
DevocionaisVem Andar Comigo141 de 175
O Servo ferido que leva nossas dores
Vem Andar Comigo, Semana 21 · Domingo: O braço de Deus aparece onde ninguém esperava
Neste texto
- O braço de Deus aparece onde ninguém esperava
- O texto
- Para entender o texto
- 1. Nós o avaliamos pelas aparências
- 2. Ele leva aquilo que era nosso
- 3. Na cruz, o Deus triúno age para salvar
- 4. Suas feridas trazem uma cura completa
- 5. O silêncio do Servo não silencia as vítimas
- 6. Depois da morte, o Servo é vindicado
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Por tuas feridas tenho perdão
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: pecado, sofrimento, expiação, cura, reconciliação e esperança
Leitura principal: Isaías 52:13–53:12
Leituras complementares: Salmo 22; Marcos 10:32–45; Lucas 22:14–23; 23:32–49; Mateus 8:14–17; João 10:11–18; Atos 8:26–35; Romanos 3:21–26; 5:6–11; 1 Pedro 2:18–25; Hebreus 9:11–28
Verdade central: O Servo justo entra voluntariamente no lugar dos pecadores, leva as nossas culpas e vence aquilo que nos separava de Deus. Em Jesus, o amor santo oferece perdão, reconciliação e vida nova a toda pessoa; essa salvação é recebida pela fé e começa a curar tudo o que o pecado feriu.
O braço de Deus aparece onde ninguém esperava
Isaías anuncia que o Servo será exaltado, mas antes descreve espanto, rejeição, sofrimento e morte. O cântico começa com a promessa da glória: “Eis que meu servo agirá prudentemente; ele será exaltado e elevado, e muito sublime” (Isaías 52:13, Bíblia Livre). Logo depois, faz uma pergunta que atravessa os séculos: “Quem creu em nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Isaías 53:1, Bíblia Livre).
A ação salvadora de Deus não chega com a aparência que os povos associam ao poder. O braço do Senhor se revela num Servo que se entrega.
Dentro de Isaías, “servo” pode indicar Israel e também uma figura individual que representa o povo e realiza uma missão em favor de outros. A Igreja não precisa apagar essa relação com Israel para confessar que Jesus cumpre plenamente o cântico. O Novo Testamento identifica nele o Servo rejeitado, crucificado e vindicado, por meio de quem as boas-novas chegam também às nações.
Foi assim que Filipe leu este capítulo com o oficial etíope que voltava de Jerusalém. O homem perguntou de quem o profeta falava, e “Filipe, abrindo sua boca, e começando desta escritura, anunciou-lhe o Evangelho de Jesus” (Atos 8:35, Bíblia Livre). Nesta semana, fazemos o mesmo caminho: começamos por este texto e chegamos a Jesus.
O texto
Leitura principal: Isaías 52:13–53:12
Leitura: Isaías 52:13–15; 53:1–12
Eis que meu servo agirá prudentemente; ele será exaltado e elevado, e muito sublime.
Como muitos se espantaram de ti, de que a aparência dele estava tão desfigurada, mais do que qualquer outro; que seu aspecto já não parecia com os filhos dos homens.
Assim ele salpicará a muitas nações, e sobre ele os reis fecharão suas bocas; porque aquilo que nunca lhes havia sido anunciado, isso verão; e aquilo que nunca tinham ouvido, disso entenderão.
(Isaías 52:13-15, Bíblia Livre)
Quem creu em nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?
Pois foi crescendo como renovo perante ele, e como raiz de terra seca; não tinha boa aparência nem formosura; e quando olhávamos para ele, não havia nele boa aparência, para que o desejássemos.
Ele era desprezado e rejeitado entre os homens, era homem de dores, e experiente em enfermidade; ele era como alguém de quem os outros escondiam o rosto; era desprezado, e não lhe estimávamos.
Verdadeiramente ele tomou sobre si nossas enfermidades, e nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como afligido, ferido por Deus, e oprimido.
Porém ele foi ferido por nossas transgressões, e esmagado por nossas perversidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados.
Todos nós andávamos sem rumo como ovelhas; cada um se desviava por seu caminho; porém o SENHOR fez vir sobre ele a perversidade de todos nós.
Ele foi oprimido e afligido, porém não abriu sua boca; tal como cordeiro ele foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante seus tosquiadores, assim ele não abriu sua boca.
Com opressão e julgamento ele foi removido; e quem falará de sua geração? Porque ele foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi ferido.
E puseram sua sepultura com perversos, e com um rico em sua morte; pois ele nunca fez injustiça, nem houve engano em sua boca.
Porém agradou ao SENHOR esmagá-lo, fazendo-o ficar enfermo; quando sua alma for posta como expiação do pecado, ele verá semente, e prolongará os dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará em sua mão.
A consequência do trabalho de sua alma ele verá e se fartará; com seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos, pois levará sobre si as perversidades deles.
Por isso lhe darei a porção de muitos, e com os poderosos ele repartirá despojo, pois derramou sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; e levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.
(Isaías 53:1-12, Bíblia Livre)
Para entender o texto
Os capítulos 40 a 55 de Isaías falam ao povo de Deus no exílio da Babilônia e anunciam a sua volta. Robert Lowth, bispo anglicano e estudioso de Isaías no século XVIII, num comentário que Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, reproduz, mostrou que esses capítulos tratam de libertação em três planos ligados entre si: “1. A libertação dos judeus do cativeiro da Babilônia; 2. A libertação dos gentios do seu miserável estado de ignorância e idolatria; e, 3. A libertação da humanidade do cativeiro do pecado e da morte.”
Segundo Lowth, Ciro “é nomeado expressamente como o agente imediato de Deus” na primeira libertação. Para as outras duas, o profeta fala de “uma pessoa maior”, “chamada o servo, o eleito de Deus, em quem a sua alma se compraz; Israel, em quem Deus será glorificado”.
O cântico começa em Isaías 52:13, e não em 53:1. Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, observam que a divisão dos capítulos costuma acompanhar os discursos do profeta, “mas aqui ela precisa de correção”.
Em Isaías 53:1–6, um grupo fala como “nós”. Keil e Delitzsch explicam que, sempre que um “nós” aparece de repente no meio de uma profecia, “é sempre Israel que fala, incluindo o próprio profeta”. A leitura coletiva do Servo também é antiga. Adam Clarke, citando o estudioso Benjamin Kennicott, conta que Orígenes, teólogo do século III, usou este capítulo numa discussão com sábios judeus, e “um deles respondeu que as palavras não falavam de um homem, mas de um povo, os judeus”. As duas leituras se tocam: o Servo pertence ao povo e, ao mesmo tempo, sofre “pela transgressão do meu povo” (Isaías 53:8, Bíblia Livre).
Três palavras hebraicas ajudam a ler o cântico.
Em primeiro lugar, agir com prudência (yaskil, Isaías 52:13). O verbo une sabedoria e êxito. Keil e Delitzsch explicam que ele “nunca se aplica à prosperidade que alguém desfruta sem esforço próprio, mas só àquela que alcança por uma ação bem-sucedida”. O Servo chega à glória pelo caminho da obediência. Paulo diz que Jesus se humilhou, “sendo obediente até a morte, e morte de cruz”, e acrescenta: “Por isso Deus também o exaltou supremamente” (Filipenses 2:8–9, Bíblia Livre).
Em segundo lugar, levar sobre si (nasa, Isaías 53:4, 12). Quando o objeto do verbo é o pecado, dizem Keil e Delitzsch, ele quer dizer “tomar sobre si a dívida do pecado e carregá-la como sua” ou, com mais frequência, “carregar o castigo provocado pelo pecado, isto é, fazer expiação por ele”. Mateus vai usar o mesmo versículo para falar das curas de Jesus (Mateus 8:17).
Em terceiro lugar, oferta pela culpa (asham, Isaías 53:10). A Bíblia Livre traduz: “quando sua alma for posta como expiação do pecado” (Isaías 53:10, Bíblia Livre). É o nome da oferta de reparação de Levítico 5 e 6. Keil e Delitzsch observam que a palavra tem aqui “um sentido sacrificial, e bem definido”, porque essa oferta era “um sacrifício de caráter muito bem delimitado”.
1. Nós o avaliamos pelas aparências
O Servo não corresponde aos padrões de prestígio dos que olham para ele. Ele é desprezado, rejeitado e conhece de perto a dor: “Ele era desprezado e rejeitado entre os homens, era homem de dores, e experiente em enfermidade; ele era como alguém de quem os outros escondiam o rosto; era desprezado, e não lhe estimávamos” (Isaías 53:3, Bíblia Livre). As pessoas desviam o rosto e concluem que ele não tem valor.
O texto não oferece uma descrição física suficiente para concluir que Jesus fosse uma pessoa sem beleza. A ênfase recai na maneira como o sofrimento e a humilhação alteram o julgamento público. Vemos alguém ferido e concluímos que Deus abandonou essa pessoa ou que a vida dela vale menos. João Calvino, o reformador de Genebra, descreveu esse engano:
“Porque o veem ferido e desprezado, não investigam a causa e, como os tolos costumam fazer, julgam apenas pelo resultado.”
(João Calvino, Comentário sobre Isaías, 53:4)
Esse engano continua quando o sucesso é tratado como sinal automático da aprovação divina, enquanto pobreza, deficiência, doença ou rejeição são interpretadas como fracasso moral. Jesus corrigiu esse olhar: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai juízo justo” (João 7:24, Bíblia Livre). A cruz expõe os nossos critérios. Deus realiza a sua obra decisiva naquele que o mundo não estima.
O desprezo pelo Servo também revela como evitamos a dor dos outros. Calvino diz que os homens, ao desprezar Cristo, “nem sequer o consideram digno de ser olhado, mas desviam os olhos como de algo detestável”. Desviar o rosto protege o nosso conforto. Seguir Jesus exige olhar com compaixão, sem transformar a pessoa ferida em objeto de curiosidade ou em lição para a nossa espiritualidade.
2. Ele leva aquilo que era nosso
Os observadores primeiro supõem que o Servo foi atingido por Deus por causa de alguma culpa própria: “e nós o considerávamos como afligido, ferido por Deus, e oprimido” (Isaías 53:4, Bíblia Livre). Depois reconhecem a verdade: ele levou as nossas enfermidades, carregou as nossas dores, foi ferido pelas nossas transgressões e esmagado pelas nossas iniquidades. “Porém ele foi ferido por nossas transgressões, e esmagado por nossas perversidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados” (Isaías 53:5, Bíblia Livre).
O pecado não é apenas uma escolha privada com efeitos pequenos. Ele produz culpa diante de Deus, desordena os desejos, rompe relações, ergue estruturas injustas e conduz à morte. Todos nos desviamos como ovelhas, cada um para o seu caminho: “Todos nós andávamos sem rumo como ovelhas; cada um se desviava por seu caminho; porém o SENHOR fez vir sobre ele a perversidade de todos nós” (Isaías 53:6, Bíblia Livre).
O Servo não oferece apenas um exemplo de coragem. Ele faz por nós aquilo que não podíamos fazer: carrega o pecado de muitos. A linguagem é vicária e sacrificial, quer dizer, ele age no lugar de outros e oferece a si mesmo em favor deles. O inocente ocupa o lugar dos culpados para abrir caminho à paz e à reconciliação. Joseph Benson, pregador metodista e amigo de John Wesley, comenta que as dores do Servo “não foram postas sobre ele por causa dele mesmo, mas inteiramente por causa dos homens pecadores, em cujo lugar ele estava e por cujos pecados sofreu”. John Wesley, ao comentar a frase de Paulo “Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios” (Romanos 5:6, Bíblia Livre), escreveu que Cristo não morreu “só para lhes dar um modelo, ou para lhes obter força para segui-lo”, e que morrer por alguém quer dizer “salvar a vida de outro dando a própria”.
No sermão A justificação pela fé, Wesley conta a obra de Cristo com as palavras de Isaías:
“Na plenitude dos tempos, ele se fez homem, outro cabeça comum da humanidade, um segundo pai geral e representante de toda a raça humana. E foi como tal que ‘ele levou sobre si as nossas dores’, ‘pondo o Senhor sobre ele as iniquidades de todos nós’. Então ele foi ‘ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades’.”
(John Wesley, sermão A justificação pela fé, I.7)
Isso não quer dizer que a culpa possa ser lançada sobre qualquer vítima. Só Cristo, sem pecado e em livre obediência, realiza essa obra. Benson observa que o Servo levou “o que era devido por todos os pecados de toda a humanidade”, uma carga tão pesada que, “se ele não fosse Deus além de homem, teria sucumbido debaixo do fardo”. O sacrifício dele revela tanto a seriedade da nossa rebelião quanto a profundidade do amor que se recusa a nos abandonar.
3. Na cruz, o Deus triúno age para salvar
É possível contar a cruz de modo cruel: um Pai irado castigando um Filho indefeso. Essa caricatura contradiz o testemunho completo das Escrituras. O Pai ama e envia; o Filho ama e entrega a própria vida; pelo Espírito eterno, Cristo oferece a si mesmo (Hebreus 9:14). O Deus triúno age em unidade para reconciliar o mundo: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo ao mundo, não lhes atribuindo seus pecados” (2 Coríntios 5:19, Bíblia Livre).
Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, explicou por que a satisfação feita por Cristo não contradiz o amor do Pai. Ele distinguiu em Deus dois amores: “o amor pela criatura” e “o amor pela justiça, ao qual está unido o ódio contra o pecado”. Na cruz, os dois são atendidos. Mas a cruz não foi o que fez Deus começar a nos amar:
“Pois o efeito daqueles açoites não foi fazer Deus amar a sua criatura, mas permitir que, sem que o amor pela justiça apresentasse obstáculo, ele pudesse, pelo seu amor pela criatura, perdoar os pecados e conceder a vida eterna.”
(Jacó Armínio, Disputas públicas, XIV.16)
Jesus não é uma terceira parte arrastada contra a vontade. O Bom Pastor declara que dá a vida pelas ovelhas e que ninguém a tira dele: “Ninguém a tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e tenho poder para tomá-la de volta” (João 10:18, Bíblia Livre). A entrega de Jesus é voluntária, embora a sua morte também exponha pecados humanos concretos: traição, covardia, manipulação religiosa, violência imperial e injustiça judicial.
Na cruz, Deus não chama o mal de bem. Ele julga o pecado e assume o seu custo. Cristo suporta em nosso lugar a condenação que merecíamos, oferece o sacrifício que remove a culpa, derrota os poderes do pecado e da morte e reconcilia inimigos com Deus. Paulo diz que Deus propôs Jesus “por sacrifício de reconciliação, pela fé em seu sangue, para demonstrar a sua justiça”, “a fim de que ele seja justo, e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:25–26, Bíblia Livre). A teologia chama isso de satisfação penal substitutiva: no nosso lugar, Cristo levou a pena do pecado, e assim a justiça de Deus foi satisfeita, para que ele perdoe o culpado sem deixar de ser justo. Wesley comenta esse versículo:
“O atributo da justiça precisa ser preservado inviolável; e inviolável ele é preservado, se houve uma real aplicação de castigo ao nosso Salvador. Nesse plano, todos os atributos se harmonizam; cada atributo é glorificado, e nenhum é posto de lado, nem sequer obscurecido.”
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Romanos 3:26)
Essas imagens não competem. Substituição, sacrifício, justificação, reconciliação e vitória contemplam dimensões da mesma obra do amor santo.
4. Suas feridas trazem uma cura completa
“Por suas feridas fomos curados” (Isaías 53:5, Bíblia Livre). Essa cura começa no centro da nossa alienação: o pecado que nos afastou de Deus. Benson resume o versículo: “Pelos sofrimentos dele somos salvos dos nossos pecados e dos seus terríveis efeitos.”
Pedro usa a linguagem de Isaías ao falar de morrer para os pecados e viver para a justiça: “Ele levou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro; para que nós, estando mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Pela ferida dele fostes sarados” (1 Pedro 2:24, Bíblia Livre). O Pastor traz de volta as ovelhas desgarradas (1 Pedro 2:25).
Mateus também relaciona o Servo ao ministério de cura de Jesus. Depois de curar a sogra de Pedro, Jesus curou “todos os que estavam doentes, para que se cumprisse o que havia sido dito pelo profeta Isaías, que disse: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças” (Mateus 8:16–17, Bíblia Livre). Calvino reconhece que, “nos milagres que Cristo realizou curando corpos, ele deu uma prova da salvação que traz às nossas almas”. Por isso, não precisamos separar salvação espiritual e cuidado do corpo. O reino de Deus se opõe a tudo o que destrói a criação de Deus. Oramos por cura, tratamos os doentes, alimentamos os famintos, acolhemos os feridos e esperamos a ressurreição do corpo.
Porém, Isaías não promete que todo cristão será curado fisicamente agora. Mesmo pessoas de grande fé adoecem e morrem. A cura inaugurada na obra de Cristo será consumada quando Deus fizer novas todas as coisas: “E Deus limpará toda lágrima dos olhos deles; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem mais haverá dor” (Apocalipse 21:4, Bíblia Livre).
Não culpamos o enfermo nem substituímos o acompanhamento médico por uma fórmula religiosa. Oramos com esperança, recebemos os meios de cuidado disponíveis e permanecemos ao lado de quem não recebe a resposta desejada.
5. O silêncio do Servo não silencia as vítimas
“Ele foi oprimido e afligido, porém não abriu sua boca; tal como cordeiro ele foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante seus tosquiadores, assim ele não abriu sua boca” (Isaías 53:7, Bíblia Livre). A imagem destaca a sua entrega não violenta e a sua decisão de não abandonar a missão.
Repare, porém, que o texto não chama de justo o que fizeram com ele. O Servo é vítima de injustiça: “Com opressão e julgamento ele foi removido” (Isaías 53:8, Bíblia Livre). Benson explica que ele foi tirado desta vida “por opressão, violência e uma aparência de justiça”. Calvino lembra que a inocência dele “foi atestada até pelo seu juiz”. O silêncio do Servo não transforma em virtude a violência que ele sofreu.
Jesus, porém, não permaneceu calado em todos os momentos. Ensinou publicamente, denunciou a hipocrisia, respondeu a autoridades e protegeu pessoas vulneráveis. Quando um guarda bateu no rosto dele diante do sumo sacerdote, ele respondeu: “Se falei mal, dá testemunho do mal; e se bem, por que me feres?” (João 18:23, Bíblia Livre).
Portanto, o silêncio do Servo não pode ser transformado em mandamento para que as vítimas escondam o abuso. Uma pessoa ameaçada pode fugir, pedir socorro, registrar denúncia, buscar medidas protetivas e falar a verdade. A Escritura manda falar por quem não tem voz: “Abre tua boca no lugar do mudo pela causa judicial de todos os que estão morrendo” (Provérbios 31:8, Bíblia Livre). A comunidade cristã deve ouvir, proteger, comunicar crimes às autoridades competentes e impedir que a linguagem do perdão seja usada para encobrir violência.
Perdoar não quer dizer negar fatos, dispensar limites ou impedir consequências legais. A reconciliação humana requer verdade, arrependimento e segurança; nem sempre é possível restaurar a proximidade.
Cristo não chama as vítimas a completar a sua expiação. A entrega dele é suficiente: “Pois com uma só oferta ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14, Bíblia Livre). Quando sofremos por fidelidade, o nosso sofrimento pode dar testemunho do evangelho, mas nunca paga pecados nem torna o abuso santo.
6. Depois da morte, o Servo é vindicado
O Servo é eliminado da terra dos viventes e colocado numa sepultura, embora não tivesse praticado violência nem fraude: “E puseram sua sepultura com perversos, e com um rico em sua morte; pois ele nunca fez injustiça, nem houve engano em sua boca” (Isaías 53:9, Bíblia Livre). O Novo Testamento reconhece correspondências profundas na morte inocente de Jesus, “contado com os malfeitores” (Lucas 22:37, Bíblia Livre), e no seu sepultamento por José de Arimateia, “um homem rico” (Mateus 27:57, Bíblia Livre). Não precisamos transformar cada expressão em código secreto; a linha inteira converge no Messias que sofre e é vindicado.
Depois de entregar a vida como oferta pelo pecado, o Servo vê descendência, prolonga os seus dias e contempla o resultado do seu trabalho: “A consequência do trabalho de sua alma ele verá e se fartará” (Isaías 53:11, Bíblia Livre). A morte não tem a última palavra. Na leitura cristã, a ressurreição de Jesus revela essa vindicação e inaugura a família dos reconciliados.
O Senhor afirma que o Servo justo justificará muitos e levará as iniquidades deles: “com seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos, pois levará sobre si as perversidades deles” (Isaías 53:11, Bíblia Livre). E ainda: “e levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” (Isaías 53:12, Bíblia Livre). “Muitos” não limita a compaixão divina a um grupo secreto. Clarke liga o “muitos” de Isaías ao de Paulo em Romanos 5:
“Os muitos que foram feitos pecadores pelas ofensas de um só, isto é, toda a raça humana; pois todos pecaram, todos caíram; e por todos os que pecaram, e por todos os que caíram, Jesus Cristo morreu.”
(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Isaías 53:12)
O Servo levou o pecado de muitos e justificará muitos. Wesley faz uma distinção que ajuda a ler esses dois movimentos, em Romanos 5:19: o primeiro “muitos”, feitos pecadores pela desobediência de Adão, quer dizer “todos os homens”; o segundo, justificados pela obediência de Cristo, quer dizer “todos os que creem”. Jesus dá a vida “em resgate por muitos” (Marcos 10:45, Bíblia Livre), e Paulo diz que ele “se deu como resgate por todos” (1 Timóteo 2:6, Bíblia Livre). O evangelho é oferecido a todas as pessoas. Na ênfase wesleyana, Cristo morreu por todos. A graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta nossa, desperta e capacita uma resposta que não é mérito. A salvação é recebida mediante arrependimento e fé. A expiação é suficiente para todos e eficaz para os que creem.
O Servo exaltado intercede pelos transgressores. Na cruz, Jesus orou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34, Bíblia Livre). Benson comenta que ele “orou na terra por todos os pecadores, e em especial pelos que o crucificaram, e no céu ainda intercede por eles”. Hebreus diz que ele “vive para sempre para interceder por eles” (Hebreus 7:25, Bíblia Livre). A pessoa que confia nele não precisa esconder a culpa, curar a si mesma ou negociar aceitação. Ela pode aproximar-se do Deus santo porque o Cordeiro levou o pecado e vive para interceder.
Para conversar com Deus
- Em que situação você tem julgado o valor de alguém pela aparência, pelo sucesso ou pelo sofrimento?
- Que culpa você ainda tenta carregar depois que Cristo ofereceu o perdão?
- Alguma linguagem religiosa tem pressionado você ou outra pessoa a esconder um abuso e a permanecer em perigo?
- Em que área você precisa unir oração por cura, cuidado responsável e esperança na ressurreição?
Oração de resposta
Senhor Jesus, Servo justo e Cordeiro de Deus, nós nos desviamos e seguimos os nossos próprios caminhos. Obrigado porque assumiste a nossa culpa sem abandonar o amor e levaste até o fim a obra da reconciliação. Perdoa-nos, traz-nos de volta e faz-nos viver para a justiça. Cura o que o pecado feriu, protege quem sofre violência e dá coragem à tua Igreja para acolher a verdade. Sustenta os enfermos e mantém viva em nós a esperança da ressurreição. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
O que Jesus realizou por nós na sua morte?
Resposta para guardar
Jesus, o Servo justo, entregou-se livremente em nosso lugar. Ele levou os nossos pecados, suportou a condenação que eles mereciam, ofereceu o sacrifício perfeito, reconciliou-nos com Deus e venceu os poderes do mal e da morte. A sua obra suficiente é oferecida a todos e recebida pela fé. Unidos a ele, recebemos perdão, começamos uma vida de santidade e esperamos a cura completa na ressurreição.
Textos para conferir
Isaías 52:13–53:12; Marcos 10:45; João 10:11–18; Romanos 3:21–26; 5:6–11; 1 Pedro 2:21–25; Hebreus 9:11–28.
Oração
Cordeiro de Deus, recebe a minha confiança e faz-me viver na paz que compraste. Amém.
Hino para guardar no coração
Por tuas feridas tenho perdão
Autor: Charles Wesley
Título original: “Pardon Through Thy Wounds I Have”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 1 (1762), Hino 1097, sobre Isaías 53:5
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Por tuas feridas tenho perdão;
mas será o perdão toda a cura?
Tu salvarás até o fim,
tornarás pura a minha natureza mais profunda,
restaurarás em mim a saúde perfeita;
então não tornarei a cair.
Para meditar
Charles Wesley começa com a certeza do perdão e pergunta pelo alcance da graça. A resposta dele é que Cristo não apenas cancela a culpa: ele purifica a fonte da vida. “Saúde perfeita” é linguagem espiritual de restauração ao amor santo, e não garantia de ausência imediata de doenças nem afirmação de que o discípulo se torna incapaz de errar. A inteira santificação é dependência profunda de Cristo e pode continuar crescendo em conhecimento, maturidade e serviço.
Pergunta: Você tem reduzido a salvação a escapar da condenação, sem entregar a Cristo os afetos e os hábitos que precisam ser curados?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, pare de desviar o rosto: A dignidade de quem sofre
- Terça-feira, confesse seu próprio desvio: Cada qual seguiu seu caminho
- Quarta-feira, descanse numa obra suficiente: Ele levou; você não precisa pagar novamente
- Quinta-feira, não espiritualize o abuso: O Servo entregou-se; vítimas podem pedir socorro
- Sexta-feira, ore por cura sem acusar o enfermo: Esperança, cuidado e companhia
- Sábado, contemple o servo vivo: O fruto depois da entrega
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Isaías 53: O Servo Sofredor que levou o nosso pecado
- Isaías 52 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Teologia Sistemática, Capítulo 29: A expiação
- Arminianismo: Expiação para Todos
- Is 43:2 - Reflexão: A doença de Tiaguinho e a teologia da cruz
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Disputas públicas, XIV (“Dos ofícios de nosso Senhor Jesus Cristo”), XVI. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Armínio, Jacó. Disputas privadas, XLIII (“Do arrependimento”), IX. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Isaías 53:4–6, 53:8 e 53:12.
- Calvino, João. Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, 53:3 e 53:4.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Isaías 52:13 (nota de Robert Lowth), 53:8 (relato de Benjamin Kennicott sobre Orígenes) e 53:12.
- Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, Isaías 52:12–13 e 53:1–10.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Romanos 3:26, 5:6 e 5:19.
- Wesley, John. Sermão 5, A justificação pela fé, I.7.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
- Devocional
- Vem Andar Comigo
- Isaías