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O Deus que se entristece com a violência e preserva a vida
Vem Andar Comigo, Semana 4 · Domingo: Quando a violência enche a terra
Neste texto
- Quando a violência enche a terra
- O texto
- Para entender o texto
- 1. Deus vê o mal que normalizamos
- 2. O coração de Deus se entristece
- 3. Juízo não é crueldade divina
- 4. Noé encontra graça
- 5. Deus se lembra e o mundo recomeça
- 6. Uma aliança com toda criatura
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- O pecado fere teu coração
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: dilúvio, juízo, graça, aliança e responsabilidade pela criação
Leituras principais: Gênesis 6:5–22; 7:11–24; 8:1–22; 9:1–17
Leituras complementares: Isaías 54:7–10; Mateus 24:36–44; Hebreus 11:7; 1 Pedro 3:18–22; 2 Pedro 3:8–13
Verdade central: Deus leva o mal e a violência a sério, julga com justiça e, por graça, preserva a vida e estabelece a sua aliança com a criação.
Quando a violência enche a terra
Histórias do dilúvio costumam aparecer em quartos de criança: animais em pares, uma grande embarcação e um arco-íris colorido. Gênesis, porém, conduz o leitor por uma narrativa grave. A terra está corrompida e cheia de violência. Deus vê, entristece-se e anuncia o juízo.
“Porém a terra se corrompeu diante de Deus, e a terra encheu-se de violência” (Gênesis 6:11, Bíblia Livre).
O arco-íris só pode ser compreendido depois de ouvirmos o clamor da terra ferida.
Por isso, vamos ler a história inteira, sem pular para o fim. Em cada passo aparece o mesmo Deus, que não faz as pazes com o mal e não desiste da sua criação.
O texto
Leitura principal: Gênesis 6:5–22; 7:11–24; 8:1–22; 9:1–17
Leitura: Gênesis 6:5–13; 8:1–3, 20–22; 9:8–17
E o SENHOR viu que a maldade dos seres humanos era muita na terra, e que todo desígnio dos pensamentos dos seus corações era só mau continuamente.
E o SENHOR se arrependeu de haver feito o ser humano na terra, e pesou-lhe em seu coração.
E disse o SENHOR: Apagarei os seres humanos que criei de sobre a face da terra, desde o ser humano até o animal, e até o réptil e as aves do céu; porque me arrependo de havê-los feito.
Porém Noé achou favor aos olhos do SENHOR.
Estas são as gerações de Noé: Noé, homem justo, foi íntegro em suas gerações; Noé andava com Deus.
E gerou Noé três filhos: a Sem, a Cam, e a Jafé.
Porém a terra se corrompeu diante de Deus, e a terra encheu-se de violência.
E Deus olhou a terra, e eis que estava corrompida; porque toda carne havia corrompido seu caminho sobre a terra.
E disse Deus a Noé: O fim de toda carne veio diante de mim; porque a terra está cheia de violência por causa deles; e eis que eu os destruirei com a terra.
(Gênesis 6:5-13, Bíblia Livre)
E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os animais, selvagens e domésticos que estavam com ele na arca; e fez passar Deus um vento sobre a terra, e diminuíram as águas.
E se fecharam as fontes do abismo, e as comportas dos céus; e a chuva dos céus foi detida.
E voltaram-se as águas de sobre a terra, indo e voltando; e decresceram as águas ao fim de cento e cinquenta dias.
E edificou Noé um altar ao SENHOR e tomou de todo animal limpo e de toda ave limpa, e ofereceu holocaustos sobre o altar.
E percebeu o SENHOR cheiro suave; e o SENHOR disse em seu coração: Não voltarei mais a amaldiçoar a terra por causa do ser humano; porque o intento do coração do ser humano é mau desde sua juventude: nem voltarei mais a destruir todo vivente, como fiz.
Enquanto a terra durar, a sementeira e a colheita, o frio e calor, verão e inverno, dia e noite, não cessarão.
(Gênesis 8:1-3,20-22, Bíblia Livre)
E falou Deus a Noé e a seus filhos com ele, dizendo:
Eis que eu mesmo estabeleço meu pacto convosco, e com vossa descendência depois de vós;
E com toda alma vivente que está convosco, de aves, de animais, e de toda fera da terra que está convosco; desde todos os que saíram da arca até todo animal da terra.
Estabelecerei meu pacto convosco, e não será mais exterminada toda carne com águas de dilúvio; nem haverá mais dilúvio para destruir a terra.
E disse Deus: Este será o sinal do pacto que estabeleço entre mim e vós e toda alma vivente que está convosco, por tempos perpétuos:
Meu arco porei nas nuvens, o qual será por sinal de aliança entre mim e a terra.
E será que quando fizer vir nuvens sobre a terra, se deixará ver então meu arco nas nuvens.
E me lembrarei do meu pacto, que há entre mim e vós e toda alma vivente de toda carne; e não serão mais as águas por dilúvio para destruir toda carne.
E estará o arco nas nuvens, e o verei para me lembrar do pacto perpétuo entre Deus e toda alma vivente, com toda carne que há sobre a terra.
Disse, pois, Deus a Noé: Este será o sinal do pacto que estabeleci entre mim e toda carne que está sobre a terra.
(Gênesis 9:8-17, Bíblia Livre)
Para entender o texto
A história do dilúvio começa com uma fórmula que organiza todo o livro de Gênesis: “Estas são as gerações de Noé” (Gênesis 6:9, Bíblia Livre). A tradição da Igreja leu esses capítulos como parte dos livros de Moisés, escritos para Israel no caminho entre o Egito e a terra prometida. Era um povo que tinha visto o juízo de Deus sobre o Egito e tinha atravessado as águas do mar. A história de Noé ensinava a esse povo quem era o Deus que o tinha libertado.
Israel não era o único povo antigo a contar a história de um grande dilúvio. Na Mesopotâmia circulavam poemas como o de Atra-hasis e a epopeia de Gilgamesh, que também falam de águas que cobrem a terra e de um homem que escapa num barco. As diferenças, porém, dizem muito. Nesses poemas, os deuses decidem acabar com a humanidade porque os homens fazem barulho demais e perturbam o descanso deles. Em Gênesis, há um só Deus, que não precisa de nada. Ele julga por causa da violência e da corrupção, salva por graça e se compromete com a vida por meio de uma aliança.
Três palavras ajudam a ler a narrativa.
Em primeiro lugar, o verbo corromper (em hebraico, shachat). Gênesis 6:11–12 repete esse verbo três vezes: a terra “se corrompeu”, estava “corrompida”, e toda carne “havia corrompido seu caminho”. Quando Deus anuncia o juízo, usa o mesmo verbo: “eis que eu os destruirei com a terra” (Gênesis 6:13, Bíblia Livre). Em hebraico, corromper e destruir são a mesma palavra. Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, notaram que o juízo corresponde ao pecado: porque toda carne tinha destruído o seu caminho, ela seria destruída com a terra por Deus. O dilúvio confirma uma destruição que a violência humana já tinha começado.
Em segundo lugar, a palavra arca (tebah). Ela só aparece aqui e em Êxodo 2, onde nomeia a cesta em que a mãe de Moisés pôs o menino no rio. As duas foram vedadas com betume (Gênesis 6:14; Êxodo 2:3), e nas duas uma vida é guardada no meio das águas da morte. A arca não tinha a forma de um navio. Keil e Delitzsch a descrevem como uma caixa, “com fundo chato, como uma casa flutuante, pois não era feita para navegar, mas apenas para flutuar sobre a água”. O texto não fala de leme nem de vela: Noé dependia de Deus.
Em terceiro lugar, a palavra aliança (berit). Ela aparece pela primeira vez na Bíblia na promessa feita a Noé: “Mas estabelecerei meu pacto contigo” (Gênesis 6:18, Bíblia Livre). Repare no verbo. Deus não negocia um contrato com Noé, mas estabelece e firma a sua promessa. Keil e Delitzsch explicam que a expressão de Gênesis 9 não indica a conclusão formal de um acordo, mas “a concessão de uma promessa que tem a natureza de uma aliança”. A aliança com Noé nasce inteira da iniciativa de Deus.
1. Deus vê o mal que normalizamos
Gênesis 6 descreve pensamentos inclinados ao mal e uma sociedade saturada de violência: “E o SENHOR viu que a maldade dos seres humanos era muita na terra, e que todo desígnio dos pensamentos dos seus corações era só mau continuamente” (Gênesis 6:5, Bíblia Livre). A linguagem é abrangente porque o texto quer mostrar a profundidade da corrupção, mas não exige que transformemos uma descrição narrativa na tese de que cada pessoa pratica, a todo instante, o pior mal possível. O próprio capítulo vai apresentar Noé recebendo graça e andando com Deus.
Ao mesmo tempo, o versículo leva o leitor até a raiz. A violência que todos viam nascia de pensamentos que só Deus via. Joseph Benson, pregador metodista do tempo de Wesley, comentou: “Esta era a raiz amarga, a fonte corrompida: toda a violência e opressão, todo o luxo e devassidão que havia no mundo procediam da corrupção da natureza.”
O ponto é claro: o pecado não ficou na vida privada. Ele se tornou cultura, estrutura e força destrutiva. A violência encheu a terra.
Martinho Lutero reparou num detalhe do versículo 13. Quando Deus explica a Noé a causa do juízo, ele fala da violência entre as pessoas, e não das ofensas contra ele mesmo:
“Qual é a causa de ira tão grande? Certamente, o fato de que a terra está cheia de violência, como ele diz aqui. Razão espantosa! Ele não diz nada aqui sobre a primeira tábua; menciona só a segunda. […] Entre eles mesmos, que vergonha é o modo como vivem! Nem a casa nem o Estado são bem administrados; tudo se faz pela força, nada pela razão e pela lei.”
(Martinho Lutero, Comentário sobre Gênesis, 6:13)
A primeira tábua da Lei trata dos deveres para com Deus; a segunda, dos deveres para com o próximo. Lutero conclui que é “a plenitude da sua misericórdia e do seu amor” que leva Deus a se queixar mais das feridas feitas aos seus do que das ofensas feitas a ele mesmo.
Isso corrige uma fé que se preocupa só com faltas individuais visíveis. Deus vê assassinato, abuso, exploração econômica, mentira institucionalizada e destruição que gera lucro para alguns e sofrimento para muitos. Santidade pessoal e santidade social não podem ser separadas. Um coração reconciliado com Deus aprende a se opor ao que destrói o próximo.
Também somos advertidos contra a normalização. Quando todos ao redor aceitam a crueldade, ela pode parecer inevitável. Noé mostra que a fidelidade continua possível porque a graça de Deus continua agindo. John Wesley comenta: “É fácil ser religioso quando a religião está na moda; mas é prova de fé forte nadar contra a corrente e apresentar-se por Deus quando ninguém mais se apresenta por ele.”
2. O coração de Deus se entristece
O texto diz que Deus se arrependeu de ter feito o ser humano e que isso pesou no coração dele: “E o SENHOR se arrependeu de haver feito o ser humano na terra, e pesou-lhe em seu coração” (Gênesis 6:6, Bíblia Livre). Essas palavras não retratam um Criador ignorante que descobriu uma informação inesperada, como nós descobrimos um erro de planejamento. Em outros textos, a Escritura afirma a fidelidade e o conhecimento de Deus: “Porque eu o SENHOR, não me mudo” (Malaquias 3:6, Bíblia Livre).
João Calvino, o reformador de Genebra, observa que o arrependimento, no sentido humano, não cabe em Deus, porque “nada acontece que seja por ele inesperado ou imprevisto” (Comentário sobre Gênesis, 6:6). Deus conhecia desde sempre o caminho que a humanidade ia tomar. Wesley explica assim a linguagem do texto:
“Estas são expressões à maneira dos homens, e devem ser entendidas de modo que não lancem dúvida sobre a imutabilidade nem a felicidade de Deus. […] Nem indicam mudança no pensamento de Deus, pois nele não há variação; mas indicam mudança no seu modo de proceder. […] Agora que o homem apostatara, ele não podia fazer outra coisa senão mostrar-se desagradado; de modo que a mudança foi no homem, não em Deus.”
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Gênesis 6:6)
Jacó Armínio, que ensinou teologia em Leiden, diz o mesmo com a precisão de professor. Ele fala da tristeza de Deus, que “tem origem na desobediência e na miséria da criatura”, e define o arrependimento de Deus como “nada mais que uma mudança da coisa querida ou feita, por causa do ato de uma criatura racional” (Disputas públicas, IV.71). O propósito de Deus não muda. O que muda é o modo como ele trata uma criatura que se voltou contra ele.
Ao mesmo tempo, não devemos esvaziar a linguagem até ela não dizer nada. O Deus bíblico não é indiferente ao mal. A violência das suas criaturas realmente se opõe ao propósito dele e é descrita como dor no seu coração. O mesmo Calvino diz que Deus, “para atravessar o nosso coração com mais eficácia, se reveste dos nossos afetos”. Falar de Deus exige receber todo o testemunho bíblico: ele é constante em caráter e promessa, conhece as suas obras e se relaciona de verdade com as criaturas no tempo. O Deus que conhece todo o futuro não deixa de responder ao que acontece. A linguagem de pesar nos permite dizer que o sofrimento e o pecado não passam diante dele como números frios.
Se a injustiça causa lamento em você, esse lamento pode refletir algo do coração santo de Deus. A tristeza, porém, precisa ser levada à oração e à ação fiel, para não se transformar em cinismo.
3. Juízo não é crueldade divina
O dilúvio desfaz limites estabelecidos na criação: as águas cobrem a terra e a vida volta ao caos. “Naquele dia foram rompidas todas as fontes do grande abismo, e as comportas dos céus foram abertas” (Gênesis 7:11, Bíblia Livre). É uma narrativa de descriação. O Deus que deu a vida também julga o mundo que transformou o seu dom em campo de violência.
Wesley repara que Deus não precisou criar águas novas. Na criação, ele tinha posto portas e ferrolhos ao mar, “e agora apenas removeu esses antigos diques e cercas, e as águas do mar voltaram a cobrir a terra, como haviam feito no princípio”.
Esse é um texto difícil, e reverência não quer dizer fingir que não há perguntas. Devemos evitar tanto acusar Deus segundo a nossa medida limitada quanto usar o juízo para justificar a brutalidade humana. O direito de julgar pertence ao Criador santo, e a Igreja não recebe autorização para reproduzir o dilúvio contra os seus inimigos.
O juízo afirma que as vítimas não serão esquecidas e que o mal não terá permissão para reinar para sempre. A cruz revela com a máxima profundidade que Deus não observa o sofrimento de longe: em Cristo, ele entra na nossa condição, sofre a violência do pecado e realiza a reconciliação. “Porque também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos; para que vos levasse a Deus” (1 Pedro 3:18, Bíblia Livre).
O Novo Testamento usa os dias de Noé como chamado à vigilância: “Assim como foram os dias de Noé, assim também será a vinda do Filho do homem” (Mateus 24:37, Bíblia Livre). Pedro lembra que, enquanto a arca era preparada, “a paciência de Deus aguardava” (1 Pedro 3:20, Bíblia Livre). A paciência de Deus não é aprovação do mal, mas espaço de misericórdia que convida ao arrependimento. Wesley lê assim os cento e vinte anos de Gênesis 6:3: “A justiça disse: ‘Corta-os’; mas a misericórdia intercedeu: ‘Senhor, deixa-os ainda este ano’; e a misericórdia prevaleceu a ponto de obter um adiamento de seis vintenas de anos.”
4. Noé encontra graça
Antes de mencionar a justiça de Noé, Gênesis declara que ele encontrou favor aos olhos do Senhor: “Porém Noé achou favor aos olhos do SENHOR” (Gênesis 6:8, Bíblia Livre). Só depois vem a descrição: “Noé, homem justo, foi íntegro em suas gerações; Noé andava com Deus” (Gênesis 6:9, Bíblia Livre). A ordem importa. Noé responde com fé e obediência dentro da iniciativa graciosa de Deus.
Calvino rejeita a ideia de que Noé achou graça por esforço próprio:
“Reconheço, de fato, que aqui se declara que Noé foi aceito por Deus, porque, vivendo com retidão e santidade, se guardou puro das contaminações comuns do mundo; mas de onde ele obteve essa integridade, senão da graça preveniente de Deus? O começo desse favor, portanto, foi misericórdia gratuita.”
(João Calvino, Comentário sobre Gênesis, 6:8)
Graça preveniente quer dizer a graça que vem antes de qualquer resposta humana. A justiça de Noé foi fruto do favor de Deus, e não a causa dele.
Hebreus celebra a fé de Noé: “Pela fé, Noé, divinamente advertido das coisas que ainda se não viam, temeu; e, para salvamento de sua família construiu a arca” (Hebreus 11:7, Bíblia Livre). A fé não é pensamento positivo, mas confiança que organiza madeira, tempo, família e futuro segundo a palavra recebida.
Wesley observa que Deus “poderia ter protegido Noé pelo ministério dos anjos, sem lhe impor cuidado nem trabalho algum; mas preferiu empregá-lo na construção daquilo que havia de ser o meio da sua preservação”. O trabalho de Noé não comprou a graça, mas respondeu a ela: foi Deus quem deu a palavra, o aviso, as medidas da arca e a promessa de vida.
Noé não é apresentado como salvador impecável. Depois do dilúvio, a história dele ainda vai mostrar vergonha e desordem familiar. A água não remove a inclinação do coração humano, e Gênesis 8:21 reconhece que ela continua: “o intento do coração do ser humano é mau desde sua juventude” (Gênesis 8:21, Bíblia Livre). Precisamos de uma redenção mais profunda que uma mudança de ambiente.
Essa sobriedade é importante. A Igreja não será santa só porque se separou de determinadas influências. O pecado viaja conosco. Precisamos de perdão, novo nascimento e santificação pelo Espírito. Armínio ensinou isso na sua Declaração de sentimentos (1608): no estado caído, o ser humano “não é capaz, de si mesmo e por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom”, e precisa ser regenerado e renovado em todas as suas forças “por Deus em Cristo, pelo Espírito Santo”.
5. Deus se lembra e o mundo recomeça
“E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os animais, selvagens e domésticos que estavam com ele na arca; e fez passar Deus um vento sobre a terra, e diminuíram as águas” (Gênesis 8:1, Bíblia Livre).
“Deus lembrou-se de Noé” não quer dizer que ele tinha se esquecido. Na linguagem bíblica, lembrar-se é voltar-se para agir com fidelidade, segundo uma relação e uma promessa. Deus faz soprar um vento, as águas diminuem e a terra reaparece.
Noé passou mais de um ano dentro da arca. Ele tinha achado favor aos olhos do Senhor e, mesmo assim, durante meses, nada parecia mudar. Calvino escreveu sobre esse versículo:
“Aprendamos, portanto, por este exemplo, a repousar na providência de Deus, mesmo quando ele parece mais esquecido de nós; pois, afinal, ao nos socorrer, ele vai testemunhar que se lembrou de nós.”
(João Calvino, Comentário sobre Gênesis, 8:1)
Há ecos da criação: um vento sobre as águas, a terra seca, seres vivos chamados a se multiplicar. Em hebraico, o “vento” de Gênesis 8:1 é a mesma palavra (ruach) do Espírito de Deus que “se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1:2, Bíblia Livre). O recomeço, porém, não é simples repetição do Éden. O mundo continua ferido. Deus preserva a vida conhecendo plenamente a condição humana.
Noé responde construindo um altar (Gênesis 8:20). A adoração se torna o primeiro gesto registrado depois da saída. Benson comenta que “a primeira coisa que ele fez depois da sua maravilhosa preservação foi pagar essa dívida de gratidão, tão justamente devida ao Deus que o tinha preservado de modo tão maravilhoso”. A salvação recebida conduz à gratidão, e a gratidão põe a vida em nova ordem.
A Primeira Carta de Pedro liga o dilúvio ao batismo e deixa claro que não é a remoção física da sujeira que salva, mas “o pedido de boa consciência a Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (1 Pedro 3:21, Bíblia Livre). A água é sinal de juízo e de passagem; a segurança está no Cristo ressuscitado. Wesley explica que somos salvos “não, na verdade, pelo mero sinal exterior, mas pela graça interior”, por meio daquele que morreu e ressuscitou por nós.
6. Uma aliança com toda criatura
Deus estabelece aliança com Noé, com os seus descendentes e com todo ser vivo: “Eis que eu mesmo estabeleço meu pacto convosco, e com vossa descendência depois de vós; e com toda alma vivente que está convosco” (Gênesis 9:9–10, Bíblia Livre). O sinal é o arco nas nuvens: “Meu arco porei nas nuvens, o qual será por sinal de aliança entre mim e a terra” (Gênesis 9:13, Bíblia Livre). O texto diz que Deus põe o arco como sinal da sua promessa; não explica que o formato seja uma arma apontada para determinada direção. Essa imagem pode ser usada de forma poética, mas não deve ser imposta como sentido certo do texto.
A amplitude da aliança merece atenção. Animais e terra não são cenário descartável para a história humana. Deus compromete a sua palavra com a ordem da vida. Matthew Henry, pastor presbiteriano inglês, comentou que a permissão de comer carne, dada a Noé, “autoriza plenamente o uso dos animais, mas não o abuso deles pela gula, e menos ainda pela crueldade”.
O ser humano recebe de novo uma responsabilidade especial, e a proibição de derramar sangue é ligada à imagem divina: “O que derramar sangue humano, pelo ser humano seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus o ser humano foi feito” (Gênesis 9:6, Bíblia Livre). Calvino tira daí uma lição que vale para cada relação humana: “ninguém pode ferir o irmão sem ferir o próprio Deus”.
A aliança não promete ausência de tempestades. Ela promete que o dilúvio não vai voltar a destruir toda carne. Quando as nuvens chegam, o sinal é lembrança de fidelidade dentro da ameaça. Wesley comenta: “O arco-íris aparece quando as nuvens estão mais dispostas a chover; quando temos mais razão para temer que a chuva prevaleça, Deus mostra este selo da promessa de que ela não prevalecerá.” Séculos depois, Isaías usou a mesma promessa para consolar o povo no exílio (Isaías 54:9–10).
Para nós, o arco convida à esperança e à responsabilidade. Deus preserva o mundo, e nós não temos autorização para devastar o mundo. Ele valoriza a vida, e nós não podemos tornar a violência comum. Ele oferece tempo, e devemos receber esse tempo como ocasião de arrependimento e serviço.
Para conversar com Deus
- Que forma de violência a sua comunidade aprendeu a considerar normal?
- O seu lamento diante do mal produz oração, ação ou apenas cinismo?
- Que obediência concreta a palavra de Deus está pedindo antes que você veja resultados?
- Como a aliança com toda criatura deve afetar os seus hábitos?
Oração de resposta
Deus justo e misericordioso, tu vês a violência que escondemos e ouves os que foram feridos. Perdoa a nossa participação no mal e a nossa indiferença. Dá-nos uma fé obediente, como resposta à tua graça. Preserva-nos em Cristo, purifica a nossa consciência e faz de nós instrumentos de paz. Ensina-nos a honrar a tua aliança no cuidado da vida e da criação, enquanto esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
O que o dilúvio revela sobre o juízo e a graça de Deus?
Resposta para guardar
O dilúvio revela que Deus vê a corrupção e a violência, entristece-se com o mal e julga com justiça. Revela também que a sua graça toma a iniciativa: Noé encontra favor, responde pela fé e é preservado com a sua casa e com os animais. Depois das águas, Deus estabelece aliança com a humanidade e com toda criatura. Como o coração humano continua ferido, essa preservação aponta para a nossa necessidade de uma salvação mais profunda, realizada em Jesus Cristo e aplicada pelo Espírito.
Textos para conferir
Gênesis 6:5–9; 8:1, 20–22; 9:8–17; Isaías 54:7–10; Hebreus 11:7; 1 Pedro 3:18–22; 2 Pedro 3:8–13.
Oração
Deus da aliança, dá-nos temor diante da tua santidade, confiança na tua misericórdia e coragem para abandonar a violência. Guarda-nos em Cristo e faz de nós cuidadores da vida. Amém.
Hino para guardar no coração
O pecado fere teu coração
Autor: Charles Wesley
Título editorial: “Sobre Gênesis 6:6”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hinos 43–44
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Tu te entristeces ao ver frustrado
o propósito de tua criação;
lamentas a rebeldia daquele
a quem chamaste à existência.
Mas meu Senhor jamais se arrepende
de ter realizado minha redenção.
Teu coração se entristece por mim,
pelo pecado que pratiquei?
E ainda assim (como é possível?)
meu próprio coração permanece como pedra.
Deus e amigo ferido,
concede-me olhar para ti e lamentar;
que minha dureza seja quebrada
pela dor santa do arrependimento.
Para meditar
Wesley guarda juntas duas confissões: Deus é fiel na sua obra redentora e não é indiferente ao pecado. O hino pede que a dor do coração divino vença a nossa insensibilidade.
Pergunta: Que sofrimento ou pecado você passou a observar sem deixar que ele toque o seu coração?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, contemple: O Deus que vê a vítima
- Terça-feira, compreenda: O pesar de Deus não é instabilidade
- Quarta-feira, examine: A violência que começa pequena
- Quinta-feira, pratique: Construir antes de ver a chuva
- Sexta-feira, cuide: A aliança alcança toda criatura
- Sábado, reúna o caminho: Esperar um mundo onde habita a justiça
Para estudar mais
- O sermão desta semana na série 52 Histórias da Bíblia: Noé e a arca: obediência e refúgio em tempo de juízo
- Gênesis 6, Gênesis 7, Gênesis 8 e Gênesis 9 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- O dilúvio bíblico e a promessa a Noé, dos Pais a Wesley
- A Vida de Noé
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Declaração de sentimentos (1608), “Do livre-arbítrio do homem”. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Armínio, Jacó. Disputas públicas, IV (“Sobre a natureza e os atributos de Deus”), LXXI. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 1.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Gênesis 6:5 e 8:20.
- Calvino, João. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis, 6:6, 6:8, 8:1 e 9:6.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, 2 Pedro 3:9.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Gênesis 9:1–3.
- Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Biblical Commentary on the Old Testament, Gênesis 6:13, 6:14 e 9:8.
- Lutero, Martinho. Luther on Sin and the Flood (Commentary on Genesis, vol. 2), trad. John Nicholas Lenker, 1910, Gênesis 6:13.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Gênesis 6:3, 6:6, 6:9, 6:14, 7:11 e 9:13.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, 1 Pedro 3:21.
Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.
- Devocional
- Vem Andar Comigo
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