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Jó: fé quando nenhuma resposta basta

Vem Andar Comigo, Semana 18 · Domingo: Sete dias de silêncio

Diego Gonçalves26 min de leitura5.267 palavras

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Neste texto

Tema: sofrimento, lamento, presença, limites humanos e esperança
Leituras principais: Jó 1:1–2:13; 3:1–26; 38:1–42:17
Leituras complementares: Jó 19:23–27; 28:12–28; Salmos 13; 22; 88; Romanos 8:18–39; 12:15; 2 Coríntios 1:3–7; Hebreus 4:14–16
Verdade central: O sofrimento não pode ser reduzido a punição direta ou a falta de fé. Deus recebe o lamento sincero, confronta as explicações presunçosas e permanece digno de confiança mesmo quando as suas razões não nos são reveladas.

Nota pastoral: Esta semana trata de luto, doença, desespero e desejo de não ter nascido. Lamento espiritual e cuidado clínico podem caminhar juntos. Se você ou alguém próximo corre risco de ferir a si mesmo, não permaneça sozinho: procure imediatamente pessoas confiáveis, atendimento de saúde e os serviços de emergência de sua região. Pedir ajuda não é fracasso de fé.

Sete dias de silêncio

Quando os amigos avistam Jó de longe, quase não reconhecem o homem que conheciam. Choram em alta voz, rasgam as vestes, lançam pó sobre a cabeça e se sentam com ele no chão por sete dias e sete noites. Ninguém diz uma palavra: “Assim se sentaram com ele na terra durante sete dias e sete noites, e nenhum lhe falava palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande” (Jó 2:13, Bíblia Livre).

Esse talvez seja o momento mais sábio da visita. O pastor inglês Matthew Henry, autor de um comentário da Bíblia inteira no começo do século XVIII, resumiu a cena em duas frases: “Vindo para chorar com ele, deram vazão a uma dor que sentiam de verdade. Vindo para consolar, sentaram-se com ele.” Antes de defender teorias, eles compartilham o chão. O sofrimento profundo não é um problema abstrato à espera de uma resposta brilhante, mas uma pessoa ferida que precisa de presença.

Depois, Jó abre a boca. Ele não amaldiçoa a Deus, mas amaldiçoa o dia do seu nascimento. O livro permite que uma fé verdadeira soe como grito.

O texto

Leitura principal: Jó 1:1–2:13; 3:1–26; 38:1–42:17

Leitura: Jó 1:1, 6–12, 20–22; 2:7–13; 3:1–3, 11, 24–26; 38:1–11; 42:1–10

Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este homem era íntegro e correto, temente a Deus, e que se afastava do mal.

E em certo dia, os filhos de Deus vieram para se apresentarem diante do SENHOR, e Satanás também veio entre eles.

Então o SENHOR disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela.

E o SENHOR disse a Satanás: Tendes visto meu servo Jó? Pois ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e correto, temente a Deus, e que se afasta de mal.

Então Satanás respondeu ao SENHOR, dizendo: Por acaso Jó teme a Deus em troca de nada?

Por acaso tu não puseste uma cerca ao redor dele, de sua casa, e de tudo quanto ele tem? Tu abençoaste o trabalho de suas mãos, e seu patrimônio tem crescido sobre a terra.

Mas estende agora tua mão, e toca em tudo quanto ele tem; e verás se ele não te amaldiçoa em tua face.

E o SENHOR disse a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em tua mão; somente não estendas tua mão contra ele. E Satanás saiu de diante do SENHOR.

Então Jó se levantou, rasgou sua capa, rapou sua cabeça, e caindo na terra, adorou,

E disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para lá voltarei. O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR.

Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

(Jó 1:1,6-12,20-22, Bíblia Livre)

Então Satanás saiu de diante do SENHOR, e feriu a Jó de chagas malignas desde a planta de seus pés até o topo de sua cabeça.

E Jó tomou um caco para se raspar com ele, e ficou sentado no meio da cinza.

Então sua mulher lhe disse: Ainda manténs a tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre.

Porém ele lhe disse: Tu falas como uma tola. Receberíamos o bem de Deus, e o mal não receberíamos? Em tudo isto Jó não pecou com seus lábios.

Quando três amigos de Jó, Elifaz temanita, Bildade suíta, e Zofar naamita, ouviram todo este mal que lhe tinha vindo sobre ele, vieram cada um de seu lugar; porque haviam combinado de juntamente virem para se condoerem dele, e o consolarem.

Eles, quando levantaram seus olhos de longe, não o reconheceram; e choraram em alta voz; e cada um deles rasgou sua capa, e espalharam pó ao ar sobre suas cabeças.

Assim se sentaram com ele na terra durante sete dias e sete noites, e nenhum lhe falava palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.

(Jó 2:7-13, Bíblia Livre)

Depois disto Jó abriu sua boca, e amaldiçoou seu dia.

Pois Jó respondeu, e disse:

Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Um homem foi concebido.

Por que eu não morri desde a madre, ou perdi a vida ao sair do ventre?

Pois antes do meu pão vem meu suspiro; e meus gemidos correm como águas.

Pois aquilo que eu temia tanto veio a mim, e aquilo que tinha medo me aconteceu.

Não tenho tido descanso, nem tranquilidade, nem repouso; mas perturbação veio sobre mim.

(Jó 3:1-3,11,24-26, Bíblia Livre)

Então o SENHOR respondeu a Jó desde um redemoinho, e disse:

Quem é esse que obscurece o conselho com palavras sem conhecimento?

Agora cinge teus lombos como homem; e eu te perguntarei, e tu me explicarás.

Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Declara-me, se tens inteligência.

Quem determinou suas medidas, se tu o sabes? Ou quem estendeu cordel sobre ela?

Sobre o que estão fundadas suas bases? Ou quem pôs sua pedra angular,

Quando as estrelas do amanhecer cantavam alegremente juntas, e todos os filhos de Deus jubilavam?

Ou quem encerrou o mar com portas, quando transbordou, saindo da madre,

Quando eu pus nuvens por sua vestidura, e a escuridão por sua faixa;

Quando eu passei sobre ele meu decreto, e lhe pus portas e ferrolhos,

E disse: Até aqui virás, e não passarás adiante, e aqui será o limite para a soberba de tuas ondas?

(Jó 38:1-11, Bíblia Livre)

E Jó respondeu ao SENHOR, dizendo:

Eu sei que tudo podes, e nenhum de teus pensamentos pode ser impedido.

Tu dizes: Quem é esse que obscurece o conselho sem conhecimento? Por isso eu falei do que não entendia; coisas que eram maravilhosas demais para mim, e eu não as conhecia.

Escuta-me, por favor, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensina.

Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora meus olhos te veem.

Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza.

E sucedeu que, depois que o SENHOR acabou de falar essas palavras a Jó, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: Minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque não falastes de mim o que era correto, como o meu servo Jó.

Por isso tomai sete bezerros e sete carneiros, ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos em vosso favor, então meu servo Jó orará por vós; pois certamente atenderei a ele para eu não vos tratar conforme a vossa insensatez; pois não falastes de mim o que era correto, como o meu servo Jó.

Então foram Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamita, e fizeram como o SENHOR havia lhes dito; e o SENHOR atendeu a Jó.

E o SENHOR livrou Jó de seu infortúnio, enquanto ele orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou a Jó o dobro de tudo quanto ele antes possuía.

(Jó 42:1-10, Bíblia Livre)

Para entender o texto

O livro de Jó não traz o nome do autor nem a data em que foi escrito. Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, examinou as muitas teorias sobre a época de Jó e admitiu que tudo o que se disse sobre o assunto “é só opinião ou conjectura provável”. Jó vive em Uz, fora de Israel, e o livro trata de uma pergunta que pertence a toda a humanidade.

A forma do livro também ajuda a ler. Clarke observa: “Com exceção dos dois primeiros capítulos e dos dez últimos versículos, que são simplesmente prosa, todo o resto do livro é poético.” Entre o prólogo e o epílogo, em poesia, vêm o lamento de Jó (capítulo 3), os diálogos com os amigos (4 a 27), um poema sobre a sabedoria (28), a defesa final de Jó (29 a 31), os discursos de Eliú (32 a 37), os discursos do Senhor (38 a 41) e a resposta de Jó (42:1–6).

Duas palavras hebraicas ajudam a ler a semana.

Em primeiro lugar, íntegro (tam). Jó é apresentado como “íntegro e correto, temente a Deus, e que se afastava do mal” (Jó 1:1, Bíblia Livre). A palavra não quer dizer sem pecado. Joseph Benson, pregador metodista e amigo de John Wesley, explica que Jó era íntegro “não de modo exato, ou segundo a lei da inocência, mas quanto às suas intenções sinceras, aos seus afetos de coração e aos seus esforços diligentes para cumprir todo o seu dever para com Deus e com os homens”.

Em segundo lugar, o acusador (ha-satan). No prólogo, a palavra vem com artigo. Clarke observa: “Essa palavra também é enfática no original: hassatan, o Satã, ou o adversário.” Antes de funcionar como nome próprio, a palavra é um título: aquele que se opõe e acusa.

1. O leitor sabe algo que Jó não sabe

O prólogo apresenta Jó como íntegro, reto e temente a Deus. A cena celestial mostra o acusador questionando a integridade da devoção dele: “Por acaso Jó teme a Deus em troca de nada? Por acaso tu não puseste uma cerca ao redor dele, de sua casa, e de tudo quanto ele tem?” (Jó 1:9–10, Bíblia Livre). Jó teme a Deus de graça ou apenas porque foi protegido e prosperou?

A pergunta do acusador não é se Jó tem pecado. Benson viu isso com clareza:

“A questão entre Deus e Satanás não era se Jó tinha algum pecado, mas se ele era hipócrita e blasfemaria contra Deus se fosse posto debaixo de calamidades pesadas.”

(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, Jó 1:22)

A expressão hebraica de 1:9, traduzida por “em troca de nada” (hinnam, de graça), volta na boca do Senhor em 2:3, quando ele diz que a ruína de Jó veio “sem causa” (Jó 2:3, Bíblia Livre). É a mesma palavra. Jó não sofre por causa de um pecado escondido.

No conjunto da Bíblia, reconhecemos aqui a obra do adversário. Mesmo assim, convém respeitar a forma do livro. Deus não perde o governo, o acusador recebe limites, e Jó jamais é informado dessa conversa. Adam Clarke comentou o limite posto no versículo 12: “O seu poder e a sua malícia estão sempre limitados e sob controle.” O texto não nos convida a explicar cada tragédia como resultado de uma disputa invisível específica. Benson lê a cena do céu com cuidado: “Isso deve ser entendido como uma representação em forma de parábola, semelhante à de 1 Reis 22:19.”

Também devemos evitar a linguagem leviana de uma aposta em que Jó seria mero objeto. O livro põe diante de nós uma questão moral séria sobre devoção, mal e liberdade, sem oferecer uma explicação completa para o modo como a soberania de Deus e a ação do mal se relacionam. A Escritura afirma, em outro lugar, que Deus não tem prazer na dor humana: “Pois não é sua vontade afligir nem entristecer os filhos dos homens” (Lamentações 3:33, Bíblia Livre).

O leitor sabe, porém, o bastante para rejeitar a conclusão dos amigos: a catástrofe não veio porque Jó escondia uma vida de perversidade. O próprio Deus atestou a integridade dele.

2. A primeira resposta de Jó não é a sua única resposta

Ao perder os bens e os dez filhos, Jó rasga a capa, rapa a cabeça, cai por terra e adora: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para lá voltarei. O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 1:21, Bíblia Livre). O narrador afirma: “Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1:22, Bíblia Livre). Devemos receber essas palavras como uma confissão extraordinária de confiança, e não como fórmula para explicar toda perda.

Repare que a adoração vem junto com os gestos do luto. Adam Clarke lembra que Jó sentiu a morte violenta dos dez filhos: “Se não tivesse sentido isso da forma mais aguda, não seria digno do nome de homem.”

Não cabe dizer a uma mãe enlutada que Deus “tomou” o filho dela, como se conhecêssemos a causa particular daquela morte. Jó fala dentro da sua compreensão e da sua história; o livro inteiro vai mostrar que a linguagem dele não permanece tão serena.

No capítulo 3, ele lamenta ter nascido: “Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Um homem foi concebido” (Jó 3:3, Bíblia Livre). E pergunta: “Por que eu não morri desde a madre, ou perdi a vida ao sair do ventre?” (Jó 3:11, Bíblia Livre). Clarke diz que, ao amaldiçoar o dia do nascimento, Jó “deu vazão às agonias da sua alma e às perturbações da sua mente”, e lembra que Jeremias, um profeta fiel, disse algo parecido: “Maldito seja o dia em que nasci!” (Jeremias 20:14, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, descrevem assim o estado de Jó no fim do capítulo: a confiança dele em Deus “não está destruída, mas encoberta por nuvens espessas de melancolia e dúvida”.

Mais adiante, Jó acusa, pergunta, exige audiência e oscila entre esperança e desespero. Essa mudança não prova que a fé inicial era falsa, mas revela que o sofrimento duradouro não cabe numa única frase.

John Wesley, num sermão sobre a tristeza dos que creem, falou da morte de quem amamos, como a de “um filho amado, que mal começava a vida e se agarrava ao nosso coração”:

“Em todos esses casos, nós não só podemos, mas devemos ser afetados: é propósito de Deus que sejamos. Ele não quer que sejamos troncos e pedras. Ele quer os nossos afetos ordenados, e não extintos. […] Pode haver tristeza sem pecado.”

(John Wesley, sermão 47, Tristeza por múltiplas tentações, III.4)

A esposa de Jó também perdeu os filhos, a segurança e o futuro. As poucas palavras dela nascem desse chão devastado. Embora o conselho para amaldiçoar a Deus seja rejeitado, não precisamos transformar essa mulher numa caricatura sem fé. Ela também é uma pessoa enlutada. A Septuaginta, a antiga tradução grega, acrescentou à fala dela frases que Clarke traduziu, nas quais a mãe diz ao marido: “Eis que a tua memória já foi apagada da terra, junto com os teus filhos e as tuas filhas, frutos das minhas dores e dos meus trabalhos, pelos quais trabalhei com ansiedade em vão.” O acréscimo não está no hebraico, mas mostra que leitores antigos ouviram ali a voz de uma mãe ferida.

3. Os amigos defendem uma verdade até torná-la cruel

Elifaz, Bildade e Zofar conhecem uma verdade bíblica: Deus é justo, o mal importa e as nossas escolhas produzem consequências. Provérbios e a lei ensinam uma ordem moral real.

O erro está em converter esse padrão numa equação sem exceções. Elifaz abre o debate com uma pergunta: “Lembra-te agora, qual foi o inocente que pereceu? E onde os corretos foram destruídos?” (Jó 4:7, Bíblia Livre). Se Jó sofre muito, concluem os amigos, ele deve ter pecado muito. Como ele nega, eles imaginam crimes cada vez mais graves e tratam a dor dele como prova suficiente de culpa. Bildade chega a dizer a um pai que enterrou dez filhos: “Se teus filhos pecaram contra ele, ele também os entregou ao castigo por sua transgressão” (Jó 8:4, Bíblia Livre). Clarke descreve o que aconteceu com Elifaz:

“Esquecendo que tinha vindo como consolador, e não como quem repreende, ele perde o sentimento do amigo na arrogância do censor.”

(Adam Clarke, Comentário sobre a Bíblia, Jó 4:1)

Matthew Henry, comentando a pergunta de Elifaz, escreveu uma frase que serve para muitos conselheiros: “Os nossos piores erros nascem de tirar conclusões erradas de verdades inegáveis.” E Martinho Lutero, no prefácio que escreveu para o livro de Jó, disse que os amigos “têm uma ideia mundana e humana de Deus e da sua justiça”.

Uma meia-verdade aplicada sem escuta pode virar mentira pastoral. Você precisa ter fé. Há um pecado oculto. Tudo acontece porque você atraiu. Se estivesse no centro da vontade de Deus, não estaria assim. Frases desse tipo protegem o nosso desejo de um mundo previsível, mas esmagam quem sofre. Jó responde aos amigos: “todos vós sois consoladores miseráveis” (Jó 16:2, Bíblia Livre). E lembra o que a amizade deveria fazer: “Ao aflito, seus amigos deviam ser misericordiosos” (Jó 6:14, Bíblia Livre).

No fim, Deus vai repreender os amigos por não falarem dele o que era correto, como Jó falou: “Minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque não falastes de mim o que era correto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7, Bíblia Livre). A ortodoxia não consiste em defender frases verdadeiras sem considerar a verdade do caso concreto, o gênero da fala e a dignidade da pessoa diante de nós.

4. Jó lamenta sem abandonar a relação

Jó dirige a sua queixa a Deus: “Por isso eu não calarei minha boca; falarei na angústia do meu espírito, e me queixarei na amargura de minha alma” (Jó 7:11, Bíblia Livre). Ele deseja um mediador, um “árbitro que ponha sua mão sobre nós ambos” (Jó 9:33, Bíblia Livre), pede uma audiência e protesta contra o silêncio. Em certos momentos, fala além do que conhece. Ainda assim, não interrompe a conversa. Keil e Delitzsch resumem esse movimento numa frase: “Jó apela de Deus para Deus; ele espera que a verdade e o amor decidam, no fim, contra a ira.”

O lamento bíblico é fé ferida que continua voltada para Deus. Os Salmos perguntam: “Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim? Para sempre?” (Salmo 13:1, Bíblia Livre). Eles descrevem abandono e, às vezes, terminam sem mudança visível. O Salmo 88 se encerra assim: “Afastaste de mim meu amigo e meu companheiro; meus conhecidos estão em trevas” (Salmo 88:18, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch dizem que esse salmo “se apaga num lamento parecido com o de Jó”, mas notam que o nome “Deus de minha salvação”, com que o salmista chama Deus, “e a própria oração dele mostram que a centelha da fé dentro dele não está de todo apagada”. A Escritura não exige que toda oração termine com uma sensação de vitória. John Wesley aconselhava que, quando a tempestade chega, o crente aprenda a “orar; derramar a alma diante de Deus e mostrar a ele a sua angústia”.

Isso não significa que toda acusação de Jó esteja correta. Deus vai confrontar Jó. Mas o confronto acontece dentro de uma relação em que Jó pode falar e receber resposta. Há diferença entre levar a nossa ira a Deus e usar a ira para ferir pessoas.

As comunidades santas precisam abrir espaço para lágrimas, perguntas e silêncio. Pressionar alguém a testemunhar vitória antes do tempo ensina fingimento, e não esperança. Também não devemos tratar como falta de fé a tristeza que vem da doença. No mesmo sermão sobre a tristeza dos que creem, Wesley escreveu:

“A fé não derruba o curso da natureza: causas naturais ainda produzem efeitos naturais. A fé não impede o abatimento do ânimo (como se costuma dizer) […] mais do que impede a subida do pulso numa febre.”

(John Wesley, sermão 47, Tristeza por múltiplas tentações, III.2)

Lamento e cuidado clínico podem caminhar juntos. Quem vive uma tristeza funda e duradoura, ou pensa em não viver, precisa de oração, e precisa também de gente por perto e de atendimento de saúde.

5. Deus responde sem revelar a causa

Jó tinha pedido: “Eis que minha vontade é que o Todo-Poderoso me responda” (Jó 31:35, Bíblia Livre). Quando o Senhor fala do redemoinho, ele responde, mas não conta a Jó sobre o acusador. Faz perguntas sobre os fundamentos da terra, os mares, as constelações, os animais e as criaturas que escapam ao domínio humano: “Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Declara-me, se tens inteligência” (Jó 38:4, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch notam a surpresa da cena:

“Quando Jeová se digna a tratar com Jó por perguntas e respostas, ele não faz exatamente o que Jó desejava […] mas outra coisa, em que Jó nunca tinha pensado.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Jó 38:1–3)

Esses discursos não querem dizer simplesmente: você é ignorante; fique calado. A primeira ordem do Senhor, “cinge teus lombos como homem” (Jó 38:3, Bíblia Livre), trata Jó como alguém capaz de responder. Clarke parafraseia assim as palavras de Deus: “Não te confundirei com os meus terrores; afasta da tua mente toda apreensão de medo; porta-te agora como homem, […] como um herói: levanta-te e defende a tua causa.”

Deus amplia o mundo de Jó. A criação contém ordem, liberdade, beleza, perigo e criaturas que não existem apenas para a utilidade humana. O Senhor pergunta quem abre caminho aos trovões “para chover sobre a terra onde não havia ninguém, sobre o deserto, onde não há gente” (Jó 38:26, Bíblia Livre). O universo é administrado por uma sabedoria que Jó não consegue observar por inteiro.

Beemote e Leviatã participam desse retrato de forças indomáveis. A identificação zoológica ou simbólica desses seres é discutida e não precisa ser resolvida para percebermos o ponto. Jó não governa o caos, mas Deus não perdeu o caos de vista.

A resposta não oferece o porquê desejado, mas oferece encontro, perspectiva e a presença daquele cuja sabedoria excede a nossa. Isso não torna a dor irreal nem ensina que as explicações nunca importam. A resposta afirma que a confiança em Deus não depende de recebermos acesso a toda a administração da providência.

6. O final não substitui o que foi perdido

Jó responde que falou de coisas maravilhosas demais para o seu conhecimento: “Por isso eu falei do que não entendia; coisas que eram maravilhosas demais para mim, e eu não as conhecia” (Jó 42:3, Bíblia Livre). E acrescenta: “Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora meus olhos te veem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5–6, Bíblia Livre). A tradução de Jó 42:6 é difícil: o hebraico pode envolver retratação, arrependimento e consolo “no pó e na cinza”. Não precisamos afirmar que Jó passa a odiar a si mesmo ou que confessa os crimes imaginados pelos amigos.

Ele reconhece limites e encontra Deus de modo novo. Em seguida, o Senhor declara que os amigos não falaram dele o que era correto, como o seu servo Jó. A honestidade do lamento foi mais fiel que a defesa cruel de uma fórmula. Keil e Delitzsch explicam em que Jó acertou:

“O ‘correto’ nas falas de Jó consiste em ele ter negado que a aflição seja sempre um castigo do pecado e em ter mantido a consciência da sua inocência, sem se deixar convencer do contrário. Essa negação estava correta; e essa veracidade foi mais preciosa para Deus do que a falta de veracidade dos amigos, que eram zelosos pela honra de Deus.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Jó 42:8)

Então Deus manda os amigos pedirem a Jó que ore por eles, e “o SENHOR livrou Jó de seu infortúnio, enquanto ele orava pelos seus amigos” (Jó 42:10, Bíblia Livre). O homem ferido pelas palavras deles se torna intercessor por eles.

O epílogo mostra bens restaurados, novos filhos, comunidade e vida longa. Isso é dádiva na narrativa, e não promessa de que toda pessoa fiel vai receber em dobro nesta vida. Keil e Delitzsch reconhecem o limite de um final assim, porque perdas “como as de filhos amados não podem, como a perda de ovelhas e camelos, ser de fato compensadas pelo dobro de outros filhos”. Repare num detalhe do texto: os rebanhos voltam em dobro, e os filhos não. Jó tinha sete filhos e três filhas (Jó 1:2), e o epílogo registra outra vez “sete filhos e três filhas” (Jó 42:13, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch veem nisso um cuidado do autor, que “nos dá a entender que, com as pessoas que morrem e se vão de nós, a relação é diferente da que temos com as coisas que perdemos”. Os novos filhos não substituem os que morreram; pessoas não são bens intercambiáveis. O texto não apaga o luto anterior.

Para os cristãos, a esperança final se ilumina em Jesus. Ele é o justo sofredor que chora diante do túmulo de um amigo (João 11:35), grita na cruz “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Mateus 27:46, Bíblia Livre) e entra na morte. Ele não oferece uma explicação distante, mas se torna o nosso Sumo Sacerdote compassivo. A ressurreição de Jesus promete que o sofrimento e a morte não vão ter a última palavra.

Até esse dia, choramos com os que choram, buscamos tratamento e justiça, recusamos explicações cruéis e nos agarramos ao amor de Deus, do qual nada pode nos separar (Romanos 8:38–39).

Para conversar com Deus

  • Você tem tentado explicar a dor de alguém antes de escutar essa pessoa?
  • Que pergunta precisa ser transformada em lamento dirigido a Deus?
  • Que fórmula sobre o sofrimento o livro de Jó convida você a abandonar?
  • Como você pode oferecer presença concreta a alguém sem prometer um resultado que Deus não prometeu?

Oração de resposta

Deus presente no redemoinho e no silêncio, não compreendemos muitos caminhos da nossa dor. Perdoa-nos quando protegemos as nossas fórmulas e ferimos os que sofrem. Recebe as nossas perguntas, sustenta os enlutados, dá ajuda aos desesperados e sabedoria aos que cuidam. Em Jesus, o justo que sofreu e ressuscitou, conserva-nos no teu amor. Ensina-nos a lamentar sem fingimento, confiar sem presunção e permanecer ao lado dos feridos. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

O sofrimento prova que Deus está punindo uma pessoa por algum pecado específico?

Resposta para guardar

Não. A Bíblia ensina que o pecado produz consequências e que Deus julga o mal, mas Jó mostra que não podemos deduzir uma culpa particular a partir do sofrimento. Pessoas íntegras sofrem num mundo ferido, e muitas razões permanecem ocultas. Somos chamados a examinar a própria vida, lamentar com honestidade, buscar ajuda e justiça e confiar no Deus revelado em Jesus, que entrou no nosso sofrimento e venceu a morte.

Textos para conferir

Jó 1:1–2:13; 3:1–26; 19:23–27; 38:1–42:17; Salmos 22; 88; João 9:1–5; Romanos 8:18–39; 12:15; Hebreus 4:14–16.

Oração

Senhor compassivo, guarda-me de respostas cruéis e sustenta a minha fé quando caminho sem explicações. Amém.

Hino para guardar no coração

Quando caminho na escuridão

Autor: Charles Wesley

Título original: “Who Is the Weak Believer, Who”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, volume 1 (1762), Hino 1088, sobre Isaías 50:10

Versão: tradução devocional em português do Brasil, sem métrica para canto

Quem é o crente que ainda percorre
o seu caminho sombrio,
inspirado pelo verdadeiro temor do Senhor
e seguindo Cristo com coração sincero?
Obediente à voz do Salvador,
ainda não consegue alegrar-se nele,
provar o consolo da sua graça
ou encontrar o Deus que esconde a sua face.

Jesus desapareceu da sua vista;
nenhum vislumbre de alegria, nenhum raio de luz
anima o caminho no deserto
ou promete o retorno do dia;
nenhuma evidência das coisas invisíveis,
apenas lutas por fora e temores por dentro;
nenhum testemunho do perdão dos pecados,
nenhum raio de esperança deste lado do céu.

Pobre alma tentada, o que você pode fazer?
Esperar contra a esperança que Deus é verdadeiro;
confessar no seu nome quem ele é:
a sua sabedoria, o seu poder e a sua justiça.
O Senhor que agora você não consegue ver,
tudo quanto ele é, é por você.
Espere, e você certamente vai provar
que Deus em Cristo é perfeito amor.

Até então, permaneça nele,
naquele cuja morte levou os seus pecados;
unido a Jesus no seu sangue,
clame com ele: “Meu Deus, meu Deus!
Meu Deus, meu Deus, eu me apego a ti
até passar a última angústia da natureza;
em tuas mãos entrego a minha alma,
e então serás meu para sempre.”

Letra original e melodias com que é cantado: o hino no Hymnary.org.

Para meditar

Charles Wesley não acusa de ter fé falsa o crente que atravessa a escuridão. Ele descreve alguém obediente que não consegue sentir consolo. O caminho não é fabricar emoção, mas apegar-se ao caráter de Deus e unir a própria oração ao clamor de Jesus. O hino comenta Isaías 50:10: “Aquele que andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do SENHOR, e dependa de seu Deus” (Isaías 50:10, Bíblia Livre). A esperança pode existir antes de ser sentida.

Pergunta: Você consegue oferecer a Deus a sua falta de consolo sem transformá-la em vergonha espiritual?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Jó 1:1, 1:6 e 1:22.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Prefácio a Jó; Jó 1:6, 1:12, 1:20, 2:9 (com o acréscimo da Septuaginta), 3:1, 4:1 e 38:3.
  • Henry, Matthew. Commentary on the Whole Bible (edição resumida), Jó 2:11–13 e 4:7–11.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament, Jó (introdução; capítulo 3; 16:19–21; 38:1–3; 42:8 e 42:13); Salmo 88 (introdução).
  • Lutero, Martinho. Prefácio ao livro de Jó. Em Works of Martin Luther, vol. 6, trad. C. M. Jacobs, 1932.
  • Wesley, John. Sermão 46, The Wilderness State, III.14; Sermão 47, Heaviness through Manifold Temptations, III.2 e III.4. Em Sermons on Several Occasions, ed. Thomas Jackson.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Hebreus 4:15.

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