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O Deus que arma sua tenda entre nós

Vem Andar Comigo, Semana 9 · Domingo: “Habitarei no meio deles”

Diego Gonçalves24 min de leitura4.804 palavras

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Neste texto

Tema: presença, santidade, culto, mediação e meios de graça
Leituras principais: Êxodo 25:1–9; 32:1–14; 33:12–23; 40:34–38
Leituras complementares: 1 Reis 8:22–30; João 1:1–18; 2:18–22; 1 Coríntios 3:16–17; Efésios 2:19–22; Hebreus 8:1–10:25
Verdade central: O Deus santo deseja habitar no meio do seu povo, provê o caminho para que o povo se aproxime dele e, em Jesus Cristo, vem morar entre nós e forma pelo Espírito uma comunidade que é a sua habitação.

“Habitarei no meio deles”

Israel já saiu do Egito e recebeu a aliança. Agora surge uma pergunta: como o Deus que desceu sobre o Sinai vai caminhar com esse povo pelo deserto?

Deus não chama Israel para morar para sempre no alto da montanha. Ele manda construir um santuário móvel. No centro do acampamento haverá uma tenda que anuncia: o Santo decidiu habitar entre pessoas frágeis.

“E farão para mim um santuário, e eu habitarei entre eles” (Êxodo 25:8, Bíblia Livre).

Os capítulos seguintes estão cheios de medidas, tecidos, metais e utensílios, e muitos leitores passam por eles depressa. John Wesley reparou que, ao contar a criação do mundo, Moisés “deu dela um relato muito breve e geral”, mas descreveu o tabernáculo “com a maior minúcia e exatidão imagináveis”. Esses capítulos respondem a uma das perguntas mais antigas da fé: como um Deus santo pode morar com um povo pecador?

O texto

Leitura principal: Êxodo 25:1–9; 32:1–14; 33:12–23; 40:34–38

Leitura: Êxodo 25:1–9; 32:1–6, 11–14; 33:12–23; 40:34–38

E o SENHOR falou a Moisés, dizendo:

Dize aos filhos de Israel que tomem para mim oferta: de todo homem que a der de sua vontade, de coração, tomareis minha oferta.

E esta é a oferta que tomareis deles: Ouro, e prata, e bronze,

E material azul, e púrpura, e carmesim, e linho fino, e pelo de cabras,

E couros de carneiros tingidos de vermelho, e couros finos, e madeira de acácia;

Azeite para a luminária, especiarias para o azeite da unção, e para o incenso aromático;

Pedras de ônix, e pedras de engastes, para o éfode, e para o peitoral.

E farão para mim um santuário, e eu habitarei entre eles.

Conforme tudo o que eu te mostrar, o desenho do tabernáculo, e o desenho de todos os seus objetos, assim o fareis.

(Êxodo 25:1-9, Bíblia Livre)

Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, achegou-se então a Arão, e disseram-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque a este Moisés, aquele homem que tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu.

E Arão lhes disse: Separai os pendentes de ouro que estão nas orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas, e trazei-os a mim.

Então todo o povo separou os pendentes de ouro que tinham em suas orelhas, e trouxeram-nos a Arão:

O qual os tomou das mãos deles, e formou-o com buril, e fez disso um bezerro de fundição. Então disseram: Israel, estes são teus deuses, que te tiraram da terra do Egito.

E vendo isto Arão, edificou um altar diante do bezerro; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao SENHOR.

E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e apresentaram pacíficos: e sentou-se o povo a comer e a beber, e levantaram-se a regozijar-se.

Então Moisés orou à face do SENHOR seu Deus, e disse: Ó SENHOR, por que se acenderá teu furor em teu povo, que tu tiraste da terra do Egito com grande força, e com mão forte?

Por que hão de falar os egípcios, dizendo: Para o mal os tirou, para matá-los nos montes, e para exterminá-los de sobre a face da terra? Volta-te do furor de tua ira, e arrepende-te do mal de teu povo.

Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel teus servos, aos quais juraste por ti mesmo, e disse-lhes: Eu multiplicarei vossa semente como as estrelas do céu; e darei a vossa semente toda esta terra que disse, e a tomarão por herança para sempre.

Então o SENHOR se arrependeu do mal que disse que havia de fazer a seu povo.

(Êxodo 32:1-6,11-14, Bíblia Livre)

E disse Moisés ao SENHOR: Olha, tu me dizes a mim: Tira este povo: e tu não me declaraste a quem hás de enviar comigo: porém, tu dizes: Eu te conheci por teu nome, e achaste também graça em meus olhos.

Agora, pois, se achei graça em teus olhos, rogo-te que me mostres agora teu caminho, para que te conheça, para que ache graça em teus olhos: e olha que teu povo é esta gente.

E ele disse: Meu rosto irá contigo, e te farei descansar.

E ele respondeu: Se teu rosto não for comigo, não nos tires daqui.

E em que se conhecerá aqui que achei favor em teus olhos, eu e teu povo, se não em andar tu conosco, e que eu e teu povo sejamos separados de todos os povos que estão sobre a face da terra?

E o SENHOR disse a Moisés: Também farei isto que disseste, porquanto achaste favor em meus olhos, e te conheci por teu nome.

Ele então disse: Rogo-te que me mostres tua glória.

E respondeu-lhe: Eu farei passar todo o meu bem diante de teu rosto, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia do que terei misericórdia, e serei clemente para com o que serei clemente.

Disse mais: Não poderás ver meu rosto: porque não me verá homem, e viverá.

E disse ainda o SENHOR: Eis aqui um lugar junto a mim, e tu estarás sobre a rocha:

E será que, quando passar minha glória, eu te porei em uma brecha da rocha, e te cobrirei com minha mão até que tenha passado:

Depois tirarei minha mão, e verás minhas costas; mas não se verá meu rosto.

(Êxodo 33:12-23, Bíblia Livre)

Então uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo.

E não podia Moisés entrar no tabernáculo do testemunho, porque a nuvem estava sobre ele, e a glória do SENHOR o tinha enchido.

E quando a nuvem se erguia do tabernáculo, os filhos de Israel se moviam em todas suas jornadas:

Porém se a nuvem não se erguia, não se partiam até o dia em que ela se erguia.

Porque a nuvem do SENHOR estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite nele, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas.

(Êxodo 40:34-38, Bíblia Livre)

Para entender o texto

A segunda metade do Êxodo tem uma moldura clara. Nos capítulos 25 a 31, Deus dá a Moisés, no alto do monte, as instruções para o santuário. Nos capítulos 35 a 40, o povo executa a obra. No meio dessas duas partes estão o bezerro de ouro e a intercessão de Moisés (capítulos 32 a 34). A ordem é de propósito: antes que a tenda fique pronta, o povo já quebrou a aliança. Depois do pecado, Moisés armou uma tenda fora do acampamento (Êxodo 33:7). Adam Clarke, o grande comentarista metodista, explica que, até então, a nuvem da glória ficou sobre aquela tenda provisória, e que só passou para o tabernáculo quando ele foi levantado, “feito por ordem e sob a direção do próprio Deus”.

Três palavras hebraicas ajudam a ler esses capítulos.

Em primeiro lugar, tabernáculo (mishkan). A palavra vem do verbo shakan, “habitar”, e quer dizer simplesmente morada. Clarke explica que aqui ela indica a morada do Senhor, que, “como um rei no seu acampamento”, tinha a sua tenda no meio do povo, com a mesa sempre posta e as lâmpadas acesas.

Em segundo lugar, oferta (terumah). Clarke diz que era “uma espécie de oferta voluntária”, e a palavra lembra algo que se ergue, porque o presente era levantado diante de Deus. A oferta viria “de todo homem que a der de sua vontade, de coração” (Êxodo 25:2, Bíblia Livre).

Em terceiro lugar, desenho ou modelo (tavnit). Deus mostra a Moisés “o desenho do tabernáculo, e o desenho de todos os seus objetos” (Êxodo 25:9, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch, comentaristas luteranos alemães do século XIX, observam que a palavra nunca indica o original, mas um modelo ou desenho, feito a partir de uma ideia, segundo o qual se constrói. Por isso Hebreus diz que o santuário de Moisés era “um esboço, uma sombra das coisas celestiais” (Hebreus 8:5, Bíblia Livre). A tenda apontava para algo maior do que ela.

1. Presença recebida, não produzida

O tabernáculo nasce da iniciativa de Deus. Ele apresenta o propósito, fornece o modelo e chama pessoas a oferecer materiais e habilidades. Israel não descobre uma fórmula para atrair a divindade, mas responde ao Deus que já o escolheu e libertou.

Keil e Delitzsch explicam por que a planta não podia sair da cabeça de nenhum arquiteto:

“Se o santuário havia de cumprir o seu propósito, a sua construção não podia ser deixada à capacidade de invenção de homem algum, mas tinha de proceder daquele que ali se manifestaria ao povo como o Santo, em justiça e em graça. O povo só podia executar o que Deus determinou.”

(Keil e Delitzsch, Comentário sobre o Antigo Testamento, Êxodo 25–31)

Essa distinção protege o culto. Não cantamos, ofertamos ou oramos para tornar Deus manipulável. Não existe combinação de palavras, música e ambiente capaz de obrigar Deus a se manifestar. A adoração cristã é resposta à revelação e à promessa de Deus.

Ao mesmo tempo, o desejo de Deus é surpreendente: “habitarei no meio deles”. O Criador não precisa de uma casa. Na dedicação do templo, Salomão vai reconhecer: “Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te podem conter; quanto menos esta casa que eu edifiquei!” (1 Reis 8:27, Bíblia Livre). O santuário não aprisiona Deus, mas torna visível a sua decisão de estar presente segundo a aliança.

Deus já estava em toda parte antes de existir a tenda. Então, o que muda quando ele diz “habitarei”? Wesley responde numa frase curta: Deus habitaria entre eles “não pela minha essência, que está em toda parte, mas pela minha graça e pelas minhas operações gloriosas”. A tenda marca o lugar onde Deus se compromete a encontrar o seu povo e falar com ele (Êxodo 25:22).

A presença é dádiva, mas não decoração. Se Deus está no meio do povo, toda a vida do acampamento passa a ser vivida diante dele: culto, justiça, alimentação, sexualidade, trabalho e cuidado do próximo.

2. O Santo estabelece aproximação e limites

O tabernáculo tem espaços, véus, sacerdotes, lavagens e sacrifícios. Esses elementos ensinam que a proximidade com Deus não é coisa banal. O Senhor que habita entre Israel continua santo, e um povo pecador não inventa por conta própria a maneira de se aproximar dele.

O véu mostra isso com clareza. Ele separava o lugar santo do lugar santíssimo, onde ficava a arca: “aquele véu vos fará separação entre o lugar santo e o santíssimo” (Êxodo 26:33, Bíblia Livre).

Os limites não significam que Deus seja caprichoso ou que a matéria e o corpo sejam maus. O próprio Deus chama a criação de boa e escolhe materiais, aromas, tecidos e artesãos para o culto. O problema é o pecado, que desordena a comunhão e traz morte.

O sistema do culto comunica, ao mesmo tempo, acesso e restrição. Deus abre um caminho real e mostra que a reconciliação ainda espera a sua plenitude. Hebreus lê essa repetição à luz de Cristo: Jesus é o sumo sacerdote definitivo, entra de uma vez por todas e nos dá confiança para nos aproximarmos. Na hora em que ele morreu, “o véu do Templo se rasgou em dois, de cima até embaixo” (Mateus 27:51, Bíblia Livre). Wesley comenta que, “ao ser ferido o corpo de Cristo, o Deus do céu foi manifestado e o caminho para o céu foi aberto”.

João Calvino, o reformador de Genebra, viu no véu uma figura da própria pessoa de Cristo:

“Assim como o véu cobria o interior do santuário e, no entanto, dava entrada nele, assim a divindade, embora escondida na carne de Cristo, nos conduz até o céu; e ninguém pode encontrar Deus, a não ser aquele para quem o homem Cristo se torna a porta e o caminho.”

(João Calvino, Comentário sobre Hebreus, 10:20)

Isso não elimina a reverência. A confiança cristã não é informalidade arrogante. Nós nos aproximamos porque o Filho abriu o caminho, e chegamos com coração sincero, gratidão e temor santo (Hebreus 10:22).

3. Um povo inteiro participa da obra

Deus pede ofertas de quem as trouxer voluntariamente. Wesley comenta: “Esta oferta devia ser dada de boa vontade e de coração.” Mais tarde, artesãos são cheios de sabedoria para trabalhar metais, madeira, pedras e tecidos. A construção envolve generosidade, imaginação, técnica e cooperação.

O texto dignifica habilidades que às vezes chamamos de “apenas práticas”. Sobre Bezalel, o artesão, Deus diz: “E o enchi de espírito de Deus, em sabedoria, e em inteligência, e em conhecimento, e em todo artifício” (Êxodo 31:3, Bíblia Livre). Joseph Benson, outro comentarista metodista, tira daí uma lição simples: “a habilidade nos trabalhos comuns é dom de Deus”, e ele deve receber o louvor por ela.

A presença de Deus no meio do povo não depende somente de quem fala diante da assembleia. Costura, desenho, administração, transporte, preparo, manutenção e ensino podem servir ao culto comum.

A contribuição voluntária não autoriza pressão espiritual. O tabernáculo não é monumento ao prestígio de um líder. Os dons do povo respondem a um chamado coletivo e têm uma finalidade definida pela palavra de Deus.

Mais adiante, as ofertas ficam tão abundantes que Moisés manda parar: “O povo traz muito mais do que é necessário para o trabalho de fazer a obra que o SENHOR mandou que se faça” (Êxodo 36:5, Bíblia Livre). Esse detalhe confronta campanhas que nunca consideram suficiente o que recebem. A mordomia responsável inclui transparência, limite e prestação de contas. Matthew Henry, pastor presbiteriano inglês, viu nisso um modelo para quem cuida de bens alheios:

“A prontidão e o zelo com que esses construtores começaram o trabalho, a exatidão com que o fizeram e a fidelidade com que se recusaram a receber mais contribuições merecem ser imitados. […] Assim, todos os que ocupam cargos de confiança pública deveriam detestar o lucro desonesto e evitar todas as ocasiões e tentações de cobiça.”

(Matthew Henry, Comentário da Bíblia inteira, Êxodo 36)

4. A presença ameaçada pelo bezerro

Entre a instrução e a conclusão do tabernáculo, Israel fabrica o bezerro de ouro. Moisés demora no monte, e o povo pede a Arão: “Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós” (Êxodo 32:1, Bíblia Livre). O povo troca o Deus que não pode ser controlado por uma imagem produzida e celebra uma festa em torno dela.

O episódio mostra que a atividade religiosa pode conviver com a idolatria. Há altar, oferta, celebração e linguagem sobre libertação. Arão chega a anunciar: “Amanhã será festa ao SENHOR” (Êxodo 32:5, Bíblia Livre). Porém, esse culto contradiz a revelação de Deus. Wesley comenta:

“Apregoou uma festa de dedicação; contudo, chama-a festa a Jeová; pois, por mais brutos que fossem, não pretendiam que a sua adoração terminasse na imagem; antes a fizeram como representação do verdadeiro Deus, a quem pretendiam adorar na imagem e por meio dela. E contudo isto não os livrava da idolatria grosseira.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 32:5)

A sinceridade e a intensidade não tornam verdadeira toda adoração.

O pecado ameaça a comunhão da aliança. Moisés intercede e pede que Deus não abandone o povo: “Volta-te do furor de tua ira, e arrepende-te do mal de teu povo” (Êxodo 32:12, Bíblia Livre). O Senhor julga, disciplina, renova a aliança e revela o seu caráter misericordioso e justo. Por isso, a conclusão do tabernáculo não celebra a competência moral de Israel, mas a fidelidade de Deus, que permanece com um povo restaurado.

Quando o texto diz que “o SENHOR se arrependeu do mal que disse que havia de fazer a seu povo” (Êxodo 32:14, Bíblia Livre), ele fala de Deus à maneira humana. Deus não foi apanhado de surpresa nem mudou de caráter. Benson explica que ele mudou a sentença diante da súplica de Moisés.

Não devemos romantizar Moisés nem transformar a sua intercessão numa força superior à vontade de Deus. O próprio Deus chamou o mediador e revelou a aliança na qual a oração se apoia. Wesley nota que o “deixa-me” de Deus (Êxodo 32:10), “embora parecesse proibir a sua intercessão, na verdade a encorajava”.

No conjunto da Escritura, essa mediação prepara a nossa compreensão de Cristo, que intercede perfeitamente e estabelece a nova aliança. Benson diz que, naquela hora, Moisés “representou o Senhor Cristo, o grande Mediador e Intercessor por toda a raça pecadora”.

5. A glória enche a tenda

Antes que a tenda fique pronta, Moisés faz um pedido ousado. Deus tinha dito que não subiria no meio do povo (Êxodo 33:3), e Moisés responde: “Se teu rosto não for comigo, não nos tires daqui” (Êxodo 33:15, Bíblia Livre). Benson resume a oração dele: “Vivamos e morramos antes no deserto, com a tua presença e o teu favor, do que entrar em Canaã sem eles.”

Deus atende, e Moisés pede mais: “Rogo-te que me mostres tua glória” (Êxodo 33:18, Bíblia Livre). A resposta vem assim: “Eu farei passar todo o meu bem diante de teu rosto, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia do que terei misericórdia, e serei clemente para com o que serei clemente” (Êxodo 33:19, Bíblia Livre). Moisés pede glória, e Deus promete bondade. Wesley comenta:

“Ele lhe dera provas maravilhosas da sua bondade, reconciliando-se com Israel; mas aquilo era só a bondade no riacho; queria mostrar-lhe a bondade na fonte. […] A bondade de Deus é a sua glória; e ele quer que o conheçamos pela glória da sua misericórdia, mais do que pela glória da sua majestade.”

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 33:19)

A última frase do versículo fala da liberdade da graça. Deus diz isso logo depois de perdoar o povo do bezerro, que não tinha nada a apresentar senão o próprio pecado. Wesley explica: “a sua graça é sempre livre. Ele nunca condena por prerrogativa, mas por prerrogativa salva.” Quer dizer: quando alguém se perde, a causa está no pecado, e não numa recusa de Deus em dar a sua graça; quando alguém é salvo, a causa está só na misericórdia. Benson acrescenta que Deus perdoará e salvará os que se voltarem para ele em verdadeiro arrependimento. A misericórdia que perdoou o povo do bezerro não está fechada para ninguém que se volte para Deus.

Deus não deixa Moisés ver o seu rosto (Êxodo 33:20), mas, ao passar diante dele, proclama o próprio nome: “SENHOR, SENHOR, forte, misericordioso, e piedoso; tardio para a ira, e grande em benignidade e verdade” (Êxodo 34:6, Bíblia Livre). A glória que Moisés viu foi, antes de tudo, o caráter de Deus.

Quando a obra termina, a nuvem cobre a tenda e a glória do Senhor enche o tabernáculo. Nem mesmo Moisés consegue entrar naquele momento (Êxodo 40:35). A presença que se oferece continua livre e majestosa. Wesley lembra que esse limite não é a última palavra: “o que Moisés não pôde fazer, nosso Senhor Jesus fez”, e ele mesmo é “o verdadeiro tabernáculo, cheio da glória de Deus”.

A nuvem também guia. Quando se levanta, Israel parte; quando permanece, o povo espera. O tabernáculo não prende Deus a um endereço. Ele é uma tenda para um povo peregrino, e quem conduz o movimento continua sendo o Senhor.

Esperar a nuvem confronta a nossa pressa, e segui-la confronta o nosso desejo de estabilidade absoluta. Há tempos de permanecer e tempos de caminhar. Discernir não é procurar sinais arbitrários em cada circunstância, mas permanecer atento à Escritura, à oração, à sabedoria da comunidade e aos frutos do Espírito.

A glória não serve para engrandecer Israel diante das nações, mas afirma que o próprio Deus é o bem central do povo. Moisés compreendeu isso quando disse que não queria seguir adiante sem a presença de Deus.

6. A Palavra armou sua tenda

João anuncia que a Palavra eterna se fez carne e habitou entre nós: “E aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós; (e vimos sua glória, como glória do unigênito do Pai) cheio de graça e de verdade” (João 1:14, Bíblia Livre). O verbo grego traduzido por “habitou” (eskenosen) vem da palavra “tenda” e lembra a ideia de armar uma tenda. A glória de Deus agora é contemplada na pessoa do Filho, cheia de graça e verdade, a mesma “benignidade e verdade” que Moisés ouviu proclamar. Wesley acrescenta que ele “não nos fez uma visita passageira, mas armou a sua tenda entre nós na terra”.

Jesus não é simplesmente mais um santuário. Ele fala do seu corpo como o verdadeiro templo (João 2:19–21) e realiza de forma decisiva o encontro entre Deus e a humanidade. A sua morte e ressurreição abrem o acesso que os sacrifícios repetidos não podiam consumar.

Depois, o Novo Testamento chama a Igreja de templo do Espírito (1 Coríntios 3:16). Essa verdade tem uma dimensão pessoal, porque o nosso corpo pertence a Deus, e uma dimensão comunitária: juntos somos “edificados para serdes morada de Deus em Espírito” (Efésios 2:22, Bíblia Livre). Calvino juntou as duas numa frase: “cada pessoa, vista separadamente, é um templo; mas, unida às outras, torna-se uma pedra do templo”. Não podemos celebrar “Deus em mim” enquanto desprezamos o corpo de Cristo ou separamos a fé da reconciliação, do serviço e da comunhão.

A Palavra, a oração, a Ceia, o batismo, a comunhão, o jejum e as obras de misericórdia são chamados meios de graça na tradição metodista. Wesley definiu esses meios como “sinais, palavras ou ações exteriores, ordenados por Deus e designados para este fim: ser os canais comuns pelos quais ele pode comunicar às pessoas a graça preveniente, justificadora ou santificadora”. A graça preveniente é a que vem antes, desperta a pessoa e liberta a sua vontade para responder a Deus; a justificadora perdoa; a santificadora transforma.

Os meios de graça não produzem Deus, mas são caminhos ordenados pelos quais ele prometeu encontrar, nutrir e formar o seu povo. A presença de Deus não se compra com eles. Wesley foi firme nesse ponto:

“Antes de usar qualquer meio, grave isto profundamente na sua alma: não há poder nisto. Em si mesmo, é uma coisa pobre, morta e vazia; separado de Deus, é uma folha seca, uma sombra. […] Mas, porque Deus manda, eu faço; porque ele me orienta a esperar neste caminho, aqui espero a sua livre misericórdia, da qual vem a minha salvação.”

(John Wesley, sermão Os meios de graça, V)

Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, ensinou algo parecido sobre o batismo e a Ceia. Para ele, o sacramento é “um sinal sagrado e visível, um penhor e selo instituído por Deus, pelo qual ele confirma ao seu povo da aliança a promessa graciosa proposta na sua palavra” (Debates privados, LX.2).

Participamos desses meios com expectativa humilde, sem medir a presença apenas pela emoção. O Deus que armou a sua tenda entre nós continua formando uma casa viva, até o dia em que se ouvirá: “Eis que o tabernáculo de Deus está com os seres humanos; e com eles habitará” (Apocalipse 21:3, Bíblia Livre).

Para conversar com Deus

  • Você procura a presença de Deus ou apenas uma sensação religiosa agradável?
  • Que habilidade prática você poderia oferecer para o bem da comunidade?
  • Existe alguma forma de culto que contradiz o caráter do Deus adorado?
  • Você tem tentado viver como templo individual sem participar da vida do povo de Deus?

Oração de resposta

Deus santo e próximo, nem o céu pode te conter, e ainda assim escolheste habitar no meio do teu povo. Perdoa as nossas tentativas de controlar a tua presença, a nossa adoração sem obediência e o nosso isolamento. Por Jesus, o verdadeiro templo e sumo sacerdote, aproxima-nos de ti com coração sincero. Enche a tua Igreja com o Espírito e faz das nossas palavras, habilidades, recursos e relações uma habitação que revele a tua graça e a tua verdade. Amém.

Verdade para a mente e o coração

Pergunta para o caminho

Como o Deus santo pode habitar no meio de um povo pecador?

Resposta para guardar

Deus habita com o seu povo por iniciativa da sua graça e segundo o caminho de reconciliação que ele mesmo provê. O tabernáculo ensinou a Israel que a presença de Deus é dádiva santa, vem por meio de uma mediação e não combina com a idolatria. Em Jesus, a Palavra que armou a sua tenda entre nós, Deus realiza a mediação definitiva. Pela sua morte e ressurreição, Cristo abre o acesso ao Pai e, pelo Espírito, forma a Igreja como a habitação viva de Deus.

Textos para conferir

Êxodo 25:1–9; 29:42–46; 33:12–23; 40:34–38; João 1:14–18; 2:18–22; Efésios 2:19–22; Hebreus 9:1–14; 10:19–25.

Oração

Deus conosco, aproxima-nos de ti por Cristo e edifica-nos pelo Espírito como um povo santo no qual a tua graça e a tua verdade sejam reconhecidas. Amém.

Hino para guardar no coração

Mostra-me a tua glória

Autor: Charles Wesley

Título editorial: “Sobre Êxodo 33:18”

Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 165

Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto

Pai, mostra-me a tua glória,
a mim, prostrado diante do trono da tua graça.
Faz passar diante de mim a tua bondade,
toda a tua bondade, revelada no teu Filho.
Pela tua presença que purifica,
remove de mim toda culpa e todo pecado;
fala ao mais profundo do meu ser:
Cristo é Deus, e Deus é amor.

Para meditar

Moisés pede glória, e Deus promete fazer passar a sua bondade e proclamar o seu nome. Charles Wesley mantém essa ligação: a glória de Deus não é um espetáculo separado do caráter de Deus. Para o cristão, essa glória é reconhecida de modo decisivo no Filho. A presença que consola também purifica. O amor de Deus não chama o pecado de bem, mas nos transforma para a comunhão.

Pergunta: Você procura uma experiência extraordinária ou deseja conhecer e refletir a bondade de Deus revelada em Cristo?

A semana

De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.

Para estudar mais

Obras citadas

  • Armínio, Jacó. Debates privados, LX (“Sobre os sacramentos em geral”). Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
  • Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, Êxodo 31:3, 32:14, 33:15–16 e 33:19.
  • Calvino, João. Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Hebrews, 10:20; Commentaries on the Epistle of Paul to the Ephesians, 2:21.
  • Clarke, Adam. Commentary on the Bible, Êxodo 25:2, 26:1 e 40:34.
  • Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, Êxodo 36.
  • Keil, Carl Friedrich, e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, Êxodo 25.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, Êxodo 25:2, 25:8, 25:9, 32:1, 32:5, 32:11, 33:19 e 40:34.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, João 1:14 e Hebreus 10:20.
  • Wesley, John. Sermão 16, The Means of Grace (1746).

Os membros do nível Estudo aprofundado do canal Crer Para Compreender recebem esta semana em fascículo, diagramado, com imagens, perguntas para conversar em grupo e o PDF para guardar e imprimir. O texto é o mesmo deste site. Veja como ser membro.

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