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Sabedoria: aprender a viver diante de Deus
Vem Andar Comigo, Semana 17 · Domingo: Um coração capaz de ouvir
Neste texto
- Um coração capaz de ouvir
- O texto
- Para entender o texto
- 1. Sabedoria é uma habilidade moral
- 2. O temor do Senhor é o começo, não uma etapa abandonada
- 3. A sabedoria chama em público
- 4. Provérbios não são contratos de resultados
- 5. Eclesiastes protege a sabedoria da presunção
- 6. Cristo é a sabedoria de Deus
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Que esta seja a minha sabedoria
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: temor do Senhor, formação do caráter, discernimento e vida cotidiana
Leituras principais: Provérbios 1:1–7; 3:1–12; 8:1–36; 9:1–18
Leituras complementares: 1 Reis 3:3–15; Jó 28; Eclesiastes 7:13–18; 12:9–14; Mateus 7:24–27; 12:42; 1 Coríntios 1:18–31; Tiago 3:13–18
Verdade central: A sabedoria bíblica não é mera inteligência, acúmulo de informações ou garantia de prosperidade, mas a vida formada pelo temor amoroso do Senhor, que aprende a sua palavra, recebe correção e pratica a justiça, a prudência e o amor.
Um coração capaz de ouvir
Quando Deus permite que Salomão peça o que quiser, o jovem rei não começa por riqueza, vida longa ou vitória sobre os inimigos. Ele pede um coração capaz de ouvir, para governar o povo e discernir entre o bem e o mal: “Dá, pois, a teu servo um coração com entendimento para julgar ao teu povo, para discernir entre o bem e o mal” (1 Reis 3:9, Bíblia Livre). No hebraico, o pedido é por um “coração que ouve” (lev shomea). Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, explicam a expressão como “um coração atento à lei e ao direito de Deus”.
A sabedoria nasce dessa postura receptiva: reconhecer que não sabemos conduzir sozinhos a vida que recebemos. Salomão confessa: “sou um tenro jovem, que não sei como entrar nem sair” (1 Reis 3:7, Bíblia Livre).
A história dele também deixa um aviso. O rei que pediu um coração que ouve chegou à velhice com o coração inclinado “para seguir outros deuses” (1 Reis 11:4, Bíblia Livre). Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, lê a promessa ao lado do versículo que fala de andar nos caminhos de Deus (1 Reis 3:14) e pergunta: “Não era tudo isso condicional?” A sabedoria não vem como posse automática: ela precisa ser guardada na obediência de cada dia.
Provérbios chama esse começo de “temor do Senhor”. A expressão não quer dizer o pânico de quem foge de um tirano, mas a reverência obediente diante do Deus santo, amoroso e verdadeiro. O sábio aprende a viver sabendo que o Senhor é Deus e nós não somos.
O texto
Leitura principal: Provérbios 1:1–7; 3:1–12; 8:1–36; 9:1–18
Leitura: Provérbios 1:1–7; 3:1–12; 8:22–31; 9:1–6, 10
Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel.
Para conhecer a sabedoria e a instrução; para entender as palavras da prudência;
Para obter a instrução do entendimento; justiça, juízo e equidades;
Para dar inteligência aos simples, conhecimento e bom senso aos jovens.
O sábio ouvirá, e crescerá em conhecimento; o bom entendedor obterá sábios conselhos.
Para entender provérbios e sua interpretação; as palavras dos sábios, e seus enigmas.
O temor ao SENHOR é o princípio do conhecimento; os tolos desprezam a sabedoria e a instrução.
(Provérbios 1:1-7, Bíblia Livre)
Filho meu, não te esqueças de minha lei; e que teu coração guarde meus mandamentos.
Porque te acrescentarão extensão de dias, e anos de vida e paz.
Que a bondade e a fidelidade não te desamparem; amarra-as junto ao teu pescoço; escreve-as na tábua de teu coração.
Então tu acharás graça e bom entendimento, aos olhos de Deus e dos homens.
Confia no SENHOR com todo o teu coração; e não te apoies em teu próprio entendimento.
Dá reconhecimento a ele em todos os teus caminhos; e ele endireitará tuas veredas.
Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR, e afasta-te do mal.
Isto será remédio para teu corpo, e alívio para teus ossos.
Honra ao SENHOR com teus bens, e com a primeira parte de toda a tua renda.
E teus celeiros se encherão de fartura, e tuas prensas de uvas transbordarão de vinho novo.
Filho meu, não rejeites a correção do SENHOR, nem te desagrades de sua repreensão;
Porque o SENHOR repreende a quem ele ama, assim como o pai ao filho, a quem ele quer bem.
(Provérbios 3:1-12, Bíblia Livre)
O SENHOR me adquiriu no princípio de seu caminho; desde antes de suas obras antigas.
Desde a eternidade eu fui ungida; desde o princípio; desde antes do surgimento da terra.
Quando ainda não havia abismos, eu fui gerada; quando ainda não havia fontes providas de muitas águas.
Antes que os montes fossem firmados; antes dos morros, eu fui gerada.
Quando ele ainda não tinha feito a terra, nem os campos; nem o princípio da poeira do mundo.
Quando preparava os céus, ali eu estava; quando ele desenhava ao redor da face do abismo.
Quando firmava as nuvens de cima, quando fortificava as fontes do abismo.
Quando colocava ao mar o seu limite, para que as águas não ultrapassassem seu mandado; quando estabelecia os fundamentos da terra.
Então eu estava com ele como um pupilo; e eu era seu agrado a cada dia, alegrando perante ele em todo tempo.
Alegrando na habitação de sua terra; e concedendo meus agrados aos filhos dos homens.
(Provérbios 8:22-31, Bíblia Livre)
A verdadeira sabedoria edificou sua casa; ela lavrou suas sete colunas.
Ela sacrificou seu sacrifício, misturou seu vinho, e preparou sua mesa.
Mandou suas servas, e está convidando desde os pontos mais altos da cidade, dizendo:
Qualquer um que for ingênuo, venha aqui. Aos que têm falta de entendimento, ela diz:
Vinde, comei do meu pão; e bebei do vinho que misturei.
Abandonai a tolice; e vivei; e andai pelo caminho da prudência.
O temor ao SENHOR é o princípio da sabedoria; e o conhecimento dos santos é a prudência.
(Provérbios 9:1-6,10, Bíblia Livre)
Para entender o texto
O livro abre com o título “Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel” (Provérbios 1:1, Bíblia Livre), mas reúne coleções de épocas diferentes; parte delas foi copiada “pelos homens de Ezequias” (Provérbios 25:1, Bíblia Livre). Os capítulos 1 a 9 funcionam como uma longa introdução, em que um pai e mestre fala ao “filho meu”.
Israel não era o único povo que escrevia instruções para jovens. No Egito, os escribas copiavam a Instrução de Amenemope, em que um pai ensina o filho a viver com prudência. A diferença de Provérbios está no fundamento: toda a sabedoria começa no temor do SENHOR, o Deus da aliança. Clarke explica que o hebraico mashal, “provérbio”, vem de um verbo que quer dizer “governar” e indica “um conjunto de ditos de peso, sábios e, por isso, autorizados, pelos quais toda a conduta de uma pessoa, civil e religiosa, deve ser governada”.
Três palavras ajudam a ler o livro.
Em primeiro lugar, sabedoria (chokmah). Keil e Delitzsch explicam que a raiz traz a ideia de algo firme e compacto, e daí “habilidade, sabedoria para a vida no mundo, prudência” e, no sentido mais alto, “o conhecimento das coisas na essência do seu ser e na realidade da sua existência”.
Em segundo lugar, instrução (musar), palavra que fala de disciplina e correção: “propriamente disciplina, isto é, instrução moral, e, em conformidade com ela, governo de si mesmo, direção de si mesmo”, dizem Keil e Delitzsch. Provérbios não quer só informar: quer formar pessoas capazes de governar a si mesmas diante de Deus.
Em terceiro lugar, o temor do SENHOR (yirat YHWH), ligado à palavra princípio (reshit). O texto usa de propósito o nome da aliança, YHWH: o temor é, segundo Keil e Delitzsch, uma “submissão reverente” ao Deus único, “o Criador e Governador do mundo, que deu a sua lei a Israel”. E reshit junta o começo de onde se parte e o fundamento, “a base, e portanto a raiz”. “O temor ao SENHOR é o princípio do conhecimento; os tolos desprezam a sabedoria e a instrução” (Provérbios 1:7, Bíblia Livre).
1. Sabedoria é uma habilidade moral
Na Bíblia, sabedoria pode descrever habilidade artesanal, capacidade de governar, discernimento nas relações e competência para agir no momento certo. Ela envolve conhecimento, mas não se reduz a acumular dados ou tirar nota alta.
Provérbios diz que foi escrito “para obter a instrução do entendimento; justiça, juízo e equidades” (Provérbios 1:3, Bíblia Livre). Para o livro, saber viver e viver com justiça andam juntos. Joseph Benson, comentarista metodista e amigo de John Wesley, resumiu: “a prática é o grande propósito deste livro”.
Uma pessoa pode dominar assuntos complexos e usar esse domínio para explorar os outros. Pode conhecer muitos versículos e ferir com palavras. A inteligência responde à pergunta o que eu consigo fazer?; a sabedoria pergunta também o que é bom, justo e amoroso fazer diante de Deus? Clarke explica a ligação entre a sabedoria e a prática:
“A prudência se define como a sabedoria aplicada à prática; assim, onde quer que esteja a verdadeira sabedoria, ela levará à ação, e a sua atividade estará sempre voltada para alcançar os melhores fins pelo uso dos meios mais apropriados.”
(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Provérbios 8:12)
Provérbios forma a nossa atenção para o dia a dia: a língua, o dinheiro, o trabalho, a amizade, a sexualidade, a justiça, a ira, o planejamento e o cuidado dos pobres. A espiritualidade não fica presa ao culto. O temor do Senhor alcança contratos, conversas, refeições, telas e decisões que ninguém aplaude: “O temor ao SENHOR é odiar o mal” (Provérbios 8:13, Bíblia Livre).
Isso também nos impede de chamar alguém de tolo apenas porque discorda de nós ou tem menos instrução. A tolice, em Provérbios, é sobretudo resistência moral: rejeitar a correção, desprezar limites e agir como se a vida não estivesse diante de Deus. Benson diz que os tolos de Provérbios 1:7 estão tão longe da sabedoria que “a desprezam, e também todos os meios de obtê-la”. O livro dirige essa advertência primeiro à própria comunidade da aliança, ao “filho meu” que cresce dentro do povo de Deus.
2. O temor do Senhor é o começo, não uma etapa abandonada
“Princípio” pode indicar ponto de partida e fundamento. Ninguém amadurece a ponto de deixar a reverência para trás. Quanto mais o sábio conhece a Deus, menos confunde confiança com autossuficiência. Por isso, o refrão do primeiro capítulo volta no fim da introdução do livro: “O temor ao SENHOR é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10, Bíblia Livre).
O temor bíblico caminha com o amor. Quem reconhece a santidade de Deus leva o mal a sério; quem conhece a sua misericórdia se aproxima para aprender.
Charles Wesley chama isso de temor filial: a reverência agradecida de filhos e filhas que não querem entristecer aquele que os amou. O hino desta semana pede a graça de “servir ao Senhor com temor filial”. O irmão dele, John Wesley, fazia uma distinção que ajuda aqui. Existe o temor de servo, de quem obedece a Deus com medo do castigo, e o temor de filho, de quem obedece porque foi recebido no amor do Pai. Num dos seus últimos sermões, ele não despreza quem ainda está no começo do caminho:
“Mesmo quem chegou até aqui na religião, quem obedece a Deus por temor, de modo algum deve ser desprezado, visto que ‘o temor do Senhor é o princípio da sabedoria’. Porém, ele deve ser exortado a não parar aí; a não descansar enquanto não alcançar a adoção de filhos, enquanto não obedecer por amor, que é o privilégio de todos os filhos de Deus.”
(John Wesley, sermão Sobre as descobertas da fé, 13)
O temor que permanece no filho não tem a ver com medo do castigo, e sim com o cuidado amoroso de não ferir o Pai, pois recebemos “o Espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai!” (Romanos 8:15, Bíblia Livre).
Por isso Provérbios 3 une confiança e humildade: “Confia no SENHOR com todo o teu coração; e não te apoies em teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5, Bíblia Livre). Esse mandamento não ordena abandonar o raciocínio, a pesquisa ou o conselho, mas proíbe fazer da nossa perspectiva a autoridade final. Benson alerta, no versículo seguinte, contra a “vã presunção da própria sabedoria, como se ela bastasse […] sem a direção e a ajuda de Deus, ou sem o conselho dos outros”. A humildade diante de Deus aparece também na disposição de ouvir as pessoas. Reconhecer o Senhor em todos os caminhos inclui pensar com cuidado e submeter o pensamento à verdade dele.
O sábio não é a pessoa que nunca hesita, mas quem sabe que a sua visão é parcial, consulta, escuta e continua aberto à correção.
3. A sabedoria chama em público
Nos primeiros capítulos, a Sabedoria aparece como uma mulher que levanta a voz nas ruas, nas portas e nas praças: “A sabedoria grita pelas ruas; nas praças ela levanta sua voz” (Provérbios 1:20, Bíblia Livre). Ela fala onde o povo passa: “Varões, eu vos clamo; dirijo minha voz aos filhos dos homens” (Provérbios 8:4, Bíblia Livre). No capítulo 9, ela prepara uma mesa e manda as suas servas chamar os simples: “Vinde, comei do meu pão; e bebei do vinho que misturei. Abandonai a tolice; e vivei” (Provérbios 9:5–6, Bíblia Livre). Matthew Henry, pastor presbiteriano, escreveu no seu Comentário conciso: “O chamado é geral, e não exclui ninguém que não exclua a si mesmo.”
A Loucura também oferece um banquete, com águas roubadas e pão escondido (Provérbios 9:17), mas “seus convidados estão nas profundezas do Xeol” (Provérbios 9:18, Bíblia Livre). Duas mesas, dois convites, dois destinos.
Essas figuras não ensinam que as mulheres sejam fonte de tentação. Pelo contrário, a Sabedoria recebe uma das personificações mais honrosas do livro. A outra figura também não descreve as mulheres: Benson explica que a expressão hebraica de Provérbios 9:13 quer dizer, ao pé da letra, “a mulher da loucura, ou a própria loucura comparada a uma mulher”. O recurso fala a jovens num contexto antigo e torna visíveis duas formas de viver.
A escolha não acontece uma única vez. Cada resposta à verdade forma inclinações. Palavras repetidas viram hábitos; hábitos viram caráter; o caráter orienta novas escolhas. Ninguém acorda sábio apenas por desejar a sabedoria.
A graça de Deus nos encontra antes e durante esse processo. Ela desperta, corrige e capacita. A própria Sabedoria promete: “Convertei-vos à minha repreensão; eis que vos derramarei meu espírito” (Provérbios 1:23, Bíblia Livre). Deus chama primeiro e dá o que pede, embora o chamado possa ser recusado (Provérbios 1:24). A graça também não elimina a prática. Aprendemos a verdade dizendo a verdade, a generosidade repartindo, a paciência esperando e o discernimento prestando atenção.
4. Provérbios não são contratos de resultados
Provérbios descreve como a vida costuma florescer sob a ordem de Deus. O trabalho dedicado tende a dar fruto: “Aquele que trabalha com mão preguiçosa empobrece; mas a mão de quem trabalha com empenho enriquece” (Provérbios 10:4, Bíblia Livre). Palavras brandas diminuem os conflitos; decisões impulsivas aumentam os danos. Esses padrões são verdadeiros e devem orientar as nossas ações.
Porém, um provérbio é uma sentença de sabedoria, e não uma promessa individual sem exceções. Keil e Delitzsch definem o provérbio como a máxima que apresenta “verdades gerais em pequenos quadros de contornos nítidos”. Pais podem instruir com fidelidade e, mesmo assim, ver filhos adultos escolherem outro caminho; Provérbios 22:6 é um conselho sábio para os pais, e não uma sentença contra quem chora por um filho afastado. Pessoas honestas podem ser exploradas. O justo pode adoecer, e o perverso pode enriquecer.
Os comentaristas sabiam disso. Ao comentar as riquezas que acompanham a Sabedoria (Provérbios 8:18), Clarke escreve: “Muitas vezes o homem sábio, prudente e discreto chega literalmente às riquezas e à honra; mas nem sempre é assim.” E Benson observa que as palavras sobre a correção do Senhor (Provérbios 3:11–12) estão ali “para afastar uma objeção contra a excelência e a felicidade dos sábios ou piedosos, tirada das muitas aflições a que essas pessoas estão frequentemente expostas”. Isso não transforma todo sofrimento em castigo por um pecado escondido, mas mostra que a dor do piedoso não prova que Deus o abandonou.
Ler princípios como garantias produz culpa cruel. Se toda dificuldade prova falta de sabedoria, a vítima vira acusada, e quem vive bem imagina que o seu conforto comprova a sua virtude. Jó vai denunciar essa lógica. Eclesiastes vai observar que “o tempo e a ocasião imprevista acontece a todos estes” (Eclesiastes 9:11, Bíblia Livre).
Também não devemos tirar de Provérbios um evangelho da prosperidade. A riqueza pode acompanhar a diligência, mas o livro condena a balança enganosa, a exploração e a indiferença ao pobre: “Quem oprime ao pobre insulta ao seu Criador” (Provérbios 14:31, Bíblia Livre). “Melhor é o pouco com justiça, do que a abundância de rendas com injustiça” (Provérbios 16:8, Bíblia Livre).
5. Eclesiastes protege a sabedoria da presunção
Eclesiastes chama grande parte da vida de hevel: vapor, sopro, algo passageiro e difícil de agarrar. A Bíblia Livre traduz por “futilidade”: “Tudo é fútil!” (Eclesiastes 1:2, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch explicam que hevel quer dizer, antes de tudo, um sopro, e que o sopro, “como o contrário daquilo que é firme e duradouro, é a figura do que não tem apoio nem continuidade”.
A expressão “debaixo do sol” (na Bíblia Livre, “abaixo do sol”) não quer dizer simplesmente uma existência sem Deus. Ela descreve o horizonte da vida mortal, repetitiva e exposta à morte. O Pregador também não chama de más as coisas criadas. Benson observa que elas são vãs “não em si mesmas, porque são criaturas de Deus e, portanto, boas na sua espécie, mas em relação à felicidade que as pessoas procuram e esperam encontrar nelas”.
O Pregador examina o trabalho, o prazer, a riqueza e até a sabedoria. Ele reconhece que a sabedoria é melhor que a loucura, mas observa que o sábio também morre e que os resultados nem sempre correspondem ao mérito. O mundo é mais misterioso que as nossas fórmulas.
Essa voz não destrói Provérbios. Ela impede que o leitor transforme a sabedoria numa técnica para domesticar Deus. Podemos escolher o bem sem controlar o futuro. Podemos receber o alimento, o trabalho e a amizade como dons, sem exigir deles um sentido último: “eu também vi que isto vem da mão de Deus” (Eclesiastes 2:24, Bíblia Livre).
O temor do Senhor permanece quando não conseguimos explicar a vida. Eclesiastes termina exatamente aí: “teme a Deus, e guarda os mandamentos dele; porque isto é o dever de todo homem” (Eclesiastes 12:13, Bíblia Livre). Esse temor nos ensina a agir com responsabilidade e a receber com gratidão aquilo que não podemos possuir para sempre.
6. Cristo é a sabedoria de Deus
Jesus declara ser maior que Salomão: “E eis aqui quem é maior que Salomão” (Mateus 12:42, Bíblia Livre). Ele ensina uma vida fundada na sua palavra e encarna o caminho que anuncia. Nele, a sabedoria deixa de ser apenas um princípio e ganha rosto, voz, cruz e ressurreição.
Desde cedo, os cristãos leram Provérbios 8 à luz de Cristo. Ali a Sabedoria diz que estava junto do Senhor antes da criação: “Quando preparava os céus, ali eu estava” (Provérbios 8:27, Bíblia Livre). Essas palavras lembram que “no princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus” (João 1:1, Bíblia Livre), e que em Cristo “estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:3, Bíblia Livre).
Os comentaristas, porém, não leem o capítulo do mesmo modo. Benson cita o puritano Matthew Poole, numa frase que John Wesley também pôs nas suas notas: as duas leituras “podem ser unidas, e o capítulo pode ser entendido de Cristo, considerado em parte na sua pessoa, e em parte no seu ofício”. Matthew Henry é direto: “A Sabedoria, aqui, é Cristo.” Clarke discorda. Para ele, a sabedoria do capítulo é um atributo de Deus mostrado na criação, e ele avisa que quem pensa encontrar a divindade de Jesus Cristo nessas imagens “deve ter muito cuidado” ao aplicar os termos. Keil e Delitzsch ficam no meio. Eles usam a palavra grega Logos, que João emprega para “a Palavra”:
“A Sabedoria não é Deus, mas é de Deus; ela tem existência pessoal no Logos do Novo Testamento, mas não é ela mesma o Logos. […] [O poeta] não fala da pessoa como Logos, mas o progresso posterior da revelação aponta para a personificação real dela no Logos.”
(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Provérbios 8:22)
O caminho mais seguro é ler Provérbios 8 como a sabedoria de Deus personificada, que o Novo Testamento reconhece plenamente em Cristo, a Palavra por meio de quem “foram feitas todas as coisas” (João 1:3, Bíblia Livre). Não precisamos fazer de cada verso do poema uma profecia direta: a fé na divindade do Filho já se firma no testemunho claro do Novo Testamento. Provérbios 8 nos ajuda a ver que a sabedoria com que Deus fez o mundo é a mesma que veio morar entre nós, “cheio de graça e de verdade” (João 1:14, Bíblia Livre).
Paulo afirma que Cristo crucificado é poder e sabedoria de Deus: “Porém aos que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24, Bíblia Livre). O mundo procura prestígio, controle e triunfo visível; Deus salva por meio daquele que se entrega. A cruz expõe a tolice de uma inteligência separada do amor. Jacó Armínio, professor em Leiden, comentou esse versículo numa oração acadêmica de 1603: Paulo não fala ali dos atributos que Deus usou para formar o mundo, mas “da sabedoria e do poder revelados naquele evangelho” que é, por excelência, “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”.
Paulo vai além: Cristo, “por parte de Deus, tornou-se para nós sabedoria, justiça, santificação, e resgate” (1 Coríntios 1:30, Bíblia Livre). João Calvino, o reformador de Genebra, comenta que “obtemos nele uma perfeição absoluta de sabedoria”.
Seguir Jesus não dispensa o aprendizado de Provérbios, mas torna esse aprendizado mais profundo. O sábio ouve o Mestre, recebe a sua graça e pratica as suas palavras (Mateus 7:24). Tiago descreve a sabedoria do alto como “pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos” (Tiago 3:17, Bíblia Livre). Se o nosso conhecimento nos torna agressivos, inacessíveis e orgulhosos, ainda não aprendemos a forma de Cristo.
Na tradição wesleyana, o crescimento na graça envolve meios concretos: a Escritura, a oração, a ceia, a comunhão, o jejum, as obras de misericórdia e a conversa cristã que os primeiros metodistas chamavam de conferência. Wesley definiu os meios de graça como “sinais, palavras ou ações exteriores, ordenados por Deus e destinados a este fim: ser os canais comuns pelos quais ele pudesse comunicar às pessoas a graça preveniente, justificadora ou santificadora”, isto é, a graça que vem antes e desperta, a que perdoa e a que transforma. Essas práticas não compram a sabedoria, mas nos colocam muitas vezes diante do Deus que forma a mente e o coração.
Para conversar com Deus
- Em que área você confunde informação ou experiência com sabedoria?
- Como você reage quando recebe uma correção verdadeira?
- Que hábito do dia a dia está formando em você um caráter que você não deseja?
- Que decisão precisa ser examinada pela sabedoria do alto, que é “pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia” (Tiago 3:17, Bíblia Livre)?
Oração de resposta
Deus de toda sabedoria, dá-nos um coração capaz de ouvir. Livra-nos da confiança orgulhosa no nosso entendimento e do desprezo pelo conhecimento responsável. Ensina-nos o teu temor amoroso, dá-nos prazer na correção e forma os nossos hábitos pela tua graça. Em Jesus, sabedoria viva e crucificada, torna-nos puros sem dureza, pacíficos sem covardia, prudentes sem egoísmo e cheios de bons frutos. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
O que é sabedoria bíblica e como podemos crescer nela?
Resposta para guardar
Sabedoria bíblica é a habilidade moral e espiritual de viver diante de Deus, discernindo e praticando o que é verdadeiro, justo e amoroso. Ela começa e permanece no temor do Senhor, recebe correção e aprende pela palavra, pela comunidade e pela experiência. Crescemos em sabedoria respondendo à graça, praticando os meios de graça e seguindo Jesus, em quem estão todos os tesouros da sabedoria de Deus.
Textos para conferir
1 Reis 3:3–15; Provérbios 1:1–7; 3:1–12; 8–9; Jó 28:20–28; Mateus 7:24–27; 1 Coríntios 1:18–31; Colossenses 2:3; Tiago 3:13–18.
Oração
Senhor, dá-me um coração ensinável e forma em mim a sabedoria de Cristo. Amém.
Hino para guardar no coração
Que esta seja a minha sabedoria
Autor: Charles Wesley
Título original: “Be It My Only Wisdom Here”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures (1762)
Versão: tradução devocional em português do Brasil, sem métrica para canto
Que esta seja a minha única sabedoria aqui:
servir ao Senhor com temor filial,
com gratidão amorosa;
que eu mostre um discernimento mais elevado
evitando todo caminho mau
e andando no bem.
Que eu continue a afastar-me do pecado;
dá-me, Jesus,
um coração sábio e entendido;
e faze-me conhecer, por teu Espírito,
como glorificar o meu Deus aqui embaixo
e encontrar o caminho para o céu.
Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.
Para meditar
Charles Wesley define a sabedoria por meio de verbos: servir, agradecer, afastar-se do mal, andar no bem e glorificar a Deus. O temor filial é a reverência marcada pelo amor de quem foi recebido como filho. O hino não pede apenas uma mente esperta, mas um coração capaz de obedecer pelo Espírito.
Pergunta: Que conhecimento seu precisa se tornar, nesta semana, uma prática concreta do bem?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, comece ouvindo: Um coração ensinável
- Terça-feira, vigie suas palavras: A língua também precisa de sabedoria
- Quarta-feira, receba a correção: A repreensão pode ser um presente
- Quinta-feira, leia o provérbio dentro da bíblia inteira: Princípio não é fórmula
- Sexta-feira, pratique a sabedoria do alto: Firmeza tratável
- Sábado, construa sobre a palavra de jesus: Sabedoria que se torna obediência
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Provérbios e Eclesiastes: o sábio e o tolo diante de Cristo
- Provérbios 1, Provérbios 3, Provérbios 8 e Provérbios 9 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Como pedir sabedoria a Deus segundo Salomão e Tiago 1
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Oração I: O objeto da teologia (1603). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Provérbios 1:5–7, 3:7–8, 3:11–12, 8:1 (citando Matthew Poole) e 9:13; Eclesiastes 1:2; Tiago 3:17.
- Calvino, João. Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians, 1 Coríntios 1:30.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, introdução a Provérbios; Provérbios 8:1, 8:12, 8:18 e 8:30; 1 Reis 3:12.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Provérbios 8:12–21 e 9:1–12.
- Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, 1 Reis 3:9; Provérbios 1:1, 1:2, 1:7 e 8:22; Eclesiastes 1:2.
- Wesley, John. Explanatory Notes upon the Old Testament, Provérbios 8:1.
- Wesley, John. Sermão 16, Os meios de graça, II.1.
- Wesley, John. Sermão 117, Sobre as descobertas da fé, 13.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
- Devocional
- Vem Andar Comigo
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