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Isaías: o Santo que chama pessoas impuras
Vem Andar Comigo, Semana 20 · Domingo: No ano em que morreu o rei
Neste texto
- No ano em que morreu o rei
- O texto
- Para entender o texto
- 1. A glória não cabe no templo
- 2. “Ai de mim” é confissão, e não aniquilação da dignidade
- 3. A brasa vem do altar
- 4. A graça vem antes do envio
- 5. O chamado não prometia resposta imediata
- 6. O toco e a santa semente
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Eis-me aqui, envia-me
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: santidade, confissão, purificação, vocação e perseverança
Leitura principal: Isaías 6:1–13
Leituras complementares: Levítico 19:1–18; Salmo 99; Isaías 1:10–20; 5:1–30; João 12:37–43; Hebreus 10:19–25; 12:14–29; 1 Pedro 1:13–21
Verdade central: A santidade de Deus revela o nosso pecado sem nos abandonar à vergonha. Do altar vem a purificação que restaura a comunhão e envia pessoas alcançadas pela graça para uma missão fiel.
No ano em que morreu o rei
Um reinado longo chega ao fim. Uzias tinha dado estabilidade a Judá durante décadas, mas a história dele terminou marcada por orgulho e por uma transgressão dentro do templo. Quando se fortaleceu, “seu coração se enalteceu até corromper-se” (2 Crônicas 26:16, Bíblia Livre), e ele entrou no templo para queimar incenso, tarefa reservada aos sacerdotes. Ficou leproso até morrer, morando numa casa separada (2 Crônicas 26:21). A morte dele marca um tempo de transição e de fragilidade política.
Foi então que Isaías viu o Senhor: “No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono; e as bordas de seu manto enchiam o templo” (Isaías 6:1, Bíblia Livre). O texto não diz que o trono de Judá ficou literalmente vazio, porque havia sucessão real. O contraste é mais profundo. Reis morrem, governos mudam e impérios avançam, mas o governo de Deus não depende da duração de uma vida humana.
Essa visão não produz apatia diante da política. O livro de Isaías denuncia governantes, tribunais, exploração e alianças idólatras. Justamente porque o Santo reina, os poderes humanos podem ser avaliados, corrigidos e chamados à justiça.
O texto
Leitura: Isaías 6:1–13
No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono; e as bordas de seu manto enchiam o templo.
Serafins estavam por cima dele, cada um tinha seis asas; com duas cobriam seus rostos, com duas cobriam seus pés, e com duas voavam.
E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo! Santo! Santo é o SENHOR dos exércitos! Toda a terra está cheia de sua glória!
E as molduras das portas se moviam com a voz do que clamava; e a casa se encheu de fumaça.
Então eu disse: Ai de mim, que vou perecer! Pois sou homem de lábios impuros, e moro no meio de um povo de lábios impuros, e meus olhos viram ao Rei, o SENHOR dos exércitos!
Porém um dos serafins voou até mim, trazendo em sua mão uma brasa viva, a qual ele tinha tirado do altar com uma tenaz.
E com ela tocou em minha boca, e disse: Eis que isto tocou em teus lábios; assim já foi afastada de ti tua culpa, e purificado estás de teu pecado.
Depois disso ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei? E quem irá por nós? Então eu disse: Eis-me aqui! Envia-me!
Então ele me disse: Vai, e diz a este povo: certamente ouvireis, mas não entendereis; certamente vereis, mas não percebereis.
Faze o coração deste povo se encher de gordura, e os ouvidos deles ficarem pesados, para que não vejam com seus olhos, nem ouçam com seus ouvidos, nem entendam com seus corações, e assim não se convertam, nem eu os cure.
E eu disse: Até quando, Senhor? E ele respondeu: Até que as cidades sejam devastadas, e não fique morador algum, nem homem algum nas casas, e a terra seja devastada por completo.
Porque o SENHOR removerá as pessoas dela, e no meio da terra será grande o abandono.
Mas ainda a décima parte ficará nela, e voltará a ser consumida; e como uma grande árvore ou como o carvalho, em que depois de serem derrubados, ainda fica a base do tronco, assim a santa semente será a base dela.
(Isaías 6:1-13, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Isaías profetizou em Judá, o reino do sul, “nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá” (Isaías 1:1, Bíblia Livre), no século VIII antes de Cristo, quando a Assíria crescia como potência. O capítulo 6 não abre o livro, mas fica entre duas partes dele. Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, chamam os capítulos 2 a 5 de “livro do endurecimento”, porque mostram um povo que ouve e não se volta para Deus, e os capítulos 7 a 12 de “livro de Emanuel”. A visão do capítulo 6 é “o laço que une” as duas partes. Robert Lowth, bispo anglicano que traduziu Isaías no século XVIII, citado por Joseph Benson, diz que ela “parece conter uma designação solene de Isaías para o ofício profético”.
Três palavras ajudam a ler o capítulo.
Em primeiro lugar, santo (em hebraico, qadosh). A palavra fala do que é separado, posto à parte. Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, observou que a Escritura atribui com frequência a santidade a Deus, palavra que “costuma indicar uma separação, um pôr à parte”, e deu como exemplo justamente Isaías 6:3. Deus é santo porque nenhuma criatura se compara a ele.
Em segundo lugar, serafins. Joseph Benson, comentarista metodista e amigo de John Wesley, explica que “a palavra serafins, que, como querubins, está no plural, quer dizer seres que ardem, seres em chamas”. Os seres que servem diante do trono são como chamas vivas, e mesmo assim cobrem o rosto diante de Deus.
Em terceiro lugar, o grito de Isaías quando se vê diante do Senhor. A Bíblia Livre traduz: “Ai de mim, que vou perecer!” (Isaías 6:5, Bíblia Livre). Outras versões dizem estou perdido. O verbo hebraico (nidmeti) pode vir de uma raiz que quer dizer calar, e João Calvino, o reformador de Genebra, mostra que as duas ideias se encontram: a passagem “também pode ser traduzida assim: Ai de mim, porque fui reduzido ao silêncio”, e “nas Escrituras, o silêncio muitas vezes é tomado pela morte”. Diante do Santo, o profeta fica sem palavras e sente que não pode continuar vivo.
1. A glória não cabe no templo
Isaías vê apenas a orla das vestes do Senhor, e ela basta para encher o templo. Acima dele estão os serafins, os “ardentes”, com seis asas: com duas cobrem o rosto, com duas cobrem os pés e com duas voam. A descrição comunica majestade, reverência e serviço.
Um chama o outro: “Santo! Santo! Santo é o SENHOR dos exércitos! Toda a terra está cheia de sua glória!” (Isaías 6:3, Bíblia Livre). As molduras das portas se movem com a voz, e a casa se enche de fumaça.
Santidade quer dizer que Deus é incomparável, separado de toda criatura e inteiramente puro, justo e fiel. Ela não é um atributo frio que disputa espaço com o amor de Deus. O amor de Deus é santo; a justiça dele é santa; a misericórdia dele é santa. Nele não há corrupção, manipulação ou sombra. Robert Lowth, citado por Benson, diz que a santidade de Deus, isto é, “a pureza suprema da sua natureza, implica todos os outros atributos dele, especialmente a justiça e a misericórdia, que são distribuídas pelas regras mais exatas da retidão”.
A glória que enche a terra impede que confinemos Deus aos espaços religiosos. Jerônimo, o tradutor da Bíblia para o latim, citado por Lowth no comentário de Adam Clarke, leu assim o cântico dos serafins: “o templo judaico não seria mais, como antes, o único lugar da glória divina, pois a terra inteira ficaria cheia dela”. O templo recebe a visão, mas campos, cidades, corpos e relações pertencem ao Santo. E o Alto e Sublime, que habita “na altura e no lugar santo”, também habita “com o contrito e abatido espírito” (Isaías 57:15, Bíblia Livre). Uma adoração que canta no santuário e explora fora dele contradiz a visão de Isaías.
2. “Ai de mim” é confissão, e não aniquilação da dignidade
Nos capítulos anteriores, Isaías pronunciou “ais” contra a injustiça, a ganância, a embriaguez moral e a inversão do bem e do mal: “Ai dos que chamam o mal de bem, e o bem de mal” (Isaías 5:20, Bíblia Livre). Diante do Senhor, ele inclui a si mesmo: “Ai de mim, que vou perecer! Pois sou homem de lábios impuros, e moro no meio de um povo de lábios impuros, e meus olhos viram ao Rei, o SENHOR dos exércitos!” (Isaías 6:5, Bíblia Livre).
O profeta não observa o pecado de um lugar seguro. Ele é homem de lábios impuros e mora no meio de um povo de lábios impuros. A culpa dele é pessoal e comunitária. Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, sentiu o peso dessa queixa:
“Sou homem de lábios impuros; não posso dizer: Santo, santo, santo!, como exclamam os serafins. Eles são santos; eu não sou. Eles veem a Deus e vivem; eu vi a Deus e devo morrer, porque não sou santo.”
(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Isaías 6:5)
A confissão cristã não ensina ninguém a odiar a criação de Deus em si mesmo. O pecado desfigura; a santidade revela a verdade para curar e reconciliar. A vergonha tóxica diz: você não tem jeito e precisa se esconder. A convicção que vem da graça diz: isto é pecado; venha para a luz para ser perdoado e transformado. A primeira empurra para longe de Deus. A segunda leva para perto do altar, onde a promessa já espera: “Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9, Bíblia Livre).
Os lábios de Isaías representam mais que palavrões. A fala pode mentir, bajular o poder, difamar, silenciar vítimas e chamar o mal de bem. Um povo de lábios santos aprende verdade e justiça, e não apenas vocabulário religioso.
3. A brasa vem do altar
Isaías não procura uma brasa nem propõe um ritual para limpar a si mesmo. Um dos serafins voa até ele “trazendo em sua mão uma brasa viva, a qual ele tinha tirado do altar com uma tenaz” (Isaías 6:6, Bíblia Livre), toca a sua boca e anuncia: “Eis que isto tocou em teus lábios; assim já foi afastada de ti tua culpa, e purificado estás de teu pecado” (Isaías 6:7, Bíblia Livre).
O texto não diz que o toque queimou ou feriu Isaías. O fogo comunica a santidade que purifica, ligada ao altar e ao sacrifício. A iniciativa vem de Deus; o profeta recebe uma declaração que não poderia produzir. Benson leu a cena assim:
“O serafim tirou a brasa do altar para mostrar que as pessoas devem esperar a expiação do pecado e a purificação dele somente pelos meios que Deus estabeleceu, e particularmente pela mediação de Cristo, que aquele altar representava claramente. […] Isto é sinal de que a culpa do teu pecado foi removida pela misericórdia que perdoa, e a tua disposição corrupta e a tua inclinação para o pecado, pela graça que renova.”
(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Isaías 6:6–7)
Na leitura cristã, o altar encontra o seu cumprimento na entrega de Jesus. O Servo de quem Isaías falará mais adiante “foi ferido por nossas transgressões” (Isaías 53:5, Bíblia Livre). Não nos aproximamos de Deus porque fomos capazes de purificar a consciência, mas “pelo sangue de Jesus, pelo caminho novo e vivo que ele consagrou para nós” (Hebreus 10:19–20, Bíblia Livre). A graça que perdoa não diminui a santidade, mas é a ação do próprio Santo, que remove a culpa sem chamar o pecado de bem.
Repare que Benson fala de duas coisas: a culpa removida e a disposição renovada. A tradição wesleyana e o movimento de santidade (o Holiness) leram esse duplo movimento como retrato do que Deus quer fazer em todo crente: a purificação inclui mais que alívio jurídico, e o amor santo alcança afetos, intenções e hábitos. Isaías 6 fala de lábios tocados e de culpa perdoada. A doutrina da inteira santificação, a obra pela qual Deus purifica o coração e o enche de amor, não sai deste versículo sozinho, mas do testemunho da Bíblia inteira: “E o próprio Deus da paz vos santifique em tudo […]. Fiel é aquele que vos chama, e ele também o fará” (1 Tessalonicenses 5:23–24, Bíblia Livre). John Wesley, num dos seus primeiros sermões, descreveu a santidade como a disposição da alma que “implica diretamente ser purificado do pecado, ‘de toda imundícia da carne e do espírito’, e, por consequência, ser revestido das virtudes que também havia em Cristo Jesus” (A circuncisão do coração, I.1).
Essa purificação não nasce da autopunição nem de uma obsessão ansiosa por pureza, mas da entrega confiante ao Espírito, que faz o amor governar o coração. Ela é dom recebido pela fé, assim como o perdão.
4. A graça vem antes do envio
Somente depois da purificação Isaías ouve a voz do Senhor: “A quem enviarei? E quem irá por nós?” A resposta nasce livre: “Eis-me aqui! Envia-me!” (Isaías 6:8, Bíblia Livre). Benson observa que “Deus faz essa pergunta não porque estivesse indeciso sobre quem enviar, mas para que Isaías tivesse a oportunidade de oferecer o seu serviço de livre vontade”.
O plural “por nós” recebeu várias interpretações, entre elas a da corte celestial. Muitos intérpretes cristãos viram aqui um sinal da Trindade; Benson achou que “a mudança de número, eu e nós, é muito notável” e que ela indica “uma pluralidade de pessoas na Divindade”. A fé cristã confessa que o Deus único é Pai, Filho e Espírito, mas essa doutrina repousa no testemunho bíblico completo, e não numa dedução rápida deste pronome.
A ordem continua clara: visão, confissão, expiação, chamado e envio. Isaías não serve para comprar o perdão. Ele serve porque foi alcançado pela graça. Armínio descreveu a condição de todos os que Deus chama. Por si mesmos, eles são “indignos de ser chamados e incapazes de responder ao chamado, a não ser que, pela graciosa avaliação de Deus, sejam considerados dignos e, pela sua operação poderosa, sejam tornados aptos para atender à vocação”. Foi o que aconteceu com Isaías: o homem que se via perdido foi tornado apto pela graça e então respondeu. A resposta foi dele, de verdade, mas nasceu da graça que veio antes.
Isso protege o ministério de duas distorções. A primeira é o mérito: trabalhar para se sentir digno de Deus. A segunda é a disponibilidade sem escuta: dizer envia-me para qualquer tarefa que alimente a nossa importância. Isaías se oferece e depois precisa ouvir qual será a missão.
A vocação cristã não pertence apenas a pastores ou missionários. Todo discípulo é enviado para testemunhar e servir, embora as funções, os dons, os limites e os tempos sejam diferentes. A resposta fiel pode ser falar, cuidar, estudar, proteger, permanecer ou preparar outra pessoa.
5. O chamado não prometia resposta imediata
A missão de Isaías é perturbadora. Deus diz a ele: “Vai, e diz a este povo: certamente ouvireis, mas não entendereis; certamente vereis, mas não percebereis. Faze o coração deste povo se encher de gordura, e os ouvidos deles ficarem pesados, para que não vejam com seus olhos, nem ouçam com seus ouvidos, nem entendam com seus corações, e assim não se convertam, nem eu os cure” (Isaías 6:9–10, Bíblia Livre). O profeta vai anunciar a palavra a um povo que ouve sem compreender e vê sem perceber. A pregação participa de um juízo que torna manifesta e confirma uma resistência já cultivada.
Não devemos representar Deus como alguém que recusa arbitrariamente um povo desejoso de se arrepender. Os capítulos 1 a 5 já descrevem culto hipócrita, injustiça e rejeição repetida. Deus tinha cuidado da sua vinha e perguntado: “O que mais podia ser feito à minha vinha, que eu não tenha já feito?” (Isaías 5:4, Bíblia Livre). Armínio fez essa ligação: em Isaías 6, “o endurecimento e a cegueira são anunciados contra os que se recusam a obedecer ao chamado de Deus, como se vê pelo capítulo quinto”.
A palavra que poderia curar também endurece quem insiste em resistir. Benson explica que os verbos hebraicos estão no imperativo, mas “não devem ser tomados como uma ordem sobre o que o povo devia fazer, mas apenas como uma predição do que ele faria”. E resume o sentido do juízo como se o próprio Deus falasse: “Continuarei a vos dar a minha palavra e as minhas obras, mas retirarei o meu Espírito, de modo que sereis tão incapazes de entender quanto agora não quereis entender.” Repare na ordem: primeiro vem a recusa, depois a retirada.
John Wesley tratou dessa passagem num sermão do fim da vida, ao comentar como João aplica Isaías aos que rejeitaram Jesus:
“Muitas e muitas vezes, quando podiam ter visto, não quiseram; fecharam os olhos contra a luz. […] O sentido claro é este: não que Deus tenha feito isso pelo seu poder imediato; seria pura blasfêmia dizer que Deus, nesse sentido, endurece alguém; mas o seu Espírito deixa de lutar com eles, e então Satanás os endurece de fato.”
(John Wesley, Sermão 66, Os sinais dos tempos, II.6)
Nas notas sobre João 12:39, Wesley diz o mesmo com outras palavras: “pelo justo juízo de Deus, por causa da sua obstinação e da sua resistência voluntária à verdade, eles foram por fim de tal modo entregues à dureza do seu coração”, a ponto de nem os milagres de Jesus causarem neles impressão. O endurecimento é juízo de Deus, e não um decreto anterior à recusa; mas também não é só obra das pessoas, porque o Deus que chamou muitas vezes, por fim, entrega à própria dureza quem recusou o seu Espírito com obstinação. Armínio distinguiu os tempos desse chamado:
“Deve-se distinguir entre a advertência feita a uma pessoa pela primeira vez, repetida pela segunda ou terceira vez, e a apresentação final da mesma advertência, depois de longa obstinação. As primeiras são feitas por graça e misericórdia para com pecadores miseráveis; a última, por ira contra os obstinados, que, tendo-se endurecido pelo próprio pecado, se tornaram dignos do endurecimento divino.”
(Jacó Armínio, Exame do tratado de Perkins sobre a predestinação)
Jesus e os evangelistas retomam Isaías 6 para interpretar a rejeição da mensagem dele (Mateus 13:14–15; João 12:37–41; Atos 28:25–28). Quando Jesus cita o texto, ele mostra o lado humano da recusa: “Porque o coração deste povo está insensível; Com seus ouvidos dificilmente ouvem, e seus olhos fecharam” (Mateus 13:15, Bíblia Livre). A luz revela; diante dela, alguns vêm e outros amam as trevas (João 3:19). Esse mistério não elimina o convite sincero ao arrependimento nem a responsabilidade de responder.
O mesmo Deus que envia Isaías com essa palavra dura diz por meio de Ezequiel: “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva” (Ezequiel 33:11, Bíblia Livre). O próprio livro de Isaías chama: “Vinde, então, e façamos as contas, diz o SENHOR: ainda que vossos pecados sejam como a escarlate, eles ficarão brancos como a neve” (Isaías 1:18, Bíblia Livre); e ainda: “Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar” (Isaías 55:6, Bíblia Livre). Matthew Henry acrescentou um consolo: “nenhuma pessoa humilde que procura Cristo precisa temer esse destino terrível, que é um juízo espiritual sobre os que insistem em se agarrar aos seus pecados”. Se você tem medo de estar com o coração endurecido, esse medo já mostra que a graça continua batendo à sua porta.
Para o mensageiro, isso quer dizer que a fidelidade não pode ser medida apenas por números rápidos. Isso não autoriza líderes a culpar os ouvintes por toda falta de fruto, nem a recusar avaliação. Isaías recebeu uma missão específica; nós ainda devemos examinar clareza, caráter e métodos. Porém, não controlamos a resposta do outro.
6. O toco e a santa semente
Isaías pergunta: “Até quando, Senhor?” A resposta descreve cidades devastadas, casas vazias e terra abandonada (Isaías 6:11–12). A santidade de Deus não é enfeite de liturgia: ela julga uma sociedade que tornou a injustiça normal.
Mesmo depois de perdas sucessivas, permanece um toco: “e como uma grande árvore ou como o carvalho, em que depois de serem derrubados, ainda fica a base do tronco, assim a santa semente será a base dela” (Isaías 6:13, Bíblia Livre). A frase é difícil, mas preserva a imagem da santa semente. Benson explica que essas árvores, quando perdem as folhas no inverno, “têm dentro de si uma substância, um princípio vital, que conserva a vida na raiz da árvore e, no tempo certo, manda essa vida para todos os ramos”. O juízo não encerra a promessa. Mais adiante, Isaías anuncia: “E uma vara brotará do tronco cortado de Jessé; e um ramo crescerá de suas raízes” (Isaías 11:1, Bíblia Livre). Charles Wesley, num hino sobre Isaías 6:13, aplicou a imagem à Igreja: “ainda assim a sua substância permaneceu, porque Jesus sustenta a sua igreja”.
A esperança bíblica não nega a devastação. Ela enxerga que Deus pode preservar vida onde só vemos madeira cortada. Essa esperança alcança o seu centro em Jesus, o Santo de Deus, rejeitado e morto, mas ressuscitado como começo da nova criação. O evangelista João diz que Isaías viu a glória dele (João 12:41), e Clarke tira a conclusão: “João, portanto, ao dizer aqui que era a glória de Jesus, mostra que considerava Jesus como Jeová”.
O enviado vive entre o até quando? e a santa semente. Ele confessa sem desespero, recebe purificação sem orgulho, serve sem controlar resultados e espera que a fidelidade de Deus produza vida além do que ele consegue ver.
Para conversar com Deus
- Que segurança mortal tem ocupado em você o lugar do trono de Deus?
- Em que a sua fala contradiz a verdade, a justiça ou o amor santo?
- Você vive tentando servir para merecer a purificação, ou serve como resposta ao perdão recebido?
- Que chamado precisa ser ouvido com mais clareza antes de uma resposta apressada?
Oração de resposta
Santo, santo, santo Senhor, a tua glória enche a terra. À tua luz reconhecemos palavras, afetos e estruturas que contradizem o teu amor. Não nos deixes escondidos na vergonha. Pelo sacrifício de Cristo, remove a nossa culpa e, pelo Espírito, purifica o nosso coração com o fogo do amor. Dá-nos ouvidos para o teu chamado, humildade para reconhecer os nossos limites e coragem para servir mesmo quando não controlamos os frutos. Eis-nos aqui: conduz-nos na tua missão. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
Como um Deus santo pode acolher e enviar pessoas pecadoras?
Resposta para guardar
Deus não diminui a sua santidade nem espera que nos purifiquemos sozinhos. Ele revela o pecado, providencia a expiação e declara removida a culpa de quem recebe a sua graça. Em Jesus, o sacrifício perfeito abre o acesso à presença de Deus; pelo Espírito, Deus purifica o nosso coração e nos envia. Servimos para responder ao perdão, e não para conquistar o perdão.
Textos para conferir
Isaías 6:1–13; 53:4–6; João 12:37–43; Hebreus 10:19–25; 12:14–29; 1 Pedro 1:13–21.
Oração
Deus santo e misericordioso, purifica-me pela graça e torna-me disponível para a tua vontade. Amém.
Hino para guardar no coração
Eis-me aqui, envia-me
Autor: Charles Wesley
Título original: “Ah, Woe Is Me, Immersed in Sin”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 1 (1762), Hino 969, sobre Isaías 6:8
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Ah, ai de mim, mergulhado no pecado,
homem de lábios e de vida impuros!
Como correrei com tua mensagem
ou anunciarei o Deus perdoador que ainda não conheço?
A menos que meu Deus se digne a animar
seu mensageiro culpado e trêmulo,
disperse meus temores, remova meus pecados
e me purifique pelo fogo do amor.
Ah, toca mais uma vez meus lábios,
restaura o consolo de tua graça,
assegura-me, Senhor, que és meu
e grava o perdão em meu coração.
Então, no nome de Jesus, anunciarei
boas-novas de grande alegria:
a graça que toda pessoa pode encontrar
e a glória comprada para toda a humanidade.
Para meditar
Charles Wesley não separa santidade e missão. O mensageiro precisa conhecer a graça que anuncia, e o fogo que o prepara é o “fogo do amor”. A última estrofe expressa a ênfase wesleyana na oferta universal: a graça é anunciada a todos e deve ser recebida pela fé.
Pergunta: Você está tentando falar de uma graça que evita receber pessoalmente em alguma área da sua vida?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, contemple o rei que permanece: Governos passam; Deus continua no trono
- Terça-feira, santifique a fala: Lábios que servem à verdade
- Quarta-feira, receba a declaração do altar: A culpa foi removida
- Quinta-feira, escute antes de responder: Disponibilidade com discernimento
- Sexta-feira, persevere sem controlar a resposta: A fidelidade não cabe numa métrica simples
- Sábado, espere a santa semente: Vida no toco
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Isaías 6: A santidade de Deus e a visão do trono
- Isaías 6 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Incredulidade em João 12:37-50: por que não creram
- Teologia Sistemática, Capítulo 33: Vocação, arrependimento e fé
- Teologia Sistemática, Capítulo 36: A santificação
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Debates públicos, IV (“Sobre a natureza de Deus”), XXII, e XVI (“Sobre a vocação dos homens para a salvação”), VI. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Armínio, Jacó. Exame do tratado de William Perkins sobre a ordem e o modo da predestinação. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 3.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Isaías 6:1, 6:2, 6:3, 6:6–7, 6:8, 6:9–10 e 6:13 (com as notas de Robert Lowth citadas em 6:1 e 6:3).
- Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Isaiah, Isaías 6:5 e 6:10.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Isaías 6 (introdução, nota de Robert Lowth com a citação de Jerônimo) e 6:5; João 12:41.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Isaías 6:9–13.
- Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, Isaías 6 (introdução).
- Wesley, Charles. Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), hinos 969 e 970.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, João 12:39.
- Wesley, John. Sermão 17, A circuncisão do coração, I.1.
- Wesley, John. Sermão 66, Os sinais dos tempos, II.6.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
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