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Amar a Deus com tudo
Vem Andar Comigo, Semana 11 · Domingo: “Ouve, Israel”
Neste texto
- “Ouve, Israel”
- O texto
- Para entender o texto
- 1. A fé começa ouvindo
- 2. O SENHOR é um, e somente ele é Deus
- 3. Amar é responder à graça da aliança
- 4. Coração, alma e toda a força
- 5. A palavra dentro da rotina
- 6. Não se esqueça quando estiver satisfeito
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Amarei meu Deus por inteiro
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: o Shemá, lealdade integral, memória e formação da próxima geração
Leituras principais: Deuteronômio 6:4–25
Leituras complementares: Deuteronômio 8:1–20; 10:12–22; Marcos 12:28–34; João 14:15–24; 1 João 4:7–21
Verdade central: O único Deus chama o seu povo a ouvir a sua palavra e a responder com amor, com a vida inteira. Pela graça, a palavra dele é acolhida no coração, praticada no dia a dia e transmitida de geração em geração.
“Ouve, Israel”
Moisés está diante de uma geração prestes a entrar na terra. Ele não começa pedindo que o povo olhe para muralhas, armas ou estratégias. Ele pede que o povo ouça.
“Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é” (Deuteronômio 6:4, Bíblia Livre).
Israel vai continuar existindo como povo da aliança se recordar quem Deus é, o que ele fez e como deve ser amado. A grande batalha não vai acontecer só diante das cidades. Ela vai atravessar o coração quando as casas estiverem cheias e a memória começar a enfraquecer.
Por isso, antes de falar de conquista, Moisés fala de amor: “Amarás ao SENHOR teu Deus de todo teu coração, e de toda tua alma, e com todo teu poder” (Deuteronômio 6:5, Bíblia Livre). O povo que vai receber a terra precisa, antes de tudo, de um coração inteiro.
O texto
Leitura principal: Deuteronômio 6:4–25
Leitura: Deuteronômio 6:4–15, 20–25
Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é:
E Amarás ao SENHOR teu Deus de todo teu coração, e de toda tua alma, e com todo teu poder.
E estas palavras que eu te mando hoje, estarão sobre teu coração:
E as repetirás a teus filhos, e falarás delas estando em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e quando te levantes:
E hás de atá-las por sinal em tua mão, e estarão por frontais entre teus olhos:
E as escreverás nos umbrais de tua casa, e em tuas entradas.
E será, quando o SENHOR teu Deus te houver introduzido na terra que jurou a teus pais Abraão, Isaque, e Jacó, que te daria; em cidades grandes e boas que tu não edificaste,
E casas cheias de todo bem, que tu não encheste, e cisternas cavadas, que tu não cavaste, vinhas e olivais que não plantaste: logo que comeres e te fartares,
Guarda-te que não te esqueças do SENHOR, que te tirou da terra do Egito, de casa de servos.
Ao SENHOR teu Deus temerás, e a ele servirás, e por seu nome jurarás.
Não andareis após deuses alheios, dos deuses dos povos que estão em vossos entornos:
Porque o Deus zeloso, o SENHOR teu Deus, em meio de ti está; para que não se inflame o furor do SENHOR teu Deus contra ti, e te destrua de sobre a face da terra.
Quando amanhã te perguntar teu filho, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e regulamentos, que o SENHOR nosso Deus vos mandou?
Então dirás a teu filho: Nós éramos servos de Faraó no Egito, e o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte;
E deu o SENHOR sinais e milagres grandes e nocivos no Egito, sobre Faraó e sobre toda sua casa, diante de nossos olhos;
E tirou-nos dali, para trazer-nos e dar-nos a terra que jurou a nossos pais;
E mandou-nos o SENHOR que executássemos todos estes estatutos, e que temamos ao SENHOR nosso Deus, para que nos vá bem todos os dias, e para que nos dê vida, como hoje.
E teremos justiça quando cuidarmos de pôr por obra todos estes mandamentos diante do SENHOR nosso Deus, como ele nos mandou.
(Deuteronômio 6:4-15,20-25, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Deuteronômio é o último dos cinco livros de Moisés. Quase todo ele é feito de discursos que Moisés fez ao povo nas planícies de Moabe, do outro lado do Jordão, pouco antes de morrer. O próprio livro marca a data: “aos quarenta anos, no mês décimo primeiro, ao primeiro dia do mês, Moisés falou aos filhos de Israel” (Deuteronômio 1:3, Bíblia Livre). Quem ouvia era, na maior parte, uma geração que não tinha visto o Egito. Os pais tinham morrido no deserto. Os filhos precisavam receber a história e a Lei como herança própria.
O nome do livro vem do grego e quer dizer “segunda lei”, mas Moisés não está dando uma lei nova. Ele está pregando a Lei que Israel já tinha recebido no Sinai. Os comentaristas alemães Keil e Delitzsch observam que, a partir de Deuteronômio 6:4, começa essa exposição, que não acrescenta uma lei nova aos Dez Mandamentos, mas desenvolve o que neles já estava guardado como semente, começando pelo primeiro mandamento. O Shemá é isso: o primeiro mandamento explicado ao coração.
Três palavras ajudam a ler o capítulo.
Em primeiro lugar, ouve (em hebraico, shema). É a palavra que dá nome ao texto inteiro. Os judeus repetem essas palavras de manhã e à noite até hoje. O versículo 3 já diz: “Ouve, pois, ó Israel, e cuida de praticá-los” (Deuteronômio 6:3, Bíblia Livre). Adam Clarke, ao comentar esse versículo, mostrou que o ouvir tem degraus: “Deus deve ser ouvido […]. O mandamento precisa ser entendido para ser obedecido. Precisa ser observado, isto é, considerado com atenção, para ser entendido. E precisa ser praticado”. Ouvir, na Bíblia, quer dizer ouvir para guardar.
Em segundo lugar, um (echad). A frase hebraica é curta. Clarke mostra que ela pode ser traduzida de mais de um jeito, e que as formas possíveis dão no mesmo sentido: “o SENHOR é o nosso Deus, o SENHOR é um”, ou “o SENHOR é o nosso Deus, somente o SENHOR”. A Bíblia Livre conserva a ordem do hebraico: “o SENHOR um é”. Os comentaristas não leem a palavra do mesmo modo. Clarke, Wesley e Matthew Henry veem ali a unidade de Deus. Keil e Delitzsch preferem outra leitura: segundo eles, a frase “não se refere à unidade de Deus, mas apenas afirma que só a ele pertence de direito o nome SENHOR, que ele é o único Deus absoluto, a quem nenhum outro Elohim pode ser comparado”. As duas leituras chegam ao mesmo lugar: nenhum outro deus pode dividir o trono com o Deus de Israel.
Em terceiro lugar, repetirás (shanan), no versículo 7: “E as repetirás a teus filhos” (Deuteronômio 6:7, Bíblia Livre). Clarke explica que o verbo quer dizer repetir, fazer a mesma coisa muitas vezes, e daí também afiar uma faca, que se amola passando a lâmina de novo e de novo na pedra. John Wesley comenta: “Em hebraico, as afiarás, ou aguçarás, de modo que penetrem fundo em seus corações.” Ensinar a fé aos filhos é um trabalho paciente de repetição, até que a palavra tenha corte.
1. A fé começa ouvindo
A primeira palavra do Shemá é um chamado: “Ouve”. Na Bíblia, ouvir não quer dizer receber um som de forma passiva, mas prestar atenção, acolher e responder. A palavra de Deus busca uma obediência que nasce da escuta. Paulo diz o mesmo de outro modo: “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17, Bíblia Livre).
Essa obediência também é dom. Clarke lembra, logo no versículo anterior: “fique bem entendido que ninguém pode andar no caminho da obediência a não ser pela graça de Deus e sob a influência dela”. Quem ouve de verdade já foi alcançado pela voz que fala.
Isso corrige uma espiritualidade ocupada só em falar. Podemos apresentar pedidos, explicar convicções e defender doutrinas sem permitir que a voz de Deus examine os nossos desejos. O discípulo precisa voltar à postura de quem recebe.
Israel ouve como comunidade. O chamado não se dirige só a indivíduos silenciosos, mas a um povo reunido. Joseph Benson, comentarista metodista, registra um dito antigo dos judeus sobre essas palavras: “Felizes somos nós, que toda manhã e toda tarde dizemos: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor!” A fé bíblica tem interioridade e comunhão. Precisamos ler as Escrituras sozinhos e também ouvir as Escrituras com a Igreja, onde as interpretações são provadas e a obediência ganha forma pública.
Ouvir ainda exige humildade histórica. Os cristãos recebem o Shemá de Israel. Quando um escriba perguntou qual era o primeiro mandamento, Jesus respondeu: “O primeiro é: ‘Ouve Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor’” (Marcos 12:29, Bíblia Livre). Ele recitou o Shemá sem desprezar a sua origem judaica. Wesley comenta essa resposta assim: “Este é o fundamento do primeiro mandamento, sim, de todos os mandamentos.” A nossa confissão nasce dentro da história do Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
2. O SENHOR é um, e somente ele é Deus
O Shemá confessa o SENHOR como o Deus de Israel e afirma a unidade e a exclusividade dele. Ele não é uma força entre outras nem uma divindade local que disputa território, mas o Deus da aliança, digno de uma lealdade sem rivais. Poucos versículos depois, Moisés tira a consequência: “Não andareis após deuses alheios, dos deuses dos povos que estão em vossos entornos” (Deuteronômio 6:14, Bíblia Livre).
A unidade de Deus confronta a fragmentação da adoração. Se há um único Senhor, não podemos repartir o coração entre ele e os deuses da segurança, da fertilidade, do poder ou do prestígio. Israel vai ser tentado a acrescentar os baalins ao culto do SENHOR, como se necessidades diferentes exigissem protetores diferentes. Séculos depois, Elias ainda precisará perguntar ao povo: “Até quando hesitareis vós entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-lhe; e se Baal, ide depois dele” (1 Reis 18:21, Bíblia Livre).
Os nossos ídolos têm outros nomes, mas fazem a mesma proposta: confie em mim para conseguir aquilo que Deus talvez não dê a você. A carreira promete identidade; o consumo promete consolo; a ideologia promete inocência; a influência promete permanência. As coisas criadas se tornam rivais quando recebem a nossa confiança final.
Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, explicou o primeiro mandamento com uma definição que alcança também os ídolos de hoje:
“‘Outro deus’ é tudo aquilo que a mente humana inventa e a que atribui a divindade que convém e pertence somente ao verdadeiro Deus, seja essa divindade a essência e a vida, sejam as propriedades, as obras ou a glória.”
(Jacó Armínio, Debates privados, LXXIV.6)
Ele acrescenta que a idolatria pode acontecer “na mente, pela estima, pelo reconhecimento e pela crença, ou nos afetos, pelo amor, pelo temor, pela confiança e pela esperança” (Debates privados, LXXIV.9). Ou seja, ninguém precisa levantar uma estátua para ter outro deus. Martinho Lutero, no Catecismo Maior, disse o mesmo de forma direta: “Aquilo, digo eu, em que você põe o coração e a confiança é propriamente o seu deus.”
A fé cristã confessa um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. A Trindade não divide a essência divina em três deuses. O Novo Testamento inclui Jesus na identidade e na obra do único Senhor e dá testemunho da comunhão eterna do Pai, do Filho e do Espírito. Paulo escreve: “para nós há só um Deus, o Pai, do qual são todas as coisas, e nós para ele; e um só Senhor Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Coríntios 8:6, Bíblia Livre). Wesley, ao comentar a resposta de Jesus ao escriba, junta as duas coisas: “O Senhor nosso Deus, o Senhor, o Deus de todos os homens, é um só Deus, essencialmente, ainda que em três pessoas. Desta unidade de Deus segue-se que devemos todo o nosso amor somente a ele.” O mistério cristão aprofunda a confissão da unidade sem abandonar essa confissão.
3. Amar é responder à graça da aliança
“Amarás ao SENHOR” é mandamento, mas não aparece no vazio. Deuteronômio recorda o Deus que escolheu Israel, ouviu o seu clamor e libertou o povo. O amor pedido responde ao amor que tomou a iniciativa. João resume isso numa frase: “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19, Bíblia Livre).
John Wesley, num sermão sobre o novo nascimento, descreveu essa ordem:
“Ele se antecipa a nós com as bênçãos da sua bondade. Ele nos ama primeiro e se manifesta a nós. Enquanto ainda estamos longe, ele nos chama para si e brilha sobre os nossos corações.”
(John Wesley, sermão O grande privilégio dos que são nascidos de Deus, III.3)
É isso que a tradição wesleyana chama de graça preveniente, isto é, a graça que vem antes de qualquer resposta nossa. Ninguém ama a Deus para ser alcançado por ele. Amamos porque já fomos alcançados. O próprio Deuteronômio vai além do mandamento e anuncia uma promessa: “E circuncidará o SENHOR teu Deus teu coração, e o coração de tua descendência, para que ames ao SENHOR teu Deus com todo teu coração e com toda tua alma, a fim de que tu vivas” (Deuteronômio 30:6, Bíblia Livre). O Deus que manda amar é o mesmo que dá o coração capaz de amar.
No contexto da aliança, amar envolve afeto, lealdade e obediência. O amor não se reduz a um sentimento espontâneo. Há dias em que a emoção é intensa, e há outros em que a fidelidade aparece no simples fato de continuar orando, dizendo a verdade e fazendo o bem.
A obediência sem amor pode virar servidão ressentida. O amor sem obediência transforma Deus numa projeção das nossas preferências. Jesus une os dois: “Se me amais, guardai meus mandamentos” (João 14:15, Bíblia Livre). A prática não compra a presença dele, mas torna visível uma relação verdadeira.
O capítulo termina com uma frase que pode assustar: “E teremos justiça quando cuidarmos de pôr por obra todos estes mandamentos diante do SENHOR nosso Deus, como ele nos mandou” (Deuteronômio 6:25, Bíblia Livre). Clarke responde a essa dúvida: “Moisés não diz que essa justiça pudesse ser produzida sem a influência da misericórdia de Deus, nem diz que eles deveriam comprar o céu com ela”. Wesley lembra que a palavra hebraica traduzida por justiça muitas vezes quer dizer misericórdia, e propõe outra leitura possível: “misericórdia haverá para nós, ou conosco”. A obediência não é o preço do favor de Deus, mas o caminho de quem vive dentro desse favor.
Na tradição wesleyana, o perfeito amor é a obra da graça que reúne um coração dividido, um dom que Deus dá e que recebemos pela fé. Esse amor não quer dizer emoção religiosa constante, conhecimento sem erro ou impossibilidade de tentação. Wesley foi claro: a perfeição cristã “não implica (como alguns homens parecem ter imaginado) isenção da ignorância ou do erro, das fraquezas ou das tentações”, e é “apenas outro nome para santidade”. O perfeito amor quer dizer que a intenção dominante foi purificada: Deus é amado acima de tudo, e esse amor transborda em cuidado do próximo.
4. Coração, alma e toda a força
Moisés acumula termos para impedir que alguma parte da vida fique reservada aos ídolos. O coração (levav), na linguagem bíblica, envolve pensamentos, decisões e afetos. A alma (nefesh) é a própria vida, o ser vivente. A terceira palavra (me’od) costuma ser um advérbio que quer dizer “muito”; aqui ela funciona como substantivo e pode indicar intensidade, capacidade e tudo aquilo que temos em abundância. A Bíblia Livre traduz por “poder”, e muitas traduções dizem “força”.
Não precisamos transformar esses termos em três gavetas psicológicas. Juntos, eles dizem: ame a Deus com tudo o que você é, deseja, decide e tem. Wesley comenta “de todo teu coração” assim: “Com um amor inteiro. Ele é Um; portanto, os nossos corações devem estar unidos no seu amor. E toda a corrente das nossas afeições deve correr para ele.”
Agostinho, bispo de Hipona no século V, usou a mesma imagem da corrente:
“Quando ele diz ‘de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento’, quer dizer que nenhuma parte da nossa vida deve ficar desocupada, abrindo espaço, por assim dizer, para o desejo de desfrutar outra coisa, mas que tudo o mais que se apresentar a nós como digno de amor deve ser levado para o mesmo canal em que corre toda a corrente dos nossos afetos.”
(Agostinho, A doutrina cristã, I.22)
Isso alcança o corpo, o tempo, o dinheiro, a inteligência, o descanso e as relações. Uma pessoa pode cantar com intensidade e administrar os recursos como se Deus não existisse. Pode defender a verdade e usar palavras sem amor. A devoção integral recusa essa separação.
Jesus acrescenta o “entendimento” ao citar o mandamento: “amarás, pois, ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com todas as tuas forças” (Marcos 12:30, Bíblia Livre). Ele segue formas conhecidas do texto na sua época e torna explícita a dimensão intelectual do amor. Benson fala de um amor “inteligente, ou com todo o nosso entendimento […]: precisamos conhecê-lo e, por isso, amá-lo, como quem vê boas razões para amá-lo”. Amar a Deus inclui pensar com rigor. A fé não exige que abandonemos a mente, mas pede que coloquemos a mente a serviço da verdade e do amor.
5. A palavra dentro da rotina
Antes de ensinar aos filhos, Israel deve guardar as palavras no próprio coração: “E estas palavras que eu te mando hoje, estarão sobre teu coração” (Deuteronômio 6:6, Bíblia Livre). A transmissão fiel não começa com técnica, mas com adultos que estão sendo formados por aquilo que ensinam.
Depois, a palavra entra nos ritmos comuns: “estando em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e quando te levantes” (Deuteronômio 6:7, Bíblia Livre). A lista descreve a amplitude do dia. A fé não fica confinada a uma reunião, mas interpreta as refeições, as viagens, o trabalho, os conflitos e o descanso. Clarke comenta a primeira dessas situações numa frase: “Terás religião em casa, tanto quanto no templo e no tabernáculo.”
As instruções sobre a mão, a testa, os umbrais e as portas deram origem a práticas judaicas concretas, como os tefilin (pequenas caixas de couro com trechos da Lei, presas ao braço e à testa na hora da oração) e a mezuzá (um pequeno rolo com o Shemá, fixado no batente da porta). Devemos tratar essas práticas como expressões vivas de obediência e memória, e não como curiosidades primitivas. O princípio também nos pergunta que sinais e hábitos ajudam a nossa casa a recordar a palavra sem transformar objetos em amuletos. Clarke conhecia esse risco e sabia que ele não aparecia só entre os judeus: “E quanto melhores são muitos cristãos, que guardam uma Bíblia em casa só para que ela mantenha o diabo do lado de fora?” A Bíblia na estante só serve quando a palavra também mora no coração.
A responsabilidade alcança pais, mães e toda a comunidade da aliança. Pessoas sem filhos também participam: ensinam, acolhem, contam histórias, servem de exemplo e criam espaços onde crianças e novos convertidos podem perguntar. A Igreja não substitui a casa, e a casa não dispensa a Igreja.
6. Não se esqueça quando estiver satisfeito
Moisés imagina Israel recebendo “cidades grandes e boas que tu não edificaste” (Deuteronômio 6:10, Bíblia Livre), casas cheias, cisternas, vinhas e oliveiras que o povo não preparou. O perigo aparece depois da satisfação, “logo que comeres e te fartares” (Deuteronômio 6:11, Bíblia Livre): “Guarda-te que não te esqueças do SENHOR, que te tirou da terra do Egito, de casa de servos” (Deuteronômio 6:12, Bíblia Livre).
A prosperidade pode criar a ilusão de autossuficiência. As bênçãos deixam de ser recebidas como dons e passam a ser vistas como prova de superioridade. A gratidão é substituída pela posse; a memória, pelo mérito. Clarke resume: “Na prosperidade terrena, os homens tendem a esquecer as coisas celestiais.” Dois capítulos adiante, Moisés dá voz a esse coração esquecido, que diz: “Meu poder e a força de minha mão me trouxeram esta riqueza” (Deuteronômio 8:17, Bíblia Livre). E responde: “Antes lembra-te do SENHOR teu Deus: porque ele te dá o poder para fazer as riquezas” (Deuteronômio 8:18, Bíblia Livre). Wesley, ao comentar esse capítulo, viu que a fartura pode ensinar a mesma humildade que a dor:
“As misericórdias de Deus, se devidamente consideradas, são um meio tão poderoso para nos humilhar como as maiores aflições, porque aumentam as nossas dívidas para com Deus e manifestam a nossa dependência dele; e, tornando Deus grande, tornam-nos pequenos aos nossos próprios olhos.”
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Deuteronômio 8:16)
A adversidade também pode alimentar a incredulidade, e por isso não devemos romantizar o sofrimento. A advertência específica de Deuteronômio é que o conforto não neutraliza o pecado. A mesa cheia ainda precisa de oração.
Quando Jesus responde ao escriba, ele une o amor a Deus ao amor ao próximo: “E o segundo é: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’” (Marcos 12:31, Bíblia Livre). Moisés já tinha ligado as duas coisas ao falar do Deus que “ama também ao estrangeiro dando-lhe pão e roupa. Amareis pois ao estrangeiro: porque estrangeiros fostes vós em terra do Egito” (Deuteronômio 10:18–19, Bíblia Livre). A lealdade ao único Senhor é provada na maneira como tratamos as pessoas feitas à imagem dele. Wesley explica quem é o irmão que devemos amar: “Todo irmão, sejam quais forem as suas opiniões ou o seu modo de culto, puramente porque ele é filho de Deus e traz a imagem de Deus.”
O amor que ocupa a vida inteira não termina dentro de nós. Pela graça do Espírito, a memória se torna adoração, e a adoração se torna misericórdia.
Para conversar com Deus
- Que voz tem recebido a sua atenção antes da palavra de Deus?
- Que bem criado disputa a sua confiança final?
- O seu uso do tempo e dos recursos confirma o amor que os seus lábios confessam?
- Que hábito simples ajudaria a sua casa ou a sua comunidade a recordar as obras de Deus?
Oração de resposta
Único Senhor, ensina-nos a ouvir. Perdoa o nosso coração fragmentado, que tenta servir-te sem abandonar os seus rivais. Reúne os nossos pensamentos, desejos, corpo, tempo e recursos debaixo do governo do teu amor. Escreve a tua palavra em nós e coloca-a nas nossas conversas, nas nossas casas e nos nossos caminhos. Guarda-nos do esquecimento na abundância e da incredulidade na escassez. Pelo Espírito de Jesus, aperfeiçoa-nos no amor a ti e ao próximo. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
O que significa amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e com toda a força?
Resposta para guardar
Amar a Deus com tudo é responder à graça do único Senhor com uma lealdade sem divisão, entregando a ele os pensamentos, os desejos, as decisões, o corpo, os recursos e a vida inteira. Esse amor acolhe a palavra de Deus, aparece na obediência, alcança o próximo e é cultivado na memória e nos hábitos da comunidade. Pela graça do Espírito, Deus purifica o coração dividido e aperfeiçoa esse coração no amor.
Textos para conferir
Deuteronômio 6:4–25; 10:12–22; Marcos 12:28–34; João 14:15–24; Romanos 5:5; 1 João 4:7–21.
Oração
Senhor, reúne o nosso coração em ti e ensina-nos a amar com tudo o que somos e temos. Amém.
Hino para guardar no coração
Amarei meu Deus por inteiro
Autor: Charles Wesley
Título editorial: “Sobre Deuteronômio 6:5”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 286
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Senhor, creio que o poder da tua misericórdia
removerá cada obstáculo.
Confio na tua promessa de restaurar
em mim o reino do teu amor.
Jesus, a tua palavra não pode falhar;
tu és verdade, poder e amor divino.
E eu amarei novamente o meu Deus
com mente, alma, força e coração inteiros.
Para meditar
Charles Wesley lê o mandamento junto com a promessa da graça. A exigência do amor integral não leva o poeta ao desespero nem à confiança na força natural. Ele pede que a misericórdia remova os obstáculos e restaure o reino do amor. O coração inteiro continua dependente de Cristo do começo ao fim.
Pergunta: Que obstáculo você precisa entregar à misericórdia que não só perdoa, mas também restaura a sua capacidade de amar?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, ouça: Faça silêncio antes de responder
- Terça-feira, reúna o coração: Lealdades que puxam em direções contrárias
- Quarta-feira, leve a palavra para casa: Fé no ritmo da vida comum
- Quinta-feira, conte: A próxima geração precisa da história inteira
- Sexta-feira, lembre-se na abundância: Quando os dons escondem o Doador
- Sábado, ame o próximo: O segundo mandamento se parece com o primeiro
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Shemá Israel e o amor a Deus em Deuteronômio 6
- Deuteronômio 6 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Deuteronômio 6.4-9: Deleitando-se na Palavra de Deus
- Amor em 1 João: amar a Deus é amar o irmão de verdade
- Sede perfeitos: O que Wesley ensinou sobre perfeição cristã
Obras citadas
- Agostinho. A doutrina cristã (De doctrina christiana), I.22. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, série 1, vol. 2, trad. J. F. Shaw.
- Armínio, Jacó. Debates privados, LXXIV (“Sobre o primeiro mandamento do Decálogo”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Deuteronômio 6:4 e 6:5.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Deuteronômio 6:3, 6:4, 6:7, 6:9, 6:12 e 6:25.
- Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament, Deuteronômio 6:4.
- Lutero, Martinho. Catecismo Maior (1529), Primeiro Mandamento. Trad. inglesa de F. Bente e W. H. T. Dau (Triglot Concordia, 1921).
- Wesley, John. Sermão 19, The Great Privilege of Those that Are Born of God, III.3; Sermão 40, Christian Perfection, I.9.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Deuteronômio 6:5, 6:7, 6:25 e 8:16.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Marcos 12:29 e 1 João 4:21.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
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