
DevocionaisVem Andar Comigo78 de 175
Quando a fé de ontem não basta
Vem Andar Comigo, Semana 12 · Domingo: “Escolham hoje a quem servirão”
Neste texto
- “Escolham hoje a quem servirão”
- O texto
- Para entender o texto
- 1. A história começa com “eu fiz”
- 2. Eu e minha casa serviremos ao SENHOR
- 3. “Vocês não poderão servir”
- 4. A terra, o juízo e a violência de Josué
- 5. Uma geração que não conhecia as obras
- 6. O ciclo que desce
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Usemos a graça que Deus nos dá
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: memória, renovação da aliança, resposta pessoal e perseverança entre gerações
Leituras principais: Josué 24:1–28; Juízes 2:6–23; 21:25
Leituras complementares: Deuteronômio 7:1–11; Salmo 78:1–8; 1 Coríntios 10:1–13; Hebreus 3:7–4:13; 12:1–3
Verdade central: A fidelidade de Deus deve ser lembrada, recebida e vivida por cada geração; a herança religiosa é dádiva real, mas não substitui a fé obediente, a perseverança e a participação nos meios da graça.
“Escolham hoje a quem servirão”
Josué reúne Israel em Siquém no fim da vida. Antes de pedir uma escolha, ele conta uma história. Deus tomou Abraão, conduziu os patriarcas, ouviu o povo no Egito, abriu o caminho e deu a terra.
A decisão de Israel não começa no poder autônomo da vontade, mas na graça que chama pelo nome e pergunta: diante de tudo o que Deus fez, a quem vocês vão servir agora?
Israel prometeu servir ao SENHOR, e a fé daquela geração foi verdadeira, mas não passou para os filhos como herança automática. A pergunta de Josué continua chegando a cada geração e a cada pessoa: quem vai servir ao Senhor hoje?
O texto
Leitura principal: Josué 24:1–28; Juízes 2:6–23; 21:25
Leitura: Josué 24:1–3, 14–25; Juízes 2:7–12, 16–19; 21:25
E juntando Josué todas as tribos de Israel em Siquém, chamou aos anciãos de Israel, e a seus príncipes, a seus juízes, e a seus oficiais; e apresentaram-se diante de Deus.
E disse Josué a todo o povo: Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Vossos pais habitaram antigamente da outra parte do rio, a saber, Terá, pai de Abraão e de Naor; e serviam a deuses estranhos.
E eu tomei a vosso pai Abraão da outra parte do rio, e trouxe-o por toda a terra de Canaã, e aumentei sua geração, e dei-lhe a Isaque.
Agora, pois, temei ao SENHOR, e servi-o com integridade e em verdade; e tirai do meio os deuses aos quais serviram vossos pais da outra parte do rio, e em Egito; e servi ao SENHOR.
E se mal vos parece servir ao SENHOR, escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses aos quais serviram vossos pais, quando estiveram da outra parte do rio, ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais: que eu e minha casa serviremos ao SENHOR.
Então o povo respondeu, e disse: Nunca tal aconteça que deixemos ao SENHOR para servir a outros deuses:
Porque o SENHOR nosso Deus é o que tirou a nós e a nossos pais da terra do Egito, da casa de escravidão; o qual diante de nossos olhos fez estas grandes sinais, e nos guardou por todo o caminho por onde andamos, e em todos os povos por entre os quais passamos.
E o SENHOR expulsou de diante de nós a todos os povos, e aos amorreus que habitavam na terra: nós, pois, também serviremos ao SENHOR, porque ele é nosso Deus.
Então Josué disse ao povo: Não podereis servir ao SENHOR, porque ele é Deus santo, e Deus zeloso; não tolerará vossas rebeliões e vossos pecados.
Se deixardes ao SENHOR e servirdes a deuses alheios, se voltará, e vos maltratará, e vos consumirá, depois que vos fez bem.
O povo então disse a Josué: Não, antes ao SENHOR serviremos.
E Josué respondeu ao povo: Vós sois testemunhas contra vós mesmos, de que escolhestes para vós ao SENHOR para servir-lhe. E eles responderam: Testemunhas somos.
Tirai, pois, agora os deuses alheios que estão entre vós, e inclinai vosso coração ao SENHOR Deus de Israel.
E o povo respondeu a Josué: Ao SENHOR nosso Deus serviremos, e à sua voz obedeceremos.
Então Josué fez aliança com o povo o mesmo dia, e pôs-lhe ordenanças e leis em Siquém.
(Josué 24:1-3,14-25, Bíblia Livre)
E o povo havia servido ao SENHOR todo aquele tempo de Josué, e todo aquele tempo dos anciãos que viveram longos dias depois de Josué, os quais viram todas as grandes obras do SENHOR, que o havia feito por Israel.
E morreu Josué filho de Num, servo do SENHOR, sendo de cento e dez anos.
E enterraram-no no termo de sua herança em Timnate-Heres, no monte de Efraim, o norte do monte de Gaás.
E toda aquela geração foi também recolhida com seus pais. E levantou-se depois dela outra geração, que não conhecia o SENHOR, nem a obra que ele havia feito por Israel.
E os filhos de Israel fizeram o que era mal aos olhos do SENHOR, e serviram aos baalins;
E abandonaram o SENHOR, o Deus de seus pais, que os havia tirado da terra do Egito, e seguiram outros deuses, os deuses dos povos que estavam em seus arredores, aos quais adoraram, e provocaram à ira ao SENHOR.
Mas o SENHOR suscitou juízes que os livrassem da mão dos que os despojavam.
Mas também não ouviram aos seus juízes; em vez disso, prostituíram-se seguindo outros deuses, aos quais adoraram; desviaram-se depressa do caminho em que seus pais andaram, obedecendo aos mandamentos do SENHOR; porém eles não fizeram assim.
E quando o SENHOR lhes suscitava juízes, o SENHOR era com o juiz, e os livrava da mão dos inimigos todo aquele tempo daquele juiz, porque o SENHOR se arrependia pelo gemido deles, por causa dos que os oprimiam e afligiam.
Mas acontecia que, quando o juiz morria, eles se voltavam para trás, e se corrompiam mais que seus pais, seguindo outros deuses para os adorarem e se inclinarem diante deles; e nada cessavam de suas obras, nem de seu teimoso caminho.
(Juízes 2:7-12,16-19, Bíblia Livre)
Nestes dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que era correto diante de seus olhos.
(Juízes 21:25, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Josué 24 fecha o livro de Josué com uma cerimônia de aliança. Moisés tinha feito algo parecido antes de morrer, nas planícies de Moabe (Deuteronômio 29:1). Os comentaristas alemães Keil e Delitzsch observam que se tratava de uma renovação solene da aliança feita no Sinai.
O lugar também fala. Foi em Siquém que o SENHOR apareceu a Abrão e prometeu a terra (Gênesis 12:6–7). Foi junto a Siquém que Jacó mandou a família tirar os deuses alheios e escondeu os ídolos debaixo de um carvalho (Gênesis 35:2–4). No mesmo lugar, Josué pede: “Tirai, pois, agora os deuses alheios que estão entre vós” (Josué 24:23, Bíblia Livre). Depois levanta uma grande pedra como testemunha, “debaixo de um carvalho que estava junto ao santuário do SENHOR” (Josué 24:26, Bíblia Livre).
Juízes começa onde Josué termina. O capítulo 2 repete a despedida do povo e a morte de Josué (Juízes 2:6–9) para marcar o contraste entre a geração que tinha visto as obras do SENHOR e a que veio depois. O livro termina com um diagnóstico: “Nestes dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que era correto diante de seus olhos” (Juízes 21:25, Bíblia Livre).
Três palavras ajudam a ler esses capítulos.
Em primeiro lugar, fazer aliança. Em Josué 24:25, “Josué fez aliança com o povo”. O hebraico diz karat berit, literalmente “cortar a aliança”. Adam Clarke, o comentarista metodista, explica que a expressão faz alusão “ao sacrifício oferecido naquela ocasião”.
Em segundo lugar, Deus zeloso (el qanno). O zelo de Deus não quer dizer o ciúme mesquinho de quem se sente inseguro, mas a exclusividade do amor da aliança, a mesma do primeiro mandamento (Êxodo 20:3). John Wesley, o líder do avivamento metodista, resume: “Ele não tolerará um parceiro no seu culto; não podeis servir a ele e aos ídolos ao mesmo tempo.”
Em terceiro lugar, baalins. Juízes 2:11 diz que Israel “serviu aos baalins”. Baal quer dizer “senhor”, e o plural fala dos muitos deuses locais de Canaã. Keil e Delitzsch mostram que a idolatria de Juízes não era uma rejeição formal do SENHOR, mas “uma mistura do culto do SENHOR com o culto pagão ou cananeu da natureza”.
1. A história começa com “eu fiz”
Em Josué 24, Deus é o sujeito dos grandes verbos: tomou, conduziu, multiplicou, enviou, tirou, livrou e deu. “E vos dei a terra pela qual nada trabalhastes, e as cidades que não edificastes” (Josué 24:13, Bíblia Livre). A renovação da aliança repousa primeiro na iniciativa divina.
Repare que Josué começa lembrando que os antepassados de Israel “serviam a deuses estranhos” (Josué 24:2, Bíblia Livre). Wesley comenta que isso foi dito para assegurar ao povo que todo o bem dos patriarcas “vinha inteiramente da livre graça de Deus, e não do seu próprio mérito ou justiça”.
Isso impede que “escolham hoje” vire slogan de autossalvação. Israel não cria uma relação com Deus pela força de uma decisão. Ele responde ao Senhor que já agiu e que chama o povo à fidelidade.
O evangelho conserva essa ordem. Cristo morreu e ressuscitou por pecadores antes que eles pudessem oferecer qualquer mérito: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos deu vida juntamente com Cristo” (Efésios 2:4–5, Bíblia Livre). O Espírito desperta, convence e capacita a resposta. A fé não é uma obra que compra a graça, mas a mão vazia que recebe e passa a seguir.
Jacó Armínio, o professor holandês de quem vem o nome “arminiano”, escreveu em 1608:
“Atribuo à graça o início, a continuação e a consumação de todo bem, e levo a sua influência a tal ponto que uma pessoa, mesmo já regenerada, não pode conceber, querer nem fazer bem algum, nem resistir a qualquer tentação má, sem essa graça que vem antes e desperta, que acompanha e coopera.”
(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, IV)
Repare na palavra “continuação”. A graça não só abre a porta da vida cristã, mas sustenta cada passo do caminho. Isso vai ser importante quando falarmos de perseverança.
A graça preveniente (a graça que vem antes de qualquer resposta nossa) não elimina a decisão, mas torna a decisão possível. Deus trata as pessoas como agentes responsáveis, chama ao arrependimento e permite que a sua graça seja resistida: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51, Bíblia Livre). A escolha cristã é real sem ser independente da ação divina.
2. Eu e minha casa serviremos ao SENHOR
Josué contrasta o serviço ao SENHOR com os deuses servidos pelos antepassados e pelos povos da terra: “escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses aos quais serviram vossos pais, quando estiveram da outra parte do rio, ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais: que eu e minha casa serviremos ao SENHOR” (Josué 24:15, Bíblia Livre). A neutralidade é uma ilusão. Recusar o Deus vivo não produz uma vida sem culto, mas transfere a lealdade para outro senhor. Martinho Lutero, ao explicar o primeiro mandamento no Catecismo Maior, disse que “aquilo em que você firma o coração e põe a sua confiança é propriamente o seu deus”.
Josué também não trata a escolha como formalidade. Adam Clarke observa que Josué sabia que “todo serviço que não fosse livre e voluntário só podia ser engano e hipocrisia”. Por isso chama o povo a escolher, pois “o próprio Deus não os forçaria: teriam de servi-lo de todo o coração, se é que o serviriam”.
“Eu e minha casa” expressa a responsabilidade pública de quem lidera a família, mas não autoriza coerção espiritual. Josué não pode crer no lugar de cada membro. A própria assembleia responde por si: “Ao SENHOR nosso Deus serviremos, e à sua voz obedeceremos” (Josué 24:24, Bíblia Livre). As casas podem criar ritmos de oração, verdade e serviço, mas não podem fabricar conversão.
A frase também não deve ser reduzida a placa decorativa. Servir ao Senhor exige remover ídolos, praticar a sinceridade e aceitar as implicações da aliança. Uma casa pode exibir o versículo na parede e ser governada pelo medo, pela mentira ou pelo abuso. Nesse caso, a inscrição testemunha contra a prática.
Escolher “hoje” não quer dizer repetir todo dia uma conversão a partir do zero, mas reconhecer que uma aliança verdadeira continua pedindo fidelidade presente. As decisões passadas sustentam a memória, mas não substituem a obediência de agora.
3. “Vocês não poderão servir”
Quando o povo promete fidelidade, Josué responde com uma frase desconcertante: “Não podereis servir ao SENHOR, porque ele é Deus santo, e Deus zeloso; não tolerará vossas rebeliões e vossos pecados” (Josué 24:19, Bíblia Livre). Ele não está desencorajando a fé sincera, mas desmontando uma confiança superficial. Wesley explica que Josué fala “de uma impossibilidade moral, ou de uma dificuldade muito grande”, lembrada “não para desanimá-los do serviço de Deus, mas para torná-los mais ponderados ao se obrigarem, e mais resolutos ao cumprirem as suas obrigações”.
Israel não deve tratar a aliança como entusiasmo de cerimônia. O Deus santo não entra numa coleção de divindades. O povo vai precisar abandonar os ídolos e aceitar que a sua promessa seja testemunhada e cobrada: “Vós sois testemunhas contra vós mesmos, de que escolhestes para vós ao SENHOR para servir-lhe” (Josué 24:22, Bíblia Livre).
Há aqui uma tensão bíblica importante: o povo é chamado a escolher e, ao mesmo tempo, confrontado com a sua incapacidade e a sua inconstância. A resposta não é o fatalismo nem a autoconfiança, mas a dependência. Precisamos da graça que perdoa a nossa infidelidade, muda o coração e sustenta a perseverança.
Os wesleyanos afirmam que a graça pode ser resistida e que as pessoas devem permanecer em Cristo. Jesus diz: “Estai em mim, e eu em vós” (João 15:4, Bíblia Livre). Hebreus, carta escrita a cristãos tentados a voltar atrás, afirma: “Pois nós temos nos tornado participantes de Cristo, se, de fato, mantivermos firme a confiança do princípio até o fim” (Hebreus 3:14, Bíblia Livre).
A fé que recebe Cristo pode ser abandonada, e por isso a Escritura chama a permanecer. Joseph Benson, comentarista metodista, explica o “se” de Hebreus: participamos das bênçãos de Cristo “se retivermos com constância e perseverança” a confiança que começamos a pôr nele. Wesley, no mesmo versículo, escreveu: “Mas não de outro modo; e uma condição posta pelo Espírito Santo equivale à mais forte afirmação.” A condição não enfraquece a promessa. Ela mostra o caminho em que a promessa se cumpre.
Armínio descreveu assim a força que os crentes recebem para permanecer:
“Aqueles que foram enxertados em Cristo pela verdadeira fé, e assim foram feitos participantes do seu Espírito vivificante, têm forças suficientes para combater contra Satanás, o pecado, o mundo e a sua própria carne, e para alcançar a vitória sobre esses inimigos, mas não sem o auxílio da graça do mesmo Espírito Santo. […] E, contanto que estejam preparados para a batalha, implorem a sua ajuda e não faltem a si mesmos, Cristo os preserva de cair.”
(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, V)
Armínio não fechou a questão da apostasia. Disse que nunca tinha ensinado que um crente verdadeiro pudesse cair da fé total ou finalmente, mas pediu que se examinasse nas Escrituras “se não é possível que alguns, por negligência, abandonem o princípio da sua existência em Cristo” e “tornem ineficaz a graça divina”. Os remonstrantes das gerações seguintes, e mais tarde Wesley, responderam que sim: há quem naufrague na fé (1 Timóteo 1:19).
Ao mesmo tempo, quem está em Cristo tem segurança verdadeira: “O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16, Bíblia Livre). Armínio afirmou essa certeza com clareza:
“É possível àquele que crê em Jesus Cristo estar certo e persuadido, e, se o seu coração não o condena, estar agora realmente seguro de que é filho de Deus e de que está na graça de Jesus Cristo. Essa certeza é produzida na mente tanto pela ação do Espírito Santo, que move interiormente o crente, e pelos frutos da fé, como pela sua própria consciência e pelo testemunho do Espírito de Deus, que testifica juntamente com a sua consciência.”
(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, VI)
A segurança do crente não está na firmeza da sua promessa, mas na fidelidade daquele que guarda. Pedro escreve aos que “pela fé estais guardados no poder de Deus para a salvação” (1 Pedro 1:5, Bíblia Livre). A fé é o caminho, e o poder é de Deus.
Wesley via dois perigos opostos. “A presunção é um dos grandes laços do diabo”, e, “embora muitos sejam destruídos pela presunção, há ainda mais que perecem pelo desespero”. A perseverança bíblica foge dos dois: não promete segurança a quem abandona Cristo, e não tira a esperança de quem volta para ele.
Também não devemos imaginar a perseverança como uma conquista do nosso esforço. Ela é obra da graça do começo ao fim, recebida e não resistida. Paulo manda: “exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir” (Filipenses 2:12–13, Bíblia Livre). Wesley tirou desse texto duas conclusões: “Em primeiro lugar, Deus opera; por isso você pode operar. Em segundo lugar, Deus opera; por isso você deve operar.” Deus opera antes, e só por isso nós podemos responder. Quem permanece não acrescenta mérito à salvação, mas continua recebendo o que Deus continua dando.
Essa possibilidade de cair não transforma a vida cristã em pânico, mas conduz a uma vigilância humilde e à vida de comunhão, oração, Escritura, Ceia e obras de misericórdia: os meios pelos quais Deus preserva e amadurece o seu povo.
4. A terra, o juízo e a violência de Josué
Qualquer leitura responsável de Josué precisa enfrentar a conquista. O texto apresenta a terra como dom prometido e certos povos como objeto de juízo por práticas acumuladas. Deus disse a Abraão que esperaria, “porque ainda não está completa a maldade dos amorreus até aqui” (Gênesis 15:16, Bíblia Livre). João Calvino, o reformador de Genebra, lembrou que Deus mostrou a sua misericórdia durante quatro séculos antes do juízo. O texto também insiste que Israel não tem superioridade moral: se imitar a mesma infidelidade, será expulso (Deuteronômio 7:7; Josué 24:20).
A linguagem de destruição total aparece ao lado de passagens que continuam mencionando habitantes cananeus. Isso sugere que devemos considerar as convenções militares e literárias do mundo antigo, sem fingir que não houve guerra e morte. O problema moral não desaparece com uma explicação rápida.
Raabe é acolhida pela fé (Josué 6:25) e entra na genealogia de Jesus (Mateus 1:5). Os gibeonitas são preservados por uma aliança (Josué 9:15). Estrangeiros podem se integrar ao povo. Esses episódios impedem uma leitura simplesmente racial. O centro é o juízo e a fidelidade da aliança, e não a superioridade étnica.
Para a Igreja, essas guerras não oferecem um modelo de expansão. Jesus manda amar os inimigos (Mateus 5:44), repreende a espada usada em sua defesa e reúne discípulos de todas as nações. A nossa luta não é contra carne e sangue (Efésios 6:12). Textos de conquista jamais autorizam cristãos a chamar grupos de hoje de “cananeus” ou a reivindicar território por violência sagrada. Comentando o massacre do fim de Juízes, o metodista Joseph Benson escreveu:
“Quem dera fosse esta a única vez em que o gênero humano pensou honrar a Deus com atos que ele mais detesta! […] Que se pense que o Deus de amor, aquele que é o próprio amor, possa se agradar ou ser honrado com atos da mais bárbara crueldade!”
(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Juízes 21:11)
5. Uma geração que não conhecia as obras
Juízes 2 recorda que Israel serviu ao SENHOR durante os dias de Josué e dos anciãos que tinham visto as suas grandes obras. Quando aquela geração morreu, “levantou-se depois dela outra geração, que não conhecia o SENHOR, nem a obra que ele havia feito por Israel” (Juízes 2:10, Bíblia Livre).
“Não conhecer”, aqui, envolve mais que falta de informação. O verbo hebraico yada fala de um conhecimento de experiência e de relacionamento. Wesley comenta que essa geração “não tinha conhecimento experimental, nem sério e afetuoso, de Deus ou das suas obras”. O livro vai mostrar pessoas familiarizadas com a linguagem religiosa, mas sem fidelidade à aliança. O conhecimento bíblico é relacional e obediente.
O texto não oferece dados suficientes para culpar uma geração intermediária específica ou para afirmar uma lei universal de decadência em três etapas. Pais podem ensinar com fidelidade e ver os filhos resistirem, e pais podem falhar e ver os filhos alcançados pela graça. Cada geração responde diante de Deus.
Ainda assim, a comunidade tem uma responsabilidade real. O salmista promete: “Nós não os encobriremos a seus filhos, contaremos à próxima geração sobre os louvores do SENHOR, o seu poder, e suas maravilhas que ele fez” (Salmo 78:4, Bíblia Livre). Se a comunidade deixa de contar a história, de praticar a fé e de abrir espaço para perguntas, contribui para o esquecimento. A tradição pode transmitir a memória da graça, enquanto o tradicionalismo preserva apenas as formas depois que o sentido se perdeu.
A Igreja, porém, não depende só da lembrança de líderes que já morreram. Wesley escreveu sobre a morte de Josué:
“Enquanto Josué viveu, a religião se manteve, sob o seu cuidado e a sua influência; mas, depois que ele e os seus contemporâneos se foram, ela decaiu rapidamente. Quão bom é para a igreja do evangelho que Cristo, o nosso Josué, ainda esteja com ela pelo seu Espírito, e estará sempre, até o fim do mundo!”
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Josué 24:33)
6. O ciclo que desce
Juízes repete um padrão: Israel abandona o SENHOR, sofre opressão, clama, recebe um libertador e volta à infidelidade. “Mas acontecia que, quando o juiz morria, eles se voltavam para trás, e se corrompiam mais que seus pais” (Juízes 2:19, Bíblia Livre). O ciclo não gira no mesmo nível, mas se deteriora. Os próprios juízes se tornam cada vez mais ambíguos e feridos pelo caos que enfrentam.
Nem todo clamor é chamado explicitamente de arrependimento. Muitas vezes o povo deseja alívio sem uma verdadeira conversão. Deus se compadece e liberta, mas a mudança não permanece.
A frase “cada um fazia o que era correto diante de seus olhos” (Juízes 21:25, Bíblia Livre) descreve a desordem da aliança, e não apenas uma teoria moderna de relativismo. O livro mostra violência, abuso, idolatria e fragmentação tribal. Clarke adverte: “Que ninguém suponha que o escritor sagrado, ao relatar as atrocidades deste capítulo e dos anteriores, justifica as próprias ações; de modo nenhum.” No último capítulo, as tribos choram porque Benjamim quase desapareceu, mas não mostram tristeza pela própria desumanidade. Benson se espanta: “Ah! De que crimes a natureza humana é capaz! E que necessidade há da graça divina para renovar e mover o coração do homem!” A ausência de um rei fiel é parte do problema, embora a monarquia humana também não seja uma solução automática.
Juízes cria fome por um libertador melhor e um Rei fiel. Em Jesus, encontramos aquele que não repete o ciclo moral dos salvadores humanos. Ele derrota o pecado pela cruz, ressuscita e concede o Espírito. A graça dele não só oferece alívio das consequências, mas forma um povo capaz de recordar, perseverar e amar.
Para conversar com Deus
- A sua fé de hoje repousa numa história antiga que já não orienta as suas escolhas?
- Que ídolo precisa ser removido para que a sua renovação da aliança seja verdadeira?
- Você procura apenas alívio das consequências ou um arrependimento que muda a direção?
- Como você pode ajudar a próxima geração a conhecer as obras de Deus sem usar coerção?
Oração de resposta
Deus fiel de todas as gerações, tu nos amaste, chamaste e conduziste antes da nossa resposta. Livra-nos da confiança em decisões emocionais que não chegam à vida. Expõe os nossos ídolos e sustenta-nos nos meios da tua graça. Perdoa-nos quando usamos a tua Palavra para justificar violência ou domínio. Faz-nos contar a tua história com humildade, acolher perguntas e viver aquilo que ensinamos. Em Jesus, nosso Libertador e Rei fiel, guarda-nos da repetição do pecado e conduz-nos à perseverança. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Por que a herança religiosa não substitui uma fé pessoal e perseverante?
Resposta para guardar
A herança da fé é uma dádiva pela qual recebemos a memória das obras de Deus, mas ninguém pode crer, arrepender-se ou obedecer no lugar de outra pessoa. A graça de Deus vem antes da nossa resposta e capacita essa resposta; ela também pode ser resistida. Por isso, cada geração é chamada a abandonar os ídolos, servir ao Senhor e perseverar em Cristo, dentro da comunidade e nos meios da graça.
Textos para conferir
Josué 24:1–28; Juízes 2:6–23; Salmo 78:1–8; João 15:1–11; 1 Coríntios 10:1–13; Hebreus 3:7–14; 12:1–3.
Oração
Deus da aliança, torna a tua graça viva em nós e guarda-nos fiéis, para que a tua história seja conhecida e praticada de geração em geração. Amém.
Hino para guardar no coração
Usemos a graça que Deus nos dá
Autor: Charles Wesley
Título original: “Come, Let Us Use the Grace Divine”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 2 (1762), Hino 1242, sobre Jeremias 50:5
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Venham, usemos a graça divina
e, todos em comum acordo,
unamo-nos numa aliança permanente
a Cristo, nosso Senhor.
Entreguemo-nos, pelo poder de Jesus,
para glorificar o seu nome
e prometamos nesta hora sagrada
viver e morrer para Deus.
Que a aliança feita neste momento
seja sempre conservada na memória.
Não abandonaremos o nosso Deus outra vez
nem deixaremos as suas palavras para trás.
Não rejeitaremos o santo temor
daquele que ouve o nosso voto solene.
E, se te agrada receber-nos,
desce e encontra-nos agora.
Pai, Filho e Espírito Santo,
que todos os nossos corações te recebam.
Presente com o teu exército celestial,
concede-nos a tua resposta de paz.
Aplica a cada um o sangue da aliança
que remove os nossos pecados;
registra no alto os nossos nomes
e guarda-nos até aquele dia.
O hino é cantado em inglês com várias melodias; no hinário metodista britânico de 1917 (*The Methodist Hymn-Book*, nº 269), aparecia com esta, entre os hinos de renovação da aliança. A tradução daqui não tem métrica para canto: a melodia serve para meditar enquanto você lê a letra. Partitura em domínio público, transcrita do Hymnary.org. Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.
Para meditar
O primeiro verso contém a chave: “usemos a graça divina”. A renovação da aliança não confia na firmeza isolada de quem promete, mas no poder de Jesus, no sangue da aliança e na graça que preserva. O voto é sério, comunitário e dependente. Deus nos guarda por meios que ele mesmo chama o seu povo a receber e praticar. Os hinários metodistas colocam este hino entre os cânticos de renovação da aliança, quando a igreja renova diante de Deus a entrega da vida a Cristo. Repare no último verso: o pedido final não é “ajuda-nos a guardar a promessa”, mas “guarda-nos até aquele dia”.
Pergunta: A sua promessa a Deus está apoiada no entusiasmo pessoal ou na graça que você vai continuar buscando com a comunidade?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, recorde: Conte a graça antes de pedir a decisão
- Terça-feira, escolha hoje: Decisões antigas precisam de fidelidade presente
- Quarta-feira, desconfie da promessa fácil: “Vocês não poderão servir”
- Quinta-feira, transmita sem controlar: Testemunho não é coerção
- Sexta-feira, reconheça o ciclo: Alívio não é o mesmo que arrependimento
- Sábado, persevere acompanhado: A fé precisa de memória compartilhada
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Josué 24 e Juízes 2: a fé não é genética entre gerações
- Josué 24, Juízes 2 e Juízes 21 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Teologia Sistemática, Capítulo 37: A perseverança dos santos
- Teologia Sistemática, Capítulo 35: Regeneração, adoção e certeza da salvação
- Declaração de Sentimentos de Armínio (1608)
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608), IV (“A graça de Deus”), V (“A perseverança dos santos”) e VI (“A certeza da salvação”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Juízes 21:3 e 21:11; Hebreus 3:14.
- Calvino, João. Commentaries on the Four Last Books of Moses, Deuteronômio 7:2.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Josué 24:15 e 24:25; Juízes 21:25.
- Keil, Carl Friedrich, e Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament, Josué 24:25; Juízes 2:11–13.
- Lutero, Martinho. Catecismo Maior, primeiro mandamento, trad. inglesa de F. Bente e W. H. T. Dau.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Josué 24:2, 24:19 e 24:33; Juízes 2:4 e 2:10.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Hebreus 3:14.
- Wesley, John. Sermão 85, On Working Out Our Own Salvation (Filipenses 2:12–13).
- Wesley, John. Sermão 86, A Call to Backsliders (Salmo 77:7–8).
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
- Devocional
- Vem Andar Comigo
- Josué