluta, nem corromper pelo abuso aquilo que Deus quer que seja preservado” (Comentário sobre Gênesis, 2:15).

John Wesley, num sermão sobre a criação que geme à espera da redenção, descreveu o lugar do ser humano no jardim:

“Assim, o homem era o representante de Deus na terra, o príncipe e governador deste mundo inferior; e todas as bênçãos de Deus passavam por ele para as criaturas inferiores. O homem era o canal entre o seu Criador e toda a criação animal.”

(John Wesley, sermão 60, A libertação geral, I.3)

Nessa leitura, o domínio é um canal de bênção, e não um direito de tirar proveito. A autoridade de Deus, plenamente revelada em Jesus, protege os fracos, alimenta os famintos e entrega a própria vida. Representar esse governo pede cultivo e guarda, e não saque.

O cuidado da criação não substitui a evangelização nem é um luxo para tempos tranquilos. Amar o próximo inclui cuidar das condições em que ele vive: água, alimento, ar, moradia e acesso justo aos dons da terra. A santidade tem uma dimensão social. Ela toca hábitos de consumo, relações de trabalho e o modo como as nossas escolhas atingem pessoas que talvez nunca vejamos. E a criação inteira espera o dia da redenção, “na esperança de que também a mesma criação seja liberta da escravidão da degradação para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8:21, Bíblia Livre).

5. A imagem restaurada em Cristo

Gênesis nos diz quem fomos criados para ser; o restante da Bíblia mostra como essa vocação foi ferida e como Deus a restaura.

No sermão sobre o novo nascimento, Wesley distingue três aspectos da imagem. Deus fez o ser humano “não apenas na sua imagem natural […] nem somente na sua imagem política […] mas principalmente na sua imagem moral”, que é “justiça e verdadeira santidade” (sermão 45, O novo nascimento, I.1). A imagem natural é o que somos: espíritos com entendimento, vontade e afetos. A imagem política é o encargo de governar a terra. A imagem moral é o amor, a justiça e a santidade que refletiam o caráter de Deus.

Foi essa imagem moral que se perdeu na queda, e Wesley não suaviza a perda: desde Adão, todo ser humano vem ao mundo “vazio da imagem de Deus, de toda aquela justiça e santidade em que Adão foi criado” (I.4). Por isso não basta melhorar o que já existe em nós. Precisamos nascer de novo, e só Deus pode realizar essa obra, do começo ao fim.

Cristo é chamado de “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15, Bíblia Livre). Nele vemos a humanidade verdadeira: inteiramente voltada para o Pai, cheia do Espírito e entregue em amor ao próximo. Lutero, ao comentar Gênesis 1:26, escreveu que “o próprio propósito do evangelho é restaurar essa imagem de Deus” e que ela “começa a ser restaurada em nós por meio do evangelho, por esta nova criação, nesta vida”.

A salvação não consiste apenas em receber perdão e continuar com o mesmo coração. Deus age por nós quando nos perdoa e nos aceita por causa de Cristo (é a justificação), e age em nós quando o Espírito nos dá vida nova (é o novo nascimento). Paulo escreve aos colossenses: “já vos despistes do velho ser humano com os seus costumes, e vos revestistes do novo, que se renova em conhecimento, conforme a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:9–10, Bíblia Livre). A mentira cede lugar à verdade; a hostilidade, à reconciliação; o orgulho, à compaixão; a impureza, ao amor santo. Wesley descreveu essa mudança quase com as mesmas palavras:

“[…] quando o amor do mundo se transforma em amor de Deus; o orgulho, em humildade; a ira, em mansidão; o ódio, a inveja e a malícia, num amor sincero, terno e desinteressado por toda a humanidade.”

(John Wesley, sermão 45, O novo nascimento, II.5)

Na tradição wesleyana, santidade é o amor por Deus e pelo próximo governando o coração e a vida. Wesley chamou essa santidade de “a imagem de Deus gravada no coração” e de “toda a mente que havia em Cristo Jesus” (III.1). Ela não pede que apaguemos a nossa personalidade, que nos achemos impecáveis aos nossos próprios olhos ou que desprezemos quem ainda luta. A graça de Deus quer curar as nossas afeições e formar em nós a mente de Cristo. Essa obra é dom recebido pela fé, e não conquista do nosso esforço: “Fiel é aquele que vos chama, e ele também o fará” (1 Tessalonicenses 5:24, Bíblia Livre).

6. Ver o rosto que o mundo não vê

A doutrina da imagem de Deus se torna concreta quando encontramos alguém que não pode nos oferecer vantagem. A pessoa diante de nós não é uma interrupção, uma categoria ou um problema, mas uma criatura que Deus vê.

Wesley sabia como é fácil não ver. No sermão sobre a visita aos doentes, ele observou que “uma parte do mundo não sabe o que a outra sofre. Muitos não sabem porque não se importam em saber: mantêm-se fora do caminho de saber” (Sobre visitar os enfermos, I.3). Por isso insistia na visita pessoal, feita com os próprios pés e os próprios olhos. Jesus põe o rosto dele no rosto do necessitado: “todas as vezes que fizestes a um destes menores dos meus irmãos, fizestes a mim” (Mateus 25:40, Bíblia Livre).

Talvez você precise receber essa verdade para si. O seu valor não foi cancelado por um diagnóstico, uma perda, um desemprego ou pelo pecado do qual você se arrepende. O evangelho não chama o mal de bem, mas anuncia que nenhuma ferida tem autoridade para reescrever a decisão do Criador.

Talvez você precise oferecer essa verdade a outra pessoa. Antes de falar, vencer uma discussão ou proteger a sua posição, lembre-se de quem está diante de você. Calvino escreveu sobre esse versículo: “Quem, então, adora e honra a Deus de verdade terá medo de falar mal de um ser humano” (Comentário sobre as Epístolas Gerais, Tiago 3:9). A língua que louva a Deus não pode tratar com desprezo a imagem que ele colocou no próximo. “Da mesma boca procedem benção e maldição. Meus irmãos, isso não deve ser assim” (Tiago 3:10, Bíblia Livre).

Para conversar com Deus

  • Em que você tem baseado o seu valor pessoal?
  • Quem se torna facilmente invisível na sua rotina?
  • O seu trabalho serve ao próximo ou alimenta apenas a sua necessidade de aprovação?
  • Que escolha concreta expressaria um cuidado responsável com a criação?

Oração de resposta

Criador santo, tu nos formaste do pó e nos honraste com a tua imagem. Perdoa-nos por medir as pessoas pela utilidade, pela aparência ou pelo poder. Cura em nós o desprezo, a exploração e a indiferença. Ensina-nos a trabalhar com fidelidade, descansar na tua graça e cuidar do mundo que te pertence. Pelo Espírito, renova em nós a imagem de Cristo, até que o teu amor governe os nossos pensamentos, palavras e ações. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

O que significa ser criado à imagem de Deus?

Resposta para guardar

Ser criado à imagem de Deus significa receber dele uma dignidade inviolável e a vocação de viver em comunhão com o Criador, amar o próximo e representar o seu governo no cuidado da criação. Homem e mulher compartilham igualmente essa honra. O pecado corrompe a nossa maneira de refletir Deus, mas não transforma pessoas em objetos. Em Jesus Cristo, a imagem perfeita, somos perdoados e renovados pelo Espírito para crescer em conhecimento, justiça, santidade e amor.

Textos para conferir

Gênesis 1:26–28; 2:7–25; Salmo 8; Colossenses 1:15; 3:9–14; Tiago 3:9–10.

Oração

Deus trino, ensina-nos a receber a nossa dignidade sem orgulho e a honrar a tua imagem em cada pessoa. Restaura em nós aquilo que o pecado deformou e faz-nos semelhantes a Cristo em amor santo. Amém.

Hino para guardar no coração

Façamos o ser humano à nossa imagem

Autor: Charles Wesley

Título original: “Hail, Father, Son, and Spirit great”

Título editorial: “À Trindade: Gênesis 1:26”

Fonte: Hymns on the Trinity (1767), Hino 87

Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto

Salve, Pai, Filho e Espírito, grande Deus,
entronizado antes do nascimento do tempo:
Jeová Elohim.
Adoramos o mistério da tua plenitude:
um só Deus em três Pessoas,
três Pessoas em uma só natureza.

De ti recebemos o nosso ser,
criaturas formadas pela tua graça.
Levantados do pó, vivemos
para cantar o louvor do nosso Criador.
O teu poder, a tua sabedoria e o teu amor
planejaram a nossa criação;
as gloriosas Pessoas se uniram
ao formar a humanidade.

E novamente, no conselho do teu amor,
vieste restaurar a tua obra ferida,
firmando-nos pela graça
na vida que havíamos perdido.
Quando formos renovados em amor,
a nossa vida refletirá a ti,
imagem do Deus triúno,
por toda a eternidade.

Melodia: ST. ANNE, de William Croft, 1708

O hino é cantado em inglês com esta melodia, a mesma de “O God, Our Help in Ages Past”. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.

Para meditar

Charles Wesley lê Gênesis à luz da revelação completa do Pai, do Filho e do Espírito. O plural de Gênesis 1:26, sozinho, não funciona como prova completa da Trindade; a confissão trinitária nasce do testemunho conjunto das Escrituras. O hino transforma essa confissão em oração pela restauração da imagem em amor.

Pergunta: Que traço do amor de Cristo o Espírito deseja formar em você nesta semana?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Armínio, Jacó. Debates privados, XXVI (“Sobre a criação do homem à imagem de Deus”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
  • Calvino, João. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis, 1:26, 2:3, 2:7 e 2:15.
  • Calvino, João. Commentaries on the Catholic Epistles, Tiago 3:9.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Gênesis 1:26 e 2:18; Mateus 22:39.
  • Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Gênesis 2:15.
  • Lutero, Martinho. Luther on the Creation: A Critical and Devotional Commentary on Genesis, trad. John Nicholas Lenker, 1904, Gênesis 1:26.
  • Wesley, John. Sermão 45, The New Birth; Sermão 60, The General Deliverance; Sermão 98, On Visiting the Sick. Em Sermons on Several Occasions.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Tiago 3:9.

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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