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Moisés: o Deus que ouve o clamor

Vem Andar Comigo, Semana 7 · Domingo: “Eu ouvi o seu clamor”

Diego Gonçalves24 min de leitura4.786 palavras

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Neste texto

Tema: revelação do nome de Deus, libertação, juízo, Páscoa e vocação
Leituras principais: Êxodo 2:23–3:15; 5:1–9; 12:1–32; 14:10–31
Leituras complementares: Êxodo 15:1–18; Lucas 4:16–21; 1 Coríntios 5:7–8; Hebreus 11:23–29
Verdade central: O Senhor ouve o clamor dos oprimidos, revela o seu nome, julga os poderes que escravizam e liberta um povo para pertencer a ele, para o culto e para o serviço.

“Eu ouvi o seu clamor”

O livro de Êxodo começa com nomes que Faraó não considera importantes: parteiras hebreias, mães, crianças ameaçadas e um povo obrigado a produzir sem liberdade. O império conta tijolos; Deus ouve gemidos.

A Bíblia guarda o nome de duas parteiras, Sifrá e Puá, e não guarda o nome do rei que mandou matar os meninos (Êxodo 1:15–17).

Israel clama. O texto diz que Deus ouviu, lembrou-se da aliança, olhou e reconheceu o seu povo. Então chama Moisés diante de uma sarça que arde sem ser consumida.

O texto

Leitura principal: Êxodo 2:23–3:15; 5:1–9; 12:1–32; 14:10–31

Leitura: Êxodo 2:23–25; 3:4–8, 13–15; 5:1–2; 12:12–14, 21–23; 14:13–16, 21–22, 30–31

E aconteceu que depois de muitos dias morreu o rei do Egito, e os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram: e subiu a Deus o clamor deles com motivo de sua servidão.

E ouviu Deus o gemido deles, e lembrou-se de seu pacto com Abraão, Isaque e Jacó.

Deus olhou os filhos de Israel, e Deus os reconheceu.

(Êxodo 2:23-25, Bíblia Livre)

E quando o SENHOR viu que ia ver, Deus o chamou do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Eis-me aqui.

E disse: Não te aproximes daqui; tira teus calçados de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa.

E disse: Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó. Então Moisés cobriu seu rosto, porque teve medo de olhar a Deus.

E disse o SENHOR: Vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi seu clamor por causa de seus opressores; pois conheço suas angústias.

Por isso desci para livrá-los da mão dos egípcios, e tirá-los daquela terra, fazendo-os subir para uma terra boa e larga, para uma terra que flui leite e mel, para o lugar dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos perizeus, dos heveus e dos jebuseus.

E disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu chegar aos filhos de Israel, e lhes disser, O Deus de vossos pais me enviou a vós; se eles me perguntarem: Qual é seu nome? que lhes responderei?

Deus respondeu a Moisés: EU SOU O QUE SOU. E disse: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

E disse mais Deus a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: o SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó, me enviou a vós. Este é meu nome para sempre, este é meu memorial por todos os séculos.

(Êxodo 3:4-8,13-15, Bíblia Livre)

Depois entraram Moisés e Arão a Faraó, e lhe disseram: O SENHOR, o Deus de Israel, disse assim: Deixa ir meu povo a celebrar-me festa no deserto.

E Faraó respondeu: Quem é o SENHOR, para que eu ouça sua voz e deixe ir a Israel? Não conheço o SENHOR, nem tampouco deixarei Israel ir.

(Êxodo 5:1-2, Bíblia Livre)

Pois eu passarei naquela noite pela terra do Egito, e ferirei todo primogênito na terra do Egito, tanto nos homens como nos animais; e executarei juízos em todos os deuses do Egito. EU SOU O SENHOR.

E o sangue vos será por sinal nas casas onde vós estejais; e verei o sangue, e passarei de vós, e não haverá em vós praga de mortandade, quando ferirei a terra do Egito.

E hoje vos será em memória, e tereis de celebrá-lo como solenidade ao SENHOR durante vossas gerações; por estatuto perpétuo o celebrareis.

E Moisés convocou a todos os anciãos de Israel, e disse-lhes: Tirai, e tomai para vós cordeiros por vossas famílias, e sacrificai a páscoa.

E tomai um molho de hissopo, e molhai-lhe no sangue que estará em uma bacia, e untai a verga e os dois postes com o sangue que estará na bacia; e nenhum de vós saia das portas de sua casa até a manhã.

Porque o SENHOR passará ferindo os egípcios; e quando vir o sangue na verga e nos dois postes, passará o SENHOR aquela porta, e não deixará entrar o feridor em vossas casas para ferir.

(Êxodo 12:12-14,21-23, Bíblia Livre)

E Moisés disse ao povo: Não temais; ficai quietos, e vede a salvação do SENHOR, que ele fará hoje convosco; porque os egípcios que hoje vistes, nunca mais para sempre os vereis.

O SENHOR lutará por vós, e vós ficai quietos.

Então o SENHOR disse a Moisés: “Por que clamas a mim? Diz aos filhos de Israel que marchem.

Quanto a ti, ergue a tua vara, estende a tua mão sobre o mar, e divide-o. Que os filhos de Israel entre por meio do mar em seco.

E estendeu Moisés sua mão sobre o mar, e fez o SENHOR que o mar se retirasse por forte vento oriental toda aquela noite; e tornou o mar em seco, e as águas restaram divididas.

Então os filhos de Israel entraram por meio do mar em seco, tendo as águas como muro à sua direita e à sua esquerda;

Assim salvou o SENHOR aquele dia a Israel da mão dos egípcios; e Israel viu aos egípcios mortos à beira do mar.

E viu Israel aquele grande feito que o SENHOR executou contra os egípcios: e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés seu servo.

(Êxodo 14:13-16,21-22,30-31, Bíblia Livre)

Para entender o texto

Êxodo continua a história que Gênesis deixou no Egito. Então se levantou “um novo rei sobre o Egito, que não conhecia José” (Êxodo 1:8, Bíblia Livre). O medo do novo rei virou política de Estado: os egípcios “amargaram a vida deles com dura servidão, em fazerem barro e tijolos” (Êxodo 1:14, Bíblia Livre), e depois veio a ordem de lançar no rio todo menino hebreu (Êxodo 1:22).

John Wesley observa que a vida de Moisés se divide em três períodos de quarenta anos: “os primeiros quarenta ele passou como príncipe na corte de Faraó; os segundos, como pastor em Midiã; os terceiros, como rei em Jesurum.” Quando Deus chama Moisés, ele tem oitenta anos e cuida das ovelhas do sogro perto do Horebe, o monte onde Israel depois receberia a lei.

A opressão durou mais de oitenta anos, calculam os comentaristas alemães Keil e Delitzsch. Eles notam que o clamor sobe a Deus logo depois da morte do rei: quando a esperança de alívio com o novo governo falhou, o povo gemeu com mais amargura e clamou a Deus por socorro.

Três palavras ajudam a ler esses capítulos.

Em primeiro lugar, o verbo conhecer (em hebraico, yada). O capítulo 2 termina dizendo que Deus “os reconheceu” (Êxodo 2:25, Bíblia Livre), e em 3:7 o Senhor diz: “conheço suas angústias” (Êxodo 3:7, Bíblia Livre). Adam Clarke, o grande comentarista metodista, lembra que na Bíblia hebraica esse verbo muitas vezes traz o sentido de ter consideração por alguém. Deus conhece a dor de Israel como quem se envolve com ela.

Em segundo lugar, o nome que Deus revela na sarça. A frase “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3:14, Bíblia Livre) traduz três palavras hebraicas, ’ehyeh ’asher ’ehyeh, ligadas ao verbo “ser”. Clarke lembra que elas significam literalmente “serei o que serei” e registra a leitura de que o que Deus foi para Abraão, Isaque e Jacó ele seria para Moisés e para Israel. Logo depois aparece o nome da aliança, YHWH, que as nossas Bíblias escrevem SENHOR.

Em terceiro lugar, a palavra Páscoa (pesach). Clarke explica que o nome vem do anjo de Deus que passou por cima das casas dos israelitas, em cujos batentes o sangue do cordeiro tinha sido aspergido.

1. O Deus que vê pessoas escravizadas

O sofrimento de Israel não é metáfora. Homens e mulheres vivem sob trabalho forçado, violência do Estado e ameaça contra os seus filhos. Quando Deus diz: “Vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi seu clamor por causa de seus opressores; pois conheço suas angústias” (Êxodo 3:7, Bíblia Livre), ele revela que a aflição humana não é invisível para ele.

Clarke põe na boca de Deus esta explicação: “Eu não apenas vi as aflições deste povo, porque sou onisciente, mas considerei as suas dores, e o meu olhar comove o meu coração.” O Deus que vê também desce: “Por isso desci para livrá-los da mão dos egípcios” (Êxodo 3:8, Bíblia Livre).

“Lembrou-se da aliança” não quer dizer que Deus tinha esquecido uma informação. Na linguagem bíblica, lembrar-se é voltar-se para agir segundo a fidelidade prometida a Abraão, Isaque e Jacó. Wesley comenta o versículo assim:

“Os gemidos dos oprimidos clamam alto aos ouvidos do Deus justo, a quem pertence a vingança; especialmente os gemidos dos filhos de Deus: as cargas sob as quais gemem e as bênçãos pelas quais gemem.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 2:24)

Sobre a aliança, Wesley acrescenta que Deus agiu olhando para ela, “e não para algum mérito deles”. A libertação começa na fidelidade de Deus, e não no valor de Israel.

Essa ação confronta uma espiritualidade indiferente a corpos feridos. O Deus da Bíblia perdoa pecados e também ouve o clamor de pessoas oprimidas. A Igreja não deve escolher entre proclamar a reconciliação com Deus e praticar a misericórdia e a justiça. O evangelho forma um povo que anuncia Cristo e aprende a não reproduzir a lógica de Faraó.

Ao mesmo tempo, nenhuma luta humana pode ser identificada automaticamente com Israel, e nenhum adversário político deve ser chamado de Egito sem discernimento. O êxodo é um ato singular de Deus na história da aliança. Ele mostra padrões do caráter de Deus, mas não dá licença para santificar toda causa.

2. O fogo santo e o nome revelado

Moisés se aproxima da sarça e ouve: “tira teus calçados de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Êxodo 3:5, Bíblia Livre). O Deus que se compadece não é uma força que se deixa domesticar. A presença dele atrai e, ao mesmo tempo, impõe limite. Moisés “cobriu seu rosto, porque teve medo de olhar a Deus” (Êxodo 3:6, Bíblia Livre). Wesley tira daí uma lição para o nosso culto: “Quanto mais vemos de Deus, mais motivo veremos para adorá-lo com reverência e temor piedoso.”

Quando Moisés pergunta o nome, recebe a resposta ligada ao verbo ser, “EU SOU O QUE SOU”, e o nome da aliança, SENHOR. A declaração comunica liberdade, fidelidade e presença. Deus não pode ser definido nem controlado por categorias humanas; ele estará com Moisés e mostrará quem é pelos seus atos. Wesley resume o que o nome ensina:

“Isto explica o seu nome Jeová e significa […] que ele existe por si mesmo; tem o seu ser de si mesmo e não depende de nenhum outro. […] que ele é fiel e verdadeiro em todas as suas promessas, imutável na sua palavra tanto quanto na sua natureza, e não é homem para mentir.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 3:14)

O nome diferencia o Senhor dos deuses do Egito e liga a libertação à promessa feita aos patriarcas: “Este é meu nome para sempre, este é meu memorial por todos os séculos” (Êxodo 3:15, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch notam que esse nome “excluía qualquer comparação entre o Deus dos israelitas e as divindades dos egípcios”. Ele é o Deus vivo que age, e não uma ideia religiosa criada para consolar escravos.

Conhecer o nome de Deus não quer dizer ter uma fórmula, mas ser admitido numa relação de reverência e confiança. Mais tarde, Jesus usará a linguagem do “Eu sou” e revelará o Pai de maneira decisiva na sua pessoa e na sua obra: “antes que Abraão fosse, eu sou” (João 8:58, Bíblia Livre). Clarke repara que Jesus não disse “eu era”, mas “eu sou”, e com isso deu a entender a sua existência divina e eterna.

3. O enviado que se sente insuficiente

Logo depois de dizer que desceu para libertar o povo, Deus diz: “Vem, pois, agora, e te enviarei a Faraó” (Êxodo 3:10, Bíblia Livre). A ação divina inclui uma vocação humana.

Moisés pergunta: “Quem sou eu, para que vá a Faraó, e tire do Egito aos filhos de Israel?” (Êxodo 3:11, Bíblia Livre). Deus não responde construindo a autoestima dele. Diz apenas: “Vai, porque eu serei contigo” (Êxodo 3:12, Bíblia Livre). A suficiência da missão repousa, antes de tudo, na presença de quem envia.

Wesley repara numa ironia na pergunta de Moisés:

“Moisés era incomparavelmente o mais apto de todos os homens vivos para esta obra, eminente em erudição, sabedoria, experiência, valentia, fé e santidade; e contudo: ‘Quem sou eu?’ Quanto mais apta uma pessoa é para o serviço, em geral menor é a opinião que tem de si mesma.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 3:11)

As objeções de Moisés não são todas iguais. Algumas expressam um temor compreensível; outras se tornam resistência persistente. Deus oferece sinais, palavras e a ajuda de Arão, mas também confronta a recusa. Quando Moisés pede: “Ai Senhor! envia por meio do que hás de enviar”, o texto diz que “o SENHOR se irou contra Moisés” (Êxodo 4:13–14, Bíblia Livre). Wesley explica: “Até a desconfiança de si mesmo, quando chega a um extremo, quando nos impede de cumprir o dever ou nos estorva no dever, desagrada-lhe muito.”

Chamado não quer dizer que a pessoa tem todos os dons. A graça pode dar companheiros e recursos. Joseph Benson, que incorporou ao seu comentário as notas de Wesley, acrescenta aqui uma observação sobre os dois irmãos: “Moisés se destacava em sabedoria e conduta; Arão, em eloquência. Tal é a sábia ordem da Providência.” Paulo usa a imagem do corpo para dizer algo parecido: “assim também nós, ainda que muitos, somos um único corpo em Cristo; porém, individualmente, membros uns dos outros” (Romanos 12:5, Bíblia Livre).

Chamado também não quer dizer que toda ambição ministerial venha de Deus. A vocação autêntica é examinada pela Escritura, confirmada na comunidade e voltada para o serviço, e não para a grandeza pessoal.

4. “Quem é o Senhor?”

Moisés e Arão entregam o recado: “Deixa ir meu povo a celebrar-me festa no deserto” (Êxodo 5:1, Bíblia Livre). Faraó responde: “Quem é o SENHOR, para que eu ouça sua voz e deixe ir a Israel? Não conheço o SENHOR, nem tampouco deixarei Israel ir” (Êxodo 5:2, Bíblia Livre). A pergunta revela mais que falta de informação: ela é recusa de autoridade. Libertar Israel ameaçaria a economia, o prestígio e o poder do Egito.

As pragas funcionam como sinais e juízos. O Senhor anuncia: “executarei juízos em todos os deuses do Egito. EU SOU O SENHOR” (Êxodo 12:12, Bíblia Livre). Porém, muitas associações populares entre cada praga e uma divindade específica são reconstruções possíveis, e não certezas do texto. O foco bíblico está no confronto entre a palavra do Senhor e a pretensão imperial de Faraó.

O endurecimento do coração é descrito de maneiras diferentes: Faraó endurece o próprio coração, o coração dele se endurece e Deus endurece esse coração. Keil e Delitzsch fizeram a conta: o texto atribui o endurecimento a Deus dez vezes e ao próprio Faraó outras dez. Depois dos primeiros sinais e das cinco primeiras pragas, a dureza é sempre apresentada como obra do próprio Faraó: quando recebe alívio, ele “agravou seu coração” (Êxodo 8:15, Bíblia Livre). Só depois da sexta praga o texto diz: “E o SENHOR endureceu o coração de Faraó” (Êxodo 9:12, Bíblia Livre). E, mesmo depois disso, Faraó “perseverou em pecar, e agravou seu coração, ele e seus servos” (Êxodo 9:34, Bíblia Livre).

Não encontramos um homem moralmente neutro transformado arbitrariamente em tirano. Encontramos um governante que já escraviza e mata, resiste repetidamente e também é entregue ao juízo da sua obstinação. Wesley explica assim o versículo 12 do capítulo 9:

“Antes ele tinha endurecido o seu próprio coração e resistido à graça de Deus; e agora Deus justamente o entregou às concupiscências do seu próprio coração […]. A dureza voluntária costuma ser castigada com a dureza judicial. Temamos isto como o mais terrível juízo sob o qual um homem pode estar, aquém do inferno.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 9:12)

Adam Clarke segue o mesmo caminho e se apoia em Agostinho: “Deus não endurece os homens infundindo neles malícia, mas não lhes concedendo misericórdia.” Para Clarke, quando uma pessoa entristece o Espírito e resiste à graça, Deus retira dela esse Espírito e essa graça, e ela se torna ousada e presunçosa no pecado. Jacó Armínio, o teólogo de Leiden, trata esse juízo como um castigo espiritual, “uma privação da graça e uma entrega ao poder do mal” (Disputas públicas, IX.21), e cita justamente o caso de Faraó.

Keil e Delitzsch, comentaristas luteranos, concluem que o endurecimento de Faraó foi “tanto um ato dele mesmo quanto um decreto de Deus”, e logo lembram a palavra do profeta: “não tenho prazer na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva” (Ezequiel 33:11, Bíblia Livre).

O mistério permanece. O texto sustenta a soberania de Deus e a culpa de Faraó sem reduzir uma à outra. Deus é soberano também quando julga, e nunca é autor do pecado. Para nós, fica uma advertência: resistir continuamente à luz forma um coração cada vez menos capaz de ouvir.

5. A noite da Páscoa

A décima praga é a parte mais terrível da narrativa. A morte dos primogênitos atinge o Egito, e “havia um grande clamor no Egito, porque não havia casa onde não houvesse morto” (Êxodo 12:30, Bíblia Livre).

Não devemos contar essa história com prazer nem usar crianças mortas como detalhe dramático. O juízo divino confronta um império que tinha lançado no Nilo os filhos dos hebreus, e Deus tinha avisado Faraó desde o começo, quando chamou Israel de “meu filho, meu primogênito” (Êxodo 4:22, Bíblia Livre). Ainda assim, a gravidade da cena continua exigindo temor e lamento.

Israel recebe instruções para a Páscoa: um cordeiro por casa, sangue como sinal, refeição feita em prontidão e memória transmitida às gerações. “E o sangue vos será por sinal nas casas onde vós estejais; e verei o sangue, e passarei de vós” (Êxodo 12:13, Bíblia Livre). A libertação será lembrada à mesa.

O texto não convida a aplicar literalmente o sangue às “portas do coração”. Essa imagem devocional pode confundir narrativa e alegoria. O Novo Testamento, porém, oferece uma ligação autorizada: “Cristo, nosso cordeiro da páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Coríntios 5:7, Bíblia Livre). João Batista já tinha apontado para Jesus dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29, Bíblia Livre). Jesus morre durante a Páscoa, inaugura a nova aliança e liberta um povo para uma vida sem o fermento da maldade.

Adam Clarke vê na escravidão do Egito uma imagem da escravidão do pecado, e no cordeiro, uma figura de Cristo:

“A misericórdia de Deus planeja a redenção do homem dessa cruel escravidão e opressão; e um sacrifício é instituído para a ocasião pelo próprio Deus […], e todos esses ritos representam a paixão e a morte de nosso bendito Senhor e o grande fim para o qual ele se tornou sacrifício, a saber, a redenção de um mundo perdido do poder, da culpa e da contaminação do pecado.”

(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Êxodo 12:14)

Clarke lembra que, numa dessas Páscoas, “nosso bendito Senhor expirou na cruz pela salvação do mundo”, e diz ao leitor que, para a sua redenção, “era absolutamente necessário que o Filho de Deus tomasse a tua natureza e morresse em teu lugar”. O cordeiro de Êxodo aponta para o Filho que morreu no lugar dos pecadores e cujo sacrifício alcança o mundo inteiro: “ele é o sacrifício para perdão dos nossos pecados; e não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo” (1 João 2:2, Bíblia Livre).

A salvação é recebida pela graça e conduz a uma partida. O povo deve deixar a casa da escravidão. Por isso Israel come o cordeiro com o bordão na mão (Êxodo 12:11). Clarke aplica a cena a nós: quem recebe essa Páscoa espiritual precisa recebê-la com perfeita prontidão para partir da terra do seu cativeiro.

6. Livres para servir

Faraó persegue Israel até o mar. O povo, aterrorizado, não abre a água por coragem interior. Moisés responde: “Não temais; ficai quietos, e vede a salvação do SENHOR” (Êxodo 14:13, Bíblia Livre). Deus cria um caminho onde não havia saída. Israel atravessa, e o poder militar que pretendia levar o povo de volta à servidão é derrotado.

O cântico de Êxodo 15 celebra: “O SENHOR é minha força, e minha canção, E foi-me por salvação” (Êxodo 15:2, Bíblia Livre). Clarke comenta: “Quem tem Deus por sua força o terá por seu cântico; e aquele para quem Jeová se tornou salvação exaltará o seu nome.”

A liberdade tem direção. Desde os primeiros pedidos a Faraó, Deus repete: “Deixa meu povo ir, para que me sirvam” (Êxodo 8:1, Bíblia Livre). O verbo hebraico ‘avad quer dizer servir e também adorar. Keil e Delitzsch explicam que, quando Deus promete a Moisés que o povo serviria a Deus naquele monte (Êxodo 3:12), servir quer dizer prestar culto. E a mesma raiz hebraica aparece na “dura servidão” do Egito (Êxodo 1:14, Bíblia Livre). Israel deixa um senhor cruel para pertencer ao Deus libertador.

Joseph Benson descreve essa troca com uma imagem do Evangelho: Deus tira de Israel o jugo duro e de ferro dos egípcios e põe sobre eles o seu jugo suave e leve.

Liberdade bíblica não quer dizer ausência de toda autoridade, mas resgate dos poderes que desumanizam para viver sob o governo santo de Deus. Martinho Lutero resumiu esse paradoxo em duas frases que abrem o seu tratado sobre a liberdade cristã:

“O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais dedicado de todos e está sujeito a todos.”

(Martinho Lutero, Da liberdade do cristão, 1520)

Para Lutero, as duas frases não se contradizem, porque da fé “brotam o amor e a alegria no Senhor, e do amor um espírito alegre, disposto e livre, pronto a servir ao próximo de boa vontade”. Paulo diz o mesmo aos gálatas: “fostes chamados para a liberdade. Somente não useis a liberdade como oportunidade para a carne; em vez disso, servi-vos uns aos outros pelo amor” (Gálatas 5:13, Bíblia Livre). E Wesley comenta a última frase: “E com isso mostrai que Cristo vos libertou.” Por isso, a graça combate a escravidão do pecado e também nos ensina a não escravizar o próximo.

O deserto mostrará que sair do Egito não remove instantaneamente o Egito do coração. Um povo livre precisa aprender a confiança, a obediência e a comunhão. A libertação inicia uma formação.

Para conversar com Deus

  • Que clamor você deixou de ouvir porque a injustiça se tornou comum?
  • Em que área a pergunta de Faraó aparece na sua vida: “Quem é o Senhor para que eu obedeça?”
  • Você usa a sua insuficiência como motivo para depender de Deus ou para resistir indefinidamente?
  • De que escravidão Cristo liberta você, e para qual serviço ele chama você?

Oração de resposta

Deus de Abraão, Isaque e Jacó, tu vês, ouves e conheces o sofrimento. Perdoa-nos quando endurecemos o coração, lucramos com a opressão ou espiritualizamos a dor de pessoas reais. Revela-nos a tua santidade e firma-nos na tua presença. Por Cristo, nossa Páscoa, liberta-nos da culpa e do domínio do pecado. Faz de nós um povo que te adora, serve ao próximo, protege o vulnerável e caminha na liberdade do Espírito. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

Por que Deus libertou Israel do Egito, e o que essa libertação anuncia?

Resposta para guardar

Deus ouviu o clamor de Israel, lembrou-se da sua aliança e, por graça, libertou o povo do poder de Faraó, revelando o seu nome e julgando a opressão. Ele formou um povo para pertencer a ele, para o culto e para o serviço. A Páscoa e o êxodo preparam a linguagem com que o Novo Testamento anuncia Jesus Cristo, a nossa Páscoa, que nos liberta da culpa e do domínio do pecado e nos conduz, pelo Espírito, a uma vida de santidade, misericórdia e serviço.

Textos para conferir

Êxodo 2:23–25; 3:7–15; 6:6–8; 12:1–32; 14:30–31; 15:1–18; 1 Coríntios 5:7–8.

Oração

SENHOR, Deus da aliança, ouve o nosso clamor e quebra os poderes que nos escravizam. Por Cristo, conduz-nos para fora do pecado e para dentro da liberdade que adora e serve. Amém.

Hino para guardar no coração

Tu ouves o clamor do teu povo

Autor: Charles Wesley

Título editorial: “Sobre Êxodo 3:7–8”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 107

Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto

Jesus, tu ouves o teu Israel gemer;
todas as nossas dores são conhecidas por ti.
Lutamos para nos separar do pecado,
da tirania humana e do poder do inimigo.
Enquanto contemplas o nosso sofrimento,
o teu olhar compassivo toca o teu coração.

Senhores cruéis oprimem
até que libertes as almas cativas.
Com braço estendido e mão poderosa,
desce agora em nosso favor.
Estende o teu braço e manifesta a tua força;
conduz-nos à terra prometida.

Para meditar

Wesley aplica o clamor de Israel à libertação do pecado e das tiranias espirituais. Essa leitura que vê Cristo no texto pode aprofundar o êxodo, desde que não apague a escravidão histórica nem torne irrelevante o sofrimento imposto por seres humanos. O Deus que liberta a alma também confronta senhores cruéis. Repare no verso “o teu olhar compassivo toca o teu coração”: é a mesma ideia que Adam Clarke viu em Êxodo 3:7, quando Deus diz que conhece as angústias do seu povo.

Pergunta: Que clamor precisa chegar aos seus ouvidos para que a sua oração se transforme em serviço?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Armínio, Jacó. Disputas públicas, IX (“Sobre a justiça e a eficácia da providência de Deus quanto ao mal”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Êxodo 4:14 e 15:25.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Êxodo 2:25, 3:7, 3:14, 4:21, 12:11, 12:14, 14:15 e 15:2.
  • Keil, Carl Friedrich, e Delitzsch, Franz. Commentary on the Old Testament, Êxodo 2:23, 3:12–13 e 4:21.
  • Lutero, Martinho. Concerning Christian Liberty (Da liberdade do cristão, 1520), texto inglês do Project Gutenberg (nº 1911).
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 2:24, 3:1, 3:6, 3:11, 3:14, 4:14 e 9:12.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Gálatas 5:13.

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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