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Reconstruindo as ruínas
Vem Andar Comigo, Semana 24 · Domingo: Voltar não significa encontrar tudo pronto
Neste texto
- Voltar não significa encontrar tudo pronto
- O texto
- Para entender o texto
- 1. Deus desperta pessoas diferentes para a mesma obra
- 2. Alegria e luto se misturam junto ao alicerce
- 3. Neemias ora, planeja e enfrenta injustiça dentro dos muros
- 4. A Palavra é lida para ser compreendida e praticada
- 5. Confissão verdadeira chega aos hábitos e às estruturas
- 6. Muros novos não conseguem criar um coração novo
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Tu terminarás a casa que começaste
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: restauração, culto, Palavra, trabalho comum, justiça e perseverança
Leituras principais: Esdras 1–3; Neemias 1–6; 8–9
Leituras complementares: Esdras 7:1–10; Neemias 5:1–19; 10:28–39; 13:1–31; Ageu 1:1–15; 2:1–9; Zacarias 4:1–10; Salmo 126; Lucas 4:16–21; 19:1–10; 1 Coríntios 3:5–17; Efésios 2:11–22; Tiago 1:19–27
Verdade central: Deus restaura um povo por meio da sua providência, do culto, da Palavra compreendida, da confissão, da justiça e do trabalho perseverante de muitas pessoas. O avivamento bíblico não se mede só pela intensidade de uma reunião: ele se torna visível em comunhão, reparação, misericórdia e obediência.
Voltar não significa encontrar tudo pronto
Babilônia cai, e Ciro, rei da Pérsia, permite que os povos deslocados voltem para as suas terras e restaurem os seus santuários. Esdras lê essa política imperial à luz da promessa: “o SENHOR despertou o espírito de Ciro rei da Pérsia” (Esdras 1:1, Bíblia Livre), e despertou também o espírito daqueles que decidiram voltar (Esdras 1:5).
O decreto não prova que Ciro tenha se tornado adorador exclusivo do Deus de Israel. A política dele servia ao governo persa. Joseph Benson, comentarista metodista e amigo de John Wesley, pesa as duas coisas: Ciro, “embora provavelmente não tenha abandonado de todo a religião do seu país, podia reconhecer e reverenciar Jeová, o Deus dos hebreus, como o Deus verdadeiro e grande”. A providência divina age mesmo por decisões cujas motivações humanas são misturadas. Deus continua sendo o autor da promessa sem transformar impérios em santos.
O retorno é real e incompleto. Há estrada, oposição, escassez, lembranças dolorosas e trabalho entre gerações. Restauração não quer dizer voltar magicamente ao passado, mas responder à graça no lugar que existe agora.
O texto
Leitura principal: Esdras 1–3; Neemias 1–6; 8–9
Leitura: Esdras 1:1–5; 3:10–13; Neemias 2:17–18; 5:1–11; 8:1–3, 8–12
No primeiro ano de Ciro rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do SENHOR pela boca de Jeremias, o SENHOR despertou o espírito de Ciro rei da Pérsia, o qual mandou proclamar por todo o seu reino, e também por escrito, dizendo:
Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra; e ele me mandou que lhe edificasse uma casa em Jerusalém, que está em Judá.
Quem há entre vós de todo seu povo, seu Deus seja com ele, e suba a Jerusalém que está em Judá, e edifique a casa ao SENHOR Deus de Israel; ele é o Deus que habita em Jerusalém.
E todo aquele que tiver restado em qualquer lugar onde estiver morando, os homens de seu lugar o ajudem com prata, ouro, bens, e animais; além das doações voluntárias para a casa de Deus, que está em Jerusalém.
Então se levantaram os chefes das famílias de Judá e de Benjamim, os sacerdotes e os Levitas, e todos aqueles cujo espírito Deus despertou, para subirem a edificar a casa do SENHOR, que está em Jerusalém.
(Esdras 1:1-5, Bíblia Livre)
E quando os construtores do templo do SENHOR puseram os fundamentos, então ordenaram aos sacerdotes, já com as vestimentas e com trombetas, e aos levitas filhos de Asafe com címbalos, para louvarem ao SENHOR, conforme a ordenança de Davi, rei de Israel.
E cantavam em revezamento, louvando e celebrando ao SENHOR: Porque ele é bom, porque sua bondade sobre Israel dura para sempre! E todo o povo gritava com grande júbilo, louvando ao SENHOR, por causa da fundação da casa do SENHOR.
Porém muitos dos sacerdotes e dos levitas e dos chefes de famílias, já velhos, que haviam visto a primeira casa, quando viram a fundação desta casa, choravam em alta voz, mas muitos outros davam grandes gritos de alegria;
De maneira que o povo não conseguia distinguir as vozes de alegria das vozes de choro do povo; porque o povo gritava com tão grande júbilo, que se podia ouvir o som de muito longe.
(Esdras 3:10-13, Bíblia Livre)
Então eu lhes disse: Com certeza vedes a miséria em que estamos, que Jerusalém está arruinada, e suas portas queimadas a fogo. Vinde, e reconstruamos o muro de Jerusalém, e não sejamos mais humilhados.
Então lhes declarei como a mão de meu Deus havia sido boa sobre mim, e também as palavras do rei, que ele tinha me dito. Então disseram: Levantemo-nos, e edifiquemos. Assim esforçaram suas mãos para uma boa obra.
(Neemias 2:17-18, Bíblia Livre)
Então houve um grande clamor do povo e de suas mulheres contra seus irmãos, os judeus.
Pois havia quem dizia: Nós, nossos filhos e nossas filhas, somos muitos; por isso tomamos trigo, para que comamos e vivamos.
Também havia quem dizia: Colocamos em penhor nossas terras, nossas vinhas, e nossas casas, para comprarmos trigo durante a fome.
E havia quem dizia: Pedimos emprestado até para o tributo do rei sobre nossas terras e nossas vinhas.
Agora, pois, nossa carne é como a carne de nossos irmãos, e nossos filhos como seus filhos; porém eis que nós sujeitamos nossos filhos e nossas filhas por servos, e até algumas de nossas filhas estão subjugadas, que não estão em poder de nossas mãos, e outros têm para si nossas terras e nossas vinhas.
Quando eu ouvi seu clamor, fiquei muito irado.
Então eu meditei em meu coração, e depois briguei com os nobres e com os oficiais, dizendo-lhes: Emprestais com juros cada um a seu irmão? E convoquei contra eles uma grande reunião.
E disse-lhes: Nós resgatamos nossos irmãos judeus que haviam sido vendidos às nações, conforme o que nos era possível, e vós novamente venderíeis a vossos irmãos, ou seriam eles vendidos a nós? E ficaram calados, e não acharam o que responder.
E eu disse mais: Não é bom o que fazeis. Por acaso não andareis no temor a nosso Deus, para que não haja humilhação da parte das nações que são nossas inimigas?
Também eu, meus irmãos, e meus servos, temos lhes emprestado a juros dinheiro e grão. Abandonemos esta cobrança de juros.
Devolvei a eles hoje mesmo suas terras, suas vinhas, seus olivais, e suas casas; e a centésima parte do dinheiro e do trigo, do vinho e do azeite que exigis deles.
(Neemias 5:1-11, Bíblia Livre)
E todo o povo se juntou como um só homem na praça diante da porta das Águas, e disseram ao escriba Esdras que trouxesse o livro da lei de Moisés, que o SENHOR havia mandado a Israel.
E Esdras, o sacerdote, trouxe a lei diante da congregação, tanto de homens como de mulheres, e de todos os que tivessem entendimento para ouvir, no primeiro dia do sétimo mês.
E leu no livro diante da praça que está diante da porta das Águas, desde o amanhecer até o meio-dia, na presença de homens, mulheres e entendidos; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da lei.
E leram no livro da lei de Deus o declarando, e explicando o sentido, para que pudessem entender o que era lido.
E Neemias (que era o governador), e o sacerdote Esdras, escriba, e os levitas que ensinavam ao povo, disseram a todo o povo: Este dia é consagrado ao SENHOR nosso Deus; não vos entristeçais, nem choreis. Porque todo o povo chorava enquanto ouvia as palavras da lei.
E disse-lhes mais: Ide, comei gorduras, e bebei doçuras, e enviai porções aos que não têm preparado; porque este é um dia consagrado ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais, porque a alegria do SENHOR é vossa força.
E os levitas faziam todo o povo ficar calado, dizendo: Calai-vos, que é dia santo, e não vos entristeçais.
Então todo o povo foi embora para comer, beber, enviar porções, e celebrar alegremente, porque entenderam as palavras que lhes haviam ensinado.
(Neemias 8:1-3,8-12, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Esdras e Neemias contam a volta do exílio. Na Bíblia hebraica, os dois formavam um só livro. Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, calculam que só o livro de Esdras, do primeiro ano de Ciro (536 a.C.) ao sétimo ano do rei Artaxerxes (458 a.C.), “abrange um período de pelo menos oitenta anos”. Primeiro volta o grupo de Zorobabel e do sacerdote Jesua, que lança o alicerce do templo (Esdras 1–6). Depois chega Esdras, o escriba que “tinha decidido em seu coração buscar a lei do SENHOR, e a praticar” (Esdras 7:10, Bíblia Livre). Por fim, Neemias, copeiro do rei persa, vem reparar os muros (Neemias 1–2). Até ali, explica Benson, os persas não tinham autorizado a reconstrução dos muros, “mas só para construir o templo e as suas próprias casas”.
Duas expressões hebraicas ajudam a ler esses livros.
Em primeiro lugar, palavras (em hebraico, dibre). O livro começa assim: “Palavras de Neemias, filho de Hacalias” (Neemias 1:1, Bíblia Livre). Nos livros históricos, essa expressão quer dizer os feitos e as vivências de alguém. Keil e Delitzsch explicam que o título só indica que a obra trata “das coisas, isto é, dos atos de Neemias”. Por isso boa parte do livro está na primeira pessoa: é o relato de um homem que ora, decide, trabalha e presta contas a Deus.
Em segundo lugar, alegria e força (hedvah e maoz). “A alegria do SENHOR é vossa força” (Neemias 8:10, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch descrevem essa alegria como “uma alegria fundada no sentimento de comunhão com o Senhor”, e a palavra traduzida por força quer dizer “uma cidadela forte ou um refúgio”. A alegria não vem do bom humor do povo, mas do Deus que perdoa e guarda; por isso ela protege.
1. Deus desperta pessoas diferentes para a mesma obra
Alguns retornam; outros permanecem e contribuem com prata, bens e animais, como o próprio decreto previa (Esdras 1:4). Sacerdotes, artesãos, chefes de família e vizinhos participam. Nos relatos seguintes, Zorobabel, Jesua, Esdras e Neemias exercem papéis distintos.
Quem sobe, sobe porque foi despertado: partiram “todos aqueles cujo espírito Deus despertou” (Esdras 1:5, Bíblia Livre). Matthew Henry, pastor presbiteriano e autor de um comentário da Bíblia inteira, tira daí uma lição sobre a graça: “Todo bem que fazemos se deve à graça de Deus. O nosso espírito, por natureza, se curva para esta terra e para as coisas dela; se ele se move para cima em algum bom afeto ou em alguma boa ação, é Deus quem o levanta.”
Henry também repara que nem todos atenderam: “Muitos que ouvem este som alegre preferem ficar sentados na Babilônia […]; mas alguns rompem todos os desânimos, custe o que custar.” Ele pensa sobretudo nos que preferiram o conforto, já que o texto mostra que alguns ficaram e ajudaram com generosidade. A tradição arminiana chama de graça preveniente essa graça que vem antes de qualquer resposta nossa: Deus toma a iniciativa e desperta uma vontade que, sozinha, ficaria presa à terra; a pessoa despertada pode responder e também pode resistir. Benson descreve o retorno nos mesmos termos:
“Israel foi tirado do Egito e levado a Canaã com força e poder; mas foi tirado da Babilônia e levado a Canaã pela segunda vez pelo Espírito do Senhor dos exércitos, que agiu sobre o espírito de Ciro, inclinando-o a proclamar a liberdade para eles, e sobre o espírito dos cativos, inclinando-os a aceitar a liberdade oferecida.”
(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Zacarias 4:6)
É comum resumir a história como três ondas de retorno: com Zorobabel para reconstruir o templo, com Esdras para ensinar a Torá e com Neemias para reparar os muros. Essa divisão ajuda a acompanhar o enredo, embora o processo histórico seja mais complexo e as datas e as relações entre os episódios exijam cuidado.
Deus não oferece a uma só pessoa todos os dons. Há quem organize recursos, quem ensine, quem governe, quem construa, quem cozinhe, quem lamente e quem ore. A obra comum adoece quando o líder se apresenta como único instrumento indispensável.
Neemias tem autoridade e iniciativa, mas também pede cartas, inspeciona, distribui tarefas e trabalha com famílias. O povo responde: “Levantemo-nos, e edifiquemos” (Neemias 2:18, Bíblia Livre). Restauração sustentável cria participação, responsabilidade e sucessão.
2. Alegria e luto se misturam junto ao alicerce
Quando o alicerce do templo é lançado, os sacerdotes tocam, os levitas cantam e o povo celebra (Esdras 3:10–11). Muitos idosos que tinham visto a primeira casa choram em alta voz (Esdras 3:12). O texto não explica totalmente o choro deles nem diz simplesmente que o novo templo era menor.
Os comentaristas propõem razões diferentes. Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, pensa no que faltava: o segundo templo seria muito inferior, “porque lhe faltavam a arca da aliança, o fogo celeste, o propiciatório, o maná celeste, a vara de Arão que floresceu, a shekiná divina, o espírito de profecia e, muito provavelmente, o Urim e o Tumim”. (A shekiná era o sinal visível da presença de Deus.) Keil e Delitzsch pensam na pobreza do momento: “as circunstâncias miseráveis em que os alicerces do novo templo foram lançados causaram nesses idosos uma impressão tão forte que eles irromperam em choro alto”. Matthew Henry vê as duas coisas. Para ele, “havia razão para isso, e, se lamentavam o pecado que causou essa triste mudança, faziam bem”; mas acha que “era errado abafar a alegria de todos”, e conclui: “Eles desprezaram o dia das pequenas coisas.”
O texto não decide entre essas leituras, e nós também não precisamos decidir. Os idosos podem lamentar o que foi perdido, recordar a antiga glória e perceber quanto ainda falta.
O som da alegria e o do pranto se misturam: “o povo não conseguia distinguir as vozes de alegria das vozes de choro do povo” (Esdras 3:13, Bíblia Livre). A comunidade não obriga uma geração a sentir o que a outra sente. Toda restauração madura precisa comportar gratidão pelo começo e lamento pelo dano que não pode ser desfeito. Benson viu nessa cena um retrato da vida aqui na terra e tirou dela um conselho: “Aprendamos a nos alegrar com os que se alegram e a chorar com os que choram.”
Ageu e Zacarias, mais tarde, vão encorajar o povo a não desprezar o dia dos pequenos começos. Clarke liga a promessa de Ageu ao choro do alicerce: nas palavras dele, o profeta garantiu “que a glória desta última casa seria maior que a da primeira” (Ageu 2:9). A ligação faz sentido no conteúdo, mas não na data, porque Ageu falou cerca de dezesseis anos depois do alicerce, quando a obra estava parada (Esdras 4:24; Ageu 1:1; 2:1–3). Zacarias pergunta na mesma época: “Pois quem despreza o dia das pequenas coisas?” (Zacarias 4:10, Bíblia Livre).
Pequeno não quer dizer irrelevante; também não deve ser romantizado. Recursos limitados, traumas e obstáculos precisam ser reconhecidos. A promessa é que o Espírito acompanha a obra e que Deus não despreza a fidelidade nascente.
Na vida cristã, um alicerce pode ser uma conversa honesta, uma semana de sobriedade, a primeira restituição ou a volta à oração. Ainda não é a casa completa, mas merece cuidado e gratidão.
3. Neemias ora, planeja e enfrenta injustiça dentro dos muros
Ao ouvir que Jerusalém continua em ruínas, Neemias se senta, chora, jejua e confessa (Neemias 1:4). Depois conversa com o rei, calcula recursos, inspeciona o muro à noite e apresenta um chamado ao povo. Oração e planejamento pertencem à mesma fidelidade. Henry resume: “As nossas orações precisam ser acompanhadas de esforço sério; do contrário, zombamos de Deus.”
Quando surgem zombaria, acusações e ameaça de ataque, os construtores vigiam e trabalham: “Porém nós oramos a nosso Deus; e pusemos guarda contra eles, dia e noite” (Neemias 4:9, Bíblia Livre). A famosa imagem da ferramenta e da arma (Neemias 4:17) descreve uma situação histórica de insegurança; ela não é programa para armar a Igreja nem para chamar críticos de inimigos demoníacos. Quando Neemias pede que o desprezo volte sobre os adversários (Neemias 4:4–5), Benson reconhece que esses pedidos “devem parecer duros para nós, que fomos ensinados pelo Senhor Jesus a amar os nossos inimigos, a bendizer os que nos amaldiçoam e a orar pelos que nos maltratam e perseguem”. O Novo Testamento equipa o povo de Deus com verdade, justiça, fé, salvação e a Palavra (Efésios 6:14–17), e manda: “Não sejas vencido pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12:21, Bíblia Livre).
A ameaça mais grave também aparece dentro da comunidade. Em Neemias 5, famílias pobres hipotecam campos, tomam empréstimos e entregam filhos à servidão por causa dos impostos e da fome (Neemias 5:1–5). Clarke observa que essa cobrança “era expressamente contrária à lei de Deus, e duplamente cruel naquele momento, quando eles acabavam de voltar da terra do cativeiro e sofriam os efeitos de uma escassez” (veja Êxodo 22:25).
Neemias confronta os nobres, exige a devolução das propriedades e interrompe a cobrança exploradora: “Devolvei a eles hoje mesmo suas terras, suas vinhas, seus olivais, e suas casas” (Neemias 5:11, Bíblia Livre). E começa por si mesmo, abrindo mão do sustento a que o governador tinha direito (Neemias 5:14–15).
Muros restaurados ao redor de pessoas esmagadas por dívida não seriam avivamento. Henry viu isso: “Neemias sabia que, por mais altos, grossos e fortes que fossem os muros de Jerusalém, a cidade não estaria segura enquanto houvesse abusos.” Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, escreveu que o fim de toda autoridade civil “é o bem do todo e de cada indivíduo que o compõe”. A obra de Deus inclui estruturas seguras e relações econômicas justas.
4. A Palavra é lida para ser compreendida e praticada
Em Neemias 8, o povo pede o livro da Torá (Neemias 8:1). Esdras lê desde a manhã até o meio-dia, e homens, mulheres e todos os capazes de compreender escutam com atenção (Neemias 8:3). O texto descreve várias horas, mas não precisa ser transformado numa regra sobre a duração ideal de um culto.
Os levitas ajudam o povo a entender, lendo a lei “o declarando, e explicando o sentido” (Neemias 8:8, Bíblia Livre). A expressão pode envolver leitura clara, tradução, divisão do texto ou explicação; não é possível determinar cada detalhe. Benson pensa numa tradução do hebraico para o aramaico, a língua que o povo falava depois do exílio, somada à explicação: os levitas “expuseram a mente e a vontade de Deus no que liam e aplicaram essa leitura à condição presente do povo”. Keil e Delitzsch duvidam da tradução e preferem falar de exposição e aplicação, mas admitem: “O modo como essa leitura se fez não está muito claro.”
O princípio é seguro: reverência não dispensa compreensão. Ler palavras sem ajudar as pessoas a perceber o sentido delas não completa a tarefa do ensino. Henry tira a lição para quem ensina:
“Quem ouve a palavra precisa entender o que ouve; do contrário, ela não passa, para essa pessoa, de um som vazio de palavras. Por isso se exige dos mestres que expliquem a palavra e deem o sentido dela. Ler é bom, e pregar é bom, mas expor faz a leitura ser mais bem compreendida e a pregação ser mais convincente.”
(Matthew Henry, Comentário conciso sobre a Bíblia inteira, Neemias 8:1–8)
Compreender também não dispensa o Espírito. Armínio ensinou que os argumentos externos a favor da Escritura são “suficientes para produzir uma fé histórica, mas não a fé que salva”, e que a eles é preciso acrescentar “a persuasão interna de Deus pelo seu Espírito Santo […] na iluminação da mente”.
Ao compreender, o povo chora. Neemias, Esdras e os levitas não desprezam a convicção, mas orientam aquele dia para a alegria santa. Mandam preparar comida, beber algo doce e enviar porções a quem não tinha preparado nada (Neemias 8:10). Clarke parafraseia a ordem assim: “lembrem-se dos que não podem fazer festa e enviem porções a eles, para que a alegria e a ação de graças sejam de todos. Que os pobres tenham motivo para se alegrar tanto quanto vocês.”
A frase “a alegria do SENHOR é vossa força” não manda esconder a tristeza, mas fala de uma alegria pactual que se transforma em mesa compartilhada. A Palavra compreendida conduz ao arrependimento, à festa e à inclusão de quem não tem recursos.
5. Confissão verdadeira chega aos hábitos e às estruturas
Em Neemias 9, o povo recorda a longa fidelidade de Deus e a sua própria desobediência repetida. A confissão não começa com obsessão por si mesmo. Ela começa narrando o Criador, Libertador e Provedor que continua misericordioso (Neemias 9:6–15). Mesmo a lista dos pecados volta sempre ao caráter de Deus: “Porém tu, que és Deus que perdoas, clemente e misericordioso, tardio para se irar, e grande em bondade, não os desamparaste” (Neemias 9:17, Bíblia Livre). Henry aconselha: “Ao confessar os nossos pecados, é bom reparar nas misericórdias de Deus, para que fiquemos ainda mais humilhados e envergonhados.”
Repare onde a oração termina. Benson explica que, no fim, o povo não se apoia no pacto que tinha quebrado, e “por isso fogem para a sua misericórdia livre e rica em busca de alívio”. A confissão bíblica não negocia com Deus; ela se lança na graça.
No capítulo seguinte, a comunidade assume compromissos ligados ao culto, ao descanso sabático e ao sustento da casa de Deus (Neemias 9:38; 10:28–39). Em outros episódios, precisa lidar com exploração, negligência e alianças que ameaçam a sua vocação.
Nem toda medida tomada pelos líderes pós-exílicos pode ser aplicada diretamente hoje. A preocupação com os casamentos estrangeiros acontece num momento específico da identidade pactual de Israel, e o problema era religioso, e não racial. Os líderes falam de casamentos com povos que viviam “segundo suas abominações” (Esdras 9:1, Bíblia Livre), e na linguagem bíblica essa palavra costuma apontar para a idolatria. Clarke explica que Esdras se horrorizou “não apenas com o ato de terem tomado mulheres estrangeiras, mas com o fato de terem se unido a elas nas suas abominações idólatras”.
A própria Escritura honra estrangeiros como Raabe e Rute, e denuncia israelitas infiéis. Rute, a moabita, entra no povo pela fé: “Teu povo será meu povo, e teu Deus meu Deus” (Rute 1:16, Bíblia Livre). O centro não é pureza racial, mas fidelidade ao Senhor.
Na nova aliança, a Igreja é um povo de todas as etnias, e nela “não há judeu nem grego” (Gálatas 3:28, Bíblia Livre). O casamento cristão envolve discernimento de fé (1 Coríntios 7:39). Porém, quem já vive com um cônjuge não cristão disposto a continuar o casamento não recebe ordem para abandoná-lo: “se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe” (1 Coríntios 7:13, Bíblia Livre). Uma reforma responsável lê textos difíceis dentro de toda a história bíblica e protege quem tem menos poder.
6. Muros novos não conseguem criar um coração novo
Neemias termina de maneira desconfortável. Depois dos compromissos solenes, as práticas antigas voltam. O templo é negligenciado (Neemias 13:10–11). O sábado é profanado, e as alianças continuam desordenadas (Neemias 13:15–27). Neemias responde, em alguns momentos, com ações que não devemos imitar (Neemias 13:25).
O próprio Neemias encerra o livro com uma oração curta: “Lembra-te de mim, meu Deus, para o bem” (Neemias 13:31, Bíblia Livre). Alguém poderia ler aí uma cobrança de salário. Clarke responde que essa frase “tem exatamente o mesmo sentido de: Ó meu Deus, tem misericórdia de mim!”, e Henry repara na escolha das palavras: “Ele ora: Lembra-te de mim; e não: Recompensa-me.” Poucos versículos antes, Neemias tinha pedido: “lembra-te de mim, e perdoa-me segundo a grandeza de tua bondade” (Neemias 13:22, Bíblia Livre). O reformador termina pedindo misericórdia, e não apresentando méritos.
O final revela que templo, muro e ensino são necessários, mas não conseguem, por si mesmos, transformar a fonte dos desejos. A lei é santa; o coração humano precisa da obra prometida por Jeremias e Ezequiel (Jeremias 31:33): “E vos darei um novo coração, e porei um novo espírito dentro de vós” (Ezequiel 36:26, Bíblia Livre). Henry, ao comentar o fim de Esdras, olha na mesma direção:
“Os melhores reformadores só podem fazer o que está ao seu alcance; quando o próprio Redentor vier a Sião, ele afastará de fato a impiedade de Jacó.”
(Matthew Henry, Comentário conciso sobre a Bíblia inteira, Esdras 10:15–44)
Jesus não chega para desprezar a restauração anterior. Ele lê os profetas (Lucas 4:16–21), participa das festas, chama o templo de casa de seu Pai (João 2:16) e cumpre a esperança de Israel. Pela sua morte e ressurreição, torna-se a pedra fundamental de uma comunidade na qual judeus e gentios são edificados juntos para habitação de Deus no Espírito: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Cristo Jesus é a pedra principal da esquina” (Efésios 2:20, Bíblia Livre). John Wesley, nas suas notas sobre o Novo Testamento, comenta: “Deus lançou o alicerce por meio deles; mas o próprio Cristo é a principal pedra de esquina do alicerce.”
Cristo é o fundamento e o consumador da obra. Isso não torna o nosso trabalho desnecessário, mas livra esse trabalho da ilusão de que edificamos o Reino por força própria. Wesley lembra, sobre a salvação, que “nem esta fé nem esta salvação se devem a qualquer obra que vocês tenham feito, venham a fazer ou possam fazer”. Trabalhamos porque a graça nos desperta, corrigimos porque a Palavra nos alcança e recomeçamos porque o Senhor não abandona a casa que decidiu habitar.
Para conversar com Deus
- Que ruína você precisa primeiro lamentar e compreender antes de tentar reparar?
- Você consegue agradecer por um pequeno começo sem negar o trabalho que ainda falta?
- Existe uma injustiça dentro da sua comunidade que uma grande celebração religiosa está escondendo?
- A sua leitura bíblica conduz à compreensão, ao arrependimento, à alegria compartilhada e à prática?
Oração de resposta
Deus que restaura, desperta-nos para a tua obra. Dá-nos humildade para lamentar as ruínas, coragem para começar pequeno e sabedoria para trabalhar juntos. Abre as Escrituras ao nosso entendimento e não permitas que a nossa emoção termine sem obediência. Leva-nos a reparar danos, repartir alimento, corrigir a exploração e proteger os vulneráveis. Firma-nos em Jesus, fundamento seguro, e pelo Espírito edifica-nos como casa de santo amor. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Como Deus restaura uma comunidade ferida?
Resposta para guardar
Deus desperta pessoas e concede graça para lamentar, orar, planejar e trabalhar. Ele reúne o seu povo ao redor da Palavra compreendida, chama à confissão, restaura o culto e exige justiça nas relações. Nenhuma construção exterior produz sozinha um coração novo; por isso, Cristo é o nosso fundamento, e o Espírito nos edifica em comunhão, santidade e misericórdia.
Textos para conferir
Esdras 1:1–11; 3:8–13; Neemias 1:1–11; 2:11–20; 4:6–23; 5:1–13; 8:1–18; 9:1–38; Efésios 2:11–22.
Oração
Senhor, restaura-nos pela Palavra e pelo Espírito e faz-nos participantes fiéis da tua obra. Amém.
Hino para guardar no coração
Tu terminarás a casa que começaste
Autor: Charles Wesley
Título original: “Jesus, by Thine Almighty Hands”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 2 (1762), Hino 1418, sobre Zacarias 4:9
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Jesus, por tuas mãos todo-poderosas,
permanece o fundamento seguro da Igreja,
profundamente assentado em cada coração humilde.
Tu és o nosso Salvador e o nosso Príncipe,
tu nos dás a certeza dos pecados perdoados
e és o autor da nossa fé.
Tu, Senhor, também serás o seu consumador;
a casa santa começada por ti
se levantará até a plena perfeição.
Cumprirás a esperança do teu povo
e edificarás os teus templos vivos
pelo amor mais santo, até alcançarem os céus.
Para meditar
Wesley leva a imagem do templo para a Igreja e para o coração humilde. Jesus inicia e termina a obra; nós não somos construtores autônomos. “Plena perfeição” não quer dizer uma instituição incapaz de errar, mas a finalidade wesleyana do santo amor: pessoas perdoadas, unidas a Cristo e edificadas para amar a Deus e ao próximo de todo o coração.
Pergunta: Na sua obra de restauração, você depende de Jesus como fundamento e consumador ou age como se tudo permanecesse de pé pela sua força?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, sente-se diante das ruínas: O lamento que prepara o trabalho
- Terça-feira, honre o pequeno começo: O alicerce ainda não é a casa
- Quarta-feira, reconstrua com outras pessoas: Cada família junto à sua parte
- Quinta-feira, leia para compreender: A reverência que busca sentido
- Sexta-feira, repare a injustiça dentro da casa: Devolver campos também é avivamento
- Sábado, confie no consumador: A obra pertence a Jesus
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Esdras e Neemias: reconstruindo as ruínas do coração
- Esdras 1, Neemias 1 e Neemias 8 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Só especialista pode explicar a Bíblia? Esdras e os rabinos
- Ageu: O perigo de cuidar da própria casa e esquecer o templo
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Disputas públicas, I (“Da autoridade e da certeza das Sagradas Escrituras”), XVI, e XXV (“Da magistratura”), V. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Esdras 1:2 e 3:13; Neemias 1:3, 4:4–5, 8:7 e 9:32–33; Zacarias 4:6.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Esdras 3:12, 3 (fecho) e 9:3; Neemias 5:7, 5:9, 8:10 e 13:31.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Esdras 1:5–11, 3:8–13 e 10:15–44; Neemias 2:1–8, 5:6–13, 8:1–8, 9:4–38 e 13:10–14.
- Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, introduções a Esdras e a Neemias; Esdras 3:12; Neemias 8:8 e 8:10.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Efésios 2:9 e 2:20.
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- Devocional
- Vem Andar Comigo
- Neemias