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O Deus que chama o mundo à existência
Vem Andar Comigo, Semana 1 · Domingo: Antes de tudo, Deus
Neste texto
- Antes de tudo, Deus
- O texto
- Para entender o texto
- 1. Deus não faz parte da criação
- 2. Deus cria pela sua palavra
- 3. O Pai cria por meio do Filho, no poder do Espírito
- 4. A bondade vem antes da ferida
- 5. Criaturas, e não donos absolutos
- 6. Quando a vida parece sem forma
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Pai, em quem vivemos
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: criação, providência e pertencimento
Leituras principais: Gênesis 1:1–5, 26–31; 2:1–3
Leituras complementares: Salmo 33:6–9; João 1:1–3; Colossenses 1:15–17; Atos 17:24–28; Apocalipse 4:11
Verdade central: Tudo existe porque Deus criou livremente, sustenta com amor e governa com sabedoria. Nossa vida foi recebida dele e encontra nele o seu verdadeiro propósito.
Antes de tudo, Deus
Antes de a Bíblia dizer o que devemos fazer, ela nos apresenta aquele que já estava presente quando nada do que conhecemos existia.
Antes da primeira estrada, da primeira casa e da primeira fronteira, Deus estava ali. Antes de a primeira árvore abrir os galhos, antes de a primeira criatura abrir os olhos, antes de haver olhos capazes de ver qualquer beleza, Deus existia. Ele não acordou dentro de um universo pronto. Ele não encontrou matéria abandonada e resolveu pôr ordem nela. Ele não apareceu como uma força entre outras forças.
“No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1, Bíblia Livre).
A primeira frase das Escrituras põe a nossa vida no devido lugar. Há um Deus, e nós não somos ele. Há um mundo, e ele não pertence a nós. Há uma história, e ela não começou conosco.
Isso poderia parecer uma humilhação, mas é uma libertação.
Se tudo dependesse de nós, cada manhã chegaria com o peso de sustentar o mundo. Precisaríamos justificar a nossa existência, garantir o futuro e impedir que tudo escapasse das nossas mãos. Gênesis começa tirando esse fardo dos nossos ombros. O mundo não repousa sobre a nossa ansiedade. Ele repousa na fidelidade do Criador.
O texto
Leitura: Gênesis 1:1–5, 26–31; 2:1–3
No princípio criou Deus os céus e a terra.
E a terra estava desordenada e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que a luz era boa: e separou Deus a luz das trevas.
E chamou Deus à luz Dia, e às trevas chamou Noite: e foi a tarde e a manhã o primeiro dia.
E disse Deus: Façamos ao ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e domine os peixes do mar, e as aves dos céus, e os animais, e toda a terra, e todo animal que anda arrastando sobre a terra.
E criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.
E Deus os abençoou; e disse-lhes Deus: Frutificai e multiplicai, e enchei a terra, e subjugai-a, e dominai os peixes do mar, as aves dos céus, e todos os animais que se movem sobre a terra.
E disse Deus: Eis que vos dei toda erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda árvore em que há fruto de árvore que dá semente, vos será para comer.
E a todo animal da terra, e a todas as aves dos céus, e a tudo o que se move sobre a terra, em que há vida, toda erva verde lhes será para comer: e foi assim.
E viu Deus tudo o que havia feito, e eis que era bom em grande maneira. E foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
(Gênesis 1:1-5,26-31, Bíblia Livre)
E foram concluídos os céus e a terra, e tudo o que neles há.
E acabou Deus no dia sétimo sua obra que fez, e repousou o dia sétimo de toda sua obra que havia feito.
E abençoou Deus ao dia sétimo, e o santificou, porque nele repousou de toda sua obra que havia Deus criado e feito.
(Gênesis 2:1-3, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Gênesis 1 foi escrito para um povo que tinha acabado de sair do Egito. Israel conhecia de perto os deuses dos vizinhos: o sol adorado no Egito, o rio Nilo tratado como fonte divina de vida, os astros consultados na Babilônia. Contra esse fundo, a primeira página da Bíblia é uma confissão de fé. Tudo o que os povos adoravam aparece ali como obra das mãos de um único Deus. O texto nem dá nome ao sol e à lua: chama os dois apenas de “o luminar maior” e “o luminar menor” (Gênesis 1:16, Bíblia Livre), como lâmpadas penduradas pelo Criador para marcar os dias e os anos.
Três palavras ajudam a ler o capítulo.
Em primeiro lugar, o verbo criar (em hebraico, bara). No Antigo Testamento, esse verbo tem sempre Deus como sujeito. Pessoas fazem, formam e constroem, mas só Deus cria nesse sentido. Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, observou que a palavra indica o começo da existência de uma coisa, a passagem do que não existia para o que existe.
Em segundo lugar, a expressão sem forma e vazia (tohu vabohu). Ela descreve uma terra ainda sem ordem e sem habitantes. Os profetas usam as mesmas palavras para falar de uma terra devastada (Jeremias 4:23). Os seis dias respondem a esses dois problemas: nos três primeiros, Deus dá forma, separando luz e trevas, águas e céu, mar e terra seca; nos três seguintes, Deus enche o que formou, com astros, peixes e aves, animais e o ser humano. Isaías resume o propósito: Deus “não a criou para ser vazia, ao contrário, criou para que fosse habitada” (Isaías 45:18, Bíblia Livre).
Em terceiro lugar, o verbo que descreve o Espírito de Deus sobre as águas. É a mesma palavra usada para a águia que “paira sobre seus passarinhos” (Deuteronômio 32:11, Bíblia Livre). John Wesley, nas suas notas sobre Gênesis (que resumem o comentário de Matthew Henry), diz que o Espírito se movia sobre o abismo “como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas e paira sobre eles para aquecê-los e acalentá-los”. Desde o primeiro versículo, o Deus que cria é também o Deus que cuida.
1. Deus não faz parte da criação
Gênesis separa o Criador de tudo o que ele criou. O sol não é Deus. O mar não é Deus. A terra não é divina. As estrelas, que tantos povos antigos olhavam com temor religioso, aparecem no texto como obras que o Senhor colocou no céu pela sua vontade. Neemias confessa a mesma coisa em oração: “Tu és o único, SENHOR! Tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército; a terra e tudo quanto nela há” (Neemias 9:6, Bíblia Livre).
A Igreja resumiu esse ensino na doutrina da criação do nada (em latim, ex nihilo). Deus não trabalhou com um material que já existia ao lado dele. Clarke explica por que essa doutrina é necessária:
“A suposição de que Deus formou todas as coisas a partir de uma natureza eterna e preexistente é certamente absurda, pois, se houvesse uma natureza eterna além do Deus eterno, teria de haver dois seres que existem por si mesmos, independentes e eternos, o que é uma contradição evidente.”
(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Gênesis 1:1)
Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, definiu a criação em poucas palavras: ela “é um ato externo de Deus, pelo qual ele produziu todas as coisas a partir do nada, para si mesmo, pela sua Palavra e pelo seu Espírito” (Debates privados, XXIV.3).
Essa distinção protege duas verdades.
Em primeiro lugar, a criação não deve ser adorada. Podemos contemplar, estudar e cultivar o mundo e recebê-lo com gratidão, mas não devemos esperar dele aquilo que somente Deus pode dar. Nenhuma força da natureza perdoa pecados, reconcilia o coração ou vence a morte. Paulo mostra que a criação aponta para além de si mesma: por meio das coisas criadas, “o seu eterno poder e divindade” são “claramente vistos” (Romanos 1:20, Bíblia Livre). O mundo é uma janela para Deus, e não um altar.
Em segundo lugar, a criação não deve ser desprezada. Ela não é uma prisão construída por um poder inferior, nem um acidente sem significado. Deus olha a sua obra uma vez após outra e diz que ela é boa. No fim, olha o conjunto e diz que é muito bom.
A fé cristã não nos ensina a fugir do mundo material, como se o corpo, o trabalho, a comida, a arte e o cuidado fossem obstáculos para a vida espiritual. Ela nos ensina a receber o mundo sem transformar o mundo em ídolo. A matéria não é Deus, mas é dádiva de Deus.
2. Deus cria pela sua palavra
O primeiro capítulo de Gênesis tem um ritmo: Deus fala, algo passa a existir, Deus olha a sua obra e dá a ela um lugar e um propósito. Dez vezes o texto repete “E disse Deus”.
Não há nenhum sinal de esforço desesperado. Deus não luta para descobrir se vai conseguir vencer o caos. Ele não fala para tentar, mas para agir com soberania. A luz surge porque ele chama a luz. Os limites são postos. O que estava sem forma recebe ordem. O que estava vazio recebe habitantes. Wesley resume a cena da luz numa frase curta: “Ele o quis, e assim foi feito.”
O Salmo 33 retoma essa verdade: “Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus; e todo o seu exército foi feito pelo sopro de sua boca” (Salmo 33:6, Bíblia Livre). E chama toda a terra a temer o Senhor, “porque ele falou, e logo se fez; ele mandou, e logo apareceu” (Salmo 33:9, Bíblia Livre). A criação revela uma vontade que não age por capricho e uma sabedoria que não improvisa.
Há um detalhe que intriga os leitores desde a Antiguidade: a luz aparece no primeiro dia, e o sol só no quarto. João Calvino, o reformador de Genebra, viu nisso uma lição para a nossa fé:
“Não há nada a que sejamos mais inclinados do que prender o poder de Deus aos instrumentos de que ele se serve. […] Por isso o Senhor, pela própria ordem da criação, testemunha que segura em sua mão a luz, que ele pode nos dar sem o sol e sem a lua.”
(João Calvino, Comentário sobre Gênesis, 1:3)
Ou seja, os meios que Deus usa não são a fonte da bênção. O salário, o remédio, o médico e as pessoas que nos ajudam são dádivas reais, mas quem dá a luz é Deus.
Isso não quer dizer que Gênesis foi escrito para responder a cada pergunta da ciência moderna. Também não quer dizer que a fé precisa ter medo da investigação do mundo. O texto faz uma afirmação mais funda: qualquer processo verdadeiro que descobrirmos acontece dentro de uma realidade que recebe de Deus a existência, a ordem e a continuidade.
O cristão não precisa escolher entre prestar atenção ao mundo e confessar o Criador. Estudar a criação com honestidade é estudar algo que Deus chamou de bom.
3. O Pai cria por meio do Filho, no poder do Espírito
Gênesis mostra Deus criando e o Espírito de Deus movendo-se sobre a face das águas. Mais tarde, o Novo Testamento amplia a nossa visão sem abandonar a confissão de um único Deus.
João começa o seu Evangelho com as mesmas palavras de Gênesis: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. […] Por esta foram feitas todas as coisas, e sem ela não se fez coisa nenhuma do que foi feito” (João 1:1, 3, Bíblia Livre). Colossenses declara que em Cristo “foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra” e que “nele todas as coisas se mantêm” (Colossenses 1:16–17, Bíblia Livre). A criação é obra do Deus trino: do Pai, por meio do Filho, no poder do Espírito que dá vida.
Martinho Lutero, ao comentar Gênesis, ligou o “E disse Deus” ao prólogo de João:
“Portanto, ‘no princípio’ e antes de toda criatura está a Palavra; e ela é tão poderosa que do nada faz todas as coisas.”
(Martinho Lutero, Comentário sobre Gênesis, 1:3)
O Espírito também não fica de fora. Calvino observa que, se o mundo ainda informe precisou da ação do Espírito para não se desfazer, muito mais o mundo ordenado depende dele hoje:
“Se aquele caos precisou do sopro secreto de Deus para não se desfazer logo, como esta ordem, tão bela e distinta, poderia subsistir por si mesma, sem receber força de outro lugar?”
(João Calvino, Comentário sobre Gênesis, 1:2)
Isso é importante porque nos impede de tratar a criação como um episódio distante da história de Jesus. Aquele que nasceu em Belém não era um estranho visitando um lugar alheio. O Filho, por meio de quem o mundo foi feito, assumiu a nossa carne dentro do mundo que ele mesmo sustenta. Hebreus diz que ele “sustenta todas as coisas pela palavra de poder” (Hebreus 1:3, Bíblia Livre).
O Filho eterno assumiu por inteiro a nossa natureza criada sem deixar de ser Deus. Ele andou sobre o chão que a sua palavra chamou à existência. Ele recebeu água, comida e abrigo. Ele sentiu cansaço. Ele tocou corpos doentes. Ele morreu no corpo e ressuscitou.
A redenção não abandona a criação, mas é a obra de Deus para libertar a criação do pecado e conduzir tudo à nova criação.
4. A bondade vem antes da ferida
Muitos de nós aprendemos a olhar para a vida a partir da dor. Conhecemos primeiro as nossas perdas, os nossos fracassos e os danos que os seres humanos causam uns aos outros. Gênesis não nega essa realidade, mas não deixa que ela tenha a primeira palavra.
Antes da queda, houve dádiva. Antes da vergonha, houve comunhão. Antes dos espinhos, houve jardim. Antes de qualquer ser humano conseguir merecer alguma coisa, a bondade de Deus já tinha preparado um mundo onde se pode viver.
Seis vezes o texto diz que Deus viu que a obra era boa. Na sétima, depois de criar o ser humano, diz: “eis que era bom em grande maneira” (Gênesis 1:31, Bíblia Livre). Wesley comenta o contraste entre as nossas obras e as de Deus: “Quando examinamos as nossas obras, descobrimos, para nossa vergonha, que muita coisa foi muito má; mas, quando Deus examinou as suas, tudo era muito bom.” Calvino vê na repetição um freio para a nossa ousadia de criticar a obra de Deus, e diz que Deus fala assim “para sabermos que há na harmonia das obras de Deus a mais alta perfeição, à qual nada se pode acrescentar” (Comentário sobre Gênesis, 1:31).
Por que Deus criou? Não foi por necessidade, como se lhe faltasse alguma coisa. Armínio responde que a causa que moveu Deus a criar “é a bondade de Deus, segundo a qual ele se inclina a comunicar o seu bem” (Debates privados, XXIV.4). A criação nasce do transbordar da bondade, e não de uma carência.
Na tradição wesleyana, toda resposta humana fiel começa com a iniciativa da graça. A criação já dá testemunho dessa precedência. Nós acordamos dentro de uma generosidade que não produzimos. Respiramos antes de entender o ar. Somos alimentados antes de aprender a agradecer. Recebemos a vida antes de sermos capazes de oferecer a vida a Deus.
O pecado vai deformar a nossa relação com o Criador, conosco, com o próximo e com a terra. Porém, ele não vai conseguir fazer do mal o fundamento da realidade. O mal é um parasita, e a bondade de Deus vem antes dele. A graça não chega como o improviso de um Deus apanhado de surpresa. O Cordeiro que nos redime é o Filho por meio de quem todas as coisas foram feitas.
5. Criaturas, e não donos absolutos
Dizer que Deus criou todas as coisas muda o jeito como usamos a palavra “meu”. Meu corpo, meu tempo, minha casa, meu talento e meus recursos foram mesmo confiados a mim, mas não ficam independentes de Deus. “Ao SENHOR pertence a terra, e sua plenitude; o mundo, e os que nele habitam” (Salmo 24:1, Bíblia Livre).
Quando Deus coloca o ser humano sobre a terra para dominar e cultivar (Gênesis 1:28), ele não entrega a propriedade, mas um encargo. Wesley descreve esse encargo com duas imagens: Deus pôs o ser humano na terra “para ser o servo da sua providência no governo das criaturas inferiores” e “para ser também o coletor dos seus louvores neste mundo inferior”. Somos administradores que cuidam e sacerdotes que agradecem em nome de toda a criação.
Pertencer a Deus não apaga a nossa personalidade. Deus não nos reduz a objetos. Ele nos chama pelo nome, nos dá responsabilidade e nos capacita a amar. Pertencer a Deus é descobrir que a liberdade não consiste em viver sem relação, sem propósito e sem limite. A verdadeira liberdade é receber a vida do Criador e devolver essa vida a ele em amor.
Por isso, a criação nos leva à adoração e à responsabilidade. No Apocalipse, os que estão diante do trono cantam: “Digno és tu, Senhor, de receberes glória, honra e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por causa da tua vontade elas são e foram criadas!” (Apocalipse 4:11, Bíblia Livre).
Adoramos porque não demos a existência a nós mesmos. Cuidamos porque o mundo não é descartável. Descansamos porque não somos o Criador. Trabalhamos porque fomos chamados a participar do cuidado da sua obra. Recebemos o corpo com gratidão e o oferecemos ao serviço do amor. Usamos os recursos sem esquecer os necessitados. Desfrutamos sem deixar que o prazer vire o nosso senhor.
6. Quando a vida parece sem forma
Gênesis 1 não promete que cada confusão vai se resolver na hora em que desejamos. O texto, porém, nos mostra o caráter daquele em cujas mãos nós estamos.
A escuridão não ameaça Deus. A presença dele não depende da nossa capacidade de perceber essa presença. A palavra dele pode abrir caminhos onde só enxergamos desordem. O mesmo Deus que sustenta as constelações não acha pequena demais a vida de uma pessoa cansada.
Charles Spurgeon, o pregador batista de Londres, lembrou essa escuridão do segundo versículo num sermão sobre a fé:
“Não sei dizer quão densa era aquela escuridão […] e, no entanto, bastou uma palavra, ‘Haja luz’, e houve luz.”
(Charles H. Spurgeon, sermão A criação, um argumento para a fé, sobre Jeremias 32:17)
Paulo usa a mesma cena para falar da conversão: “o Deus que disse que das trevas brilhasse a luz é o mesmo que brilhou em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus no rosto de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6, Bíblia Livre). O Deus que acendeu a luz no primeiro dia continua acendendo luz em corações escuros. Lutero também notou isso: Paulo trata a conversão como uma nova criação, feita pela mesma Palavra.
Talvez alguma área da sua vida pareça sem forma. Talvez você não consiga ver como as suas perdas, as suas obrigações e as suas esperanças cabem na mesma história. A fé não exige que você chame o caos de ordem. Ela convida você a entregar o que ainda não entende ao Deus cuja sabedoria não falha.
Nossa esperança não está em controlar todos os elementos, mas em conhecer o Criador.
Para conversar com Deus
- Em que área você tem vivido como se tudo dependesse de você?
- Que parte da criação você recebe todos os dias sem perceber que ela é uma dádiva?
- Existe alguma coisa criada que passou a ocupar no seu coração o lugar do Criador?
- Que responsabilidade concreta nasce da confissão de que o mundo pertence a Deus?
Oração de resposta
Deus eterno, Pai, Filho e Espírito Santo, nós te adoramos, porque de ti, por ti e para ti são todas as coisas. Recebemos das tuas mãos a vida que não poderíamos produzir. Perdoa-nos quando adoramos o que criaste, desprezamos os teus dons ou vivemos como donos absolutos. Ensina-nos a trabalhar sem orgulho, descansar sem culpa, desfrutar sem idolatria e cuidar sem indiferença. Quando a nossa vida parecer sem forma, firma-nos na tua sabedoria. Que o teu Espírito forme em nós o amor de Cristo, para que toda a nossa existência se torne uma resposta agradecida à tua graça. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Quem criou todas as coisas, e o que isso significa para a nossa vida?
Resposta para guardar
O Deus trino, Pai, Filho e Espírito Santo, criou do nada, livremente, tudo o que existe e declarou boa a sua obra. Ele permanece distinto da criação, sustenta todas as coisas pela sua providência e conduz todas elas ao propósito da sua sabedoria e do seu amor. Por isso, o mundo não é divino, nem mau, nem sem sentido: ele pertence a Deus. Nós também recebemos dele a existência, a dignidade e a vocação. Somos chamados a confiar no Criador, a desfrutar os seus dons com gratidão, a cuidar da sua obra e a oferecer a vida inteira em amor e obediência.
Textos para conferir
Gênesis 1:1–2; Salmo 33:6–9; João 1:1–3; Atos 17:24–28; Colossenses 1:15–17; Hebreus 11:3; Apocalipse 4:11.
Oração
Criador e Sustentador de todas as coisas, recebe a nossa vida como resposta à vida que nos deste. Livra-nos da ilusão de que bastamos a nós mesmos e do medo de que o mundo dependa das nossas mãos. Dá-nos olhos para reconhecer os teus dons, coragem para cuidar do que nos confiaste e um coração inteiramente voltado para ti. Por Jesus Cristo, na força do Espírito Santo. Amém.
Hino para guardar no coração
Pai, em quem vivemos
Autor: Charles Wesley
Título original: “Father, in Whom We Live”
Fonte: Hymns for Those That Seek and Those That Have Redemption in the Blood of Jesus Christ (1747), Hino 34, “To the Trinity”
Versão: tradução devocional em português do Brasil, sem métrica para canto
Pai, em quem vivemos,
em quem existimos e nos movemos,
recebe a glória, o poder e o louvor
do teu amor criador.
Que toda a multidão dos anjos
dê graças a Deus nas alturas,
enquanto a terra repete o cântico alegre
e o faz ecoar pelos céus.
Deus que assumiste a nossa carne,
que todos os que foram resgatados
ofereçam a própria vida em gratidão
pela tua graça redentora.
Que os coros celestiais anunciem
a graça revelada aos pecadores
e proclamem: “A salvação pertence ao nosso Deus;
a salvação pertence ao Cordeiro”.
Espírito de santidade,
recebe a adoração dos teus santos.
Louvamos a tua ação sagrada
e o teu poder que renova o coração.
Nem a língua dos anjos consegue dizer
a altura arrebatadora do teu amor,
a alegria gloriosa que as palavras não contêm,
a visão feliz da tua face.
O hino é cantado em inglês com esta melodia, a mesma de “Crown Him with Many Crowns”. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.
Para meditar
Charles Wesley transforma a doutrina da Trindade em adoração. O Pai cria, o Filho redime e o Espírito renova. Leia o hino outra vez e repare que, em cada estrofe, a resposta humana é oferecer louvor e a própria vida.
Pergunta: Que parte da sua vida precisa se tornar hoje uma resposta de gratidão ao Deus que cria, redime e santifica?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, contemple: A vida chegou antes da sua explicação
- Terça-feira, compreenda: Criado do nada, sustentado a cada instante
- Quarta-feira, examine: A fantasia de ser indispensável
- Quinta-feira, pratique: Receber o mundo com gratidão
- Sexta-feira, caminhe em santidade: Santidade com os pés no chão
- Sábado, recorde e descanse: O mundo continua sem a sua vigilância
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Criação em Gênesis 1: o Criador, o caos e a Palavra
- Gênesis 1 e Gênesis 2 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Teologia Sistemática, Capítulo 18: A criação e a providência
- Declaração de Sentimentos de Armínio (1608)
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Debates privados, XXIV (“Sobre a criação”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Gênesis 2:2.
- Calvino, João. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis, 1:2, 1:3 e 1:31.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Gênesis 1:1.
- Lutero, Martinho. Luther on the Creation: A Critical and Devotional Commentary on Genesis, trad. John Nicholas Lenker, 1904, Gênesis 1:3.
- Spurgeon, Charles H. Sermão Creation: An Argument for Faith (Jeremias 32:17).
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento (1765, resumindo Matthew Henry), Gênesis 1:2, 1:3, 1:28 e 1:31.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
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